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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Meu São José, Meu Fetiche - por Jorge Queiroz da Silva

Minha fé se mantém irredutível até hoje e sempre se fortalece com as minhas visitas ao Templo de São José, na rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, local onde pude sentir sua presença bem de perto, quase que fisicamente.
Em todas as turbulências de minha vida, era no silêncio daquela Basílica que eu encontrava a concentração devida e as respostas a todas as perguntas que eu fazia ao meu Santo conselheiro.
Foram nos diversos momentos de busca de uma nova carreira profissional que eu encontrei a segurança, nas tomadas de decisões e nos caminhos por onde seguir.
Sei, com bastante certeza, que ocupei tanto o meu protetor que ele acabou por me colocar bem junto dele, ali bem em frente ao Fórum, onde permaneci por mais de doze anos trabalhando num grupo cimenteiro.
Ali mesmo tive a oportunidade de confirmar, mais uma vez, a sua proteção e a certeza de que eu estava, verdadeiramente, sob seu manto e seu cajado.
Num determinado dia, em que fui convidado para almoçar com amigos de profissão num restaurante bem em frente à Igreja, estava eu me dirigindo para o restaurante quando fiz menção de atravessar a Rua Primeiro de Março e, não sei por que motivo, ao invés de atravessar, eu dei um passo para trás, o suficiente para que um carro de aluguel esbarrasse em mim e, em seguida, me jogasse para cima do seu teto, onde vivi segundos de incerteza.
Enquanto eu viajava no ar e pensava sobre o que seria de mim, em frações de segundos, pude sentir que pousava, de pé, na ponta da calçada.
Do outro lado da rua um senhor, mero expectador do fato, em aplausos gritava:
- Bravo! Bravo! Parece até um dublê de cinema!
Eu, muito assustado, ainda contemplei o táxi, que seguia em ziguezague a uns setenta quilômetros pela Avenida.
Passei a me observar, percorrendo rapidamente as mãos por todo o corpo, e senti que tinha sido apenas um grande susto, apesar de minha roupa estar amarelada do lado esquerdo, revelando a cor da tinta do carro nela impregnada. Apenas um pequeno corte no pulso, que nem sangrava e só ardia, provocado pela pulseira do meu relógio, me incomodava e firmava o que havia ocorrido.
Agradecido ao bom São José, não deixei de comparecer ao almoço combinado. Estive no restaurante com toda fé e galhardia e quando indagaram sobre as manchas na minha roupa, expliquei, prontamente, que eram do carro que havia me atropelado.
Com aquele fato verídico, eu somente posso crer numa coisa nesta vida: assim como temos o dia certo para nascer, também temos o nosso dia certo para morrer. Mas ainda posso afirmar que quem tem padrinho não morre pagão!



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Lá pelos 5 Anos - por Laila Braga

Sentado ali via aquele pequeno aviãozinho se movimentar nos céus manchados da cidade grande. Bolhas e pequenos rastros. Tudo estava ali parado disjunto e sem qualquer significação. E ali, sentado a olhar.

Olhar sempre me apareceu como estratégia. Tinha inveja dos autistas. Confesso-lhes que ainda a tenho em outras proporções. Sempre que podia exercitava o meu talento nato de olhar e me tornar alheio ao mundo. Mesquinhez que as pessoas têm de ser feliz. Mania atestada e abestalhada de querer coisas só pra poder querer mais depois. Eu não. Ali enquanto olhava com meus olhos de meninices – nunca entendi bem esse termo, mas meu avô sempre dizia: “pare de meninice” – e me tornava ausente, matutava com meus botões, não aqueles botões de ligar e desligar as coisas, aqueles botões que a gente tem dentro da cabeça, e que liga alguma coisa do cérebro e se desliga sozinho quando a gente dorme, sabe como é? Pois sim, estava eu com meus botõezinhos cerebrais tentando entender porque se perde tanto tempo reproduzindo alguma coisa. Sempre quando eu parava pra brincar com minhas coisas imaginárias, tinha alguém pra dizer “esse menino vai ficando maluco, coisa besta de enxergar ‘trens’ que não existem”. Nem sabem eles que tenho medo de trem. Nunca inventei um trem. Inventava outras coisas que já existiam. Inventava dentro da minha cabeça e quando eu tirava de lá ficava lindo, eram sempre perfeitas as minhas invenções. Parecia maluquice de criança, mas não era não. Eu enxergava, sentia e dava vida a todas as minhas invenções. E elas eram minhas, só minhas. Nunca gostei muito dessas coisas de compartilhar.

Quando eu inventava coisas que já existiam, as pessoas achavam maluquice, mas quando as pessoas perdiam seu tempo inventando coisas que já existiam, era coisa de gênio. Avião... Rum... Jeitinho mais feio de imaginar um pássaro grande. E se eu inventar um avião? Nunca que ele vai ser feio e malfeito daquele jeito. Não invento aviões não, prefiro inventar outras coisas. Certa vez inventei um barquinho. Chamo de barquinho por que era barquinho mesmo. Era cara de barquinho de papel que se parece com chapéu de soldadinho de chumbo, mas inventei-o pra me caber dentro e andar devagar sobre as coisas. Nada de avião: nem de papel, nem de nada. Até os de papel são rápidos demais, aí não dava pra olhar as coisas direito. E como sou um olhador nato, não gosto de inventar coisas que não me deixem olhar direito. Avião é pra gente grande, não pra gente alheia. Talvez eu tenha medo de avião, mas não é medo de cair não. É medo de coisa rápida mesmo. Igual trem. Se a gente se põe a correr, tem sempre alguém que vem atrás pra entender por que, mas se você fica quietinho? Ninguém mexe. Não mexe mesmo. Gente quietinha assusta outras gentes. Eu sei como que é, sempre fiz isso...

Continua...



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O Último Gole - por Luiz de Almeida Neto

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O que vale mais que o tormento da eternidade? Nada. Tem umas coisas que o ser humano desafia só por causa de sua natureza. É evidente que sempre reclama à nossa consciência a possibilidade de não haver punição eterna. Evidentemente há a hipótese de inexistência de céu e inferno. Mas… E se existisse… Haveria algo que valeria sofrimento tão pujante? Nada. Nem mesmo toda a razão da sua própria existência? Talvez nem mesmo isso. O sofrimento é capaz de destruir tudo, e até sua existência não faria sentido sem uma perspectiva de futuro, ainda que tal perspectiva fosse a própria morte.

Gemiti, homem já velho e criado pelos bares, regado a belas doses e desabrochado nos mais belos colos da Rua do Alto Mandamento, acordou certa vez pra sempre, ou dormiu certa vez pra sempre, depende muito do lado do qual você observa. Olhando para o local onde falecera, percebeu que seu copo jazia ali, inerte, à espera de sua boca sedenta, mas não conseguia tocá-lo. Tentou muitas vezes, e, malogrado o êxito de sua campanha rumo ao gole de rum, deu-se por satisfeito de ficar ali, embasbacado, olhando para a garrafa abandonada.
Aí chegou “a inesperada”, com foice, capuz e tudo mais quanto tinha direito. Toda de preto pra não deixar dúvida. Até o vento traiçoeiro da meia-noite bateu, e percebia-se, inclusive, certos uivos pelo ambiente. Chegou perto de Gemiti, como quem não queria nada, sem que ele pudesse perceber, mas, naturalmente, era como se sempre estivesse ali, como se ele sentisse sua presença e lhe pudesse farejar. Saiu em disparada pela Rua do Alto Mandamento e só quando já ia à altura da Rua do Almirante se deu conta que não havia ninguém. Tudo era sereno.
A neblina imperava com seu ar pesaroso como se já fosse o velório. Gemiti, incrédulo, relutava, sem acreditar que a divina hora chegara, mas teve coragem: decidiu esperar ali, pra ver o que sucederia, e… principalmente… o que lhe esperava. Pensou que talvez pudesse invocar alguém, algo, qualquer coisa. Não tinha nada. Ficou cabisbaixo, como que a matutar sobre qual a atitude mais honrada, o que melhor fazer diante daquilo tudo.
Nesse ínterim, subia a Velha Dona Morte, com uma passada desleixada, com sua árdua e perene tarefa, com uma tranquilidade que não parecia verossímil aos olhos do iminente defunto, acostumada e relaxada na hora cabal pra cada um, costumeira sempre a ela. Chegou perto, e seu bafo era horrível, mas, mesmo assim, lendo um papel, teve de falar.

- Gemiti dos Santos?
- É… É… Eu - eu… Me-me-smo.
- Vamo. Tá na hora.
- Hora de quê?
- De subir, né, querido?
- Então é isso? Ao menos quer dizer porque vou subir?
- Não sei muito bem. Não sou eu que resolvo isso. Mas você desenrola quando chegar lá.
- Desenrola uma porra! Eu tô sabendo que não tem jeito. Daqui pra frente não tem mais chance. Já dancei.
- Mas não é assim. Com uma boa justificativa a gente sempre desenrola alguma coisa por ali.
- Desenrola nada! O que tá feito, tá feito.
- Que nada! Com uma boa justificativa a gente sempre pode mudar o peso dos atos.
- Ih! Sei não…. Olha lá, hein! Depois eu entro errado aí e não tem mais volta!
- Olha, eu tenho um cara que tá esperando no cruzamento da Frei Caneca com a Escrava Isaura. Morreu de facada. Imagina a situação! E tu só aqui enrolando. Tá ruim assim.
- Mas eu não tenho direito nem a um último desejo?
- Mas tenha pena do pobre coitado que tá lá estirado no chão. Já tá juntando mosca por causa de você aqui.
- Caramba! Tá tudo certo. Mas se eu pudesse, ao menos…
- Ao menos o quê?
- É que eu deixei um serviço incompleto aqui entre os homens.
- Conversa!
- É sério. Palavra.
- Que foi que ficou pela metade?
- Pela metade, não. Mas ainda falta só uns três dedinhos assim…
- Mas pelo amor de Deus! A essa hora, Gemiti?! Assim não tem quem aguente!
- Mas que “vexame” é esse também? É essa hora sim! Qual é a outra que eu tenho?
- Olha, o cara tá lá esperando, viu?! Isso é até pecado!
- Mas como é que já se viu! Ser autoritário desse jeito! E mexendo com coisa tão importante!
- Tá bom. Faço um acordo então. Você fica até beber tanto quanto conseguir. Desisto! Mas também… Quando não conseguir mais beber… Eu volto… E você desce direto!
- Direto? Sem nem um julgamento? Mas isso não é inconstitucional?
- Direto!
- Tá bom. Mas só quando eu não conseguir mais entornar nada. Tá certo assim?
- Tá feito. Tchau.

E foi assim que Gemiti, acordando com a face em cima de uma mesa de bar, teve a desfaçatez de olhar bem na minha cara e dizer: “De hoje em diante não bebo nunca mais! Nem mais um gole!”, e nunca mais voltou. Deixou inclusive a conta pendurada nas minhas costas.
Sei não. Acho que só tem duas coisas que fazem um homem enganar aquilo que não pode ser enganado: a covardia ou a preguiça. Um brinde aos preguiçosos pela sua inocência.



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Histórias Fantásticas - por Marcus Nunes

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Bioy ha sido muy bueno y muy indulgente conmigo.
Él es una persona para la cual mi vida no tiene secretos.
Jorge Luis Borges
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Domingo à noite terminei a leitura de “Histórias Fantásticas”, uma compilação de contos do escritor argentino Adolfo Bioy Casares. Ora, vocês diriam, todo livro de contos é uma compilação. Sim, pequenos gafanhotos, eu concordo. O que quis dizer é que este livro, ao contrário de outros livros de contos, é uma antologia de Bioy Casares. Estes contos foram retirados de outros livros do autor.
Antes que me esqueça, duas observações. Em primeiro lugar, devo elogiar a belíssima edição da Cosac Naïfy: capa dura, ótimo projeto gráfico, resumo dos contos ao final do livro e bibliografia do autor, incluindo os artigos publicados na revista Sur e os livros publicados conjuntamente com outros autores e com pseudônimos. Em segundo, ler Bioy Casares é praticamente uma obrigação para mim. Além de argentino, ele era muito amigo de Borges. Eram amigos a ponto de haver na Argentina um livro de 1664 páginas com os diários escritos por Bioy Casares entre a década de 30 e a de 80, após seus encontros. Este é um dos livros que mais quero ler atualmente.
Não sei se houve alguma influência ente os dois amigos, mas as Histórias Fantásticas de Bioy Casares me lembram muito as de Borges (são mais parecidos entre si do que com Cortazar, por exemplo) no sentido em que tratam o absurdo como algo que poderia ser real. Não fazem como Tolkien ou Lewis; eles são da escola de Poe. Não constroem um mundo totalmente novo para ambientar seus contos. O fantástico em seus mundos é encontrado em um detalhe aqui, outro acolá. É algo que poderia ocorrer facilmente em nosso mundo, desde que observados alguns detalhes.
Ao contrário do que ela afirmou, eu ainda prefiro Borges a Bioy Casares. E o motivo que me faz afirmar isto é o mesmo motivo que a faz afirmar o contrário: Borges é mais conciso. Nos contos borgianos, praticamente não há frase desnecessária. Todas, em maior ou menos grau, são importantes para a história. Isto acaba favorecendo as releituras, pois em cada uma delas descubro novas nuances. Pierre Menard, autor de Quixote, que o diga. Já a estrutura dos contos de Bioy Casares está mais próxima do romance: há trechos que poderiam ser omitidos (sugeridos – adoro esta palavra em narrativas) sem prejuízo. Mas ainda assim ele está muito longe dele ser um escritor for dummies: não são todos os escritores que conseguem supor um mundo onde Cartago venceu as Guerras Púnicas e o País de Gales não existe. E fazer tudo isto ter sentido.
Os primeiros contos do livro são melhores que os últimos. Creio que devido à idade, já que nesta edição estão organizados em ordem cronológica. Dá para notar uma certa perda de qualidade, assim como ocorreu com Borges. Mas perda de qualidade, aqui, como no caso de Borges, significa ir de um nível excepcional para um nível muito bom. Ainda que inferiores aos primeiros, os últimos contos ainda são imperdíveis. Mas quase todos me deixaram de boca aberta: mas então era isso que estava acontecendo?
Eu, como fã de literatura fantástica, recomendo. São contos divertidos, bem escritos, bem traduzidos (as notas são bastante elucidativas) e surpreendentes, merecedores de estarem ao lado dos grandes escritos latino-americanos.



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Edgar Allan Poe, J. R. R. Tolkien.

O Desconhecido e Sua Pior Face - por Nina

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Em uma noite de abril, os alunos e professores do Colégio Fantástico passaram algumas horas – ou quem sabe, várias horas - na escola.
Júlia, João, Luiza e Matheus talvez tenham passado o equivalente a uma eternidade presos naquele ambiente tão familiar, tão perturbador.
Os amigos Júlia, João e Luiza eram mais que irmãos desde os 11 anos; seriam capazes de arriscar a vida uns pelos outros e se conheciam tão bem, que sempre sabiam o próximo passo dos amigos, independente da situação. Às vezes essa “previsibilidade” era entediante...
No dia, curiosamente, apenas os primeiros anos tinham aulas à tarde. Quando qualquer vislumbre de luz vespertina se foi, a aula de Física acabou e os três amigos descobriram que não havia lua no céu, nem sequer a faísca de um brilho de estrela. Eram 18:00 e uma sombra amedrontadora tomou conta do Colégio Fantástico.
Por uma força até hoje inexplicável, todos os alunos e professores desapareceram. Apenas Júlia, João, Luiza, Matheus e a escuridão total restaram na escola. Júlia conhecera Matheus, rapidamente, numa lanchonete em março, mas para João e Luiza, ele não passava de um desconhecido estranhamente familiar.
Em situações de medo e escuridão, infelizmente, tendemos a confiar em pessoas desconhecidas e buscar desesperadamente a luz. Mal Júlia, João e Luiza sabiam que esse seria seu maior erro... Se os amigos soubessem que é apenas o desconhecido - por todos os males que sofremos e tememos, o mais traiçoeiro e que menos merece nossa atenção - que tememos quando olhamos para a escuridão; ele aparece de várias formas, inclusive inofensivas e prestativas, tudo teria sido mais fácil. Mas a imaginação deles tendia de tal forma a pensar no pior, que o desconhecido mostrou sua pior face.
Engolindo o medo, João vasculhou a área e concluiu que a energia havia sido cortada, os celulares estavam “fora de área” e todas as portas e janelas que possibilitariam uma saída do colégio estavam trancadas. “Ótimo”, pensou ironicamente, “vou dar as más notícias às meninas e Matheus”.
Quando concluiu essa medíocre linha de raciocínio, João podia jurar ter visto um vislumbre vermelho nos olhos de Matheus.
- Hum... - começou confuso, e tentando, acima de tudo, manter a calma, os pés no chão e ignorar os olhos do desconhecido, que ficavam cada vez mais vermelhos quando João parava de olhar diretamente para eles - Parece que estamos trancados numa jaula sem energia elétrica ou celulares.
- Já volto. – disse Matheus, enquanto o barulho de seus tênis indicava que ia para leste, a direção do laboratório de química e dos banheiros.
Não houve tempo para João comentar sobre os olhos de Matheus, as meninas falarem do medo sufocante do desconhecido, os três pegarem os celulares para iluminar o ambiente ou dizerem da estranha familiaridade de Matheus - coerente para Júlia e talvez para João e Luiza, considerando que já deviam ter visto Matheus alguma vez no Colégio Fantástico.
Súbito, luzes, vultos pálidos e distantes, que estavam e não estavam lá, assim como os olhos vermelhos de Matheus, começaram a se aproximar dos amigos. Com o passar dos segundos, os vultos foram tomando mais forma.
Os vultos se tornaram pessoas “sólidas”, aparentemente tocáveis. A cada passo que davam, o pavor tomava mais conta do coração dos amigos. Abatidas, pálidas, jovens e estranhamente familiares. O número de pessoas parecia aumentar e, quando se deram conta, havia uma multidão paralela caminhando aleatoriamente por toda escola.
Os amigos ficaram felizes ao perceber que eram pessoas conhecidas - todos os alunos e professores daquele gigantesco colégio - mas a onda de conforto durou pouco. Quando olharam novamente, João, Luiza e Júlia perceberam que havia um talho de 20 centímetros, exposto em carne viva no braço de uma garota do 3º colegial. Seu olhar era quase indiferente, ela parecia não sentir a dor fulminante que tomaria conta do braço de qualquer mortal. Os amigos diriam que era indiferente porque estava acostumada ou porque o ferimento tinha cicatrizado, se não fosse pelo fato de que o talho ainda estava sangrando, como se alguém tivesse reaberto ou feito o talho há alguns instantes.
Olharam novamente para o local, mas não diretamente para a garota. A colega andava na direção deles... E agora? Teria ela se cortado, propositalmente ou não, desejando fazer o mesmo com Júlia, Luiza e João? O que seria uma faca nas mãos de uma vingativa?
Eles se deram conta que a garota, pálida, forte, de olheiras profundas e olhar indiferente conversava com um colega ao lado deles. Mas, agora, quando a miravam, direta ou indiretamente, eram recebidos com um olhar intimidador e raivoso de uma garota ferida.
Apavorados, saíram de perto da conhecida do 3º colegial e deram de cara com uma perna masculina na mesma situação peculiar. Ela pertencia ao Guilherme, mais pálido do que nunca, cuja única reação foi encará-los e continuar o trajeto, como se estivesse na rua. Desviaram o olhar e encararam o talho familiar, dessa vez cortando na diagonal as costas nuas de uma garota de cabelos vermelho-sangue e blusa frente-única preta.
Os ferimentos só iam piorando, e cada vez os três irmãos-amigos viam mais pessoas queridas gravemente machucadas. Eles queriam poder fazer algo para ajudá-las, mas se questionavam se realmente estavam lá. Aquele não era o ambiente familiar que eles conheciam, assim como não era mais uma escuridão total, uma vez que os “vultos-pessoas” pálidos eram enxergados. O desconhecido já havia escolhido sua face.
O auge do medo surgiu com uma garotinha de 7 anos. A pobre criatura era irreconhecível. Estava extremamente deformada e torturada.
No rosto, o queixo estava deformado, com o maxilar inferior projetado para frente; as pálpebras extremamente caídas; os olhos, vermelhos; e a bochecha esquerda, com aquele pequeno talho familiar.
O braço direito fora amputado, estava exposto em carne viva e sangrava baldes. Havia pequenos cortes no outro braço e suas pernas - cobertas até o meio da coxa por um vestido florido manchado de sangue - tinham vários talhos grandes e profundos, expostos em carne viva que sangravam - era o tipo de ferida que atordoava os três amigos e a sina de várias pessoas naquela cena perturbadora. Por quê?
As orelhas da criaturinha estavam queimadas. Talvez ela fosse surda. As áreas do seu corpinho que ainda tinham pele original estavam vermelhas ou com manchas-roxas. Seus cabelos eram negros. Um dia ela tivera olhos verdes, fora bonita e feliz. Ela mancava e era evidente que pouco tempo de vida lhe restava. A criatura chorava sangue e segurava uma faca enferrujada na mão esquerda.
Quando olharam ao redor, Júlia, João, Luiza e Matheus - que acabara de voltar de sei lá onde - perceberam que todos os alunos e professores do Colégio Fantástico formavam círculos macabros ao redor deles, liderado pela criança irreconhecível. Agora, todos tinham as roupas rasgadas, gastas e sujas, e algum tipo de ferimento grave no corpo. Olhando direta ou indiretamente para eles, não havia saída. O ambiente perturbador não era mais paralelo, a multidão realmente estava lá e encarava os quatro com um olhar raivoso.
- O que vocês querem da gente? - bradou Luiza, as lágrimas brotando de seus olhos.
- Ahh! Eles sabem falar, Adylva! - disse, ironicamente, o professor de música, Harrison, para a criança que chorava sangue.
Um aluno fez gestos surdo-mudos para Adylva, comprovando que ela era surda, mas ainda enxergava algo. A mesma respondeu com uma risadinha falhada.
- Diga! Acabe logo com essa tortura.
- Você ainda não viu o que é tortura, minha querida. - disse o professor.
- Por favor, não faça nada de mal aos meus amigos... Fiquem comigo e deixem eles livres. - interpôs Júlia.
- Não, Júlia! Eu fico no seu lugar. - respondeu João.
- Vamos resolver isso juntos, galera. - contrapôs Matheus.
- Júlia e João, vocês dariam suas vidas... - começou o professor.
- Sim! - disseram prontamente.
- Por um desconhecido? - Ele batucava uma marcha fúnebre com as unhas compridas na parede.
- Não! - responderam os três amigos prontamente.
- Apenas queremos que vocês aceitem se tornar um de nós. - disse apontando para a faca enferrujada que a criatura Adylva segurava frouxamente - Se vocês quatro aceitarem, deixaremos vocês irem embora.
- Se apenas um de nós aceitar...? - indagou João.
- O acordo valerá apenas para essa pessoa: ele não estará preso, de forma alguma, a essa noite.
- E se não aceitarmos? Vão nos cortar em pedacinhos? - perguntou Luiza, raivosa.
- Bom, se não aceitarem nunca, seremos obrigados a pegar um pouco do sangue de vocês, pra não sentir fome. E é claro que ocorrem imprevistos, acidentes com facas, descontroles, entre outros. De certa forma, sim, algum dia vocês virariam salsicha. - falou com um ar indiferente - Não perceberão, mas ficarão presos a este momento uma eternidade, se for preciso, até o dia em que aceitarem ou implorarem (chame como quiser) para se tornar um de nós. Vocês passarão por situações pavorosas, todas as noites, até lá.
- Eu aceito a condição, contanto que eu saia vivo daqui. - disse Matheus.
- Não podemos garantir isso...
- Se for pra eu morrer esquartejado, hoje ou amanhã, prefiro que seja hoje a esperar uma data desconhecida.
Matheus mal terminou a última palavra de seu pequeno discurso, para transmitir um grito de dor e agonia. Com exceção dos três amigos, todos se posicionavam indiferentes à situação. Adylva tinha avançado com a faca enferrujada para o braço de Matheus, deixando um profundo talho familiar.
Quando a primeira gota de seu sangue manchou o chão, os círculos se desfizeram, os estranhos familiares desapareceram. As luzes acenderam e o céu apresentou um crepúsculo com tons avermelhados. - Será que o tempo não tinha passado? - As portas se destrancaram, assim como as janelas. Os celulares emitiram quatro sons distintos: eles não estavam mais fora de área.
Júlia, João, Luiza e Matheus não se deram ao trabalho de pegar o material escolar, saíram correndo do Colégio Fantástico e foram para uma lanchonete não muito longe, que ficava aberta 24 horas.
Luiza, João e Matheus foram os primeiros a entrar no local pouco conhecido. Júlia parou para amarrar o cadarço do tênis. Quando entrou, percebeu que dezenas de olhos avermelhados que estavam e não estavam lá a encaravam, exceto por Matheus, que olhava descontraído o cardápio. Era a lanchonete onde ela e Matheus tinham se conhecido no mês passado. Júlia não avistou João ou Luiza.
Ela se sentou junto ao amigo:
- Estava amarrando o meu tênis... Nossa que coisa mais estranha aconteceu hoje, hein? Eu achei que aquele bando de mortos-vivos ia me amarrar ao pé da mesa. - disse procurando João e Luiza com os olhos.
Matheus abaixou o cardápio e encarou Júlia.
- Me desculpe, mas... Eu te conheço?

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Sobre Coisas Fantásticas - por Pryscilla Mattos

Ontem estava pensando no futuro, não no que quero ser ou ter daqui a 10 anos e sim em como será a vida dos meus filhos. Será que não vai ter carrinhos de rolimã, brincadeiras de casinha, pique-pega, pique-esconde, pique-bandeirinha, nem piquenique? Eu não vejo as crianças do meu condomínio falando do monstro do banheiro da escola, e sim trocando “chiaters” de jogos on-line e, na maioria das vezes, isso nem é feito com todo mundo sentado na calçada e sim por telefone.
Não vejo mais as crianças chamando os avós de senhor ou senhora. Nessa nova ordem que se forma, é difícil ver algum jovenzinho tratando com carinho e educação até mesmo os pais. Isso não é nenhum hormônio na comida, é uma nova tendência: a do individualismo acima de tudo. Alguns pais têm aquela brilhante ideia, dar tudo o que não tiveram quando crianças: roupas, brinquedos, pequenos luxos... mas acabam esquecendo de passar adiante aquilo que lhes foi abundante na infância: carinho, limites, atenção, tempo.
Tempo! Isso talvez seja o mais complicado. Como uma mãe moderna faz para sair do trabalho e resolver uma briguinha de escola? Se ela não for a Mulher Maravilha, esse tipo de coisa fica em segundo plano. Outra situação: birra acompanhada da clássica frase “Eu quero!”, se gasta muito mais tempo tentando explicar porque não do que passando no caixa e efetuando a compra, por isso, na maioria dos casos, os pais optam pela segunda alternativa.As próprias crianças também não têm tempo como tínhamos há poucos anos atrás. São pequenos executivos com horários apertados, sendo treinados para um mercado de trabalho competitivo. Escolas em tempo integral! Computador e televisão para preencher os horários sem cursinhos...
Com essa fórmula, o resultado não poderia ser diferente. É batata! As crianças de hoje se tornaram monstrinhos consumistas e individualistas.
Fico sim saudosa dos meus anos de “pestinha”, em que eu subia nas árvores e ficava a tarde toda na rua sem nenhuma preocupação. Ninguém morria por não ter celular e brincávamos na rua sem medo nenhum de sequestros relâmpagos. Era raro sair para ver um filme no cinema e comer fast foods, mesmo por que tinha sessão da tarde e as mães faziam pipoca. Íamos sempre a parques, ao zoológico, brincar com os primos e todo mundo se divertia. Ninguém tinha Orkut, mas não perdíamos o contato com os amigos.

Depois de todas essas divagações, fiquei pensando nos pestinhas adoráveis que virão, imaginando como serão meus filhos... Não quero que sejam pequenos gênios, ou que saibam falar quatro idiomas, nem que estejam preparados para o vestibular com 13 anos de idade. Eu quero ter filhos felizes. Também quero aproveitar a infância deles, jogar ludo e adedanha, almoçar junto, acompanhar a realização das lições, ouvir as novidades da escola e tudo o mais. Na verdade eu nem sei se vou ter filhos, mas se tiver, não quero ensinar apenas a competir, quero ensinar como dividir, respeitar o próximo e, acima de tudo, amar o mundo que existe fora deste universo interior do próprio eu.
Companheirismo, solidariedade, altruísmo, amor, respeito, carinho e outra porção de palavras simplesmente maravilhosas não podem sair do dicionário. Cabe a nós não deixar o que elas representam morrer e passar tudo isso para nossa prole.

Sei que só tenho 21 anos, mas há 12 anos atrás infância ainda era “infância”! Beijo na boca, era um absurdo antes dos 11 anos, agora tem meninas de 10 anos sentindo a dor do parto!!!...
Vamos voltar todos à infância!!!




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Há Histórias Fantásticas - por Raul Alberto Cordeiro

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Adormeci hoje a pensar que acordava daqui a uns anos
Num apeadeiro nas crateras da Lua
Onde das estrelas caíam palavras
Que faziam um texto de uma frase nua
Onde, no Mar da Tranquilidade
As pessoas perdiam a idade
Onde não se criavam raízes
E podiam ser eternamente felizes
Onde por entre naves espaciais
Voavam borboletas e flores magistrais
Pássaros Fénix imortais
E aí esperava por ti
Da tua carreira regular de Vênus
Com escala breve por aqui
Fato espacial branco cru
Por cima de um corpo nu
Olhaste e vieste a mim
Onde os semáforos espaciais eram folhas de plátano
Que só mudavam de cor nas estações siderais
Onde o tempo era imponderável
Mas o solo pouco arável
E por isso as flores cresciam no ar sem ar
E não podiam parar a idade
Nem a força da gravidade
Foste breve no olhar mas lenta no respirar
Rarefeito o ar e o teu escutar
Tinhas pressa do espaço e da sua arte
Das velocidades de anos-luz
Dos cruzamentos com Marte
De um voo espacial nocturno
Com passagem por Saturno
Pressa a amores sempre fiéis
De tocares os seus anéis
Agora de saída após a tua partida
Contemplo essa bola azul
De senhora e eterna idade
Onde tudo é terreno e destino
Onde podia tocar-te sem esse fato espacial
Sem que levasses a mal
Onde a gravidade nos agarra à terra
Onde podemos ser pensamento
Mesmo triste
Mas onde a vida existe
É só ela mesmo responde
Quando a Lua se esconde



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Contado - por S. Ribeiro

Dele, o olhar desviado no ônibus que nunca cessa sem perguntas (oh!) e sem lógicas desta realidade que pelo silêncio, com certeza, é irreal.
Dele, me afasto sozinho como em um instinto, mas o limiar do que estamos agora é um destino, que fantasticamente (!) não lhe permite pular em cima de mim, e arrancar-me as uvas e as meias e os botões (!). Eu e meus êxtases fantasiosos... o mundo que não me enxerga com óculos de proteção sabe estes êxtases fantasmagóricos.
Dele, no outro lado do corredor, dele, pra onde recuso curvar o pescoço, dele, que não me chama e imprecisa as narrativas convencionais que nos servem tanto a imaginar uma história confortável e excelente; dele onde escapa meu desejo,
nele,
estocarei meu corpo das chuvas daqui de São Luís, e quando chegar em casa, entenderei (como se entende café amargo) quantos devaneios são necessários a estofar uma viagem.



Visitem S. Ribeiro
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Nascido de Novo - por Saulo Rosa

Tudo corria bem na minha vida quando passei a apresentar problemas de digestão. Eu sempre fui de comer muito bem e nenhuma comida me parecia pesada. Na época em que essa história começou, eu estava com cinquenta e três anos, trabalhava com vendas, numa empresa grande onde já exercia a função de gerente há mais de dez anos, com bastante sucesso, o que era importante pra mim. A minha vida pessoal estava estabilizada e eu era feliz.
Sem qualquer causa aparente, passei a ter problemas com todo tipo de comida mais gordurosa. A princípio não liguei e fui usando chás que me recomendavam. Mas como não surtiram muito efeito e os sintomas se agravaram, com vômitos e dores abdominais, resolvi ir ao médico.
A minha família notou que eu estava emagrecendo e eu de fato estava e sentia também um certo desânimo. Assim, sem ter outra alternativa, aceitei me submeter ao escrutínio dos médicos que, nessa altura, já eram vários. Depois de quase dois meses de investigação e estando bem pior de tudo, veio a confirmação após uma cirurgia com biópsia: eu estava com câncer no pâncreas.
Depois de toda a desolação que este diagnóstico provoca, insisti com os médicos que eu queria saber de tudo com todos os detalhes e desejava participar das escolhas de tratamento e saber direitinho quais eram as chances e quanto tempo teria de vida.
Foi pior ainda porque nesse tipo de tumor as notícias não eram muito alentadoras. Segundo me afirmaram os médicos, eu deveria ter só mais um ano de vida, mesmo com a quimioterapia. A imagem do tumor na tomografia era feia e na cirurgia não puderam ressecar a lesão e fizeram a biópsia só pra confirmar que era maligna e poderem fazer a quimioterapia.
Pois bem, concluí que se eu seguisse esse tratamento, teria pouco tempo de vida e uma droga de vida dentro de hospital e tomando veneno. Mas todas as pessoas da família e amigos queriam me apoiar e ajudar a seguir o tratamento que para eles era a única forma sensata de lidar com algo assim tão grave.
Apesar de fisicamente eu estar um quase lixo, de ter parado a minha vida completamente, deixado de trabalhar e fazer qualquer coisa que fosse prazerosa, no fundo de mim mesmo eu sabia que havia uma saída. Só que não era aquela.
Quando consegui deixar o hospital, sem ter feito ainda qualquer tratamento efetivo, resolvi me acalmar e esperar até que viesse ao meu encontro alguma solução. Eu não rezava pra me salvar nem pensava em pesquisar nada de novo em relação a um possível tratamento para o meu caso.
Passados exatos três dias depois de minha volta para casa, acordei com uma palavra martelando na minha cabeça. Não sabia o que significava, mas ela permaneceu por várias horas me indicando que deveria pesquisar o que estava querendo me dizer. Depois de uma busca exaustiva na Internet cheguei a um Xamã que trabalhava no norte do Brasil. Fazia curas espantosas e não cobrava pelo trabalho. Nunca tinha tido conhecimento dessas coisas nem desse índio e seu nome me chegou como inspiração. Sabia então que caminho deveria seguir e confiei.
Viajei até lá sozinho, enfrentando todas as recriminações da família e dos amigos que quase me impediram de partir pela preocupação com meu estado. No entanto, eu sentia que precisava estar sozinho nesse momento, que essa seria a minha força e que eu contaria com todo o apoio que precisasse de uma outra esfera que não aquela material com a qual eu estava tão familiarizado.
O contato com o Xamã foi de apenas algumas horas. Eu não precisei dizer nada. Esperei por alguns minutos sentado no chão dentro de uma tenda, rodeado por grandes pedras que me transmitiam um enorme calor. Suei muito e quando ele entrou, não pude enxergá-lo com nitidez porque estava escuro dentro da tenda. Pediu que me deitasse com uma voz firme e ao mesmo tempo tranquilizante, falando muito pouco num português comum. Suas mãos tocaram minha barriga com firmeza e cuidado e percebi que mexia profundamente no meu corpo, mas eu não sentia dor. Estava acordado e senti que ele retirou da minha barriga algo que tinha volume depois de fazer com os dedos movimentos precisos. Retirou-se e fiquei sozinho, com uma sensação estranha e ao mesmo tempo muito calmo e começando a ter sonolência. Não sei o que se passou depois que ele saiu. Dormi e quando acordei as pedras estavam lá e não havia mais o calor abrasador. Tudo estava silencioso do lado de fora. Eu me sentia bem. Resolvi levantar e sair. Encontrei o Xamã perto dali, sentado, tendo à sua volta crianças pequenas que o escutavam enquanto falava. Veio ao meu encontro. Disse-me que eu estava curado, que deveria voltar para casa só depois de ficar por um dia em repouso e silêncio, sem comer nada, podendo beber líquidos mornos em pequena quantidade. Falou que o que causou a minha doença tinha sido retirado e que eu ficaria muito bem. Fui tomado de grande emoção enquanto ele me parecia sereno e seus olhos me acalmavam. Nada mais perguntei. Fui embora dali como hipnotizado e nunca me esqueci da sua imagem e de tudo que vivi naquele dia.
Voltei para casa na noite do dia seguinte. Sentia-me muito bem. A minha família ficou aliviada ao me ver de volta. Não me estendi no relato da viagem e do tratamento que fiz. Precisava descansar. Ninguém parecia compreender o meu estado. Eu me sentia em paz e muito voltado para mim mesmo, como nunca tinha estado antes. Os dias se passaram e eu fui ficando cada vez melhor. Voltei a me alimentar aos poucos e já não tinha qualquer incômodo. As pessoas não entendiam como aquilo estava acontecendo. O tempo passou, fui aos poucos me recuperando, ganhando peso. Voltei a trabalhar. Voltei a ter a vida normal que sempre tive, sem que todos que acompanharam de perto o meu caso pudessem acreditar que eu estava curado. Não liguei, eu sabia que estava.
Depois de um ano de muita insistência das pessoas que me amavam, voltei aos médicos que não conseguiram explicar a minha evolução. Falaram em cura espontânea, mas insistiram em me investigar. Eu estava muito bem e permiti que fossem feitos novos exames. Para o espanto dos médicos não havia qualquer vestígio da doença e isto nunca acontecia em casos como o meu, com o diagnóstico comprovado de câncer do pâncreas e no grau de comprometimento que tinha já alcançado.
Eu estava curado realmente. E continuo em perfeita saúde até hoje quando já se passaram sete anos.
Compreendi depois de todo esse tempo que eu tive a minha chance, que pude percebê-la e aproveitá-la. Para isso percebi os sinais, me entreguei e segui o caminho que a vida me apontava. E mais que tudo isso, fui capaz de a partir desse acontecimento, mudar a perspectiva de enxergar a vida, o que representou de fato a verdadeira cura.
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Asas - por Clarice A.

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A imaginação presa numa torre de imensa altura. Claustrofóbica, esmagada pela dura realidade que a aprisiona. Como fora parar ali?
Quer a liberdade. Nos contos de fada sempre tudo se resolve bem. Espera por um príncipe? Tivesse um sapo por ali, ela até o beijaria, quem sabe ele não se transformaria no tal príncipe tão esperado? Mas qual, nenhum sapo à vista. Olha para baixo e a altura é incompatível com o tempo de espera pelo crescimento dos cabelos tal qual Rapunzel e, sozinha, quem faria as quilométricas tranças?
Sabe da falta que faz, tem que achar um jeito de sair dali.
Viver sem imaginação? Inimaginável.
Está nas alturas, quem sabe um pássaro possa tirá-la dali? Eles têm asas e podem voar. ASAS? Sim, asas. Como não pensou nisso antes? Quantas vezes ouviu a frase: dê asas à sua imaginação? Como pôde esquecer-se disso? Ela tem asas.
Olha para baixo e a altura a intimida, o que vê a assusta demais. Olha para o horizonte, longínquo, cheio de promessas, o que vê a fascina demais.
Sobe no parapeito da única janela da torre de seu confinamento e uma dúvida a assalta: e se for apenas “força de expressão” que ela tem asas? O medo, um dos culpados do seu aprisionamento se fazendo presente. Teme porque sabe que sua morte seria o fim de tudo.
Espanta o medo, se não pular nunca saberá, de sua prisão só ela pode se libertar. Olha para cima - olhar para baixo a apavora - e lança-se ao espaço. Incrivelmente não sente sensação de queda nem por um segundo. Paira no ar e desloca-se para frente, para trás, para os lados, para cima ou para baixo, para onde quiser.
Enfim liberta!
Prisioneira por tanto tempo, agora se expandirá como nunca. As possibilidades? Infinitas.
Fantasias, quimeras, coisas fantásticas, incríveis e invulgares, utopias, criações absurdas, projetos extraordinários, tudo relacionado a ela, à imaginação.
Livre para voar. Benditas asas.
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quinta-feira, 30 de julho de 2009

Santa Paciência, Batman! - por Gio

Minha gente, no Duelos, eu não tô dizendo?
Essa menina tá ficando convencida
Já chamou dois de nós para uma partida
Ou ao menos é isso que eu estou lendo...

O Monge meditando sobre o arvoredo
Já que eu, de meus meios, estou desarmado
Não basta estar com o computador quebrado -
Ouço o despautério de que estou com medo!

Parece que essa moça não me conhece
Para anunciar coisa tão absurda
Vai desejar já ter nascido cega e surda
Então pode começar a fazer as preces

(Irônico, já que o Monge sou eu
Mas quem mandou cantar de Zé Dirceu?
Olha só onde ‘cê se meteu
Quando me chamou para o coliseu!
Mexeu comigo, se... Tá, deu.

O comentário, dou por encerrado
Antes que este seja censurado
E eu, bem, tachado de desbocado...)

Samurai, não penses tu que eu esqueci
Do que seu julgamento tanto me alopra:
Venenosa, me chama de “morde-assopra”,
Chocolate com pimenta... Oh, let me see:

Acredito que você comigo concorde
Que, ao exaltar a minha rima inteira
E, logo em seguida, me passar rasteira
Também é rato que lambe, e depois morde.

E a hipocrisia de que não te acusei
Mas que você me achou ter te acusado...
Agora creio que ficou escancarado
Que é remorso, mea culpa de sua Lei

Te chamo ao ringue, mas com uma condição
Um-contra-um, pois eu não sou nenhum covarde
E a Espadachim, que sua vez aguarde,
Se prepare, mas não declare rendição

Pois nessa nossa Grande Arena Virtual
Há sempre espaço para dois bat-duelos
Ao mesmo tempo, em horários paralelos
Mas aqui mesmo, nesse mesmo bat-canal!

A essa luta, uma implicação decai
Necessita um nome para quem Duela
Aqui eu faço uma sugestão singela:
Que tal chamarmos “O Monge x A Samurai”?
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Resposta a Santo Desafio, Batman!..., de Ana.
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As Nossas Palavras XX - por S. Ribeiro

.A 0272076185 A

Que cheiro têm as notas de cem?
Não me parecem papoulas, os dias
me fazem percebê-las como se estivessem ainda no Afeganistão,
perdido em ópio convenientemente
doce...

Bem que não merece uma esfinge meu caráter, cheio de tudo, e como o dinheiro,
me cai como nada,
nas mãos de uma saúde que o
governo não cobre,
cheia de invenções infelizes
do alto da verdade perdida.

Entre todos os silêncios possíveis
me acanho,
de todos os elos extintos.
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As Nossas Palavras XIX - por Nina

Trabalhar é o proveito dessa vida.
Jamais roubar do filho o direito de ir à luta é a dura lição daquele que não tem vocação para ensinar e só sabe superproteger.
Trabalhar é o arroz com feijão pra autoestima de quem desconhece que não tem vocação para ensinar e só sabe superproteger.



Inspirado em “As Nossas Palavras XIX”, de Alba Vieira.
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Calma - por Alba Vieira

Andar a esmo é colher pérolas
Onde os apressados só encontram cascalhos.
Acalma teu coração e participa da mágica da vida.



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Mote do Gio I - por Ana

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Mote
Ando sempre, ando em círculos
Déjà vu em cada instante
É apenas mais um ciclo
Nesse mundo roda-gigante



Não renovo meu currículo,
Ando sempre, ando em círculos,
Não consigo ir adiante,
Déjà vu em cada instante.
Vou vender o meu triciclo...
É apenas mais um ciclo?
Me tornei um ambulante
Nesse mundo roda-gigante.

Mesmo querendo ir em frente
Ando sempre, ando em círculos.
Só como cachorro-quente,
Déjà vu em cada instante.
Como disse meu ex-gerente:
“É apenas mais um ciclo.”.
Como viver tão descontente
Nesse mundo roda-gigante?

Acho que vou desistir:
Ando sempre, ando em círculos...
Não tenho o que digerir...
Déjà vu em cada instante.
Da vida vou me despedir:
É apenas mais um ciclo...
Não vou mais me divertir
Nesse mundo roda-gigante.

Pronto! Não tenho mais vínculos,
Ando sempre, ando em círculos...
Tô num estado agonizante,
Déjà vu em cada instante.
Mantenho a dor ou reciclo?
É apenas mais um ciclo.
Eu só queria um calmante
Nesse mundo roda-gigante.

Não aguento mais purgatório!
Ando sempre, ando em círculos...
Só penso no meu velório!
Déjà vu em cada instante.
Deliro... Anjos no oratório...
É apenas mais um ciclo:
Minha alma num grande empório
Nesse mundo roda-gigante.

Ninguém ouviu minha prece:
Ando sempre, ando em círculos...
Aqui, nunca nada acontece.
Déjà vu em cada instante.
Este marasmo aborrece...
É apenas mais um ciclo?!
Arrependimento entontece
Nesse mundo roda-gigante.

Me mandaram renascer.
Ando sempre, ando em círculos...
Mamadeira, fralda, crescer...
Déjà vu em cada instante!
Ser criança, adolescer...
É apenas mais um ciclo.
Vou trabalhar pra sobreviver
Nesse mundo roda-gigante.

Me tornei um ambulante...
Ando sempre, ando em círculos.
Vou vender o meu triciclo...
Déjà vu em cada instante!!!
Não consigo ir adiante...
É apenas mais um ciclo?!!!!
Não renovo meu currículo
Nesse mundo roda-gigante...
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Sabedoria na Loucura! - por Esther Rogessi

CIÊNCIA OCULTA...
Nada há oculto que não seja revelado.
Arte Hermética... Caibalion...
O que é selado,
Trismegisto...
Diz-se do que julgam alguns, ser três vezes o grande.
O que o É... Uma só vez É!
A Santíssima Trindade o É!
Hermes...
Fundador da Astrologia, Arte Hermética, Alquimia...
Egito antigo o deificou, cultuou...
Thoth...
A Grécia igualmente o deificou...
“o deus da sabedoria”
Deus, O ETERNO, Jeová... A própria sabedoria
Outro não houve, não há nem haverá!
Hermes?
Ou Melquisedeque?
Sacerdote de Salém...
O primeiro a dizimar a Abrão, ainda não Abraão!
Do qual não se tem conhecimento dos pormenores de sua vida, nem de sua morte.
Abraão...
Amigo de DEUS!
Por receber desta FONTE A VERDADEIRA SABEDORIA.



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Um Lance de Ocaso - por Luiz de Almeida Neto

Foi só uma rajada,
uma lufada de ar fresco
O tempo de pegar a almofada
ou de chegar primeiro.

O tempo inteiro eu organizado
E na hora de valer
Tudo decidido ao contrário
do que eu esperava ver.

Fazer de conta que controla tudo
ou crer que alguém controla
por você
Não faz diferença em um mundo
que na hora do deita-e-rola
não se sabe o que vai acontecer.

No fim das contas é só uma torcida
Uma ponta de esperança
mastigada, pisada e cuspida
esperando vingança.

Não sou eu quem vai dizer
até porque não há nada
por trás de um segundo:
ridículo e imenso prazer,
ou se é uma porrada,
gesto escroto e imundo.

Difícil fazer sentido
Quando tudo se explica
no rolar dos dados do infinito
fazendo friozinho na barriga.

Mais uma carta, senhor?
Eu quero mais é passar do vinte e um.



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quarta-feira, 29 de julho de 2009

As Nossas Palavras XIX - por Alba Vieira

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Trabalhar é o proveito dessa vida.
Jamais roubar do filho o direito de ir à luta é a dura lição daquele que não tem vocação para ensinar e só sabe superproteger.



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Meu Sonho de Consumo II - por Adir Vieira

Tomei um banho rápido com o intuito de não desistir da compra. Sempre acontece isso com meus desejos frugais – acabo deixando-os de lado.
Com a ideia fixa na cafeteira, saí em direção ao shopping próximo, pois lá, com certeza, escolheria, nas diversas lojas de eletrodomésticos e nas lojas de departamentos, aquela ideal para a minha cozinha.
Não gosto de café, mas prepará-lo ali seria tudo de bom. Antes de comprá-la, garanti num reforço para a não-desistência: os grãos adequados, escolhidos logo na entrada, no supermercado.
Percorri duas ou três lojas, inclusive a que distribuiu o folheto de propaganda e, para minha tristeza, todas demonstravam estoque zero e os vendedores informavam aquele extenso prazo de entrega. O preço nunca condizia com o divulgado porque isso, porque aquilo.
Meu desejo de comprá-la ia definhando e até questionei se era tão forte assim. Mas já tinha os grãos, o que fazer senão ir em busca da preciosidade?
Andei por mais algumas lojas, mas, sabem, nenhuma das que eu via correspondia àquela dos meus sonhos – ou eram grandes demais ou a diversidade de preparo não condizia com a utilidade que eu dela iria fazer.
Desalentada e culpando minha ferrenha compulsão em certas horas, voltei para casa com o pacote de grãos de café para cafeteira expresso.
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Visitem Adir Vieira
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Santo Desafio, Batman!... - por Ana

Oba! Voltei com tudo!
Já me desfiz da mochila!
Soraya quer desafio!
Pra assistir à luta tem fila!

Num canto do ringue, ela,
Soraya, a Espadachim;
No outro eu, a Samurai,
Tranquilidade até o fim.

Mas, Soraya, tu nem vem
Com briga entre os Estados,
Que por aí eu não vou:
Nós vivemos lado a lado.

Porém digo pra constar:
Tenho sangue nordestino.
Peixeira na minha mão
Determina o teu destino.

Não brinca com isso não,
Que (com ou sem holofote)
Quem vem do Norte ou Nordeste
“É, antes de tudo, um forte”.
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Enquanto isso, no outro corner,
Tremendo e orando agachado,
Nosso Gandhi brasileiro,
Totalmente apavorado.

Foi ao Congresso, dançou,
Se esbaldou na polonesa,
Tirou foto, duelou,
Agora sumiu à francesa.

E Gio, eu te corrijo:
Já houve dois contra um
Aqui mesmo no Duelos.
Dos dois, não sobrou nenhum.

Fiquei eu, a Samurai,
Aguardando mais pelejas,
Até que vieram vocês
Desafiar a sertaneja.

Esclareço outra coisa,
Menino que se fez de pai:
Aqui já lutei vários rounds
E nunca, jamais disse um ai!

Garoto, eu tenho fibra!
Passou por mim, eu amasso.
Tanto que já fui chamada
De “mulher cruel do cangaço”.
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Eu encaro vocês dois
Só com a mão e uma pena.
Vão estatelar no chão,
Sair de maca da arena.

Então entrem logo no ringue
A espada e o estilingue:
O Homem-morcego dos pampas
E a Mulher-gato de Sampa.

Já apresentei minha arma
E todos são testemunhas.
Como é? Não vai começar?
Cansei de lixar as unhas...
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Resposta a Desafio, de Soraya Rocha
e Guerra Santa, de Gio.
Referências: Pra Terra do Nunca..., de Ana;
frase de Euclides da Cunha no jornal “O Estado de São Paulo”;
Sempre Alguém se EngAna, de Gio;
Vade Retro, Ananás!, de Raquel Aiuendi.
Mahatma Gandhi.