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segunda-feira, 25 de junho de 2012

(Sem Título) - por Laila Braga


Não sei o que acontece no resto do Brasil essa época do ano, mas por aqui Junho e Julho tem gostinho de volta pra casa...

Temperatura cai, guarda-roupas são renovados, velhos casacos saem do saco plástico e é possível ver toucas e luvas do inverno passado desfilarem majestosamente pelas ruas.


São João tem cheiro de roupa nova e naftalina.

Julho é encrenca minha, assumo. Afinal, mês de aniversário não tem muita graça depois dos 18 anos, mas Junho não! Junho é mês diferente... Junho tem trilha sonora no estilo “cheiro no cangote” e cara de romantismo ‘breguês’.

São João tem cheiro de pólvora e poeira.

“O maior amor do mundo é o meu, e ele é todinho seu”, pago pra ver quem é esse valente que não treme a ponta do dedo* quando ouve soar de qualquer lugar músicas como esta. E todas aquelas outras músicas que você não faz a mínima ideia de onde conhece, mas sabe toda a letra e sente um aperto estranho no peito? “Ainda me lembro do seu caminhar, seu jeito de olhar, eu me lembro bem...”

São João tem gosto de saudade e licor.

Essa é aquela época em que as pessoas literalmente voltam para casa. É período de visitar família, amigos e todos aqueles cantinhos que marcaram a infância.  Aprendi, por volta dos meus onze anos, que São João é sinônimo de matar a saudade. Lembro bem como a minha primeira paixão veio em um São João e durou bastante tempo (talvez ainda tenha um pouquinho dela aqui).

Não sei o que em mim parou no tempo, mas tenho uma parte do coração presa em festas juninas. Pena é, todas as sensações boas dessa época terem sumido. Passo esse mês na tentativa incessante de uma coisa que não existe mais, que não pode mais ser.

São João tem gosto de resgate e frustração, cheiro de pólvora, naftalina e saudade...
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Jacaraci, Bahia - 24 de junho de 2012.
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

(Sem Título) - por Laila Braga

Existe uma parte em mim que não se controla; uma parte que precisa se libertar. Tenho que aprender o grito e um pouco de silêncio; tenho que dizer não; tenho que me apoiar no lugar certo e nunca em castelos de areia. Mudanças acontecem o tempo todo por mais que não percebamos. As relações existem para ensinar, para endurecer, para confortar.

Cuidado é sempre válido, mas como toda avó diria: tudo em excesso é sobra. Tira o nó da garganta, o amargo do peito e joga a bola pra frente: essa vida é bonita demais e curta demais para se perder muito tempo parada em um lugar frio e escuro.

Aprenda a andar descalço em um mundo de asfalto* e se permita sentir todas as saudades dessa vida. E na falta do que fazer a gente inventa até um mundo novo pra satisfazer as eternas e mortais necessidades.
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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Lá pelos 5 Anos - por Laila Braga

Sentado ali via aquele pequeno aviãozinho se movimentar nos céus manchados da cidade grande. Bolhas e pequenos rastros. Tudo estava ali parado disjunto e sem qualquer significação. E ali, sentado a olhar.

Olhar sempre me apareceu como estratégia. Tinha inveja dos autistas. Confesso-lhes que ainda a tenho em outras proporções. Sempre que podia exercitava o meu talento nato de olhar e me tornar alheio ao mundo. Mesquinhez que as pessoas têm de ser feliz. Mania atestada e abestalhada de querer coisas só pra poder querer mais depois. Eu não. Ali enquanto olhava com meus olhos de meninices – nunca entendi bem esse termo, mas meu avô sempre dizia: “pare de meninice” – e me tornava ausente, matutava com meus botões, não aqueles botões de ligar e desligar as coisas, aqueles botões que a gente tem dentro da cabeça, e que liga alguma coisa do cérebro e se desliga sozinho quando a gente dorme, sabe como é? Pois sim, estava eu com meus botõezinhos cerebrais tentando entender porque se perde tanto tempo reproduzindo alguma coisa. Sempre quando eu parava pra brincar com minhas coisas imaginárias, tinha alguém pra dizer “esse menino vai ficando maluco, coisa besta de enxergar ‘trens’ que não existem”. Nem sabem eles que tenho medo de trem. Nunca inventei um trem. Inventava outras coisas que já existiam. Inventava dentro da minha cabeça e quando eu tirava de lá ficava lindo, eram sempre perfeitas as minhas invenções. Parecia maluquice de criança, mas não era não. Eu enxergava, sentia e dava vida a todas as minhas invenções. E elas eram minhas, só minhas. Nunca gostei muito dessas coisas de compartilhar.

Quando eu inventava coisas que já existiam, as pessoas achavam maluquice, mas quando as pessoas perdiam seu tempo inventando coisas que já existiam, era coisa de gênio. Avião... Rum... Jeitinho mais feio de imaginar um pássaro grande. E se eu inventar um avião? Nunca que ele vai ser feio e malfeito daquele jeito. Não invento aviões não, prefiro inventar outras coisas. Certa vez inventei um barquinho. Chamo de barquinho por que era barquinho mesmo. Era cara de barquinho de papel que se parece com chapéu de soldadinho de chumbo, mas inventei-o pra me caber dentro e andar devagar sobre as coisas. Nada de avião: nem de papel, nem de nada. Até os de papel são rápidos demais, aí não dava pra olhar as coisas direito. E como sou um olhador nato, não gosto de inventar coisas que não me deixem olhar direito. Avião é pra gente grande, não pra gente alheia. Talvez eu tenha medo de avião, mas não é medo de cair não. É medo de coisa rápida mesmo. Igual trem. Se a gente se põe a correr, tem sempre alguém que vem atrás pra entender por que, mas se você fica quietinho? Ninguém mexe. Não mexe mesmo. Gente quietinha assusta outras gentes. Eu sei como que é, sempre fiz isso...

Continua...



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sexta-feira, 10 de julho de 2009

Cotidiano - por Laila Braga

Sobre coisas que acontecem no dia-a-dia das pessoas e que elas nem ao menos notam.

Os pequenos pelos em movimentos circulares que circulam nas cerâmicas amareladas envoltas num alinhamento preto formado pelo tempo. Cima, baixo, lados e mais círculos.

Ver a mistura de tonalidades se misturando em globos de neves agitados pela mão que esfrega; ver a formação da espuma branca que se mistura em outras cores menos puras que a sua; amarelo, preto, branco... Todas elas. Todas juntas sem ao mesmo manter sintonia.

Desce o líquido transparente limpando as cores que unidas sem fazer questão se desfazem. Aí entra o dizer do pequeno grande Drummond “rolam num rio difícil e se transformam em desprezo”.



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Carlos Drummond de Andrade

domingo, 14 de junho de 2009

Poesia - por Laila Braga

uma forma da incógnita,
do nulo,
da dúvida,
da poesia retorcida,
em versos inversos,
em formar sem formas,
em gestos...
de palavras neutras que não querem dizer nada,
mas tudo falam,

somos assim uma fonte vaga do x.
um foque em foque.
uma foca, uma fofoca,
um boato, um ato
uma mentira sobre a verdade dita,
uma verdade sobre a mentira ouvida.

humanos,
seres estranhos
diferentes uns dos outros,
iguais uns aos outros.
normais,
anormais
depende tudo,
enfim
do ponto de vista,
dos óculos que você usa,
do ângulo em que se vê.

seja como for
esteja onde estiver.
já vi isto em algum lugar
é assim uma forma em formato,
um formato sem forma
e segue então, o que você acha de
tudo isto?
sei! nada né?
é melhor não se envolver.



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