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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Aparências - por Raquel Aiuendi

Quem beija o sapo
sabe lá se terá um príncipe;
quem ama a fera
a transforma em amor?
Quem corre atrás de sereia
se afoga
e amanhece na areia.
Poupe-se de dores
saiba que dentro da gente
é que se encontram valores
dos mais permanentes
por isso quem ama o feio
bonito lhe parece.

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Desagravo a Inês de Castro - por Ana

Se eu sou Inês…
te castro, desgraçado!
Eu amo Pedro
e é dele o meu quarto!

Não me importam teu nome,
Afonso, e teu título de rei,
amo teu filho
e com ele me casei.

Se não de fato,
em alma certamente;
veja meus filhos:
são dele a semente.

Se eu sou Inês…
nunca é tarde, não estou morta,
nenhuma espada me fere
nenhum punhal me degola.
Beijarias minha mão ainda viva,
tu e os outros tantos reis,
diante de mim ninguém seria casto,
Se eu fosse Inês…


Inspirado em “Para Alceu”, de Raquel Aiuendi.
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Bacurau - por Raquel Aiuendi

Amanhã Eu Vou
Se hoje Bem-Te-Vi
Si Dó é ter pena
Sem Tempo Quente
Sou seu cobertor
O Dia Nasceu
O Dia Nasceu
eu Quero Quero
te ver
mas Tô Fraco Tô Fraco
Amanhã Eu vou
Doce-Doce
Pra você.

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Lucidez - por Alba Vieira

Ah, seu moço! Quer saber? Eu tenho vivido de lendas… Porque isso é bom, aquilo é ruim; pode isso, não pode aquilo; tenho que isto, tenho que aquilo outro. Tudo já pronto, sem possibilidades. Agora chega! Vou sair desta camisa de impedimentos e regras pra me encontrar: pela experiência.
Sei lá como eu sou! E posso saber, com tantas coisas que foram coladas em mim sem me perguntarem antes se tinham algo a ver comigo? Pois é: quem não se toca um dia para esta armadilha permanece amarrado, a existência inteira de pernas pro ar, balançando pra lá e pra cá ao sabor dos movimentos da Vida. Seria bom aproveitar: que de cabeça pra baixo o sangue circula melhor e pode iluminar a mente para a descoberta fatal: eu sou único, sem igual.
É, moço, cansei de balançar. Quero ser firme, ter direção certa: a dos meus próprios passos. E isto só posso saber andando. E, de preferência, sem outra companhia que não eu mesmo. Para poder me concentrar e perceber cada pedacinho do caminho: olhando as maravilhas, atento aos acidentes do terreno, aproveitando e seguindo os atalhos, apanhando chuva, me deixando levar pelos ventos, iluminado pela claridade do sol forte, andando a esmo nos momentos de neblina cerrada norteado apenas pela intuição, molhando meus pés descalços nas águas frias ou quentes, curando as feridas destes mesmos pés depois de finalmente fazer as escolhas certas, pegando a estrada que me levará para onde meu coração apontar.
Vou me descobrir. Ou, quem sabe, me construir outra vez, depois de me pôr abaixo diante do meu primeiro olhar lúcido desta encarnação.

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Nosso Aniversário - por Adir Vieira

Estava prestes a completar mais um ano com ele em minha vida. Era mais um aniversário dessa união feliz.
Sabia que, como nos outros anos, ele não iria lembrar da data.
Atribuía sempre ao seu esquecimento o fato de que outras eram as datas marcantes – a que me conheceu, a do nosso reencontro… – mas nunca a do nosso primeiro dia na mesma casa, como marido e mulher.
Houve tempos em que muito me decepcionou e não tendo papas na língua, cuspia minha insatisfação em reclamações, quase obrigando-o a pedidos de desculpas e pagamentos de prendas para que eu voltasse ao normal.
Houve tempos em que abominei minha família, alguns amigos, por nesse dia não me parabenizar.
Houve outros tempos em que pensei em formalizar nossa união só para, como todo o mundo, dar o que a sociedade exigente pedia.
Hoje, já decorridos tantos anos, vejo que se essa formalização não se dá nos corações, não adiantarão datas, locais, fotos, pois tudo morrerá ao longo do tempo.
Tempos como o de hoje em que, segura e fortalecida, percebo que passou o dia e eu também esqueci.

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Abundância - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Me senti feliz por ser um pouco abundante. Abundante na ternura, na amizade, na lealdade e, porque não confessar, na carne que enche a panela da minha alma.


Resposta à "Abundância" de Adir Vieira.
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Riqueza - por Adir Vieira

Pensam que eu sou rica,
Cheguei a essa conclusão.
Por que será?
Será pelos meus olhos firmes em qualquer direção?
Será pela minha voz segura em profusão?
Ou será pelo andar calmo e coerente?
Será por esbanjar tempero no alimento?
Acho que é por nada negar ao elemento.

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Descompasso - por Alba Vieira

Morro um pouco a cada dia,
Não abro mais a porta,
Não recebo ninguém, ninguém me recebe,
Não brigo mais, não participo,
Não caminho,
Apenas permaneço triste, desenergizado,
Em total estagnação.
Quero ajuda? De quem?
Não vislumbro o futuro…
Não quero mais lutar, nem esperar…
Há uma névoa que encobre meus olhos,
Sou quase um morto.

Não enxergo o quanto me engano,
Se tento ensaiar passos tímidos
Para onde não desejo de fato ir.
E nada acontece…
Não consigo. Tento?
Sou um perdedor.
Todos já sabem. Menos eu.
Não vou conseguir mesmo o que afirmo querer. Mentira.
Quero ou querem para minha vida?
Perdi para mim mesmo.
Sigo as escolhas que outros fizeram por mim e para mim.
Deixei de ser eu. Apenas hoje arco com a responsabilidade.
Nem sei agora quem sou.

Tenho lapsos, vivo o descompasso…

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O Ataque - por Ana Maria Guimarães Ferreira

O calor estava insuportável naquele dia de outubro.
Da minha sala, sem janelas e sem ventilação, eu via as gotas de suor caírem pelas minhas costas e molharem minha blusa.
O sono queria, a todo custo, tomar minhas pálpebras e eu lutava bravamente para manter os olhos abertos, sem conseguir, e foi assim, no meio de um olhar sonolento, que eu o vi e me assustei, pois não esperava ninguém ali àquela hora e muito menos mudo, me olhando assim furtivamente e ao mesmo tempo insistentemente.
Observei de relance seus bigodes que apesar de não correr vento por ali, pareciam se mexer.
Mas ele permanecia assim, imóvel, estático a me olhar como um busto de bronze que você conhece, mas que a simples aparição no meio do nada te leva a mil conjecturas.
Assustei-me ao olhar de novo para ele, constatar que ele estava realmente ali e que me olhava com bastante interesse.
Na verdade, quando nossos olhares se cruzaram, nós dois nos assustamos.
Dei um grito misto de medo e de pavor. Aquele grito agudo, mas que sai da garganta com dificuldade, quando olhei de novo ele havia sumido do meu ângulo de visão.
Mas eu sabia que ele estava ali me espreitando, sentia no ar e quase que inconscientemente, numa tentativa de sobrevivência, quando vi estava em cima da cadeira com um monte de processos na mão.
Eu subi no primeiro lugar que encontrei e que achei que poderia me servir para ver tudo, para ter uma visão de todos os cantos onde ele poderia ter se escondido.
Minha respiração ofegante, o suor aumentando e eu rezando para alguém aparecer e me salvar…
Mas nada... parecia que todos tinham se evaporado.
E eu me vi assim, em cima da cadeira, tremendo de medo que ele pudesse me atacar, mas não criava coragem de largar tudo e fugir.
Por isso dizem que o medo paralisa. É verdade.
Ali estava eu paralisada com toda aquela papelada nas mãos sem conseguir assim me segurar em algum lugar e descer.
Olhei de novo e não mais o vi, o que aumentou meu medo. Imaginei que ele poderia estar escondido em algum canto sem muita luz, à espreita e quando eu descesse, ele me atacasse.
Queria gritar por socorro, mas as palavras não saiam de minha boca seca. Eu estava muda!
O tempo parecia não correr, como eu, estava parado.
Ninguém chegava…
Ninguém aparecia para me salvar.
Os minutos pareciam horas e eu ali sentindo o corpo todo tremer e suando como uma bica.
As pernas doíam de estarem na mesma posição.
Os olhos vasculhando tudo e não vendo nada!
O que ele faria? Onde eu estava que eu não conseguia vê-lo, mas eu sabia, tinha a certeza que ele ainda estava ali, à espreita, pronto para dar o bote.
Cinco minutos se passaram, mas parecia que toda a eternidade estava passando por mim.
Ninguém.
Apenas o silêncio incrível.
Até que finalmente apareceu meu herói.
Não veio montado no cavalo branco, mas com certeza vinha para me salvar.
A sensação de alívio me trouxe de volta à realidade.
- Ana, o que você esta fazendo aí parada em cima dessa cadeira cheia de processos na mão? Você pode cair daí. Venha, desça.
Segurei naquelas mãos salvadoras, me joguei nos braços do meu herói e aí vi o marginalzinho…
Parece que viu que eu não estava mais só e passou correndo por nós.
O rato correu e foi se esconder num buraco que eu imagino devia ser a sua casa.

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Mapa Mundi - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Tuas mãos de menino
Percorreram meu corpo
Pelo prazer de brincar…
Tuas mãos de homem
Percorreram meu corpo
Pelo prazer de amar…

E tuas mãos andantes,
Percorreram vales e montanhas
Curvas e abismos
Parando no lago dos meus olhos
Para descansar

Escalaram a montanha dos meus seios
E atingiram o cume
E eu
Mapa mundi entre tuas mãos
Aprendi a ter ciúmes
Do que tocavas
Aprendi a conhecer-me
E terra por terra,
Monte por monte,
Aprenderam a obedecer-te
A adorar-te

Depois
Tuas mãos menino
De tanto brincar cansaram
E abandonaram meu corpo
À mercê das marés
Que pensastes que viriam
Depois que te fosses…
Ilusão!
Meu corpo menino
Tal como a praia deserta
E a terra desconhecida,
Só teve um descobridor…
Você!

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As Loucuras de Madison - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Para falar de Madison tenho que remontar ao início da vida dela junto com seus donos: meu genro e minha filha.
Meu genro louco por cachorros queria a todo custo arrumar um cão labrador até porque é o tipo de cão dócil e de companhia.
Foi até o Corpo de Bombeiros onde trabalha para verificar a possibilidade de ter um cão durante o período de socialização, mas não havia nenhum filhote para ser sociabilizado.
O veterinário, contudo, tinha um filhote, porém pela idade - seis meses, não podia entrar no programa de treinamento de cão guia e ofereceu ao meu genro que, pelo custo de um filhote 1.200,00, aceitou imediatamente esse que era de graça.
Assim Madison que se chamava Bilt foi parar na minha família, mais precisamente na casa da minha filha.
Era uma cadela labradora cor de mel, linda, com aqueles olhos dóceis de toda cadela dessa raça.
Brincalhona e deveria ser a alegria da casa que ainda não tem crianças. No dia em que eles foram buscar Madison alguns sinais apontavam para o que seria ela naquele lar.
Primeiro o carro deles quebrou e o mecânico emprestou o carro onde Madison viria (para alegria de minha filha, pois Madison babou o banco todo), depois ao chegar à casa do veterinário vários cães estavam juntos brincando e apenas ela Madison amarrada num poste com um olhar pidão…Deviam ter visto os sinais mas não viram…
Quem disse que ela queria vir? Foi arrastada… Meu genro tinha comprado uma casinha de 87 reais para a Madison.
Sua primeira noite foi arrasadora. Comeu a torneira de plástico que tinha no jardim da casa. Depois um coqueiro que crescia forte e bonito.
Pobre coqueiro teve vida curta, Madison comeu ate a raiz do mesmo.
Minha filha então soube de um repelente para cachorros que fazia com que eles não comessem as coisas.
Para Madison isso não existia: durante um dia o repelente funcionou, mas logo ela comeu o repelente, a latinha, o sofá da varanda, os tapetes de grama que ela adorava arrancar….
Comeu toda a fiação da moto do meu genro, o pedal da moto, até que ele viu os sinais e ligou para o veterinário para devolver Madison…
Mas o veterinário não atendia, ninguém entendia porque, e assim Madison foi ficando e comendo tudo o que via pela frente.
A casinha de madeira ela arrancou o telhado e as laterais, a mangueira do jardim comeu 2 vezes, a máquina vapt caríssima ela conseguiu puxar pelo fio e comer a mangueira e o que desse - prejuízo grande para o pessoal.
O sifão do tanque, os fios da moto, a fiação do farol de milha do Senic que nunca mais funcionará…
A bomba do poço, essa ela conseguiu cavar a fiação do poço até a casa de tal forma que, depois de tentar roer a bomba, a mesma foi parar dentro do poço… Blusa, lençóis, tapetes, bolas de tênis nada… era suficientemente resistente a Madison.
Até sua vasilha de metal ela furou…
Minha filha desesperada foi a um pet shop e a mocinha ofereceu um brinquedo indestrutível, nem pastor alemão, nem os cães mais fortes destruíam…
Bobagem, lá se foram 28,00 e apenas uma hora para Madison colocá-lo em óbito.
Bola de basquete das crianças do vizinho, nada era pouco para Madison.
A máxima foi quando minha filha recebeu uma amiga com a filhinha que chupava a chupeta e brincava com Madison. De repente a menina entra chorando. Quando foram ver, Madison simplesmente mastigava e chupava a chupeta da criança…
A única coisa que se salvou neste lar foi a bola de plástico duro da bóia, essa até hoje resiste a Madison.
Mas porque vocês não devolvem a Madison? minha amiga perguntou. Minha filha disse: é porque, apesar de tudo isso, ela é como uma filha meiga, companheira e ninguém devolve filha mesmo que seja impossível…
Às vezes é preferível um cachorro amigo do que um amigo cachorro…

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Fechadura - por Raquel Aiuendi

Foi lá, pela fechadura
que vi tudo:
num piscar de olhos uma criança,
um pesadelo, um brasileiro,
uma morte, um monte de gente
- num grito, num silêncio
que estanca a paz.

E Deus? E você? e Ele? E eu?

Pelo cano ela passou:
uma tristeza, o rosto,
o sangue, o sorriso,
o amor, o interesse...

Tudo é social:
vida, luta,
derrota e vitória.

E nós?

A criança americana
agora é adulto
e tem tudo;
hoje é ontem
e já foi amanhã... Memória da Vida:
ódio, guerra que não tem lei,
escuridão, um grito...

E o clarão?
Se perde na noite negra
pois o dia se fechou.

Aí que vi o medo, a vontade,
a morte, a saudade,
a esperança e o sono.

Pesadelos, prédios,
fogo, ruínas,
desespero, fé
e tudo mais.


Agora
Fechei
os olhos
e não tenho pesadelo:
.............................só sonho.
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