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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Dia de Greta Garbo - por Fatinha

Querido Brógui:

Não sei se acontece com todo mundo, mas sei que acontece com muita gente: aquele dia, ou aqueles dias em que a gente tem uma vontade enorme de curtir uma reclusão (ou exclusão mesmo). Sabe como? É não querer nenhuma espécie de interação social, nenhum contato com o mundo e seus habitantes.
“O ser humano é um ser gregário”, já dizia o antropólogo. Verdade inegável, posto que desde os primórdios os hominídeos procuraram juntar-se e com isso garantir a sobrevivência da espécie.
Sou normal, sou humana: gosto de falar (ando até numa fase exageradamente falastrona), gosto de ouvir, mas hoje acordei com o meu lado eremita em flor.
Acordei um tanto quanto quebrada. Fisicamente, quero dizer. Essa batida que venho vivendo há algumas semanas, de ficar cuidado de um pequeno e nada pesado rotweiller, já vem trazendo suas consequências.
Acordei também um tanto quebrada emocionalmente. Tenho sido muito demandada ultimamente, coisa normal para uma pessoa normal que assuma responsabilidades.
Divagação nº 1: Há quem desenvolva uma capacidade (para mim estranha) de “andar” para qualquer assunto que não lhe diga respeito diretamente. E com o passar do tempo, a gama de assuntos que não lhe dizem respeito diretamente aumenta em proporções geométricas, a ponto de quase nada ser considerado de seu interesse ou da sua conta. Obviamente, aquilo que não é de sua conta certamente há de ser da conta de alguém. Conclusão: na medida em que alguém retira de si comprometimentos, alguém os toma para si, gerando uma distribuição injusta de aporrinhações. Obviamente também é que, o omisso, como bom omisso que é, também “anda” para a distribuição injusta de aporrinhações, porque afinal de contas, isso não é de sua conta.
Então, voltando à vaca fria, já acordei hoje meio cansada e fiquei muito feliz em ver que apenas eu estava de pé. Fiz meu cafezinho, comi minha torradinha, li uns trechos da Veja (só pedacinhos, pra não cansar muito a cabeça), tudo no maior silêncio para poder curtir esse delicioso momento solitário, fazê-lo estender-se o mais possível.
São mais ou menos dez horas da manhã e eu ainda não precisei falar com ninguém, nem ouvir, nem sorrir, nem trocar o curativo da Ala, nem decidir o que vamos almoçar, nadinha. Estou só, maravilhosamente só no meu cafofinho. Como não posso me transportar para uma dimensão paralela, nem congelar todo o mundo, vou ficar aqui, em silêncio, escondidinha, com a esperança (vã) de que hoje, pelo menos por hoje, esqueçam que eu existo.



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Solidão - por Ana

Sou um planeta errante neste universo sem fim. Sob atração de uma força maior que eu (por uma destas leis insondáveis que regem nossas jornadas), vim parar num céu de parcas estrelas que me olham com estranheza ameaçadora, mantendo um distanciamento de desprezo mal contido.
Ao longe, percebo um asteróide desgovernado que, por vezes, se aproxima, imantado por esta mesma força que me trouxe até aqui. Há momentos em que sua trajetória é tão próxima que me preparo para a iminente colisão.
O que pode ser, além de existir, um planeta suspenso entre o nada e o absurdo? Que vida visível pode permitir em si, posto que flutua só e mal visto? Seu despautério e perseverança é manter suas constantes criações enclausuradas em suas entranhas, para sua própria alegria e satisfação, tentando, inutilmente, ignorar a escuridão mórbida que o cerca, enquanto aguarda o momento em que, por inconformação, implodirá, assombrando os céus com os fantásticos tesouros que pacientemente forja em segredo, ocultos de olhos áridos que não os merecem ver.
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Direções - por Kbçapoeta

No quarto empoeirado
Reviro o baú de arrependimentos.
Um turbilhão de saudades,
Vidas remotas, vidas que não foram minhas,
Misturando-se e perdendo-se no tempo,
Espaço e pensamento.
Tamanho porão de meus guardados
Que soterrado de memória,
Agora se esvazia em esquecimento,
Indo e voltando de acordo
Com as mazelas da rosa-dos-ventos
Que ao indicar-me o sentido hoje,
Perco o tino amanhã.




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Espírito do Tempo - por Leandro M. de Oliveira

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Cabe a nós, aqui, um breve comentário acerca da obra máxima de Franz Kafka. Em primeira análise é mister dizer que a base da força desse escrito é a sua atualidade. Mesmo depois de quase um século, a ideia central de “A Metamorfose” segue como tema de ordem do dia. Kafka redige seu texto às vésperas da primeira grande guerra na fase conhecida como crise da “Bélle Époque”. Nesse momento histórico o homem se vê em um dilema racional e religioso quanto a si mesmo. Era a crise nascente da modernidade oferecendo ao ente humano as mais agudas reflexões existenciais. Um dos temas mais bem trabalhados nesse livro é a impossibilidade da crença, o massacre de princípios que a esse passo estava financiado pela “nova era”, com seu espetáculo de frieza e relações impessoais. Nesse sentido, quando Samsa está metamorfoseado nesse inseto gigante, tem-se uma alegoria da falência social de nosso tempo. Convertemo-nos em seres essencialmente estranhos ao outro. Gregor é, em verdade, o arquétipo do homem moderno, esse desesperado, sem respostas, conforto ou esperança. O símbolo do inseto torna isso ainda mais exterior, esse animal esdrúxulo é o desprezo do homem por si mesmo.
O contemplo da pequenez humana, do estado de abandono ante a grandeza do mundo, levam aquele modesto caixeiro viajante a somatizar as penas de seu cotidiano, sendo essas, de modo geral, as mesmas de todos os cotidianos de qualquer homem comum. Ainda que esteja em casa na companhia dos seus, esse personagem verifica que suas experiências de vida são indissociáveis e inexpurgáveis dele, fazendo-o assim remoto por ser dono de um legado singular. Há também o fetiche da libertação, quando aquele homem se vê alheio ao mundo, sente-se de alguma sorte realizado em não estar mais participando de relações a seus olhos abomináveis.
Então por força sua atual forma, a de uma barata enorme, ele tem uma espécie de vingança inconsciente. Já não é mais o escravizado arrimo de família, já não é mais o vendedor obrigado a sorrir. Todavia, ao passo que se deleita, Gregor sente-se oprimido ao verificar que sua forma física não está suficiente à expressão de tudo quanto sente. Sua repulsa acumulada pela família de exploradores, pelo insensível patrão, pela hipócrita social. Sentindo, mais uma vez, a impossibilidade de ação que é própria do homem médio em todos os lugares.
Gregor Samsa é, em última análise, um ser desprovido do “animus” da mudança, amordaçado em sua condição de filho dominado, de empregado explorado, de aspirante decadente a burguês. Como se aos poucos os pequenos fracassos fossem se sedimentando dentro dele de tal forma a reduzir-se em um animal treinado, abraçando assim a condição subumana. Para compreender o estruturalismo da psique desse personagem, possivelmente o momento mais simbólico é aquele em que seu pai atira-lhe uma maçã com intenção de matá-lo, isso sugere um algo bem edipiano e mal resolvido, dando assim as linhas gerais para o entendimento de sua inanição frente às desventuras do mundo. Há uma sugestão por parte de Kafka de que o pai de Gregor, aquela besta insensível, o tenha reduzido à condição de uma barata gigante mas, em verdade quem o tempo todo não arcou com o ônus da transformação foi o próprio Gregor.
Por fim vem a morte do protagonista em forma de libertação, tanto para ele quanto para os outros. Sua vida apática era um empecilho, um mal que acabara de ser curado. A irmã sai da completa solidão do lar para o convívio externo, o pai se vê remoçado. A morte de Samsa representa um marco na recuperação do tempo perdido, assim, por mais solitário que o homem esteja, sua existência produz transformações nos outros.
A mensagem contida nessa ideia de transcendente do eu tem eco filosófico, psicológico e religioso muito acentuado. É o eterno discurso da imolação da carne própria em favor alheio, ainda que isso se dê de maneira involuntária. Dessa forma, “A Metamorfose” nos convida a uma reflexão profunda acerca do papel do indivíduo no corpo social, seja em âmbito externo ou privado. O texto de Kafka é, antes de mais nada, um questionamento severo, sobre para onde caminha o ser guiado tão somente pela razão instrumental, pelas relações de consumo de nosso tempo, pelo desconhecimento do outro. É deveras ao leitor atento um texto imprescindível.


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m - por madruga

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já no principio da minha escrita
ela fora escolhida como aqui consta
escreve nomes como mãe, mulher e Maria
e trás ao amor o mais que ele tem! a magia
maravilhas se escrevem pelo mundo
mensagens, momentos, mentiras e muita memória
mistérios abundam nos manuscritos outrora escritos por
mãos sábias noutros monumentos e tempos da história



...........................................Visitem madruga
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O Gato - por Vicenzo Raphaello

Lá no meio do mato
O matuto
De amor se toma pela morena

Dela ninguém se atrevia
Achegar
Filha de caboclo bravo

Pensando nela
De amores o matuto sofre
Pela distância imposta

Coragem cria

Numa noite escura
Como gato arrasta-se sob a casa da formosa
Que de madeira elevada era
E sob o quarto da amada
Arranha o piso na esperança de um encontro furtivo
Não era, porém, o quarto certo
Mas do caboclo
Que, de arma na mão
Atirando sai
Naquele bicho irritante
E o pobre coitado humilhado
Como gato pardo na mata se vai

Corre
Corre pela vida

Na cidade vai parar
Onde empresário se faz

Contador de histórias
Aos sobrinhos conta
Divertido
Aquela do infeliz gato pardo.

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