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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




domingo, 31 de maio de 2009

A Famigerada Desordem do Mundo - por Bruno D’Almeida

Ana Amélia tinha uma grande missão naquele dia: desencaixotar a mudança de sua casa nova. A vida corrida a impedia de procurar pratos, toalhas, incensos, roupas, computador, até a geladeira se perdeu no meio da bagunça. Filosofava sobre o processo de entropia escovando os dentes com os dedos. Antes de sair correndo para o trabalho, olhou para o caos dentro do próprio caos e disse a si mesma: de hoje não passa. Uma casa desarrumada pode ser uma metáfora inevitável sobre a bagunça que podemos propor às nossas próprias vidas.

É necessário dizer que nossa bela protagonista tinha um fusca 1967 amarelo. Um mimo. E lá ia ela, anacrônica, com sua roupa indiana bordada vermelha, margarida nos cabelos e uma cesta de vime com fitinhas coloridas no carona, onde levava sua refeição vegetariana: bananas, barras de cereais e bolacha Maria. Ana Amélia é um daqueles personagens de um bom filme francês que resolveu existir de verdade, com toda sua insustentável verossimilhança. E era assim que ela ia fazendo seu trabalho de agente de uma editora de livros, de escola em escola, tirando dúvidas sobre o uso do material didático. Nem esperava ela, naquele dia, encontrar uma bagunça muito maior do que sua casa nova.

A cidade chovia de maneira torrencial. Seu fusquinha atolava em aguaceiros, não era apenas uma chuva, era um dilúvio. Todas as visitas tiveram que ser canceladas, ou pela falta de possibilidade de chegar ao local ou pela suspensão das aulas nas unidades escolares. E foi assim durante todo o dia, uma sucessão de desacertos que só encontrava refúgio na certeza de arrumar a bagunça de sua casa. Ela precisava encontrar urgentemente a caixa de meias e de roupas miúdas, estava cansada de comprar promoções de três pares de meias por nove e noventa em lojas de departamentos. Sem contar o sumiço do cabo de água da máquina de lavar que a impedia de deixar as roupas com cheiro de sabão Omo. Atolava o cartão de crédito com roupas novas.

Mas o dia não estava perdido, havia uma palestra de amigos para assistir de noite. A chuva deu trégua. E lá foi Amélia, aquela que desafiava o compositor Mário Lago e sabia ser mulher de verdade. Depois da grande dificuldade de estacionar nas ruas estreitas de Salvador, encontrou uma multidão em frente ao prédio da faculdade com várias negativas e caras de adeus. Queda de energia, aulas suspensas. Ouvia e, mais do que isso, via com seus olhos vivos de âmbar a tristeza da amiga comunicar o adiamento da palestra. O que mais faltava acontecer? Vamos comer pizza, gritou. Tem uma pizzaria com massa de batata deliciosa perto de minha casa, vamos transformar a palestra em bate-papo para fechar nosso dia, discorria uma alma em busca do refúgio do prazer em meio ao turbilhão de vastas emoções de acontecimentos imperfeitos.

Bem, alguma coisa precisava dar certo naquele dia, não é? Sentada entre amigos, podiam todos falar e rir das besteiras que quisessem. Podiam pedir uma pizza família de rúcula com tomate seco, frango catupiry, margueritta e atum. Podiam discorrer sobre as experiências de uma aldeia hippie em Arembepe ou sobre o show de tributo a Bob Marley do fim de semana. Ana Amélia, no seu mundo hermético, desenhava no papel da mesa a paleta de cores de sua existência, a luta para se firmar no mundo que coubesse na grandeza de seus sonhos, a saudade dos sobrinhos em São Paulo e tantos outros pensamentos, até ser repreendida por seu comportamento autista e voltar a participar das conversas na mesa. Mas era fim de festa, diziam seus olhos vermelhos, seus bocejos áridos e a cara de quem, para conseguir dormir, bastava apenas fechar os olhos.

Subiu as escadas do Edifício Quitandinha, lugar escolhido a dedo pela nossa salvadora andorinha de seu universo particular, já lembrando da bagunça que a esperava. O banho serviu para refrescar a ideia de que, apesar do dia ruim, a beleza de seus anseios permanecia intacta. E lá ia ela fazendo contas de quanto tempo faltava para escrever uma nova peça de teatro, organizar um novo sarau ou espetáculo de dança e todas as coisas que uma artista precisa para tornar o viver muito mais do que a mera existência. Faltava pouco, muito pouco para tudo isso acontecer. E o sono era uma cantiga embalando aquela mulher cheia de vidas encaixotadas, dormindo tranquila diante da famigerada desordem do mundo.



Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Ana

Gostei desta poesia especialmente por causa dos dois primeiros versos (que trazem uma posição diferente em relação ao amor e lindamente escrita) e do último verso, que define, maravilhosamente, a ideia desenvolvida pela autora. Até pensei em criar uma poesia inspirada nestes versos, mas ainda não tive oportunidade de fazê-lo. É linda demais, Raquel! Parabéns!



OS AMORES DA MINHA VIDA
(RAQUEL AIUENDI)

Os amores da minha vida
Não são senhores do meu coração
Os amores da minha vida
trouxeram inesquecíveis sensações
verdades que jamais se vão
os amores da minha vida
não são senhores do meu coração
mas acalentam a lembrança
de felicidade infinda
acalmam os dias de escolhida solidão
os amores da minha vida
não são senhores do meu coração
na história que construímos
fomos em um inteiros dois
uma eternidade à frente, a sós
luta, canto, dança e festa...
os amores que tive são
foram e pra sempre serão
mas não senhores do meu coração
o Senhor do meu coração
é Senhor da mente, corpo, emoção
é único, completo e absoluto
hoje sigo meu caminho
lembrando muito carinho
mas, afinal e em resoluto
os amores da minha vida
não são senhores do meu coração
não são o foco de meu culto.
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Charada

Crie um texto sobre este tema ou um texto-charada e deixe aqui, em “comentários”, que nós postaremos.
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Charada I - por Ana

Às vezes tardo, mas não falho.
Caminho devagar e sempre.
Sigo estradas determinadas,
Sorrio dos que não me veem.

Não conheço liberdade,
Mas trago libertação,
Sou odiada e temida,
Muitas vezes uma opção.

Dependendo da pessoa,
Sou algo que se deseja,
Amada, amiga íntima,
Por mais difícil que seja.

Posso ser abominável,
Estranha, ignorada,
Trazer momentos de dor,
Definir o fim da estrada.

Pra outros não sou escolha,
Eles já nascem comigo,
Acompanho todo o tempo...
Sou dádiva em vez de castigo.

Querida ou detestada,
Inata ou opcional...
Respondam, nos comentários,
Quem ou o que sou eu, afinal?
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Estou me Sentindo Só... - por Manhosa

Estou me sentindo só...
O meu mundo esta demais silencioso...
Não consigo conversar nem com meu coração...
Ele também não quer falar comigo...
É noite escura... nem estrelas...
Tenho medo de mim...
O vento faz barulho... sopra forte
Sem controle... minhas lágrimas rolam
Não quero mais me iludir...
Vou parar de perseguir sonhos...
O dia a dia esta muito pesado...
Estou cansada de lutar...
Meus desejos continuam a me perseguir...
Tenho que deles também me libertar...
Única maneira de eliminar a amargura
Dos restos que ficaram no meu coração...
Não quero mais amar...
Fica quieto coração...
Até agora só soubeste me cobrar...
Sempre fui culpada por seres rejeitado...
Vamos nos unir... ficar quietinhos... escondidos da dor...
Se um dia... nossas feridas cicatrizarem...
E se... ainda tivermos tempo...
Quem sabe... poderemos até ensaiar um recomeçar...
Voltar a sorrir de mansinho...
Vamos ter que ser quer muito amigos...
Teremos que ser muito unidos...
Nunca mais... nunca mais mesmo...
Vou te entregar... Meu Coração...



Visitem Manhosa
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Adelmar Tavares e a “Ciranda” - Citado por Penélope Charmosa

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...e, embora irmãs,..................................................
não se vêem, não se dão, não se parecem..................................................
as doze tecelãs.....................................................
Guilherme de Almeida..................................................



Vejo a ciranda das horas,
moças lindas a cantar...
doze vestidas de branco,
umas de flores na testa,
outras de flores na mão...
E, no balanço da dança,
quando uma vem, outras vão...

Horas do dia e da noite...
Ó vocês!... Lindas que são!...
Qual será mesmo a minha Hora,
minha hora de Redenção?!...
Será das doze de branco,
ou das que de negro estão?!...
Qual virá, vindo o meu dia,
pousar a mão no meu peito,
parando o meu coração?!...
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sábado, 30 de maio de 2009

Memórias de um Seminarista (Parte VII) - por Paulo Chinelate

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A PRIMEIRA GRANDE SEPARAÇÃO


A minha primeira noite separado dos meus pais não foi de todo ruim. Estava cansado e embora minha cama fizesse parte de outras dezenas em grande dormitório ainda vazio, dormi pesado. Meu cicerone, aluno do grupo dos maiores, deslocou-se para o terceiro andar dos maiores, acima do nosso. A graduação era feita por idade somada à colocação da turma ginasial que se pertencesse. Seríamos os juvenistas do admissão, quinta e sexta série. Os maiores eram quase todos da sétima e oitava séries. Todos juntos perfaríamos duzentos, aproximadamente.
Acordei no domingo muito cedo, escuro ainda, seis e trinta da manhã. Pediram-nos pressa para a missa das sete. Da fila de deslocamento fui convidado a ficar lá atrás, na capela, junto com papai e mamãe que já me aguardavam.
Minha atenção toda era para com a mamãe. Demonstrou neste primeiro contato uma satisfação incomum. Não sei se por me rever próximo dela ou se já se sentia mais confiante pela análise de leoa que aprova o novo ninho do filhote.
Assisti à missa. Comungamos. Fui tomar café com eles no refeitório dos hóspedes.
O acesso ao ambiente que agora eu me encontrava era vedado aos alunos do juvenato, exceção feita quando acompanhando familiares visitantes. Entre a capela e o refeitório para o café atravessamos um pátio quadrado, ajardinado, via-se que finamente tratado por mãos zelosas. Do lado direito, a leste, os quartos individuais de velhos religiosos que se recolhiam a asilo pela idade avançada. Do lado oeste, grande construção destinava-se aos postulantes e noviços. Os primeiros para o curso do primeiro ano científico. Os segundos, já com os votos de obediência e usando batinas, dedicavam os dois anos restantes aos estudos laicos e teológicos. Após isso mais um ano de estudos como escolásticos, somente dedicavam ao aprofundamento religioso. Completar-se-iam os outros dois votos: pobreza e castidade. Papai foi me repassando, como bom guia, as explicações que o próprio reitor lhe informara de véspera.
Gozamos juntos agradável manhã. Franquearam-nos todos os ambientes. O curral, pocilga, criatório de coelhos, apiário, o pomar... Ah! o pomar. Linda colina despontava por detrás do grande galinheiro. Um caminho sinuoso entre pés de laranjas, mexericas e jamelões, ainda carregados de remanescentes frutos de fim do outono, nos levava a uma linda capela em forma de gruta onde jazia a imagem de Nossa Senhora de Lourdes lá no cimo da elevação. Papai e mamãe - ele congregado mariano, ela ex-filha de Maria - aproveitaram para prece sentida pedindo que a santa procurasse guiar os passos do filho que ora soltava-se da ninhada.
Almoçamos juntos ainda desta vez. Logo após a refeição Irmão Zeno, o reitor, vem me informar que uma tarde esportiva estava sendo preparada para os alunos chegantes. Mostrei-me entusiasmado… verdadeiro ator mirim. Sabia que papai e mamãe em seguida partiriam de volta às Minas Gerais. O motivo que me trouxe ali, ser menos um às despesas lá de casa, surgiu à minha mente e não titubeei. Fiquei firme. Mostraria à mamãe a minha grande satisfação em estar estudando, mesmo que longe deles. Subi ao alojamento e me aparamentei de jogador. Tudo novinho, calção, camiseta e chuteiras com meiões que iam ao meio das coxas. Mostrava-me eufórico, vibrante. Despedi-me de papai e de mamãe que já não escondia as lágrimas. O reitor indicou-me a direção do campo. Teria que subir o morro detrás do grande galpão e seguir pela estrada que iria me levar ao ambiente dos esportes. E assim fui às carreiras.
Já alcançada a estrada apontada pelo superior, acima do telhado do galpão dos banheiros procurei uma brecha para ver, dentre o farto bambuzal, papai e mamãe que já se afastavam na charrete em direção à saída da fazenda. Em segundos perdi-os de vista. A pseudo-euforia não mais era necessária. Sentei-me no colchão de folhas secas. Escondido e sozinho de todos chorei copiosamente a minha primeira grande perda.



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Fuga - por Alba Vieira

Escotilha para o futuro, o “surto”
Quando minha mente vagueia solta
Para além do que, hoje, posso e sou,
Liberta-me da mesmice dos dias
E traz no desvario das atitudes
A fertilidade, a possibilidade, o impulso.

Já não me cabe o espartilho
Que imobiliza, nem a conveniência.
Melhor a verdade, o incômodo provocador
Daqueles que, a todo custo, sabem
Que ainda que pareça tarde,
Sempre existe uma saída, a demência.



Visitem Alba Vieira
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Maná da Seca - por Ana

Desciam os abutres das nuvens
Em voos rasantes sobre nós:
Fileira crua de retirantes,
Muitos passos, nenhuma voz.

Só há um caminho à frente
Indo sei lá pra onde,
Vindo de lugar nenhum,
Talvez onde a morte se esconde.

Da convivência com ela
Tanto tempo, sem descanso,
Estamos a arriscar
Aportar em outro canto.

O que buscamos não sei,
Acho que aqui ninguém sabe...
Tantos dias sem comer,
O pensar já não nos cabe.

Andamos para outro lugar
Buscando apenas distância
De momentos entristecidos
Que dizimaram a infância

De um vilarejo esquecido
Entre o vazio e o nada,
Formado por alguns casebres,
Sem vegetação ou estrada.

Por isto não foi difícil
Abandonar o abandono,
Seguir para outro destino
Dentro do mesmo longo sono.

Sono perpétuo sem sonhos,
Sono que nos leva alhures,
Sono enviado da morte
Para alimentar os abutres.
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João Cabral de Melo Neto in Morte e Vida Severina - Citado por Escrevinhadora

(...)
mas se responder não pude a pergunta
que fazia
ela, a vida a respondeu, com sua resposta viva
e não há melhor resposta do que o espetáculo
da vida
vê-la desfiar seu fio que também se chama vida
ver a fábrica que ela mesma, teimosamente se
fabrica
vê-la surgir como há pouco, em nova vida explodida
mesmo que seja pequena a explosão, como a ocorrida
mesmo que seja a explosão de uma vida Severina
(...)



Sequência de “João Cabral de Melo Neto in Morte e Vida Severina”, de Raquel Aiuendi.
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Visitem Escrevinhadora
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Carlos Drummond de Andrade, “O Mundo é Grande” - Citado por Raquel Aiuendi

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Alba Vieira

Este foi um dos primeiros textos bem-humorados que a Ana colocou no blog. Adorei pelo final surpreendente e como ela, tranquilamente, conduz o pobre leitor por uma narrativa muito séria, densa e, no final, joga aquele fato inesperado. Muito bom!



PERDÃO
(ANA)

Não me venha pedir perdão em japonês. Encara. Fixe os olhos em mim e emita palavras audíveis na minha língua. Esse negócio de monossílabos nipônicos não é comigo. Seja homem e tente ter um pouco de coragem. Recolha os cacos da sua hombridade e veja se dá pra montar um mínimo de caráter. Admita seu erro e conserte as coisas. Você sabe que eu entendo, que não julgo e nem condeno, mas odeio desrespeito comigo. Pode se retratar que eu desculpo. Mas, da próxima vez, não use meu vestido sem pedir.
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Corrente - por Alba Vieira

Conecta
Oração
Riacho
Reprime
Enlaça
Numinoso
Travessia
Enfeite




Visitem Alba Vieira
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Doeu? Eu Faço! - por Daisy

E hoje doeu, doeu fundo. Feriu meu mundo. Nas mesas do restaurante, poucos casais, mas muito distantes. Sequer um olhar... Dar a mão? Nem pensar! Entre uma e outra garfada, nenhuma palavra trocada. Coisa mais sem graça! Que vida é essa, sem conversa, nem promessa? Tudo às avessas! O garçom vai e vem, tenta, intervém. Mas qual o quê? Nada se vê. O jantar acaba. Acontece nada. A vida continua, nua, crua. A rotina impera, severa. Que fera! Mas, amanhã será outro dia! Com certeza, sem poesia, mas com muita melancolia. Oh vida vazia!



Inspirado por Marcelino Freire
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Visitem Daisy
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Augusto dos Anjos e “A Caridade” - Citado por Penélope Charmosa

No universo a caridade
Em contraste ao vício infando
É como um astro brilhando
Sobre a dor da humanidade!

Nos mais sombrios horrores
Por entre a mágoa nefasta
A caridade se arrasta
Toda coberta de flores!

Semeadora de carinhos
Ela abre todas as portas
E no horror das horas mortas
Vem beijar os pobrezinhos.

Torna as tormentas mais calmas
Ouve o soluço do mundo
E dentro do amor profundo
Abrange todas as almas.

O céu de estrelas se veste
Em fluidos de misticismo
Vibra no nosso organismo
Um sentimento celeste.

A alegria mais acesa
Nossas cabeças invade...
Glória, pois, à Caridade
No seio da Natureza!

Cantemos todos os anos
Na festa da Caridade
A solidariedade
Dos sentimento humanos.
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João Cabral de Melo Neto in Morte e Vida Severina - Citado por Raquel Aiuendi

(...)
Os rios que correm aqui
têm água vitalícia.
Cacimbas por todo lado;
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira.
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
(...)
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Clarice Lispector: “A Lucidez Perigosa” - Citada por Alba Vieira

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.

Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.

Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.



Nota de Alba Vieira
Destaquei este texto da Clarice como demonstração do quanto ela sempre foi antenada, dizendo coisas que alcançava através de suas vivências e que hoje muitos podem ter acesso através dos textos de metafísica.
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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Grande Inauguração!

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Hoje estamos inaugurando a categoria
“Apenas ContaGio”
que irá ao ar todas as quintas.
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Mais um imperdível!
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Canto Solitário - por Gio

Sentindo um aperto ao coração
Pedindo p’ra do peito extravazar
Aos poucos, vai tomando seu lugar
Um tormento chamado solidão

É dor que dilacera sem doer
Vazio que enche o corpo sem demora
E a alma, entorpecida, perde a hora
Vê o pôr do sol até no amanhecer

É ingênuo quem fala em liberdade
Pois se vê que não tem intimidade
Com essa dor e suas sensações

Quem conhece de fato esse pesar
Sabe que a solidão pode virar
A pior e mais cruel das prisões



Visitem Gio
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As Nossas Palavras XII - por Clarice A.

Tinha um hábito adquirido na infância que achava muito engraçado. Era o rei das perguntas indiscretas.
Cresceu e não percebeu que o que entre crianças era aceito, agora entre adultos tornara-se desagradável. Divertia-se com as “saias justas” que provocava com suas indiscrições. Alguns fugiam dele como o diabo foge da cruz, mas tudo isso só servia para reforçar seu hábito. Não era como os outros, era isso que o tornava diferente e ele gostava. Até os foras que levava tirava de letra, eram os ossos do ofício. Era aceito apesar disso porque tinha lá suas qualidades: solidário, divertido, sempre bem-humorado, mas quando começava com suas perguntas indiscretas era um horror.
Um dia (e sempre tem um dia) um de seus amigos, já cansado daquilo, resolveu dar-lhe uma dose de seu próprio remédio e fez-lhe uma pergunta, assim na lata, que o deixou completamente desbundado. Queria como resposta apenas um sim ou não. A pergunta referia-se a um acontecimento que ele guardava para si a sete chaves e nunca imaginara que mesmo seus amigos tivessem conhecimento de tal fato. Sentiu uma sensação que nunca havia experimentado enquanto perguntava para si mesmo como o outro soubera daquele assunto tão protegido por ele e, se o amigo sabia, quantos mais também saberiam? O amigo insistiu: sim ou não? Ele mentiu ao responder, disse não, o sim que era a resposta correta doeria demais nele.
Aquele dia foi um marco na vida dele. Sentiu-se tão mal, mas tão mal!... Como o seu amigo podia ter-lhe feito uma pergunta daquelas?
Ficou encasquetado vários dias, não parava de pensar naquilo. Decidiu perguntar ao amigo o porquê de tal atitude. Puxa, amizade de infância, pegou pesado, então o amigo não percebeu que o deixou sem graça, e pior, ainda insistiu na resposta? O amigo respondeu-lhe calmamente: mas você fez isso a vida toda, tantas vezes, com todos, nunca percebeu os constrangimentos que causava com suas perguntas? Sempre se achava engraçado e nem ouvia quando falávamos que tinha exagerado?
Mais encasquetação. Precisou de meses para digerir tudo, hábito muito arraigado para ser descartado rapidamente. Fez uma auto-análise, coisa difícil, é preciso admitir para nós mesmos o nosso lado escuro, destrutivo, e pior: ainda tendo os outros como alvo. Em seus flashbacks as expressões faciais após suas perguntas já não pareciam tão engraçadas como havia achado anteriormente. Procurou ser o mais verdadeiro possível em suas análises, afinal, ainda havia algo que lhe incomodava profundamente: havia mentido e uma das coisas que admirava em si mesmo era justamente não ser mentiroso.
Enfim, após esse terremoto interno que sofreu (assim sentia tal a força de sentimentos e pensamentos revezando-se em seu íntimo) decidiu: perguntas indiscretas nunca mais. Sabe que hábitos antigos são difíceis de mudar, mas é só lembrar os maus bocados que passou que, com certeza, a pergunta pode até ser pensada (ninguém é de ferro...), mas formulada jamais.
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Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Clarice A.

Gostaria de indicar como inesquecível o texto da Alba “Mães Possíveis”, que nos coloca como somos, pessoas reais, normais, cuja idealização só dificulta o relacionamento. O título já fala por si.



MÃES POSSÍVEIS
(ALBA VIEIRA)

Veio à minha mente a seguinte conexão: mãe-guardiã. Pensei no significado de ser mãe. Que complexidade! Que multiplicidade de formas de ser! Como vai além do estereótipo vinculado às campanhas comerciais! Que responsabilidade é ser mãe! Quantas cobranças! Que o digam os que frequentam consultórios de psicanalistas. E como é simples ser mãe deixando-se conduzir apenas pelo instinto!
Mãe é a que concebe, a que geralmente gesta, a que cuida, a que forma, a que guarda e protege (ou deveria). Cabe aos pais, à mãe, em particular, guardar o filho até que ele possa caminhar sozinho pela vida. E, neste aspecto, persiste a diversidade, cada filho tornando-se capaz no seu próprio tempo.
No seu dia as manifestações de apreço se multiplicam, seus valores ficam enaltecidos, a emoção transborda naqueles que contam com suas mães a seu lado e naqueles que a perderam por morte ou afastamento de qualquer tipo. E falam delas como se todas tivessem apenas aspectos positivos. E onde ficam a mágoa, o rancor, a rejeição, a omissão, a maldade, as perversões e tantas variáveis que fazem parte do humano? Porque cada mãe é de um jeito. E todas têm o direito de ser o que são nesta vida de aprendizados. Por que não concebê-las dentro da realidade de cada uma, ao invés de endeusá-las? Até porque a categoria mãe está intrincada numa teia complexa das relações humanas regidas por suas leis naturais, entre elas a de causa e efeito.
Entretanto, quando se fala de mãe, é certo que se acende em nós um grande letreiro luminoso onde se escreve AMOR. E a mãe de cada um expressa este amor dado em abundância, restringido, negado. Seja o que for, no fundo é amor.
Então não seria melhor, ao invés de idealizarmos, dificultando a relação, aceitarmos a mãe que temos, compreendendo, tentando perdoar, adorando, agradecendo de joelhos por ela, engolindo, caminhando ao lado, relevando, odiando, mantendo longe, substitindo etc., todas estas coisas juntas ou separadamente?
Todas as mães são importantes nas vidas dos filhos, mas nem todas são apenas anjos ou demônios. São humanas em toda a sua complexidade e diversidade. Há as que têm vocação para corresponder ao estereótipo, há as que são o oposto dele, há as que grudam nos filhos e exageram, há as que são distantes e omissas, há as chatinhas, as malvadas, as inúteis, as desajeitadas, as competidoras, as depressivas. Há tantas que não caberia aqui citá-las.
Mas para todas elas, as que trouxeram o filho à vida, as que cuidaram e criaram, as substitutas, as de consideração, aos pais-mães, a todos que representam esta categoria, cabe o respeito de todos nós.
E, certamente, cada um de nós, neste dia, terá a quem dedicar o amor e agradecer por ter honrado o título de mãe em sua vida.
Parabéns a todas as mães possíveis deste planeta.
Que possam ter sempre a liberdade de apenas ser.
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Visitem Alba Vieira
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Convite - por Rodrigo de Souza Leão

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Agora - por S. Ribeiro

Mesmas até as palavras novas se
tornam depois de dois dias, os poemas finais e as elegias também; qual o valor do vento ou da
compreensão entre os homens depois desse
tempo, passado dentro dum pedaço torto de
um homem qualquer.

Em buscar os valores para o
deleite idiota, me perturbo, mas não
quero a mim, quero que nos perturbemos; podre e
vazia está minha órbita, por ser
minha, por ser órbita.

Queria falar-vos de amor, mas, vejam só o
quanto a boca espumaria o esquecimento e o
bom senso, lembremo-nos do inevitável instante, em que o mundo gira e a voz seca, e não há
algo para segurar.



Visitem S. Ribeiro
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Chinelos, um Pulo para o Amor (Parte I) - por vestivermelho

Saí da piscina e fiquei um pouco sentada para me secar, fiquei com uma sede... Coloquei a toalha enrolada na cintura e os chinelos...
Cheguei ao barzinho para pedir uma água... pensei uma cerveja, porque não...
Tomei o primeiro gole e me senti bem... mais um gole, nossa, estava muito boa...
Tomei saboreando, fazia tempo que não tinha esse prazer...
Pedi mais uma... chegou uma pessoa do meu lado.

- Posso me sentar ao seu lado?
- Pode.
- Está um calor... somente uma gelada para matar a sede.

Sorri e continuei a tomar com prazer...

- Há pessoas que não percebem o que estão fazendo, acho que estão distraídas...
- Sim, há pessoas que são muito distraídas.
- Acho que já te vi aqui algumas vezes, vem sempre aqui?
- Quando tenho tempo, sim. O calor, a piscina, esse sol maravilhoso nos convidam à boa vida.
- Sim... a boa vida.
- E você, vem sempre?
- Quando tenho tempo sim.

Sorriu e vi que tinha um sorriso lindo...

- Marco.
- Helena.
- Helena, prazer.

Tomamos a cerveja em silêncio.

- Tenho que ir, vou procurar meu chinelo, sumiu.
- Sumiu?
- Sim, achei esse, mas veja a cor...
- De fato não combina com você.

Um chinelo feminino na cor rosa... olhei melhor e vi... era meu chinelo... olhei para meus pés, que vergonha... era um chinelo de homem, tinha que saber que não era meu pela cor e tamanho... tentei esconder meus pés... mas com certeza ele já tinha visto.

- Estou com vergonha...
- Vergonha do quê?
- Olha...

Coloquei meus pés na frente dele.

- Que belos pés.

Fiquei com mais vergonha, pedi mais uma cerveja.

- Vamos repartir ela?
- Sim, acho que já tomei demais...
- Vamos trocar?
- Trocar o quê?
- Emails, fones, chinelos...

Levantei rápido e quase cai. Ele me segurou e não me largou mais...



Visitem vestivermelho
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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Esboço - por Leo Santos

Não há forças em meu argumento,
aliás, nem argumento, em minha fraqueza;
o espelho lança em rosto o tempo,
e este arremessa, no regaço da tristeza…

Tardio sangrar estético, perdido,
surpreende, não ter escoado tudo;
entre destroços, um último vagido,
depois sem gestos, inerte, mudo.

O Fado verdugo e o último pescoço,
saciando a sede de seu machado;
tolhendo um pulso que foi só esboço,
de um triunfar não consumado.

Animal que vegeta, portanto, radicado
à taça da sina, e sua overdose;
mercê de um deus grego mal-humorado
que urdiu a clausura, da metamorfose…

Mas Deus não é grego, aliás, sou ateu,
daqueles que abonam obras injustas;
portanto Ele pode, Ele, que é Deus,
restituir os anos, que comeu a locusta...



Visitem Leo Santos
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As Nossas Palavras XII - por Alba Vieira

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Nunca diga sim para perguntas indiscretas, pois, às vezes, as respostas podem ser constrangedoras.



Visitem Alba Vieira
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As Nossas Palavras XII - por Gio

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PERGUNTAS E RESPOSTAS


Perguntas que não calam
É verdade? Quer dizer...?
Respostas que não falam
Mais ou menos! Vai saber...

Perguntas indiscretas
Como? Quando? Vai contar?
Respostas bem diretas
Nunca! Às vezes! Vai pastar!

Perguntas incisivas
Quem foi? Quando aconteceu?
Respostas evasivas
É segredo... Não fui eu!

Perguntas floreadas
Pra sempre? Até o fim?
Respostas decoradas
Pra sempre! Aceito! Sim!

Perguntas engraçadinhas
Já te disseram...? E vai rolar?
Respostas nas entrelinhas
Ai, que enxaqueca! Me encontre lá...

Perguntas inevitáveis
Qual o sentido? Em que se crer?
Respostas intermináveis
O Céu! A morte! Sonhar! Viver!
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Visitem Gio
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Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Lélia

Quando li esta poesia aqui no Duelos achei tão emocionante! É linda, sensível, muito bonita e carinhosa. Vale a pena ler de novo!



DANÇA DOS CHINELINHOS
(ZAIRA)

Os chinelinhos andavam
da sala até a cozinha;
na cozinha volteavam,
formando estranhos desenhos
de estrelas e sóis distantes;
depois, à sala voltavam,
iam, vinham, sem cessar
para o seu baile dançar
e decorar de mansinho
os passos desse caminho
que andavam sem tontear;
os chinelinhos travessos
quase viravam no avesso,
marcando os passos do mundo
imenso e tão limitado...
os chinelinhos à esquerda,
à direita os chinelinhos,
bem firmes, depois, no centro,
a esperar e a buscar;
os chinelinhos dançavam,
deslizavam, escorregavam,
os chinelinhos viviam,
os chinelinhos cansavam,
os chinelinhos gastavam,
e nas idas e nas vindas
de sua andança no chão,
os chinelinhos morreram
e, sem querer, imprimiram
na última volta que deram,
a marca de um coração...
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Convite - por Rodrigo de Souza Leão

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SIMPOESIA 2009

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Experiência literária de quatro dias que reunirá poetas e críticos literários do Brasil e exterior, além de uma feira de editoras independentes de poesia do Brasil e Argentina promovida pela revista Grumo.
Um encontro que envolve a troca de idéias, a exposição da diversidade intelectual e o intercâmbio artístico e cultural entre diversas expressões da poesia contemporânea.

Curadoria Virna Teixeira
Realização Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo
Produção Casa das Rosas e Organização Social POESIS de Cultura
Patrocínio Instituto Cervantes, Consulado do México e Centro Cultural da Espanha em São Paulo


PROGRAMAÇÃO
4/6
19:30h
Apresentação. Abertura do evento.
20h Recital com Horácio Costa, Maria Esther Maciel, Micheliny Verunsck, Alfredo Fressia, Virna Teixeira
21h Show “Polivox” com Rodrigo Garcia Lopes. Lançamento da revista de poesia mexicana La Outra
Local Casa das Rosas

5/6
19:30h Debate com Gustavo López, Virna Teixeira e Vanderley Mendonça (Editoras Independentes de Poesia). Mediação: Paloma Vidal.
21h Recital com Rodolfo Hasler, Rodrigo de Haro, Efrain Rodrigues Santana, Luís Serguilha, Victor Sosa. Após o recital haverá o lançamento da revista Grumo.
Local Instituto Cervantes

6/6
COLÓQUIO - POETAS DE LÍNGUA INGLESA
14:30h
Debate “Brazilian poetry in translation” com Steven Buttermann, Stefan Tobler, Flávia Rocha e Rodrigo Garcia Lopes.
16h Palestra “Language poetry”. Professor William Alegrezza.
17h Palestra “Editing Contemporary Poetry, Litmus Press Experience” com E.Tracy Grinnell e Julian Brolaski.
18h Recital “Poetry reading” com William Allegrezza, Tracy Grinnell, Julian Brodanski e Stefan Tobler. Recital bilíngue com traduções para o português de Virna Teixeira. Stefan Tobler apresentará traduções do poeta brasileiro Antônio Moura para o inglês.
19h “Poesia: palavra impacto”. Palestra com Frederico Barbosa.
20h Recital com Sérgio Medeiros, Carlos Augusto Lima, Marco Vasques, Silvia Iglesias, Tatiana Fraga, Marcelo Tápia.
21h Show com o grupo de jazz Patavinas.
Local Casa das Rosas

7/6
16h Debate “Poesia, Sadomasoquismo e Diversidade Sexual” com Steven Buttermann, Antônio Vicente Pietroforte e Glauco Mattoso. Mediação: Contador Borges.
17:30h Debate “Poesia e Fronteiras Geográficas” com Silvia Iglesias, Carlos Augusto Lima e Marco Vasques. Mediação: Edson Cruz.
19h Recital com Edson Cruz, Contador Borges, Andréa Catrópa, Luiz Roberto Guedes, Donny Correia, Antônio Vicente Pietroforte, Greta Benitez.
Local Casa das Rosas


ENDEREÇOS
Casa das Rosas (Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Cultura) Av. Paulista, 37 - Bela Vista / Tel. 3285-3986.
Instituto Cervantes Av. Paulista, 2439 (Metrô Consolação).






Contato simpoesia2009@yahoo.com.br
Mais informações: Simpoesia
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Na Terra dos Sonhos - por Alba Vieira

Um dia estava eu andando por uma estrada deserta quando me dei conta de que estava cansada de prosseguir minha vida como vinha fazendo até então.
É que já estava farta de trilhar caminhos conhecidos, sempre o mesmo previsível desenrolar dos fatos, as mesmas pessoas a passarem por mim, as tarefas iguais a desempenhar, a criatividade como meta a ser alcançada depois.
Depois de quê? Será que haverá depois para quem se perde no agora? É possível esperar indefinidamente para ser o que se pensa que é sem correr o risco de ir amofinando, amarelando, desaparecendo do mesmo jeito que essa esperança vã que é o destino dos tontos que se aferram à realidade esquálida e sem sumo do cotidiano?
Estar ali, só, como há muito tempo não me acontecia, me deu ensejo a marcar um encontro com essa eu que tinha o costume de postergar o que era importante. Queria há tempos dizer a ela umas verdades. Quem sabe poderia compreender que tanta responsabilidade, tanta necessidade de segurança não combinava definitivamente com alegria de viver, espontaneidade e deslumbramento. E mais, teria que saber, sua rigidez quadradinha só atrapalhava às outras: ousadas, confiantes, autênticas, que habitavam o mesmo corpo.
Ela me ouviu, eu acho. É que, inexplicavelmente, senti um sopro diferente dentro de mim. A coluna endireitou, o peito se abriu, as juntas se soltaram, estava mais leve e, ao mesmo tempo, tinha ficado mais dona de mim. E brilhava, sentia uma corrente passar por mim e meu coração expandido numa alegria sem motivo. Sorria um sorriso puro, pra ninguém, continuava só, andando na mesma estrada.
Caminhava um passo após outro, em frente sempre, no mesmo ritmo, num estado de tal alheamento que aos poucos percebi que subia na diagonal, tornando-me cada vez mais leve, fora de mim.
Fechei os olhos e me deixei ir por um momento, que me pareceu infinito em seu significado, mergulhando numa realidade que não havia antes experimentado.
Eu era todas e nenhuma. Era unicamente luz. Vibrava o que sabia ser amor, estava preenchida, ligada a tudo, eu era tudo, nada pensava, estava no vácuo. E pela primeira vez eu era.



Visitem Alba Vieira
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Grito Inaudível - por Duanny

“Porque entre meu desejo descabido de paixão ardente e minha alma muda de juízo, há um coração patife, que não sabe o que faz.

Porque entre aquele meu sorriso encabulado e sua voz sufocante há o doce perigo do inevitável. É, querido, você anda fazendo estragos por aqui, e só eu sei como.

Sinto-te com o gosto do pecado, fruto proibido do inexistente, e isso é salgado - salgado feito a lágrima que há algum tempo rolou em minha face e secou por causa do desprezo, salgado como o mar que me engoliu e me puxou para a escuridão e a frieza do rancor, porém ele também é amargo, amargo feito choque de ser sugada para a realidade do clichê.

Porque entre o desejo desse coração patife de ser preenchido e sua vontade de amar e me virar do avesso, está meu orgulho, cruel e rasgado, permanentemente despido, que costura os lábios da minha paixão e deixa meu coração mudo, incapaz de gritar seu nome.”



Visitem Duanny
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Ferreira Gullar e “Os Mortos” - Citado por Penélope Charmosa

os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
........certas sinfonias
.....................algum bater de portas,
........ventanias

.............Ausentes
.............de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
.............se de fato
.............quando vivos
.............acharam a mesma graça
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terça-feira, 26 de maio de 2009

As Nossas Palavras XII

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Wordle: As Nossas Palavras XII
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Clique na imagem para ampliar.
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Imagem: Wordle
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Napoleão Bonaparte em As Nossas Palavras XI - Citado por Adhemar

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Do sublime ao ridículo não há mais que um passo.


Visitem Adhemar
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Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Dália Negra

Estas palavras me trouxeram a realidade de uma pessoa que está no final de suas forças, que já lutou muito e agora não vê mais possibilidade de reagir. É a desesperança muito bem definida e descrita. É profundo, tocante.



CHOVE FINO
(ANA)

Chove fino.
Caem gotas leves sobre minha alma de barro seco,
que não conhece flores há muitos anos.
Arrasto-me dolorida, sem erguer os pés nos passos inchados,
as roupas em trapos, encardidas pela aridez de minha paisagem interior
que suga a luminosidade da janela sem êxito.
Quando choro não umedeço,
é apenas a vazante de um rio subterrâneo que,
na superfície, secou faz tempo.
Minha pele é de camaleão, opaca,
confundida com os dias amarelentos.
Sabor de giz na língua, saliva grossa de sede,
cabelos de quem não se vê no espelho.
Não mais rimo a dor com outros sentimentos.
Sofro em uma depressão longa,
da qual não se vê o final no horizonte estéril.
Sigo em frente, sem lágrimas,
sem dor no coração, porque o desconheço.
Que é de mim? Não lembro...
Há tempos tive sonhos, hoje não durmo.
Meus olhos seguem duros por sobre o isolamento,
fixos em frente, sempre, fiéis à direção de meus passos involuntários.
Quero cair, prostrar, esquecer...
morrer sob um céu que não protege.
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Déjà Vu, Shintoni? - por Ana

No dia nove de maio,
O amado anfitrião
Inaugurou aqui o chat.
Pra mim, a maior emoção!

Poder conversar ao vivo
Com o nosso pessoal!
Pensei: “Valeu, shintoni!”
Que ideia genial!

Digitei, logo, feliz:
“Oi, galera! Tudo bem?”
Fiquei aguardando resposta,
Não apareceu ninguém.

O chat era muito esquisito
Ficou parado um tempão...
Esperei novas mensagens...
Não veio nenhuma não.

Olhava fixamente.
Nada dele se mexer...
Até que cansei daquilo,
Resolvi reescrever.

Mandei: “Tô aqui, meu povo!”
Surgiram mensagens novas
Junto com a reinvestida.
Entendi!... Passei na prova!

O troço não rola sozinho,
Temos que “Actualizar”!
Deve ser de Portugal...
Ou será de outro lugar?

Passada a primeira fase
Fiquei otimista! Pudera!
Já sabia o que fazer
Pra conversar com a galera.

Então danei a escrever:
“Ô, gente! Ó eu aqui!”
Mas ninguém me respondia
E vis. today a subir...

Eram 1, 2, 3 on line,
Eu nas mensagens de “Oi!”,
“Toc toc”, “Tô aqui!”,
“Mais um que veio e já foi...”.

Foi então que percebi
Que seria muito bom
Pra todos nós, do Duelos,
Que na caixa houvesse som.

Então em hilária conversa
Com a grande amiga Fatinha
Iniciamos protestos
Pedindo som pra caixinha.

Foi nessa conversa que eu disse
Que o chat que temos aqui
É de 1960,
“Actualiza, shintoni!”

Mas quando o Bruno chegou
Defendendo o anfitrião,
Os ânimos arrefeceram,
Abafou-se a rebelião.

Ato contínuo, na caixinha,
Veio ovação de Fatinha,
Ardorosa: “Hei! Hei! Hei!
Shintoni é nosso rei!”

Propusemos homenagem
Em régio cerimonial
De coroação nipônica
No Palácio Imperial.

Por aí cê pode ver
Como está o seu prestígio.
Foi apenas brincadeira,
Não é questão pra litígio...

Se te ofendi, shintoni,
Peço desculpas... Afinal,
Às vezes me excedo um pouco(?),
Mas acho que isto é normal

Diante da frustração
De não falar com niente...
Eu ficava só no vácuo,
Extremamente descontente...

Aí você me dá bronca
No post, mas... Ora, bolas!
Dá pra gente combinar?
O chat não toca e não rola!!!

Sei que você não é Raquel,
Mas também judiou de mim...
Desta vez não sou Abel,
Mas te digo: “Caim, caim...”



Referências: “Sobre o Chat”, de shintoni; “E Caim Matou Abel...”, de Ana.
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Manual de Instruções - por Fatinha

Querido Brógui:

Elaborei um brevíssimo manual de instruções para o envio de mensagens pela internet. Tenho certeza de que muitas das minhas regrinhas pessoais vão de encontro ao que você sempre quis dizer e nunca teve coragem.

Regrinha nº 1: não mande mensagem dentro de mensagem dentro de mensagem dentro de mensagem dentro de mensagem dentro de mensagem… É chato pra cacete e quem recebe fica com cãibra no dedo de tanto abrir anexo.
Regrinha nº 2: não mande corrente. De nenhuma espécie. Corrente foi feita pra ser quebrada. Comigo funciona assim: foi corrente, eu quebro, eu tô aqui pra isso mesmo. Se minha salvação está condicionada a repassar essas mensagens, acho que o capeta já tem uma cama bem quentinha pronta pra mim lá nas profundezas.
Regrinha nº 3: não mande slides com fotos artísticas de pôr-do-sol, fundo musical de saxofone, aquelas letrinhas caindo uma por uma bem devagarinho e a velha lenga-lenga de que a vida é linda, eu amo você, Deus é dez. Putz, todo mundo sabe que a vida é linda, seu amigo também ama você e Deus é dez mesmo, mas essas mensagens fazem a pessoa desejar a própria morte, odiar você por quase um segundo e questionar a existência de Deus.
Regrinha nº 4: quer que seu amigo compartilhe com você sua última viagem, quer que veja como suas crianças são lindas, como foi a festa no seu trabalho? Mande uma foto, talvez duas, mas não mais que três. Não precisa descarregar a maldita máquina digital inteira!
Regrinha nº 5: não mande nenhum texto com mais de dez linhas. Ninguém vai ter saco pra ler. Em tempos digitais, agilidade na informação é tudo. O texto é bom mesmo? Então faz um favor: resuma e seu amigo lhe será eternamente grato.
Regrinha nº 6: não mande vídeo de pegadinhas. Não tem menor graça ficar rindo à custa do outro. Se fosse comigo, quando o cara começasse a rir dizendo que era brincadeirinha, tomava logo um murro pra acabar de rir sem os dentes da frente.

Pronto. É só isso. Fala a verdade: minhas regrinhas até que são bem razoáveis, não?



Visitem Fatinha
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Albert Camus in “O Mito de Sísifo” - Citado por Penélope Charmosa

Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. “Acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe.
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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Sobre o Chat

Queridíssimos amigos:
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Há algum tempo venho lendo no chat reclamações a respeito da falta de “som na caixa”.
Devo esclarecer: desde que, no Terra, mudaram a versão (e lá se vão alguns meses),
venho procurando um chat para incluir no Duelos.
O único que encontrei foi este que, reconheço, não atende às nossas necessidades plenamente por não rolar automaticamente e não constar de aviso sonoro (mas não é versão 1960, ok?).
Esclareço, ainda, que continuo a busca por uma versão mais funcional.
Assim que encontrá-la, efetuarei a substituição.
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A quem ainda não se acertou com o chat:
- após abrir o Duelos, clique no “Actualizar” na caixa do chat ou F5, para ver se há novas mensagens;
- se quiser enviar mensagem, é só digitar seu nome no espaço existente abaixo de “[Get a Cbox]”,
digitar a mensagem onde se lê “Mensagem” e clicar em “Enviar”.
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Um enorme abraço a todos.
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Entardecer - As Nossas Poesias XV

Cai o véu da noite devagar...
Acalmando o mundo sem saber.
Caprichoso, enfeitando o céu até o amanhecer;
Silencioso, receoso de a luz da tarde assustar;

Vaidoso, desfilando seus bordados prateados;
Generoso, lua cheia iluminando meus caminhos.
Pássaros de volta a seus ninhos,
Casas recebendo pés cansados.

Pela encosta da montanha, lentamente
Escorrega, sedoso, o véu da noite.
Saindo, láctea, de trás do monte,
A beleza de uma Artemis sorridente.

As famílias novamente reunidas
Após o dia de trabalho ou estudo
Vivem, cada uma o seu mundo,
E enamorados enlaçam suas vidas.

E se paras, um dia, para admirar
A plenitude de um céu estrelado,
Observa as estrelas com cuidado
E aprenderás de novo a sonhar!





Poesia criada por Alba Vieira, Ana, Escrevinhadora, Gio e Clarice A.
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Diversidade - por Alba Vieira

Grão de areia pequenino,
Rochas, montanhas, vulcões,
Lagos, mares, oceanos,
Florestas, campinas, sertões,
Brisa, ventos, tornados,
Terremotos, tsunamis, trovões,
Asteróides, cometas, estrelas,
Maremotos, relâmpagos, monções.

Universo que se manifesta
Em tão variadas facetas,
Ensina-me, natureza, a esperar
Da vida só iniquidades
E, da criação, falsetas.



Poesia cujos título e primeiro verso foram utilizados para a versão coletiva Diversidade - As Nossas Poesias XIV.
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Visitem Alba Vieira
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Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Alba Vieira

Inesquecível porque belíssimo e verdadeiro. Ana, com seu jeito terno e carinhoso, atinge em cheio a criança que precisa ser curada dentro de cada um de nós, despertando a capacidade que possuímos de lidar com as dores do passado para que sejamos mais livres e felizes. É altamente terapêutico. Valeu!



SE MINHA CRIANÇA SOFRE...
(ANA)

Os receios de criança
que persistem em nossas vidas
são lixos a jogar fora...
Vide a estrada percorrida:

seu corpo cresceu, mudou,
você amadureceu
em outros tantos aspectos
dentro do seu próprio eu;

passou por problemas diversos
com coragem os enfrentou;
sofreu com tristezas, perdas...
e com força as encarou;

cresceu profissionalmente
às custas do próprio valor;
ajudou tantas pessoas
com carinho e com amor.

Foi crescendo no tamanho
sem perceber que, a seu lado,
há uma menina pequena
que precisa de cuidado

e arrasta, pesadamente,
com as pequenas mãos feridas,
temores, medos, pavores
que lhes dificultam a vida.

Por vezes ela te domina
com seu pessimismo aprendido,
isto arrasa a alegria,
faz tudo perder o sentido.

Ela não pode influenciar,
você nela não deve crer;
pare, adulta, para ouvi-la,
para que ela possa viver

leve, como veio ao mundo,
alegre, feliz, satisfeita,
risonha e brincalhona,
uma criança perfeita.

Coloque a menina no colo,
cuide dela, beije, abrace,
console, acalente, sorria,
olhando-a face a face.

Diga que tudo passou,
“Das tristezas cuido eu,
cuido das dificuldades,
cicatrizo onde doeu”.

A ela cabe sorrir,
confiar na sua ação
assertiva nos momentos
em que lhes faltar o chão.

Diga a ela que aqui,
nesta terra de humanos,
há problemas, coisas boas,
sortes e desenganos,

mas que você constrói os dias
da melhor forma possível:
semeando alegrias,
afastando o que é terrível.

Se bobagens vêm à porta,
entrando sem permissão,
você cuidará de tudo,
pois esta é a sua função.

Que você sabe, convicta,
que cada pessoa uma vida;
as dores que são dos outros
não pertencem à sua lida.

Que você ajuda, se pode,
apóia, se for aceita,
colabora, tão amiga,
não faz corpo mole, não “deita”.

Mas que se algum mal surgir
dizendo respeito a vocês,
ela estará protegida
em seus braços, desta vez.

Desta vez e em outras tantas,
sempre que precisar,
pois adultos são pra isso:
defender e amparar.

Diga a ela que crianças
não devem se preocupar,
diga que não faz sentido
e explique, pra confirmar:

“Por que vai se preocupar
se o caso tem solução?
E por que se preocupar
Se é sem resolução?

É coisa tão sem propósito,
isto de preocupação...”
Esclareça a garotinha...
Acalme seu coração...

Depois de tranquilizá-la
com todo afeto e calor,
faça uma coisa por ela,
definitiva, por favor:

desembarace a pequena
da tristeza do seu fardo,
jogue fora, de uma vez,
aquele lixo pesado.

Libere as suas mãozinhas,
cuide de seus ferimentos,
trate bem sua criança
e use bastante unguento.

Depois de passado um tempo,
quando ela estiver curada,
toda boba, saltitante,
sentindo-se tão amada,

agradecendo com olhares,
te esticando os bracinhos,
pedindo colo, dengosa,
quando cansar no caminho,

te fazendo mil gracinhas,
sorrindo o tempo inteirinho,
te afogando em abraços,
te enchendo de beijinhos...

chame-a pra, com você,
novo hábito iniciar:
passar os dias da folhinha
sem temer o que virá.

Assim seguirá a vida,
mais tranqüila, finalmente,
envolta em felicidade
e segurança... plenamente.
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Solteira Inveterada por Água Abaixo - por Alba Vieira

Sonho com vagas longas que calmamente chegam e vão outra vez, num movimento cadenciado de renovação. Há, ainda, no meu sonho, um caminhão, daqueles com escadinhas na parte traseira, onde os moleques se penduram para pegar carona de bicicleta, que entra nas águas verde-claras e é seguido alegremente por uma pessoa conhecida minha, a mais sonhadora e fora da realidade que eu já vi. Os dois, caminhão e mulher, entram nas águas. Essa visão me diz algo que ainda não consegui captar totalmente. Entretanto, sei que essa imagem vai me acompanhar por todo esse dia. Não apenas o quadro, mas, sobretudo, o significado mais profundo, o que me faz sentir ao trazê-lo à mente. É uma sensação de conforto, de alívio, de impulso, de amplidão, de fim de filme quando então está tudo bem. Percebo que simboliza aceitar o destino, caminhar em direção à felicidade sem as amarras, os impedimentos que sempre tentam justificar a nossa habitual recusa em evoluir. Assim eu sei que é chegado o momento de ir mais rápido, de crescer e dar frutos nessa existência. Sei que, finalmente, me rendi aos desígnios do destino. Agora, braços dados, casamento ideal,seguem juntos livre-arbítrio e predestinação. Não como dois namorados imaturos que se batem continuamente para, em seguida, trocarem beijos apaixonados de quem pensa que acertou; mas como adultos que caminham de forma segura e integrada, sabendo que o papel que ambos desempenham não é desvinculado um do outro, não se expressam isoladamente, fazem parte de um todo indivisível, absoluto. Essa fusão que não diminui as partes, que expandem num nível além da visão dos sentidos: é o sentido da própria vida, é o poder real que todos almejam.
Como expresso nesse sonho, estou casada, por destino e escolha consciente, demorada, eu bem sei, mas certa. E experimento, agora, um poder bem maior do que sempre tive. Não o poder de andar solta, de ter iniciativas e concretizá-las sozinha, trilhando o caminho que bem escolhesse. Mas o poder de compartilhar que só traz expansão, novas possibilidades e ampliação da área de atuação. E ainda, a maior recompensa: a paz, o tao do amor.
A imagem é bem clara: ir de encontro a algo mais amplo, ao aceitar-se a carona que a Vida nos propõe.
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Visitem Alba Vieira
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Aflição - por Ana

É tarde em meu quintal. O sol queima as roseiras secas que desesperam por chuvas. Dia imóvel, claridade insuportável. Quero frescor, água gelada, inverno antes do tempo. Quero um banho simples que me retire o sol dos poros, filetes d’água que relembrem mobilidade, gotas discretas na penumbra solitária do banheiro. Quero me jogar em algum canto escuro e cochilar os pensamentos insistentes; deixar o tempo passar sem minha presença para que eu possa viver num futuro perfeito. Quero a noite e a manhã amenas e amigas, mais próximas dos dias frios. Não quero queimar, desesperar, conviver com o insuportável sem poder me mover. Quero mudanças, acertos, meu mundo de novo, organizado como sempre foi. Há uma promessa distante, quando ele voltará e estará tudo no lugar. Mas seu retorno só no inverno... Até lá terei que ruminar esta necessidade dependente... da maldita escada para retirar estas infames rabiolas do coqueiro!



Inspirado em Rabiolas, de Raquel Aiuendi.
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José Régio, “Soneto de Amor” - Citado por Penélope Charmosa

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
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O Corpo e Seus Símbolos: uma antropologia essencial, de Jean-Yves Leloup - por Alba Vieira


“Examina o corpo como guia de informações que traduzem a verdade de cada um, integrando os aspectos físicos, psicológicos e espirituais. Mostra como o corpo conta a história do ser: pessoal, interpessoal e transpessoal. Enfatiza que ao considerar a doença e os sintomas, o terapeuta deve propor que o paciente não se identifique com eles e sim procure estar além deles, sendo o sujeito e não o objeto de suas dores. A doença deve ser o guia para o aprimoramento do ser, é a sua mensagem.
É ótima leitura, integrando várias fontes de conhecimento, inspirando novos estudos e correlações.
O aspecto de maior importância é encorajar a leitura do corpo pela própria pessoa, sem desconsiderar as correlações já existentes; mas, como no caso da interpretação dos sonhos, cabe ao próprio fazer a melhor leitura, a mais abrangente e fidedigna.”
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E você? Que livro considera ótimo?
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domingo, 24 de maio de 2009

A Odisseia do Menino Infante e seu Cachorro-quente - por Bruno D’Almeida

De repente aquele menino magrinho se encontrou perdido no meio da praia. Alexsander olhava para tudo e não via nada. Nada além de vendedores de óculos escuros, de água de coco, de picolés e de bronzeadores que besuntavam corpos morenos na areia. Ele via o mar de gente na água, os adultos brincando de frescobol, ele via o mundo passar pela janelas dos seus olhos e não se reconhecia em nenhum rosto, nenhuma paisagem mirava seus pais e sua piscina de plástico azul com peixinhos multicores.

Olhou para o pedaço de cachorro-quente na mão e pensou Papai do Céu, agora só tenho isso para comer pelo resto da minha vida. Fez uma trouxinha com o papel laminado ao redor do seu lanche e o segurou firme como seu talismã da sorte. Apertava com cuidado seu alimento para a alma, a única coisa que lembrava seus pais e a possibilidade de se sentir com eles, de não parecer estar tão sozinho. Minha mãe está aqui comigo, pensava. Nenhuma presença se faz mais concreta do que a lembrança exata de quem mora dentro da gente.

Depois de meia hora sentado e de sentir o ardor do sol na sua pele amarela e fina de pêssego, um casal de idosos vê aquele infante olhando sozinho para o infinito. A pergunta sobre os pais de Xandinho foi seguida de braços abertos e de uma cara de não sei. Partem todos em busca do tão esperado encontro que só precisava acontecer. O garoto começa andar, andar, andar, cansar, cair, levantar, andar, nausear, vomitar, beber uma água de coco e sentar novamente na areia. Vamos levar você para casa e divulgar seu desaparecimento ao mundo, disse a senhora idosa com cara de Dona Benta do Sítio do Pica-pau Amarelo.

Chegou na casa do casal com cara de nunca mais. Nunca mais ia tomar banho de mangueira com sua cachorrinha Nina, que pulava feito louca no vazio do ar e depois se sacudia, distribuindo jatos de água e de pulgas. Nunca mais contaria as estrelas fluorescentes adesivadas no céu de seu quarto, nunca mais comeria bolo-pudim, nunca mais receberia sermões de seu pai por colocar os pés na mesa da sala de aula e de responder à professora com mais e mais porquês. Nunca mais tantas coisas pairavam naquela cabecinha de sete anos, e a velocidade de imagens fluía com a mesma densidade das lágrimas de seus olhos. A única coisa que ele via era tudo que não gostaria de ver.

O velhinho Pascoal, com cara de Visconde de Sabugosa das mesmas histórias de Monteiro Lobato, chamou o menino para o noticiário da tevê. A jornalista relatava o nome e a descrição da criança perdida com o telefone para contato. E aquele aparelho telefônico preto com teclas de disco não era mais apenas um telefone. Era o centro do universo, e seu silêncio ensurdecia os ouvidos da criança que, de tão concentrada com os olhos fixados naquele objeto em cima da escrivaninha de vime, ouvia apenas as vozes da sua momentânea loucura de falar em pensamento frases desconexas. É necessário lembrar que o telefone não tocava. E foi assim durante duas horas e quarenta e três minutos. Tocou. E para tristeza daquela alminha sardenta e dentuça, quando alguém ligou era para perguntar se, caso encontrasse os pais da criança, receberia alguma recompensa. Pascoal devolveu dizendo que não sabia que urubu falava e bateu o telefone.

Engolido por uma camisa listrada de malha piquê e ao lado de um saquinho de supermercado com sua sunga molhada, ele apagou no sofá. Dormia e babava e até em sonhos estava na mesma posição de cão-de-guarda do telefone. E dormindo sentia o tempo passar e despassar. Sentia o vazio de um desejo cheio de desesperança. Sentia a mão fria e sedosa de uma senhora dizendo acorde, meu filho, seus pais ligaram e estão vindo pegar você. Correu até a porta do apartamento e parou de repente. Sentiu falta de si mesmo. Foi até a geladeira, pegou o cachorro-quente embalado com alumínio amassado e cheio de areia e correu até o elevador, onde as portas se abriram para um mundo que por um instante, um eterno momento de instante, parecia não ter fim.



Feliz Aniversário, Jorge! - por Alba Vieira

Hoje é seu aniversário e tantos desejam com você comemorar! É dia de ser feliz, do sol brilhar, de abraços, de beijos, de festa e de alegrias. Mas, a comemoração maior é sua, particular, de louvar tudo que possui de mais precioso: a lucidez, o espírito humanitário, a capacidade de amar, a capacidade de expressão.
Você é um cidadão do mundo, interessado em tudo que acontece nos seus arredores, no seu estado, no seu país, no universo. A globalização tem tudo a ver com você.
É pessoa compassiva que ao longo da vida misturou-se a muitas outras pessoas, muitas vezes responsabilizando-se por suas vidas, sempre ajudando a conhecidos e desconhecidos que surgiram no seu caminho.
Foi chamado à responsabilidade muito cedo e tornou-se a figura do pai amoroso, aquele que acompanha, que instrui, que abre caminhos e, principalmente, dá liberdade aos filhos. Teve oportunidade de ser o pai não apenas dos seus filhos naturais, mas também de tantos que necessitaram de sua orientação e cuidados.
Seu interesse por gente, sua capacidade de observar além das aparências fez com que amealhasse ao longo da sua vida, muitas histórias interessantes que você traz na memória e, de uma forma toda especial, brinda os seus amigos e conhecidos com seu relato apaixonado.
Mas, o aspecto mais interessante de sua personalidade é a abertura para o numinoso. As ocorrências da sua vida têm muito de extraordinário, de espiritualidade manifestada. E, creio eu, isto só acontece com os grandes homens, aqueles que vão deixar sua marca nos corações de tantas pessoas, pois que sua passagem por esta vida, deixa um rastro de luz.
E, esta luz você necessita refletir e o faz, perfeitamente, nas manifestações artísticas. A expressão pela arte embeleza a sua vida e a dos que o acompanham. É um presente para todos.
Parabéns pelo seu aniversário. Encontrar com você nessa vida foi um presente especial. Que você tenha muitos anos para viver perto de todos nós dividindo suas experiências e irradiando a sua luz. Um grande abraço. Felicidades!



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Chuva em Salvador - por Bruno D’Almeida

As chuvas estão muito fortes, alagando tudo e deixando a cidade num inferno. Moro numa região alta e tenho procurado não sair muito daqui. Houve um caso muito triste de uma mãe com uma criança que, ao andarem pela rua alagada, foram sugadas por um bueiro adentrando na rede de esgoto da cidade. Muitas mortes, muitos desabamentos, muita revolta, muita dor e desesperança. Espero que isso tenha fim. Nessas situações, depois da tempestade, vem a contagem dos mortos e feridos.



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Conflitos Internos - por DAS

Sinto-me perdida, confusa
Meus pensamentos se confundem
Em tantos sentimentos
Todos sem direção exata
Sem alvos certos

Procuro por uma luz
Uma direção
E só encontro indecisão...
Nada parece certo ou errado
Apenas inadequado

Sinto saudades, medo, raiva, amor, ciúme, desejos...
Na verdade, nem sei o que sinto
A única coisa certa é o vazio
Algo pesado dentro de mim

Queria estar em outro lugar
Queria que fosse outra hora...
Ou então que este momento passasse logo... rápido!
Amanhã sentirei outra coisa
Melhor?
Não importa agora
Será outro dia e hoje passado, finalmente.
Minha mente estará mais aberta e poderei refletir, definir, decidir...



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Meniina, Olha o Drama! - por Duanny

Quem nunca na vida fez um drama? Quem nunca na vida presenciou um drama ou até mesmo foi vítima de um?

O que podemos concluir? O drama, quando praticado por nós, tem grande chance de dar certo.
Lá estava eu conversando com a minha mãe a respeito de uma possível viagem de intercâmbio, quando me peguei no meio de um drama.

- “Mas, mãe, assim... Você investir no futuro da sua ÚNICA filha, a única... Você não sente um vazio dentro de você quando nega a melhor educação para sua filha??”
- “AI MEU DEUS! Vazio dentro de mim vou sentir quando eu for pagar esse intercâmbio!!”
Enfim, se vou viajar? Sim, quando eu terminar o ensino médio, mas vou! =D
Bom, pelo menos esse diálogo mãe e filha foi muito melhor que o último, quando, por um triz, o Drama não acaba com todas minhas chances de ser a menina responsável!

Para os mais radicais, guerras não passariam de um Drama construído para esconder o egoísmo ou a arrogância de não saber dividir. Para mim, um Drama não passa de uma ferramenta utilizada por NÓS (sim, todos usam, é fato) para curtir nossos pobres valores adolescentes que foram cruelmente proibidos por tiranos conhecidos como Pais (e lá vou eu de novo).
Beijoos!



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Estou Lendo... - por Alba Vieira

Radiestesia Médica Fácil y Práctica, de Profesor D’Arbó.
A Ciência e a Arte do Pêndulo, de Gabriele Blackburn.
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E você? Que livro está lendo?
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sábado, 23 de maio de 2009

Posts Inesquecíveis do Duelos

Esta categoria está sendo inaugurada para que vocês deixem aqui, nos comentários, aqueles posts que vocês acharam inesquecíveis e PORQUÊ.
Cada pessoa pode indicar quantos posts quiser.
A sugestão foi enviada por Alba Vieira e Raquel Aiuendi.

Os posts indicados serão republicados com os respectivos comentários.
Quem preferir, pode enviar sua indicação para shintoni@terra.com.br.
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As Nossas Palavras XI - por Alba Vieira

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Experimento um momento feliz, com um sublime sentimento de amor que me faz dar um passo ousado em direção às pessoas, mesmo correndo o risco de cair no ridículo de ser incompreendida por aqueles que ainda não se acostumaram a manifestações espontâneas de apreço aos semelhantes.
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As Nossas Palavras XI - por Lélia

Do meu primeiro amor (sublime amor), trago arrependimentos enormes. O principal foi ter vivido com aquele traste, que devia saber que é humano, ridículo, limitado e idiota (mas não sabe...). Eu devia ter tido apenas um amor platônico... Mas, como disse meu pai: “Um passo só mudará a tua vida.” E eu mudei: larguei o pulha e daí pra cá não vivo mais com ninguém.
Raul Seixas, Titãs, Pixinguinha, Otávio de Sousa

Mundo de Cerol - por Gio

Entre o azul e o magenta
Surge a manhã sob o sol
Lá no alto, se sustenta
Pipa e cauda de cerol

Pais e filhos, sempre aos pares
Rabiola no céu esticada
O vencedor é mestre dos ares
Ao perdedor, não sobra nada

E o calor já me derrete
Eram dez, ficaram sete
Papagaios a voar

É preciso ter destreza
E um pouco de ousadia
Uma manobra, uma proeza
Nesse mundo de fantasia

Quem se esconde, é achado
Não escapará do corte
Combatentes, lado a lado
Entre a habilidade e a sorte

Agora espero a minha vez
De todas, só restam três
Pipas bravas pelo ar

O sol ofusca a visão
E pega o desprevinido
As coisas são como são
O desatento é atingido

Mais radiante que a luz
É o sorriso do restante
Canta, encanta, conduz
A beleza do instante

Avante, o vencedor caminha
No final, só resta a minha
Rabiola a brilhar!




Inspirado em Rabiolas, de Raquel Aiuendi.
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Clarice Lispector e “A Vidente” - Citada por Alba Vieira

A cozinheira é Jandira. Mas esta é forte. Tão forte que é vidente. Uma de minhas irmãs estava visitando-me. Jandira entrou na sala, olhou sério para ela e subitamnte disse: “A viagem que a senhora pretende fazer vai-se realizar, e a senhora está atravessando um período muito feliz na vida.” E saiu da sala. Minha irmã olhou para mim, espantada. Um pouco encabulada, fiz um gesto com as mãos que significava que eu nada podia fazer, ao mesmo tempo em que explicava: “É que ela é vidente.” Minha irmã respondeu tranquila: “Bom, cada um tem a empregada que merece.”
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Memórias de um Seminarista (Parte VI) - por Paulo Chinelate

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UM MUNDO NOVO


O trote do animal nos conduzindo ao interior da “fazenda” tem para mim uma conotação de despedida com o meu passado. A cada curva me parece um convite a desligar-me da meninice vivida até então. Papai e mamãe apertam, ambos, minhas mãos. Não sei se papai está tentando fingir nada sentir. Mamãe, taciturna, não esconde a tristeza que lhe vai n’alma; ainda há pouco apertara, sem perceber, minha mão, num sentido de posse de algo que está por perder.
Desde a porteira de onde fomos recebidos até aqui, calculo já percorremos uns bons três quilômetros. Do lado direito da estrada percebo várias fontes d’água a escorrer dos morros repletos de alta vegetação. Do lado esquerdo, de quando em vez, dentre os arbustos quase cerrados, noto um vale, ora coberto de pastagens ora de áreas cultivadas.
Finalmente chegamos. Ladeamos longa construção com diversas janelas, grande casario fechado aos nossos olhares. Entramos após breve aclive a um pátio à frente de prédio de três andares. Neste espaço um gramado ao centro, tendo de um lado sapotizeiros e d’outro, enfileirados, jambeiros cujos troncos grossos seguram redes de voleibol. Mais além destes últimos um grande galpão encostado ao pé de montanha que ali tem começo. O interessante foi identificar dezenas de portas ao fundo deste pavimento. Percebo serem banheiros enfileirados, não há dúvida. O som de uma cachoeira distante uns cem metros à direita deste ambiente faz-me sentir uma realidade nunca antes vivida. Um mundo novo, diferente e desconhecido inicia-se para mim neste momento. Analiso outros detalhes enquanto o condutor alinha a charrete debaixo de uma passarela coberta que faz a ligação do galpão dos banheiros com o prédio de três andares.
Demonstra que já é praxe para o nosso guia parar ali. Imediatamente aparece um “padre” de idade madura, que nos recebe com largo sorriso. Tem óculos de aros finos e redondos, ares de escritor, professor, eu diria.Se identifica por Irmão Zeno Camata, diretor do “juvenato”.
Papai e mamãe, que primeiro desceram da condução, recebem os cumprimentos de boas-vindas e apontam-me, um pouco afastado deles, como o novo candidato ao seminário.
Instruído em gestos por papai, aperto as mãos do prelado que muito atencioso desdobra-se nas boas-vindas.
Feitas as apresentações, dá ordens ao cocheiro para que conduza as minhas malas ao dormitório dos menores. Adentra-nos por longo corredor no térreo do grande prédio, ladeado de portas envidraçadas donde percebo várias salas de aula com suas envernizadas carteiras.
Entramos em seu gabinete. É um ambiente rústico, sóbrio, diria sombrio, bem diferente da sala enfeitada da diretora do meu ex-grupo escolar.
Faz-me sentar, após meus pais. Apóia-se em cadeira de espaldar alto e fazendo as perguntas de praxe sobre a viagem passa a informar sobre o local que acolherá o novo aluno “juvenista”. Mamãe adivinha minhas dúvidas e pergunta o que é “juvenista”. Simpaticamente e demonstrando agrado responde que se trata de aluno de juvenato ou internato que acolhe candidatos para serem Irmãos Maristas. Nos olhamos sem entender muito. Não tivemos muitas explicações na visita do padre, digo, Irmão, quando em Juiz de Fora. Segue-se maior explanação do bom homem: trata-se de uma organização religiosa que forma religiosos para a missão de educar jovens em todo o mundo. Eu iria iniciar os estudos no curso de admissão que antecede o ginásio.
Acho estranho, mas não dedico maiores atenções. Irmão, padre, vigário, bispo… para mim, vestiu batina é padre.
Depois de longa meia hora, justo quando ouvi burburinho de vozes quebrando o silêncio daquela clausura, somos convidados a sair do escritório e, já no corredor, instado pelo reverendo, um rapaz de uns desessete anos ou pouco mais, se apresenta como aluno antigo, encarregado de me conduzir ao dormitório para que eu me apossasse de cama e armário e me desfizesse das malas.
Combinamos nos encontrar mais tarde, indo papai e mamãe para outras bandas daquele imenso casario.
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Clarice Lispector, Apesar de - Citada por Penélope Charmosa

...uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso.
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Pensamento - Enviado por Therezinha

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O segredo não está no que você diz, mas na forma como diz. Sempre que precisar disparar a flecha da verdade não esqueça de molhar sua ponta num vaso de mel.
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Caetano Veloso no “Trem das Cores” - por Alba Vieira

A franja na encosta cor de laranja
Capim rosa chá
O mel desses olhos luz
Mel de cor ímpar

O ouro ainda não bem verde da serra
A prata do trem
A lua e a estrela
Anel de turquesa

Os átomos todos dançam
Madruga reluz neblina
Crianças cor de romã
Entram no vagão

O oliva da nuvem chumbo
Ficando pra trás da manhã
E a seda azul do papel
Que envolve a maçã

As casas tão verde e rosa
Que vão passando
Ao nos ver passar
Os dois lados da janela

E aquela num tom de azul
Quase inexistente,
Azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar

Teu cabelo preto explícito objeto
Castanhos lábios
Ou pra ser exato
Lábios cor de açaí

E aqui trem das cores
Sábios projetos:
Tocar na central
E o céu de um azul celeste celestial
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O Meu Trem das Cores - por Alba Vieira

Ao ouvir esta música com seus versos de tão linda inspiração, não posso deixar de me transportar para este trem também.
Agora eu me sinto como este compositor que passa num trem. E está vivo, tão vivo como tudo que apreende com os olhos e com o coração. Do trem ele observa a natureza, as pessoas, o movimento do dia acordando, as pessoas na estrada. Ele próprio vai sendo acordado pelo que vê e o toca de forma tão profunda. E as cores são o portal que permite que ele, de repente, mergulhe naquela outra realidade do que observa. Ele se deixa impregnar pelo que vê. É atravessado pelas imagens e cada uma consegue deflagrar no seu âmago uma explosão de belezas que ele decodifica em versos tão lindos.
Porque os versos estão vivos. Eu mesma sinto o cheiro da manhã, o frio da névoa úmida e o calor do seu peito que, certamente, ama aqueles lábios cor de açaí. Porque aquele homem que observa é tão vivo que só pode mesmo amar a vida e alguém em especial.
O trem passa. As cores vivem. Ele observa e é observado. Nós também, ao passarmos pela vida, olhamos e somos vistos por ela, os dois lados da janela. O aqui agora é assim mesmo. É calmo e é dependente de total atenção, para que não se perca nada. E, não mais que de repente, algum pequeno detalhe, um certo tom de azul inexistente, traz um déjà vu, uma memória qualquer é acessada e entramos em outra realidade que já vivemos anteriormente. E isto é um bálsamo. Adoro esta música porque, para mim, viajar é meditar. É olhar pela janela do trem ou do ônibus, atravessar a porta do tempo e banhar a minha alma em águas já antes visitadas.
E esta música é tão incrível que mostra como uns instantes de desprendimento podem ser tão revigorantes para nós. Assim, no final da música ele fala em sábios projetos, tocar na Central. Ou seja, ele captou a grande delicadeza das coisas simples e pensou em levar sua arte para um lugar que nos dias comuns convive com a dureza, a insipidez da rotina, mas que, ao mesmo tempo, examinada por alguém que transborda sensibilidade, pode oferecer frutos tão doces e suculentos (vide a seda azul do papel que envolve a maçã).
E ele é transformado pelo que vê com os olhos do coração e insere esse quantum de amor nos seus projetos que agora são projetos para o outro, o semelhante.
Eu penso que melhorar o mundo é conectar com o interior, receber o amor que transborda e então dirigir esse amor para o outro, para o mundo.



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Abandono - As Nossas Histórias XI

Ele vivia sozinho. Mas isso não era um sofrimento. Antes ao contrário, curtia o prazer da estar a sós consigo mesmo. Era um dos poucos sozinhos não-solitários: para ele, a sua própria companhia era mais do que suficiente.Mas não havia sido sempre assim, vinha de numerosa família. Pais, irmãos, tios, primos... mas, com o tempo, todos se dispersaram como as cinzas de seu avô ao vento e, assim como elas, era impossível reunir tudo de novo: as manhãs concorridas no sítio, as festas intermináveis, os casamentos superlotados, as refeições regadas àquela bagunça inacreditável e aconchegante.
Seu avô era o agregador da família, o conselheiro, provedor sempre que necessário, o amigo com o qual todos podiam contar. E ele se fora, assim, de repente... dormiu aqui e acordou em algum outro lugar, longe de todos... e foi assim que a corrente se rompeu definitivamente. A partir de então se instalou uma nova fase na vida daquela família, quando teriam que manter viva a corrente do amor com seus elos indestrutíveis ligando a todos com a teia invisível e protetora que deveria continuar a se manifestar sempre que algum ente necessitasse de ajuda.
Mas elos, mesmo indestrutíveis, enferrujam, e foi que aconteceu...
Afastaram-se e praticamente só se encontravam quando morria um parente ou alguém casava e dava uma festa. Como foram envelhecendo e os mais jovens passaram a morar juntos, sem pompas de casamentos, os encontros aconteciam mais nos enterros.
Daí veio se instalando, silenciosamente, o abandono. No início foi muito difícil a solidão, cada um tocando sua vida, a nostalgia era sua companheira. Com o tempo, a nostalgia transformou-se naquela sensação de ser totalmente esquecido, ser órfão.
Passou a visitar os conhecidos com frequência e algumas vezes sentiu que suas visitas importunavam, percebeu que as pessoas fecharam-se em pequenas células familiares ou em suas preferências: tevê, internet e outras atividades. Concluiu que também para ele era chegada a hora de mudar. Dizer não ao abandono, ser ele mesmo seu melhor companheiro, redescobrir o que gostava e havia ficado para trás. Enfim aceitou o que não podia modificar: o afastamento que tanto o chateava, a solidão e o abandono. Estar só, antes asfixiante, passou a ser aceitável e hoje vê como um ganho em sua vida: aprendeu a cuidar de si, viver seus prazeres sem precisar prestar contas a ninguém, já que tem independência financeira.
Então, após lutar contra si mesmo, porque não se conformava com o abandono, e sair vencedor, leva sua vida. Mentiria se não dissesse que, mais vezes do que gostaria, tem suas recaídas, mas aprendeu que não adianta viver de lamentações, e quando olha à sua volta vê que tem sorte. A morte virá um dia - como para todos- e viver bem o tempo que tem é a sua meta, ajudar quando puder, seguindo o exemplo de seu avô, e aceitar as mudanças. Esta é a sua vida, sua história.



Texto criado por Ana, Escrevinhadora, Gio, Clarice A. e Alba Vieira.
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Atitude - por Alba Vieira

A vida é o que fazemos dela. A cada dia descobrir a inteireza do que vivemos deveria nos fazer pensar no que poderíamos ser, se nos permitíssimos, se nos déssemos a chance de sermos quem realmente somos.
A beleza está dentro de todos nós. Não importa em que condições vivemos, não importa o que já sofremos, o que nos fez chorar e endurecer. A possibilidade do bom está em cada um. A harmonia, o sossego, o belo estão bem aqui dentro de nós. É só contactar, é só abrir os canais.
Como acordamos? Será que olhamos por um só instante a pessoa que está ao nosso lado? Será que a tocamos, encostamos nosso corpo no dela? Pense que essa pessoa dormiu com você, dividiu talvez o mesmo sonho. Quem sabe? E ela está ali. Ainda dorme. Está relaxada, a pele quente e gostosa. Você já percebeu isto?
Sim, eu sei que é preciso iniciar o dia, sei dos compromissos, do que teima em puxá-lo para fora da cama. Mas fique mais um pouco, por mais um tempinho só. Viva esse momento que é seu, por direito. Comece o dia com a aproximação do outro. Puxe para você a pessoa com quem divide a vida. Dirija a ela uma vibração de amor, uma doçura, uma carícia. Mesmo se vocês não estiverem muito bem nessa fase. Você quer estar bem, é isso que seu coração pede, os problemas podem ser resolvidos pelo carinho, pelo amor; se abra para o outro, escute o seu coração, deixe a cabeça de lado, o orgulho, jogue fora as mágoas, derrube as cercas que ainda o aprisionam.
E se voce não divide a cama com ninguém, aproveite a delícia que é o contato consigo mesmo. Não pule logo para fora da cama. Você já espreguiçou? Já se espichou como um gato? Já tentou se expandir pra vida? Esse movimento pode fazer uma grande diferença pro seu dia. Os tempos de agora pedem expansão. Vá para os outros, procure as pessoas num relacionamento de verdade, inteiro, espontâneo, o movimento das crianças. No outro está sua cura, está você. Descubra no outro toda a beleza que também existe em você. Tenha paciência com você, desculpe suas imperfeições, seus exageros, suas omissões. Mas se dê oportunidade de ser melhor, de elevar seus padrões, de construir para sua vida a única coisa que você vai poder levar quando se despedir dela: construa extensões do amor que existe em você. Deixe o amor se expandir para fora de você.
Esse amor vai tocar o amor do outro, de todos que estiverem perto de você e longe também, porque o amor é poderoso, é a única proteção real que você pode ter. O amor vai dissolver seus medos, vai trazer para você belos acontecimentos hoje. Suas oportunidades serão outras se você se soltar para a vida, se permitir emanar de você mesmo esta coisa divina que é o amor.
É você que faz sua vida, seu novo dia, seu futuro. O que faz e o que deixa de fazer neste momento vai plasmar seu futuro. Não tire de você a responsabilidade por tudo que lhe acontece. Porque é assim mesmo. Isso não é ruim, não é injusto, isto é só uma possibilidade. Você tem escolhas, você pode. Pode tudo, ainda que pareça absurdo, você tem esse poder. E esse poder é, muitas vezes, não ter poder. É deixar-se levar. Mas cultive em você esse hábito de perceber a cada momento que você pode mudar a sua vida e a dos que estão ao seu redor, que você é essa sociedade que lhe parece tão diferenciada de você. Você é essa realidade que você vive. E o que você deixa sair de você cria a atmosfera que você respira, atrai o que você permite, o envolve em vibrações que você mesmo envia. Então resgate o contato com o divino que está em você. Assuma todo o seu poder. Melhore seus dias e seus relacionamentos. Fique mais inteiro, se expanda, melhore essa vida, esse planeta, atraia para você tudo que você puder deixar sair de bom de você mesmo. É assim que funciona. Experimente.




Texto cujos título e início foram utilizados para Atitude - As Nossas Histórias X.
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