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Eróticos.)




segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Noite - por Marília Abduani

Flores altas
velam o luar
e as noites longas
como a vida.
Coados os sonhos,
restam os belos.
Os assassinados pelo desejo,
esses dormem
em noturna paciência.
A noite é veloz
e voraz.
Ficam as lembranças do que fomos
na construção do nosso dia.
Âncoras nos seguram,
bússolas
governam o nosso destino.
Lembranças são pombas voando
pelas campinas,
vão e vêm, vêm e vão.
Quando cessa a noite,
constelações se despedem,
nuvens se organizam,
claras e fluidas.
E a vida continua.
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Hermógenes e os Condutores do Mundo - Citado por Alba Vieira

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Os condutores de que o mundo precisa raramente aparecem. Surgem como estrelinhas faiscantes, mas em geral ficam anônimos, quando não perseguidos, anulados, esmagados pela mediocridade dominante.
Alguns desses raros seres nem sequer saem da humildade em que nasceram.
O mundo não os entende. E muito menos lhes atende.
O mundo prefere continuar seu viver sofrido, entre choques de doutrinas, nacionalismos adversários, facciosismos conflitantes, impérios que crescem esmagando e fazendo injustiça, instalando a exploração, despertando ódios, derramando sangue... E tudo em proveito de mentirosas e efêmeras hegemonias.
Os gênios que poderiam conduzir o mundo à Paz continuam estrelinhas anônimas, ignoradas, isoladas, inacessíveis.
São estrelinhas num rasgo de céu em noite tempestuosa pejada de negros nimbos da violência e da ignorância.
Quando teremos nós, os homens, um céu todo estrelado?
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Sofístico (ou da Crise Criativa) - por Leandro M. de Oliveira

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O que é escrever senão fingir? Dissimular o ego, pregar ideais por nós nunca acreditados, ou quem sabe, ser subversivo, criar mil teses anarquistas e ainda assim engraxar os sapatos de manhã e escovar os dentes à noite. Escrever é transfigurar-se, é ter na matéria ordinária a quintessência de todas as pedras filosofais. Ser abduzido pela alma do mundo, psicografá-la, como um amante sexualiza seu primeiro amor, se perder na acolhida, deixar-se consumir pela cal. Escrever é deveras fingir! Fingir copiosamente a dor quer nunca habitou, esquecer a razão entre lembranças, cabelos e dentes. É dar parte ao furacão fazendo sombra à paragem mais densa, é reclamar liberdade ansiando pelos mil grilhões que unem a teia de existir.

A vida é curta. A alegria cotidiana é pífia. E o “escrevedor” que disso nada entende, segue em peregrinação santa por rotas ordinárias. Onde está o Graal? Na minha cabeça ou no meio das pernas dela? Ademais que é cabeça ou perna, ou sangue ou sonho, tudo mitificado está, pela dicotomia do não-ser sendo. No redondo escuro da hora, carregar o fardo é papel daquele que hesita. Ainda que tenha hesitado da maneira mais meticulosa possível, ninguém engana a vida. Quero rasgar o chão com as mãos nuas, quero rasgar pescoços com meus dentes à amostra. Tudo é hipótese. Essa terra imunda não conserva mais diamantes.

Partir ficando, ficar partindo, a palavra cuida, acaricia, sodomiza, espanca. A palavra beija e cospe, na cara uma verdade antiga muda mentira nova. Escrever é perder a razão pra nunca mais, e por fim quando lá nada houver ser, restituído de tudo, e outra vez perder, e outra vez ganhar. Eternamente farto, eternamente miserável. O profeta maldito segue porque escrever é uma maldição que a auto-piedade transformou em bênção. Não sei porque os bebês têm refluxo, não sei porque o homem mata a si mesmo. Tudo lisérgico, suavemente insuportável. É o mundo... Ser abortado da consciência em nome do espírito coletivo, uma mentira que deu certo, ou não. Assim, aquele que cria meios na individualidade o faz para ser múltiplo, para repartir entre as bestas, membros, tronco, cabeça e coração. Escrever é deixar-se à cova dos leões. Hoje quis me doar, todavia acordei com a disposição ao martírio em baixa...
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Bicho da Seda - por Leila Dohoczki

O bicho da seda
É muito esperto
Desde novinho
Aprende a fazer
Sua própria coberta.

Tece fios de seda
Macios e brilhantes
Envolvendo todo o casulo
Que fica fofinho
E muito aconchegante.

Ele está se preparando
Para sua aparição triunfante
Três semanas é o que precisa
Para ser borboleta
De asas brancas, radiantes.

O casulo
Obra do pequeno artesão
Vira fio, vira tecido
Nas mãos do tecelão.

É assim na natureza
Cada um tem uma função
Umas coisas nascemos sabendo
Outras, precisam de lição.
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