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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
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sábado, 13 de dezembro de 2008

Desespero - por Adir Vieira

Misturo-me às pessoas, na ânsia de descobrir o porquê do tumulto. Vejo-me adentrando porteiras desconhecidas, sem temer. Sinto-me forte e capaz, por ir em frente.
Vozes irreconhecíveis gritam ao mesmo tempo em que outras vozes choram e pedem socorro.
Nada me detém na compulsão da descoberta. Meu medo habitual, como que tomado de uma força superior, transforma-se na coragem maior e me surpreende.
Vejo-me ali, entre sangue e desespero, e tenho a plena consciência de que não sou eu.
Como outras mãos caridosas, trabalho e ajudo outras pessoas a se desvencilharem de outros corpos e destroços para assim ganhar de novo a própria vida.
Sinto-me, em meio a tanta desgraça, como um animal abatido pelo caçador, no exato momento de sua morte.
Sinto-me nada, enquanto ali, nesse lapso de tempo, sou tudo.
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Desencontro - por Adir Vieira

Marcamos, “eu” e “meus desejos”, um encontro matutino num dia de sol forte. Sugeri o horário do almoço e o local - o Bar Felicidade - por razões nossas. Percebi, quando falamos a respeito, que “meus desejos” estava relutante sobre o local e o horário. Parecia preferir um encontro vespertino, perto do pôr do sol e na hora do rush, quando o burburinho dos passantes em frente enchia o local de vida. Depois de muita discussão, ficou resolvido entre “eu” e “meus desejos”, que eu definiria o horário. “Eu”, quase convencida de que deveria concordar com “meus desejos”, tentei alterar o horário do encontro, mas “meus desejos” quis mantê-lo na forma da minha decisão. Eis que, chegado o dia do encontro, “eu”, pensando que atendi “meus desejos”, compareci ao bar na parte da tarde, quando “meus desejos” tinha seguido para lá pela manhã. Desde então se instalou o desencontro entre nós.
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Rio de Janeiro - por Raquel Aiuendi

A vida está muito difícil, a vida está osso duro de roer, a vida está muito mecanizada em processos de dessensibilização, condicionada no materialismo (condição mortal), consolidada em sentimentos e realidades transitórias, em objetivos e ambições não-perenes etc. Por essas, está muito difícil manter relações estáveis, equilibradas, humor constante up, evolução econômica gradativa e equilibrada, desenvolvimento emocional e espiritual em escala ascendente.

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Contradição - por Adir Vieira

O Natal se aproxima e os mesmos arroubos de outrora, ao visualizar mentalmente a mesa da Ceia, fazem bater meu coração. Tenho ou não tenho? Quase que sem sentir, corro e pego papel e lápis, meu acervo predileto de livros e recortes com receitas diversas e para várias ocasiões e divago a respeito. Vou anotando tudo e idealizando o que preparar. Pronto o cardápio, enumero os ingredientes e listo o que comprar, sem sequer me preocupar com o número de pessoas que comigo estarão no tal dia e se vou poder ou não comprar o que listei. O meu sonho, o meu desejo abundante de viver a festa é quem me comanda nesse momento. Ato contínuo, vou até o computador, entro no site de compras habitual, preencho minha lista e não me surpreendo com o valor monetário exorbitante do meu sonho. Nisso tudo, verifiquei que vivi umas três horas por conta da contradição ter ou não ter, fazer ou não fazer… E ao final de tudo, atesto que não importa realizar ou não um sonho, mas arquitetá-lo é o que faz com que vivamos verdadeiramente as suas mais sublimes nuances. Êta contradição!
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A Liberdade de Não Ter - por Alba Vieira

Você já se perguntou tudo que perdeu pelo que passou a ter, que conquistou? E se fantasiar que foi aos poucos perdendo tudo isso? O que ganharia de volta em termos de qualidade de vida, de qualidade para ser feliz e em tempo para viver? Viu? Será que vale mesmo toda esta correria, tanto esforço, tanto stress, para depois, no fim do dia, você desabar exausto e ficar olhando para o que tem sem poder usar? Ou trabalhar tanto sem descansar, sem conviver com a família, sem perceber seu filho crescer para conquistar bens e na aposentadoria não ter a possibilidade de desfrutá-los, seja por morte súbita ou então por já estar entrevado, alienado ou mesmo ainda ocupado, lutando para trazer de volta a saúde que gastou sem critério algum na sua luta inglória por coisas?
Como é o seu presente? Tornou-se um fardo pelas atitudes inconseqüentes e ambiciosas do passado ou é só ansiedade pura pela expectativa do futuro? Você consegue estar realmente aqui agora? As coisas que você já conquistou trouxeram para a sua vida realmente mais conforto ou muito mais obrigações e despesas que o obrigam a trabalhar ainda mais, às vezes sem qualquer prazer no que faz, para poder pagá-las? Será que vale a pena mesmo ter tudo isso?
Vejamos como é o homem moderno: quando sai de casa é obrigado a carregar um monte de coisas: chaves, cartões, documentos, celulares, pastas e papéis. Sair de mãos abanando, nem pensar... Andar a pé para o trabalho, exercitando o corpo e olhando para as outras pessoas, contemplando a natureza que ainda existe, quase sempre impossível... Se usa o transporte coletivo, se irrita, sofre, se cansa, porque a qualidade é péssima. Se vai no seu carro, precisa se preocupar com o trânsito, engarrafamentos, assaltos, e sempre com a despesa que advém dele: IPVA, revisões, pedágios, seguros etc. A facilidade de comunicação traz, por outro lado, a ausência total de privacidade. Quem pode, hoje, sair sem destino sem ser encontrado? E o silêncio, onde é possível desfrutá-lo? Ao invés disso, acabamos falando ao mesmo tempo com várias pessoas: ao vivo, no celular e no fixo. Loucura total... stress e mais stress.
Cada conquista na vida se transforma em mais uma malha da teia paralisante em que nos envolvemos. Pertencemos a condomínios, instituições, clubes, organizações, sindicatos, conselhos e, claro, somos reféns de suas cobranças burocráticas e monetárias que nos tiram quase toda possibilidade de orientarmos nossa vida livremente. Estamos afundados em papéis, obrigações, contas, documentos, relações etc. que não queremos e não precisamos, que não fazem parte de nós e que nos roubam de nós mesmos. Até quando permitir tudo isto? Por que não simplificarmos agora nossa vida, retirando tudo o que é desnecessário?
Às vezes imagino uma liberdade total, inusitada e extremamente prazerosa, embora aconteça apenas na mente: volto para casa, e ela não mais existe... perdi tudo o que tinha num incêndio... Uau!!!!!!!!
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Consciência - por Raquel Aiuendi

Meu olhar árido
precisa de seus olhos
áridos
meu estresse emocional
precisa de seu paternalismo
natural
o amor é quadro
que se pinta
na saudade.
Solidão é o inverno
Sentimental.
A vida sempre é
Uma verdade
Registrada na história.

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Consciência - por Adir Vieira

Pulo da cama. Ainda não acordei, mas meu motor invisível me mobiliza à correria habitual. Já no banheiro, a escova de dentes me sorri, levando meu olhar à torneira aberta, sei lá por que mãos, se as minhas se apossavam do creme dental… Sem me perceber a caminho da cozinha, vejo-me ligando a cafeteira e preparando um pequeno sanduíche de alface e queijo. Não quero crer, mas meu pijama despido, ou melhor, trocado pela saia que não escolhi, repousa no travesseiro à espera da próxima noite. Ao mesmo tempo, as chaves e a bolsa, minha companheira, saltavam até mim, na minha passada pela sala. O som de uma buzina lá fora me acorda para a vida me dando a consciência de que um novo dia me espera.
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