segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Amargas Rosas - por Vicenzo Raphaello
O tempo havia passado por ela
Mas ainda um frescor de juventude
Corava seu rosto
Desce mais cedo numa manhã
Para o café
Amargo café
Seu marido bonachão
Médico afável
Abraçava a empregada
Dando às mãos todo uso
Que delas podia fazer
Em prantos ela se desmancha
Próximo
Um vaso com rosas
Levanta-o
Ele se abaixa
De um projétil que não vem
Trêmula
O vaso escorrega-lhe
Nas mãos ficam-lhe as rosas
Mastiga-as
Mastiga-as
Mastiga-as
As rosas
Que dele ganhara
No aniversário de casamento.
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Soneto Pós-nupcial - por Gio
Que, majestoso, te contempla enquanto dormes
Tal como eu, que vigio-te conforme
Sonhas teu sonho, puro e doce como o mel
Tão belo sonho me traz preocupação:
Que dessa doçura não queiras acordar
Se for o caso, que nele eu tenha lugar
E nossos passos lado a lado estarão
Um raio de luz atravessa a janela
Mostra teu rosto em traços de aquarela
Para este tolo, que ainda te vigia
Quando abrires os teus olhos, de repente
E acordares de teu sono tão contente
Serei o primeiro a te dizer “Bom dia!”
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Apartamento 74 - por Daisy
E, como num filme, viu claramente aquela reunião no hospital, uns 15 anos atrás.
Já trabalhava lá há 3 anos, após ter se formado com louvor na Faculdade de Medicina. Era apaixonada pelo que fazia e sua vida era o hospital e o hospital; nada mais...
Esguia, pele clara e cabelos castanhos curtos ondulados que, volta e meia, caíam sobre os grandes olhos verdes amendoados; era muito bonita, mas passava desapercebida pelo modo despojado de se vestir.
Apesar de estar concentrada e atenta a tudo que estava acontecendo, quando ele entrou, seu coração começou a bater mais forte e descompassado. O que era aquilo?? Nunca havia experimentado nada parecido, nem mesmo quando namorou um colega da faculdade que era completamente louco por ela.
Alto, pele morena e cabelos escuros bem cortados que realçavam os olhos pretos e os lábios finos; era muito bonito e por onde passasse chamava a atenção. Não deixou de notar aqueles olhos verdes observando-o.
Já na primeira troca de olhares, podia-se detectar um magnetismo e uma atração imensa entre os dois. Não foi necessário muito tempo e já estavam conversando animadamente.
Paulo era um advogado conceituado, sócio de um dos maiores escritórios de advocacia da cidade, e estava ali a convite de um amigo médico que queria uma opinião jurídica sobre um projeto ambicioso de saúde do hospital.
Marília e Paulo começaram a sair e logo já estavam falando em casamento. Apesar de viverem em mundos totalmente diferentes, o amor era tanto que desculpava a falta de tempo, os atrasos, os plantões e as constantes viagens de negócios.
Casaram-se e, como sempre acontece no início de um relacionamento, a vida ia passando e construindo uma rotina confortável e segura; Marília absorvida pelo trabalho no hospital e Paulo constantemente viajando para acompanhar os casos mais importantes do escritório. Vieram os filhos: um menino com os olhos verdes da mãe e uma menina com os olhos pretos do pai.
O tempo ia passando e o amor arrefecendo. Nem Marília nem Paulo se deram conta do que estava acontecendo.
Numa de suas viagens, Paulo conheceu uma advogada com quem teve bastante contato e muitas reuniões para avaliação de alguns casos que estavam sendo acompanhados pelos dois escritórios onde trabalhavam. Sônia, que se separara há um ano, estava carente e encontrou um ombro amigo em Paulo. Ele, que também estava carente, sentiu-se renovado ao ver que estava sendo muito importante para ela.
Certa vez, foi Sônia quem viajou para as reuniões com Paulo. Após uma delas, saíram para jantar e conversaram tanto que quando se deram conta, já era madrugada. No dia seguinte, quando acordaram, estavam no quarto de um flat, felizes, confusos, amedrontados, mas decididos: um não conseguiria mais viver sem o outro.
Paulo atravessou uma fase muito difícil em casa, tendo que inventar desculpas a toda hora, até que resolveu comprar um flat, onde se encontraria com Sônia e onde, com o tempo, passaria a viver definitivamente com ela.
Sabia que não teria coragem de enfrentar Marília para uma conversa sobre separação. Então, decidiu deixar uma mensagem na secretária eletrônica de sua casa onde mencionava o número de um apartamento – o seu flat com Sônia. Tinha esperança de que Marília, ao ligar para casa e ouvir o recado, ficasse intrigada e viesse conversar com ele. Aí, então, seria mais fácil explicar tudo para ela. Só que isso não acontecia e o tempo ia passando, impiedoso.
Por outro lado, Marília, acumulando o trabalho com o cuidado com os filhos, inconscientemente, ia se afastando cada vez mais.
Um dia, houve uma reunião no hospital para que o novo coordenador fosse apresentado ao corpo clínico. Marília estremeceu quando avistou seu primeiro amor de faculdade, Plínio, indo em direção ao palco. Quanto tempo!!! Ele continuava o mesmo: aqueles olhos azuis, aquele cabelo louro já com alguns fios brancos, aquela pele morena.
Após a apresentação, durante o coquetel, Plínio veio falar com ela. Foi como se o tempo não houvesse passado. Marília, sem se perceber carente, foi ficando íntima. Plínio, que não se casara e sempre alimentara a esperança de um dia reencontrar seu primeiro amor, acolheu aquela intimidade com prazer. Conversaram sem ver o tempo passar. Plínio levou Marília para casa e ficou de telefonar no dia seguinte. Encontraram-se no hospital para almoçar; saíram para jantar outras vezes e quando perceberam, estavam num motel amando-se como dois adolescentes. Marília ficou muito mal, sem saber o que fazer. Plínio, sabendo que o casamento dela já não existia realmente, insistiu que ela conversasse com o marido sobre separação. Marília sabia que não conseguiria encarar Paulo para uma conversa dessas.
Resolveu, então, que ligaria para casa deixando um recado evasivo, contando que Paulo, ao ouvir, achasse estranho e a procurasse. Aí ela explicaria a situação.
“Você ligou para a casa da família Souza. Se quiser falar com o Dr. Paulo, ligue para 3335-0102 ou para 5554-0203 ap. 74. Obrigado”
Que estranho, pensou Marília, o que será apartamento 74?
Ligeiramente Grávidos - por Esther Rogessi
Noite de lua...
E eu, muitíssimo exausta, sentei sobre as madeiras amontoadas embaixo da árvore.
Carlos tinha pegado lenha seca na esperança de estruturar o que ele denominou ser uma fogueira – desajeitada arrumação de paus e gravetos, o cotidiano, a mesmice do dia a dia, tinha nos consumido a paciência.
Estávamos estressados... Um simples ruído, meio ao mato, nos sobressaltava, amedrontava.
Acostumados com a cidade grande e com toda sua peculiar agitação, com seus arranha-céus, buzinas de carros e o passar neurótico dos transeuntes a esbarrar em nós...
Aquele silêncio desmedido... Onde só se ouvia o chilrear longe e assustador das aves; o canto das cobras; o lamento tal qual o choro de bebês – das rãs – no riacho ao lado; as incontáveis luzinhas, na escuridão, como se fossem piscas-piscas – os vaga-lumes – nos levando a refletir... Se não fosse tamanho medo – diríamos ser: o céu na terra!
Estávamos em férias, nosso casamento estava uma loucura. Não havia entendimento. A nossa convivência estava se tornando insuportável. Não conseguíamos ver encanto algum em nada... Até mesmo à hora de dormir sempre havia uma desculpa para que não fôssemos juntos à cama... Um caos!
Resolvemos, então, viajar. Ir à fazenda de amigos que insistentemente nos convidavam...
Não tínhamos filhos, ainda. Carlos não os podia gerar por ter varicocele – varizes do testículo, muitos não têm válvulas no interior das veias do testículo para que impeçam o retorno do sangue ao coração: sangue drenado. Assim sendo, acontece o refluxo, no sentido errado, permitindo que este volte ao escroto, ficando parado e causando inchaço, vindo a formar a varicocele. Ah! Como eu queria ter filhos...
Isso afetava e muito a nossa vida em um todo... Principalmente sexualmente. Ele se julgava incapaz e isso estava levando-o a impotência sexual. Carlos tinha passado por uma cirurgia, porém sem sucesso até então.
Sabemos que a varicocele pode ocorrer em qualquer dos testículos ou em ambos. Comumente acontece do lado esquerdo, devido ao fato da veia espermática deste lado desembocar na veia renal esquerda por ser um ângulo reto, isto é, de 90°, sendo a pressão deste lado mais forte - mais alta - que a do lado direito, onde a veia espermática desemboca de forma oblíqua.
O grande sonho de ter crianças a correr na casa, de ser chamada de mãe... de sentir a sensação da gestação, passou de sonho a utopia... Sonhos, às vezes, são realizados... Carlos por vezes falava em adoção... Não! Não quero... Quero os meus! - eu respondia.
Tentava convencê-lo a usarmos a metodologia de inseminação artificial humana. Isto eu queria, seriam filhos nossos...
- Por que não, Carlos? Tentemos esta metodologia com o seu esperma! A criança será nossa, de fato! Quantos casos deram certo... Até mesmo com mulheres estéreis. Não o somos, você tem uma deficiência que pode ser tratada, resolvida em parte! O que importa é a nossa realização em termos filhos, em sabermos que o que construirmos não será vão. Teremos continuidade, descendência...
Assim, resolvemos viajar, dar uma oportunidade a nós mesmos, ao nosso casamento. Saímos em férias no mesmo período... E ali estávamos, rumo à fazenda.
Em uma noite fria e enluarada, meio ao mato... ouvindo o chilrear dos pássaros, o canto das cobras, e como se fossem bebês a chorar no riacho – as rãs – doce ironia do destino ou profecia através da manifestação da natureza...?
Só sei que o medo nos aconchegou, senti o hálito de Carlos bem no meu rosto, suas mãos como que a me proteger, protegendo-se... o calor da fogueira, desajeitada tanto quanto nosso casamento.
Senti ternura! Descobri que existia amor e muito amor entre nós...
Ali, no meio do mato, às margens do riacho, em noite de lua, nos amamos, fizemos amor...
Gozamos... férias acumuladas. Voltamos com sintomas estranhos e ligeiramente... Grávidos!
domingo, 28 de junho de 2009
Viagem da Viagem de Quase Lua de Mel - por Bruno D’Almeida
Primeira viagem dos noivos. Ela dá a ideia de colocarem as alianças na mão esquerda e fazerem de conta de que já são casados assim que entrassem no avião. Ele obedece prontamente, mas tem uma ideia melhor. Vai ao banheiro, escreve um bilhete para o comandante do voo:
Esta é a lua de mel de Daniel e Maria Rita. Por favor anuncie boas-vindas para nós.
Pronto, só bastava isso. Entraram com as alianças na mão esquerda. Atrás de Rita, Daniel entregou o bilhete à aeromoça, que recebe o papel desconfiada, provavelmente achando que se tratava de algum terrorista. Devidamente acomodados no Boing 737 da Varig, começam a tirar as fotos de recordação ali mesmo. Chega a comissária de bordo com cara de poucos amigos. Meus senhores, disse ela, devido a um overbooking, houve duplicidade na venda de assentos. Os senhores precisam se levantar imediatamente.
Barraco. Não sabia que uma moça tão fina e requintada, moradora da Ladeira da Barra, pudesse falar aquela quantidade de palavrões. Aprendi alguns, inclusive. Criatura ignóbil. Sacripanta. Levantamos, ela furiosa batendo os tamancos atrás da aeromoça, que ia dizendo minha senhora, tenha calma, isso acontece, mas não se preocupe, vamos fazer o possível para resolver este problema. O que estou tentando dizer aos senhores é que seus lugares foram devidamente transferidos… para a primeira classe.
Ritinha não sabia se morria de vergonha pelo barraco ou pela alegria da surpresa. Suplicou duzentos e noventa e quatro pedidos de desculpas para uma comissária que, pelo visto, não aceitou nenhuma delas e saiu com cara de quem ajuda todo mundo e só recebe coice. Ao sentarem naquela poltrona azul grande, confortável e imponente, o comandante falou pelo microfone: senhoras e senhores, este é o voo 7257 de Salvador com destino a Fortaleza. Dia lindo de sol. Eu sou comandante Rodrigo Lopes, desejo a todos uma boa viagem. Gostaria de parabenizar o casal Daniel e Maria Rita pela lua de mel. Faremos o possível para tornar este momento inesquecível.
Nem sabia que um avião podia servir champanha em taças de cristal. Mas era verdade. Era verdade também o prato de costeletas de cordeiro com creme de maracujá. De dez em dez minutos, o comandante felicitava o casal. Maria Rita já havia acabado com todos os lenços de papel de tanto chorar. Até mesmo na hora de avisar que o avião daria voltas em loop por quinze minutos antes de começar a aterrissagem, por conta de uma chuva forte de verão, ele felicitou o casal. Desceram. Chegaram. Foi tudo lindo, cinco dias de felicidade. Comemoraram intensamente um matrimônio que nunca existiu de verdade. Acabou sem nunca ter sido.
Daniel acendeu a luz, pegou a agenda de telefones, leu um número que lembrou ter decorado uma vez e ligou. Enquanto chamava, pensava em todas as besteiras que fizeram depois, tanta imaturidade que desfizeram uma história sem fim ter fim. Ela atendeu. Ele não teve coragem de falar. Ela também não disse nada. Sabiam exatamente quem estava do outro lado da linha. Desligaram. O simples fato de jurarmos esquecimento perpétuo de uma lembrança demonstra nossa incapacidade de esquecê-la. Ele apagou a luz, mas manteve seus pensamentos acesos por toda a madrugada.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Solteira Inveterada por Água Abaixo - por Alba Vieira
Como expresso nesse sonho, estou casada, por destino e escolha consciente, demorada, eu bem sei, mas certa. E experimento, agora, um poder bem maior do que sempre tive. Não o poder de andar solta, de ter iniciativas e concretizá-las sozinha, trilhando o caminho que bem escolhesse. Mas o poder de compartilhar que só traz expansão, novas possibilidades e ampliação da área de atuação. E ainda, a maior recompensa: a paz, o tao do amor.
A imagem é bem clara: ir de encontro a algo mais amplo, ao aceitar-se a carona que a Vida nos propõe.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Michel de Montaigne e o Casamento - Citado por Therezinha
O único casamento capaz de durar para sempre é aquele entre uma mulher cega e um marido surdo.
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
domingo, 15 de fevereiro de 2009
A Mulher Invisível - por Maribel
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Su - por Vicenzo Raphaello
como passou o tempo
Ainda é fresca a imagem da mulher
ainda menina
do tempo de escola
Ainda são presentes
nossos melhores dias no Rio
Presença consciente são minhas lembranças
dos bons momentos que junto vivemos
assim como aqueles difíceis
As imagens dos caminhos que percorremos
o tempo não apaga
Esse tempo mostrou
que
um pequeno tempo da tua ausência
machuca
e como machuca.
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Tantos Anos - por Vicenzo Raphaello
dividimos
nossas vidas
Nesta divisão
união
Companheira de jornada
conheço sua intimidade
conheces a minha
Nos revelamos
quase por inteiros
Entre nós ficam
pequenos segredos
não revelados.
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