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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Poço Fundo - por Marília Abduani

Se o sol nos afaga com a luz,
com o perfume nos fala a flor.
Com as nuvens nos fala o tempo,
com a chuva, nos fala o amor.

Viagem definitiva,
mistério a nos envolver,
no cumprimento da vida
tão linda no alvorecer.

Não sopra mais nenhum vento
na plenitude do mundo.
Fresco abismo de cimento,
a cal desse poço fundo.

Inda há mais um inverno,
inda em mim mais um verão.
Encardido do que é terno,
rangendo essa solidão.


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Terna Lembrança - por Adir Vieira


Hoje é um dia realmente especial. Dia de Nossa Senhora Aparecida.
Era a santa de devoção do meu pai e com ele aprendi, fervoroso que era, a dedicar também a ela meus pedidos e agradecimentos ao longo da vida. Hoje, rezando aos seus pés e agradecendo a ela a minha vida, vejo a figura de meu pai, crédulo por demais. Vejo-o sentado na cama, com o pequeno quadro em que sua imagem foi emoldurada em mãos, rezando a cada manhã e impedindo-nos de entrar no quarto enquanto estivesse em oração. Lembro que quando comentávamos sobre qualquer dificuldade, ele dizia de pronto que ia pedir a nosso favor a Nossa Senhora Aparecida.
Vejo hoje, sobretudo, a importância do seu gesto, tão desconexo na sua candura, com aquele homem grande e forte. Gesto de determinação de valores morais e sentimentais, tão ausentes nos adultos de hoje. Sinto, em sua grandeza, a real importância da família no que diz respeito à formação das crianças e às sementes de amor e reverência às suas crenças que, por certo, carregarão para o resto da vida nos momentos cruciais.
Fico feliz, imensamente feliz, por essa lembrança terna e eternamente presente, do meu pai.



Visitem Adir Vieira
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As Três Crianças - por Alba Vieira

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Cada um de nós, inevitavelmente, estará, ao longo de sua existência, em contato com três tipos de criança. E se ignorar uma delas, não conseguirá sentir-se pleno. É um engano imaginar que somos diferentes nesse aspecto pelo fato de termos filhos ou não, de nossa condição econômica ou psicológica.
Essas crianças precisam ser alimentadas, indiscriminadamente, por cada um de nós.
Se temos ou não temos filhos, não importa. Se optamos por não tê-los ou se não pudemos gerá-los, se adotamos alguma criança ou não concordamos em fazê-lo, de alguma forma teremos crianças por perto na família, de amigos, de vizinhos, no trabalho ou mesmo em alguma instituição à qual podemos nos filiar. Essas são crianças diretamente ligadas a nós, de quem podemos saber os nomes e detalhes da vida. Elas precisam do nosso cuidado, orientação, do nosso olhar e da nossa atitude.
O segundo tipo são aquelas crianças ligadas a nós de forma indireta. Não conhecemos suas identidades nem muitas coisas da sua história, mas as vemos jogadas pelas ruas, com fome, prostituídas, vítimas das drogas, dos abusos ou esquecidas em orfanatos esperando, indefinidamente, por adoção. Também são crianças fotografadas e filmadas em outras terras, protagonizando documentários sobre os horrores da miséria, da guerra, das desigualdades sociais, espalhadas pelo mundo. Elas necessitam do mínimo que pudermos fazer por elas, através do nosso trabalho, da nossa denúncia, indignação, nossas ações cívicas ou globalizadas.
E a terceira categoria de crianças existe dentro de cada um de nós. Elas precisam, urgentemente, do nosso resgate, por meio do reconhecimento de que existem, dos cuidados que devem ser a elas dirigidos para que desenterremos sua história, as recuperemos e permitamos que ganhem vida outra vez. E assim, através de cada um de nós renascido e renovado, possam ser responsáveis pela melhora desse mundo e evolução da humanidade.
Desejo que neste dia das crianças, todos nós possamos ter a oportunidade de refletir e nos deixarmos acercar por essas três espécies de criança, nem que seja só através da imaginação e sermos capazes de dirigir a elas um sorriso grandioso de acolhimento.



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Criança - por Dan

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Como luz
Caminha por entre nuvens
Festa e Fantasia
Amor, desejo, fartura

Brincadeiras
Total Liberdade
Anjos disfarçados
Verdade e beleza

Criança, queria nunca crescer
Sentir a realidade
Desse mundo de homens
Homens que destroem

Não devia sofrer
Não devia ser abandonada
Não devia chorar
Devia sim, ser feliz




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Canto em Tom Maior - por Daisy

Meu canto inicial era visceral.
Brotava de um canto escuro de minha mente,
Escuro e triste.
Era um canto desafinado, sem ritmo.
Harmonia pesada e complexa.
Um canto que estava engasgado,
Que precisava se fazer presente,
Gritar, colocar para fora
Toda aquela melancolia e solidão.
Em tom menor!
Meu canto não me encantava,
Nem a ninguém, suponho.
Meu canto cansado que se cale!

Meu canto vem se modulando,
Mostrando uma harmonia leve e simples.
Vem se afinando aos poucos.
Parece que flui com um ritmo suave.
Quero meu canto soante, cantante.
Que me encante e a quem o ouça.
Em tom maior!




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Desdobramento - por Leandro M. de Oliveira

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Um dia ele mergulhou num sono profundo e lá permaneceu por eras incontáveis, no escuro da caverna sedimentou o seu sonho. Todavia, num desses golpes da natureza, como que fosse ânsia de vida por si própria, aquele homem acordou. Sua pele não era como a de outros homens ou mulheres, começava a se mudar em forma de uma espécie de couraça, delgada porém de resistência incomum. Darwin tenha um bom lugar no céu! A lei de sobrevivência foi embrutecendo-lhe ante os perigos da sombra, ainda que inconsciente do abismo a evolução brotou-lhe como a primavera em campo aberto. Ergueu-se finalmente daquela cama de campanha, tumular, ineditamente após mil ciclos da lua metafórica viu-se fora da caverna. O sol queima-lhe tanto a tez como os olhos, a essa altura inabituados com qualquer espasmo de claridade. Muito, porém, do desconforto daquela hora fora suprido por revelação mais grave, os pulmões inflavam sem que doessem as costelas, os pés caminhavam sem que houvesse ranger de correntes. “Meu Deus! Estou livre!” Sussurrou em espanto, aquele momento capital de sol a pino e agressão ocular convertera-se em verdade, no momento da descoberta última. Era como se pudesse rasgar com as mãos o quadro do tempo e repintá-lo a seu modo. Aquele homem teve a benção de escolher o próprio caminho. O arrefecido de mitos pretéritos fora reduzido a não mais que isso, alegoria da ignorância ou roupa que não mais se usa. Foi-se o tempo e o assombro, o degelo chegou, o inverno desfaleceu. Compartilhou entre as pessoas, cantou entre os homens, fornicou com as mulheres. Tudo era possível pra alguém sem passado. Caminhava só e tão preenchido de si que era ele mais uma multidão singular que um alguém a carregar coisa por dentro. Mas a vida tem seus desvarios, ele erra em medos cotidianos, e se não há respostas pula a janela da frente e caminha descalço na chuva. O alto cosmo não é de estrelas fixas, para o algo além é necessária a vida de planeta andarilho. Não há modos de se acomodar.

Como aquele homem, meto a mão na consciência quando existir é grave e se ela nada me diz, meto o pé na lama e caminho como um animal a pasto. Mas há um empecilho aqui, esse homem é uma ficção! Ele existe como alegoria, daquilo que sei e do que eternamente suponho. Mais uma vez eu; a usar a máscara do futuro sonhado, a estar ainda em contradição por desprezar o tempo que me leva sem saber. Que posso saber de uma vida nova? Só tenho minhas hipóteses e meu convencimento. Se falar de um novo começo fosse simples como gritar ou esquecer, teria eu mais méritos nisso. Sorry minh’alma, muito prazer, até mais. Fui abominado por não crer na família. Acontece que mesmo não admirando o status quo, suspeito que as pessoas de bem devem estar alheias ao crime organizado.

E o quarto continua avesso à realidade, apenas um cômodo em aparência, muito mais em perspectiva. E eu continuo avesso ao que penso crer, de fora um dogma em construção, de dentro a sombra do precipício. Súbito isso me bate, e me arrepio e cismo. Sou estrangeiro na terra que me deram. Posto aqui, sobrevivo como um personagem habitando clandestinamente dentro de mim.
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