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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




sexta-feira, 10 de julho de 2009

Chico Buarque e “O Meu Guri” - por Alba Vieira

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
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Duelando Manchetes II: Eutanásia - por Ana

Minha querida Ninguém:
Vamos sentar aqui nas cadeirinhas no Litercafé para uma conversa mais longa sobre a questão da eutanásia?
Vou pedir um chá de camomila com bolo de chocolate pra nós enquanto ouvimos Gracias a la Vida, o que acha?

Bem, para falar sobre a eutanásia você nomeou o texto como “Médicos que Matam”. Devo discordar de você: neste caso específico, em que há a certeza da morte devido a um estado patológico, o que mata é a doença, não o médico.
Sobre “até onde nos cabe o direito de decidir pela vida de outro, quando o outro (...) não pode dizer suas vontades”, acho que não nos cabe, em hipótese nenhuma. Este direito cabe apenas à própria pessoa. Não é decisão do médico, dos familiares ou do Estado. Se a pessoa, antes de se encontrar nesta situação, não se posicionou, não expôs a quem de direito sua vontade, vacilou legal.
Sobre o nosso poder de escolher morrer ou não, creio que temos este poder (à margem das questões metafísicas) e que ele é só nosso.
Então você pergunta: “Temos o direito de ter eutanásia?” Eu respondo: sim, nós temos.
Você diz que “eutanásia seria um suicídio e um assassinato”. Bem... voltamos à questão da causa mortis e surge um outro ponto importante a considerar. Sobre a causa mortis, quem está matando a criatura é a doença, não o médico, então não é assassinato. A outra questão é: qual o problema do suicídio? Quando eu ouço “Deus dá o frio conforme o cobertor”, costumo dizer que, se fosse assim, não existiriam suicidas. Muitas vezes o sofrimento é tão intenso que as pessoas não aguentam, preferem não viver mais; e esta é decisão que só cabe a elas, a mais ninguém por elas. O quanto cada um suporta de sofrimento é absolutamente particular e não passível de julgamento ou imposição de crenças de outrem. Se eu estiver numa situação destas: irremediavelmente crônica, vegetando num leito (de hospital ou não), comatosa ou sofrendo desesperadamente e tendo por únicas possibilidades a morte (breve ou tardia) ou alguma descoberta fantástica da ciência (sei lá quando), pode ter certeza absoluta de que vou querer a morte breve com o mínimo de sofrimento. E vou ser muito grata à vida se ela permitir que eu encontre um profissional que respeite meu desejo. Eu jamais vou querer ser (nem por meses, que dirá anos!) um vegetal dependente, fedido, inútil, cheio de secreções nojentas, tubos, escaras e dor. Aos 12 anos, quando tomei conhecimento de um caso polêmico envolvendo a questão da eutanásia, determinei para a minha família que esta era a minha vontade, mantenho-a até hoje e manterei sempre.
Quanto ao médico, pode-se esperar que ele preserve a vida, faça-a melhor, prolongue uma sobrevida mais confortável, mas, acima de tudo, respeite o desejo de seu paciente. Acredito que a maior parte dos médicos não lide bem com a eutanásia porque foram instruídos na crença (falsa) de que tudo podem e que só devem capitular diante da morte depois de fazerem tudo para evitá-la. Na realidade, quando falamos em eutanásia, não estamos tratando, prioritariamente, de médico x morte, mas de paciente, sofrimento e morte (o médico é apenas o profissional envolvido responsavelmente (ou não, dependendo da legislação)).
Quanto às leis, penso que elas devem ser capazes de contemplar todas as vontades e crenças. Se há pessoas que privilegiam a vida, mesmo com intenso sofrimento, a legislação deve garantir que esta escolha seja cumprida; e se há pessoas que preferem abrir mão de viver nesta condição, esta escolha também deve estar protegida pelas normas legais.
Devo esclarecer, antes de me despedir, que todas as minhas observações dizem respeito à eutanásia passiva ou ortotanásia (em que são interrompidas todas as ações para o prolongamento da vida) e não à ativa (quando a morte é planejada por paciente e profissional). No que se refere ao segundo caso, a minha posição é que: sim, trata-se de assassinato e suicídio. Mas não julgo. Porque, como disse, acho que todas as pessoas têm o direito de cometer suicídio (como têm o direito de se manterem em estado terminal ou comatoso pelo tempo que desejarem) e, em relação ao médico, é uma decisão muito particular e cada caso é único. Quem sou eu para afirmar alguma coisa em relação a alguém que agiu movido pela compaixão diante do sofrimento e do desejo de seu paciente? Eu poderia ser este paciente que pediria ajuda para dar cabo da própria vida e seria ótimo se houvesse alguém que se dispusesse a fazer isso e pudesse fazê-lo sem bloqueios de ordem legal.
Mas não sinta desprazer ou vergonha de querer ou ser médica. Exatamente sua sensibilidade e sua humanidade são coisas que andam faltando nesta classe.

Acho que é tudo o que penso sobre o assunto. Só me resta dizer, ainda, que trabalhei por 15 anos na rede pública de saúde, estive internada algumas vezes por períodos de tempo consideráveis (inclusive já estive em CTI), acompanhei de perto pacientes terminais (familiares ou não). Desta forma, meu posicionamento tem por base não só o que acredito ser melhor para mim, mas a convicção de que não cabe julgamento em situações como esta, já que existe uma enorme diversidade de pontos de vista, crenças, medos e outros sentimentos envolvidos no processo de morte.

Apesar do tema de nossa conversa, espero que tenha apreciado nosso lanche.
Um beijo grande.




Resposta a Duelando Manchetes II: Eutanásia, de Ninguém Envolvente.
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As Nossas Palavras XVI - por Alba Vieira

Os acontecimentos na vida dos homens não representam prêmios ou castigos. Antes, refletem as escolhas que continuamente se fazem necessárias, sendo somente consequências delas.



Visitem Alba Vieira
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Paulo Angelim e a Morte - Citado por Adir Vieira

Num artigo muito interessante, Paulo Angelim, que é arquiteto pós-graduado em marketing, dizia mais ou menos o que se segue.

Nós estamos acostumados a ligar a palavra morte apenas à ausência de vida e isso é um erro. Existem outros tipos de morte e precisamos morrer todo dia. A morte nada mais é do que uma passagem, uma transformação. Não existe planta sem a morte da semente, não existe embrião sem a morte do óvulo e do esperma, não existe borboleta sem a morte da lagarta, isso é óbvio. A morte nada mais é que o ponto de partida para o início de algo novo, a fronteira entre o passado e o futuro.
Se você quer ser um bom universitário, mate dentro de você o secundarista aéreo que acha que ainda tem muito tempo pela frente.
Quer ser um bom profissional? Então mate dentro de você o universitário descomprometido que acha que a vida se resume a estudar só o suficiente para fazer as provas.
Quer ter um bom relacionamento? Então mate dentro de você o jovem inseguro, ciumento, crítico, exigente, imaturo, egoísta ou o solteiro solto que pensa que pode fazer planos sozinho, sem ter que dividir espaços, projeto e tempo com mais ninguém.
Quer ter boas amizades? Então mate dentro de si a pessoa insatisfeita e descompromissada, que só pensa em si mesmo. Mate a vontade de tentar manipular as pessoas de acordo com a sua conveniência. Respeite seus amigos, colegas de trabalho e vizinhos. Enfim, todo processo de evolução exige que matemos o nosso “eu” passado, inferior.
E qual o risco de não agirmos assim? O risco está em tentarmos ser duas pessoas ao mesmo tempo, perdendo o nosso foco, comprometendo essa produtividade e, por fim, prejudicando nosso sucesso.
Muitas pessoas não evoluem porque ficam se agarrando ao que eram, não se projetam para o que serão ou desejam ser. Elas querem a nova etapa, sem abrir mão da forma como pensavam ou como agiam. Acabam se transformando em projetos acabados, híbridos, adultos infantilizados. Podemos até agir, às vezes, como meninos, de tal forma que mantemos as virtudes de criança que também são necessárias: brincadeira, sorriso fácil, vitalidade, criatividade, tolerância etc.Mas, se quisermos ser adultos, devemos necessariamente matar atitudes infantis, para passarmos a agir como adultos.
Quer ser alguém (líder, profissional, pai ou mãe, cidadão ou cidadã, amigo ou amiga) melhor e evoluído? Então, o que você precisa matar em si, ainda hoje, é o “egoísmo”, é o “egocentrismo”, para que nasça o ser que você tanto deseja ser.
Pense nisso e morra. Mas não esqueça de nascer melhor ainda.

“O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.” (Fernando Pessoa)
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Recebi um pps com este texto que achei lindo.
Fiquei com vontade de dividir com todos.
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Tropa de Elite - por Bruno D’Almeida

Adorei Tropa de Elite, sobretudo pelo roteiro, que tem uma verossimilhança fantástica. As pessoas podem criticar o posicionamento do personagem, mas o filme mostra de maneira crua a marginalidade do ponto de vista do policial. Bráulio Montovani, o roteirista, foi o mesmo de Cidade de Deus, e não ficou o mesmo filme, apesar de tratar de favela, tráfico e polícia.



Resposta a Pegou Geral..., de Ana.
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José Padilha, Fernando Meirelles

Cotidiano - por Laila Braga

Sobre coisas que acontecem no dia-a-dia das pessoas e que elas nem ao menos notam.

Os pequenos pelos em movimentos circulares que circulam nas cerâmicas amareladas envoltas num alinhamento preto formado pelo tempo. Cima, baixo, lados e mais círculos.

Ver a mistura de tonalidades se misturando em globos de neves agitados pela mão que esfrega; ver a formação da espuma branca que se mistura em outras cores menos puras que a sua; amarelo, preto, branco... Todas elas. Todas juntas sem ao mesmo manter sintonia.

Desce o líquido transparente limpando as cores que unidas sem fazer questão se desfazem. Aí entra o dizer do pequeno grande Drummond “rolam num rio difícil e se transformam em desprezo”.



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Carlos Drummond de Andrade

Brasilândia! - por Ninguém Envolvente

Ontem (14/12/08) participei de um ato voluntário no bairro: Brasilândia (Zona Norte - São Paulo) organizado pelo Centro Espírita Batuíra. Distribuímos roupas, brinquedos e uma espécie de cesta básica para famílias cadastradas e assistidas pelo Batuíra.
Não foi um choque e muito menos um momento reflexivo de minha parte, sei que a pobreza existe (miséria mesmo) e sei quantas muitas pessoas precisam ter um empurrão para subsistir.
De qualquer forma, sabemos da pobreza e que devemos ajudar quando temos a oportunidade, sabemos que temos de respeitar o que temos e amar nossas coisas. Vamos o que de fato interessa: os olhos. Sim, os olhos dos destinatários de nossas doações.
Olhos que: agradeciam... se envergonhavam... Pediam mais, não acreditavam no que viam... Emocionavam-se e desacreditavam que aquilo tudo era deles e para eles. Olhos de gratidão, olhos de sofrimento, olhos de fé, olhos de caridade.
Só não encontrei os piores olhos: os de piedade.
Os melhores eram os olhos de descrença, os olhos que não esperavam tanto, que a meu ver era tão pouco e exagero dizendo “insignificante”, eu não soube calcular a necessidade de cada olho, mas no fundo sabia que todos eles voltariam para casa com o mesmo olhar: olhos de alívio.
Alívio por ter ganhado mais do que contava... alívio por ter recebido o almoço daquele domingo, alívio por saber que aquilo era de coração e não porque estávamos pagando nossos pecados por sermos tão inquietos com as coisas materiais que queremos e não temos o poder aquisitivo para ter. Era sinceramente pelo prazer de ver os olhos de alívio.
Um alívio divino mais do que merecido. E desejo que mais do mesmo ainda venha e terei a chance de na próxima doação encontrar apenas um novo olhar, aquele quase desconhecido na Zona Norte: Olhos de Fartura.



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Michel de Montaigne e as Ações Humanas - Citado por Penélope Charmosa

Fazemos coisas iguais com forças diversas e diferente esforço de vontade. A ação vai bem sem a paixão. Pois quantas pessoas se arriscam diariamente em guerras que não lhes importam, e se sujeitam aos perigos de batalhas cuja perda não lhes perturbará o próximo sono? Um homem na sua casa, longe desse perigo que não teria ousado encarar, está mais interessado no desfecho dessa guerra e tem a alma mais inquieta do que o soldado que põe nela o seu sangue e a sua vida. Essa impetuosidade e violência de desejo mais atrapalha do que auxilia a condução do que empreendemos, enche-nos de acrimônia e suspeição contra aqueles com quem tratamos. Nunca conduzimos bem a coisa pela qual somos possuídos e conduzidos.
Quem emprega nisso apenas o seu discernimento e a sua habilidade procede com mais vivacidade: amolda, dobra, difere tudo à vontade, de acordo com as exigências das circunstâncias; erra o alvo sem tormento e sem aflição, pronto e intacto para uma nova iniciativa; avança sempre com as rédeas na mão. Naquele que está embriagado por essa intensidade violenta e tirânica vemos necessariamente muita imprudência e injustiça; a impetuosidade do seu desejo arrebata-o: são movimentos temerários e, se a fortuna não ajudar muito, de pouco fruto. A filosofia quer que do castigo pelas ofensas sofridas eliminemos a cólera; não para que a vingança seja menor mas, pelo contrário, para que seja mais bem assestada e de mais peso; e parece-lhe que tal impetuosidade põe obstáculo a isso. A cólera não apenas perturba como, por si, também cansa os braços dos que castigam. Esse fogo entorpece e consome-lhes as forças. Como na precipitação, a precipitação é lenta (é causa de demora) (Quinto Cúrcio), a pressa dá rasteira em si mesma, entrava-se e intercepta-se. A precipitação enreda-se em si mesma (Sêneca). Por exemplo, de acordo com o que vejo na prática habitual, a cupidez não tem maior estorvo do que ela mesma: quanto mais tensa e vigorosa for, menos fértil será. Em geral ela agarra mais prontamente as riquezas quando mascarada por uma imagem de liberalidade.



In “Ensaios”.
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