segunda-feira, 12 de março de 2012

O adeus de um soberano

O mundo perdeu no último dia 7 um dos últimos grandes soberanos que existia. Após um procedimento médico faleceu Idi Amin. Desde jovem sua liderança e humor temperamental se destacaram, cativando alguns, afastando outros. Com mão forte foi impiedoso com as tentativas de invasão de sua terra matando os tumultuadores. Manteve-se no poder devido a sua inegável truculência, mas também por atos cativavam quem o cercava. Entretanto com o passar do tempo foi ficando solitário e, com a idade pesando, aceitou receber algumas novas figuras em seu palácio. Para uns sinal já de uma saúde debilitada e da deterioração de uma mente antes implacável. Até que, após receber sedação para testes, sofreu uma parada cardiorrespiratória e não sobreviveu. Deixa uma grande lacuna que só o tempo poderá preencher.

***Para quem possa estar confuso, o gorila Idi Amin chegou ao zoológico de Belo Horizonte em 1975, vindo de uma instituição francesa, ainda criança, com 2 anos. Era o animal símbolo da instituição e faleceu na semana passada.

quarta-feira, 7 de março de 2012

TODOS DORMEM


TODOS DORMEM

Cheguei de mansinho
Silenciosa, sorrateira
Todos dormem
Nenhum sinal de vigília
Pisei leve, nada disse
Cautela, toda cautela
Meu pensamento veio antes
Ele sempre vem...
Podia ouvir seus pensamentos,
questionando os meus
Nenhum alarde,
Acordei a brisa,
Com ela veio o vento
E as nuvens se moveram
Rápidas, trouxeram a tempestade
Que caiu impiedosa
E todos acordaram...

Vera Celms
Licença Creative Commons
O trabalho TODOS DORMEM de Vera Celms foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

terça-feira, 6 de março de 2012

Do Mal em Nós, fala A. Soljenítsin - Enviado por Ana

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“Ah, se as coisas fossem assim tão simples! Se num dado lugar houvesse pessoas de alma negra, tramando maldosamente negros desígnios, e se se tratasse somente de diferenciá-las das restantes e de aniquilá-las! Mas a linha que separa o bem do mal atravessa o coração de cada pessoa. E quem destrói um pedaço do seu próprio coração?...
No decurso da vida de um coração esta linha desloca-se dentro dele, ora oprimida por uma alegria maligna, ora libertando espaço para o despontar da bondade. Uma mesma pessoa nas suas diferentes idades e em diferentes situações da vida constitui um ser completamente distinto. Ora próxima do diabo, ora próxima de um santo. Mas o nome não muda, e é a ela que tudo é atribuído.
[...]
Sim, o homem oscila, debate-se toda a vida entre o bem e o mal, escorrega, cai, levanta-se, volta a cair de novo. Todavia, enquanto não transpõe o limiar da maldade guarda sempre a possibilidade de retorno, e mantém-se nos limites das nossas esperanças. Mas quando, pela densidade dos atos de maldade, ou pelo seu grau, ou pelo poder absoluto que detém, ele transpõe subitamente o limiar, ei-lo que abandonou a humanidade. E talvez sem regresso.”


In “Arquipélago Gulag”, p. 171, 177.
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segunda-feira, 5 de março de 2012

Olhos encantados



Olhos encantados

O talento do artista às vezes ultrapassa as barreiras da imaginação, tanto que os espectadores não conseguem entender se na realidade ele está fora ou dentro da história contada.

Um casal de artistas manuseando bonecos se encontrou ocasionalmente em uma grande praça, digamos que o encontro não foi tão ocasional quanto parece, já que se conheciam no imaginário acidental e nesse encontro amedrontado estavam temerosos com o pensamento das pessoas que os observavam. O encontro de dois personagens reais que sentam para almoçar e sem perceber que poderia acontecer uma história de amor dentro de outra, penduraram seus bonecos juntinhos no encosto de uma cadeira, tão pertinho como eles, olho no olho e onde se imagina não haver coração as garras e as cores do amor penetraram pelos olhos sedutores da arte.

Um almoço delicioso com uma maravilhosa macarronada e muito vinho, uma refeição tão saborosa que os limites da bebida foram ultrapassados, incrível como nem o calor da bebida sedutora conseguiu juntá-los, então se levantaram e caminharam manuseando seus bonecos. À medida que caminhavam desequilibrados os bonecos também pareciam embriagados.

Esse caminhar sinuoso levava os bonecos a se encontrarem e se tocarem a todo o momento, cada toque parecia dar choque deixando-os mais apaixonados.

Ele a abraça pertinho do ouvido e fala:

- Estou sem condições de dirigir! Vou sentar na praia e tomar coco verde para melhorar. Vamos?

- Tem certeza de que você não vai se afogar na água de coco e riu.

- Prometo pra você que antes de ir embora, ainda vou mergulhar nesse mar gostoso.

Ela respondeu sorrindo e feliz:

- Só se for amanhã!

- Você é linda, mas quando está feliz é muito mais. Sabia! Agora vamos tomar água de coco!

Caminharam com os bonecos pela praia deixando rastros, as pegadas deles na areia terminavam em um quiosque cheio de coqueiros, onde sentaram à sombra apreciando aquele mar infinito sentindo uma brisa forte que desarrumava seus cabelos. Colocaram os bonecos sentados sobre a mesa de frente para o mar e pediram coco verde gelado.

Ela apenas o observava, então ele falou:

- Olha para esses bonecos juntinhos. O que será que eles estão pensando?

- Devem estar pensando assim: Esse mar delicioso e nós não podemos aproveitar, pois mesmo com tanto amor ainda continuamos vivendo presos e imóveis nesses corpos de bonecos.

- Então vamos levá-los para o mar.Vem! Vamos!

Levantaram e caminharam pela água com os bonecos nas costas, apenas curtindo as ondas abraçando seus pés. Algum tempo de caminhada e eles chegaram a um riacho que saía do mangue desaguando no mar, então ele perguntou para ela:

- Vamos atravessar? Não é fundo!

- Eu só atravesso se você me levar nas costas. Não quero molhar minha saia!

- Eu posso tentar, mas não garanto que conseguirei levá-la até a outra margem.

- Assim não! Tem que prometer me levar até o outro lado?

- Primeiro vou atravessar sozinho para sentir a força da correnteza e ter certeza que o fundo não é muito fofo, senão vou ficar atolado no meio da correnteza com você nas costas, se isso acontecer danou. Segura a minha camisa que eu vou atravessar!

- Então atravessa logo!

A água estava gelada e logo molhou sua bermuda, mesmo assim ele atravessou tranquilo, depois voltou até ela e falou:

- Vamos fazer um teste antes. Sobe nas minhas costas!

Ela subiu, porém ficou desconfortável, pois o sufocava agarrada em seu pescoço.

- Vamos mudar de posição. Melhor você subir de frente!

Ela abraçou no pescoço dele cruzando as pernas em seu corpo, enquanto ele a segurava no colo abraçando suas pernas macias e sem hesitar penetraram na correnteza forte do riacho.

Em meio àquela correnteza forte ele fala para ela:

- Essa posição e você com essa saia me atenta!

- Eu já percebi!

Ela apertava mais as pernas para provocá-lo e nesses descuidos os bonecos escaparam da mão dela sendo levados pela correnteza do riacho. Eles apenas olharam sem fazer nada, não tinha como pegá-los novamente e eles foram embora como se estivessem se libertado dos cordões e a única coisa que conseguiam ver eram os bonecos rolando rumo ao mar, finalmente conseguiram alcançar as ondas tão desejadas. No momento em que as ondas subiam eles viam as mãos dos bonecos como se estivessem se despedindo num adeus de felicidade e liberdade.

Ele continuava a travessia enquanto ela o beijava e mordia sua orelha, até que eles conseguiram alcançar a outra margem, então ela falou:

- Não é que você conseguiu!

- Mas não foi fácil, foi um sofrimento aguentar tanta tentação. Agora vamos! Você ainda consegue avistar os bonecos?

- Não! Eles desapareceram no mar.

- Melhor esquecê-los, que eles se foram. Nessa parte da praia a areia é mais grossa e mais gostosa para caminhar, parece massagear os pés e a praia desse lado está deserta, acho que a natureza nos deu ela de presente. Vamos caminhar até aquelas rochas.

Foi uma longa caminhada até que avistaram grandes siris azulados, num contraste entre o azul e o vermelho. Ele tentou pegar um, mas não conseguiu, então falou para ela:

- Estou com uma vontade louca de urinar!

- Eu também!

- Vou urinar, mas não fica olhando!

Não adiantou falar, ele urinava e ela olhava curiosa, muito curiosa, até que ele terminou.

- Agora é você!

- Com você olhando eu não consigo!

- Faz o seguinte: Tira a calcinha que eu a seguro pra você, depois a gente agacha e faz de conta que está escrevendo na areia.

- Tá bom!

Ela tirou a calcinha e deu na mão dele, em seguida agacharam e começaram a escrever na areia.

Ele a olhou se aliviando e escreveu:

- Ela está carequinha. Não vejo pelinho nela.

Ela escreveu:

- É para refrescar! Ela sente muito calor!

- O vento da praia ajuda a refrescar. Coloque sua calcinha e vamos!

Ele se levantou e imediatamente apagou aquele fogo ardente da paixão chamando-a para caminhar de volta, já que a noite ameaçava chegar e tinham que atravessar o riacho.

No caminho ele comparava aquela imensidão de conchinhas coloridas espalhadas pela areia com a infinidade de estrelas que iluminam o céu afirmando que tal brilho seja o mesmo, apenas iluminando lugares diferentes e a prova desse brilho está no encanto dos olhos.

Corriam naquela praia deserta como se estivessem correndo em um sonho e o mar fazia questão de participar molhando seus pés e fazendo um tapete de areia fofa para que suas pegadas ficassem marcadas para sempre na história daquela parte da praia quase abandonada.

Finalmente chegaram ao riacho e ela perguntou:

- E agora?

- Sobe nas minhas costas e segura firme, tenta se apoiar mais nos ombros.

Ela subiu com as pernas cruzadas envolvendo o corpo dele, que as segurou com força, porém não deu certo, pois ela o sufocava agarrada em seu pescoço.

- A água do riacho está mais alta, assim só tem uma maneira de eu te carregar e não molhar a sua saia, seria levar você no ombro, então ela falou:

- Você me trouxe para este lado. Agora vai ter que levar de volta! Fazendo cara de emburrada.

Ele a colocou no ombro segurando em suas pernas e penetraram no riacho. No meio da correnteza ela falou rindo:

- Você está passando a mão na minha bunda!

- Não! Eu tenho que te segurar pelas coxas. Não tem outro jeito!

- Não quero nem saber! Vou passar a mão na sua bunda também. Enfiou a mão por dentro da bermuda dele dando gargalhada.

Para doidinha! Nós vamos cair! E continuou a travessia.

As águas correntes batendo nas pernas dele faziam um barulho transformador da alma e aquela calma tranquilizante e hipnotizante parecia fazê-los voar nos sentidos, entregues ao prazer da emoção interna e uma sensação de amor gostoso e inocente. Ela o apertava em seus seios naquele anseio de felicidade e prazer, estava tão bom que ela nem viu o tempo passar e chegarem à outra margem do riacho.

Quando pisaram em areia firme a noite já havia chegado e já estavam com fome novamente, então compraram pasteis de palmito quentinho em um quiosque iluminado e depois sumiram caminhando pela praia escura. Os bonecos ficaram pelo caminho deixando apenas suas pegadas cravadas na areia e na memória dos artistas. Foi um momento em que a arte criou vida e se libertou dos artistas.

Às vezes ela apaga as luzes do quarto e no escuro tenta encontrá-lo novamente, enquanto ele acende as luzes do quarto e escreve para ela satisfeito por ter tido um pouquinho do carinho e do amor dela, mesmo que tenha sido apenas por um dia.

Zp...........
Criador de vaga-lumes
Paulo Ribeiro de Alvarenga


Imagem tirada do google imagens

domingo, 4 de março de 2012

Só por hoje

O despertador me acorda e ao levantar o dia não parece promissor - como ontem, e o dia anterior... No chuveiro tento extrair alguma força vital da vibração das moléculas de água para ajudar na minha entropia. Meu mantra, ou mania, mas usualmente ajuda e sigo o dia. Que às vezes é ruim, às vezes é bom, e geralmente fica na média. E quando o despertador me acorda de novo tenho uma grande sensação de dejà vu, e é porque realmente já vi e vivi. Algumas vezes também pensei em desitir. Só sempre espero que hoje seja melhor que ontem.

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu espero conseguir
Aceitar o que passou o que virá
Só por hoje vou me lembrar que sou feliz
 ...
Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu não vou me destruir
Posso até ficar triste se eu quiser
É só por hoje, ao menos isso eu aprendi
                                           Renato Russo 
                                                          Ouça no volume máximo

sábado, 3 de março de 2012

Museu de Arte Contemporânea - Antonio Cícero

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Fica em Boa Viagem. Disco voador
ele não é, pois não pousou na pedra
mas se ergue sobre ela; nem alça voo:
à orla de cidades e florestas
suspende-se no ar feito pergunta
e o que tem dentro mergulha e se banha
no mundo em volta e o mundo em volta o inunda:
é o museu fora de si, de atalaia
à curva do abismo, à altura das musas,
sobre o mar, sobre a pedra sobre o mar,
e sobre o espelho d’água em que se apura
sobre essa pedra um mar a flutuar,
um céu na terra, quase nada, um aire,
a flor de concreto do Niemeyer.

In “A Cidade e os Livros”, p. 15.
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sexta-feira, 2 de março de 2012

solidão


Sofremos muito com o pouco que nos falta
e gozamos pouco o muito que temos.


William Shakespeare


Reflexões de Nari - Enviado por Alba Vieira

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"A vida é um ato de equilíbrio. Perder a consciência de onde você está a qualquer hora é arriscar cair da corda bamba da vida."


"Metade do problema de obter uma resposta é estar disposto a escutar."

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quinta-feira, 1 de março de 2012

Pandorga negra


Pandorga negra

Uma pandorga negra caiu do céu sobre o meu quintal
e aterrisou na minha árvore de Natal
sim, minha árvore de Natal é um pinheiro
fica lá fora o ano inteiro
só a enfeito para os festejos natalinos
atrás da nave de papel vieram os meninos
queriam pular o muro e resgatá-la, um troféu
felizmente eu tenho um guardão,
uma cão fiel que mantém meu território seguro
e a pandorga ficou lá a tarde inteira
a balançar no ar, negra bandeira.
 
Escrevinhadora - set/2011

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

amor

O Amor é gratuito.

Não se compra e nem se troca.

O Amor requer profundidade.

Não sobrevive na superfície.

O Amor

repousa na alma de onde transborda para o corpo e para o universo.

O Amor tece laços com linhas de infinito.

É bom estar de volta

Nestes tempos em que o Duelos esteve fora do ar publiquei um novo livro de poesias "Tubarões nunca dormem", escrevi quase que diariamente num blog "Insanosetalentosos" e, admito, senti muita falta do contato com o Duelos, do Gio, da Ana, do Shintoni, da Fatinha, da Alba.
É muito bom saber que estamos de volta. Recuperarei o hábito de visitar o blog todos os dias, de procurar avidamente pelas novidades, de comentar as postagens dos meus colegas virtuais.
E tentarei encontrar inspiração para escrever em dois blogs ao mesmo tempo.
Saudações literárias a todos os frequentadores destas páginas.
Escrevinhadora

ANO BISSEXTO


Hoje é um dia de verdade?

O dia 29 de fevereiro é de verdade ou uma invenção humana? O tal ano bissexto, que deveria se chamar biquarto, dada a sua existência a cada quatro anos, parece ficção, mas está aí. Amanheceu 29, lindo por sinal. Pelo menos aqui no sudeste do Brasil. E vai cumprir sua sina inexoravelmente. Com sol aqui, chuva acolá, frio mais além, como faz a cada quatro anos, desde que o homem, para adaptar o calendário romano aos movimentos da terra perante o majestoso sol, instituiu que fevereiro, a cada quatro anos seria assim. Tenhamos mais ou menos dívidas para pagar. Temos  sete meses com 31 dias e apenas quatro com 30, o que já é uma covardia do tempo com a igualdade dos meses e com os que vivem às custas das vendas de suas horas de trabalho.

Podem consultar nos dicionários e compêndios de ciências as explicações astronômicas porque não vou fazê-las aqui. Apenas direi do incômodo e ao mesmo tempo do encanto de ter convivido  já com muitos anos bissextos. Quando criança, a curiosidade maior era com o Seu Abel, lá de minha Itabira, dono da única venda de jornal e revistas da cidade, que (diziam) fazia aniversário nesse dia. Os poucos cabelos que lhe restavam, eram brancos e, ao mesmo tempo,  tinha a idade de um jovem. Para mim ele só podia contar anos nesse dia, portanto, tinha 4 a menos que os seus  comtemporâneos. Logo, como poderia envelhecer igual aos outros mortais?

Mais adiante nos estudos vinha a tal explicação científica (mal dada),  de como funcionava o encaixe do dia, sem convencer, claro, já que a uma criança e, às vezes até a um  adulto mesmo, se não der para se apalpar a explicação ela cai no descrédito.

Ao assumir certas responsabilidades que a vida impõe, vem a tristeza de um dia a mais nas contas. Água, luz, telefone... E um dia a se esperar a mais para o próximo salário.

Portanto, nenhum ponto a favor até agora para esse intruso. Às vezes as definições que damos para o correr da vida variam de acordo com o lugar de onde olhamos as coisas antes de definí-las. Por exemplo, eu poderia dizer que, pelo menos a cada quatro anos, tenho um dia a mais para envelhecer menos. No olhar de alguém mais jovem, já me disseram aqui, que é um dia a mais que tem de  ser vencido para se chegar “lá” (aonde, não me perguntem). E para terminar, uma definição do dicionário diz que bissexto é para designar aqueles que pouco produzem. No caso dos poetas, tem que se fazer uma coletânea para se chegar a uma obra completa. De quatro em quatro anos.  

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Para vocês, só Fernando Pessoa:

"De tudo ficam três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo
Da queda, uma dança
Do medo uma escada...
Do sonho uma ponte...
Da procura um encontro..."

Criador de vaga-lumes


Criador de vaga-lumes

A arte é exigente na criatividade e demanda autoconfiança, habilidade e coragem, mas aquela insegurança atava sua coragem aprisionando-o numa grade invisível de medo e nos momentos de liberdade mantinha-o numa trilha exclusa e deslocada.

O dom da criação corroia sua alma numa dor invisível e aquela sensação permanente de que era capaz parecia carregar a chave da realização e felicidade, porém mesmo possuidor de tal chave não encontrava a porta da confiança para abri-la e finalmente tornar-se um artista, foi nesse exato momento que decidiu criar vaga-lumes, pois eram essas pequenas luzes que faltavam para iluminar seu caminho.

O criador de vaga-lumes estava pronto, mas ainda precisava desvendar um mistério, seria onde encontrar os tais vaga-lumes de sua arte.

Foram precisos muitos anos para decifrar tal questão e mesmo depois de encontrada a resposta, ainda existia a grande dúvida: De como fazer as luzinhas dos vaga-lumes brilharem de felicidade e curiosidade, já que a única ferramenta que o artista possuía era a arte.

Todos sabem que a arte é uma arma poderosa, só ela é capaz de enfrentar a fúria destruidora do tempo e para isso usa as poderosas e habilidosas mãos dos artistas, seja na pintura, escultura, literatura, magia, música, dança, teatro, cultura e muito mais, tanto que nem as barreiras do futuro a assustam tornando-a sempre valiosa e atual.

Um simples criador de vaga-lumes que sabia que as luzinhas estavam por perto, porém não as viam piscar e esse era o seu grande desafio, vê-las acender um foco de curiosidade mesmo que seja apenas um pouquinho, assim um dia poderão realmente brilhar em emoções e se arrepiar com os segredos de que a arte é capaz de produzir.

O criador abriu as portas da esperança com a chave da arte e entrou finalmente no mundo dos vaga-lumes com seu sangue pulsando no coração das histórias, brincando com as personagens e dando vida a tudo que ele observa e toca.

Os vaga-lumes focados eram as crianças, mas também se estendia aos adultos que viam magia na arte de atuar, para que o efeito fosse eficaz ele levava todos para dentro da história contada, desta maneira a história nunca mais seria esquecida e atuando depositaria no coração da criança a autoconfiança de ser capaz de produzir, atuar, colaborar e agir em um grupo artístico afastando assim o grande fantasma do medo, enfim brilhar.

O criador de vaga-lumes em ação, tudo começou a acontecer desta maneira...

Criador de vaga-lumes
Paulo Ribeiro de Alvarenga

A colina e a neblina






A colina e a neblina


Naquela montanha coberta por um verde extremo toda noite a vegetação é regada por uma garoa fina.

O dia surge como uma mágica escondendo a beleza exuberante da montanha em uma densa neblina.

Calmamente a claridade surge detalhando os espaços e traços emergentes escondidos naquela colina.

O sol com seus raios calorosos dissipam a névoa úmida dando energia à vida e aquele monte maravilhoso se ilumina.

As formigas caminham! Os pássaros cantam! O vento sopra movimentando a mata e nela vejo escondidos os olhos castanhos de uma pequena menina.

Entre as árvores ela caminha tranquilamente, tocando nas flores e caminhando descalça por uma trilha serena.

Num vestido branco jogado ao vento ela para sobre uma grande rocha, permanece centrada em um pensamento distante encaracolando os cabelos com o dedo e acena.
Agora fiquei confuso com o texto! Aquela garota camuflada na vegetação molhada estaria me vendo ou seria um jogo de cena?

Num aceno inesperado sou surpreendido pela personagem morena de cabelos longos, cujo nome nos meus segredos se esconde.

A poesia descompassa, perde a rima e eu a surpreendo com uma flor. Uma rosa branca entregue em suas mãos pequenas, parte de um poema.

A menina correu com a rosa na mão, seus cabelos soltos esvoaçaram ao vento e naquele caminho de flores penetrou na neblina forte desaparecendo.

A imaginação nebulosa engana os sentidos do narrador inexperiente no amor, seria uma colina enfeitiçada, mágica, maldita ou o paraíso do amor?

O que aconteceu com o meu texto, pois a menina instantaneamente desapareceu. Eu não a encontro! Será que ela se escondeu?
Abandonada pela menina a colina virou uma montanha de neblina fria e sem amor. Coitado do narrador que passou a vida inteira tentando encontrá-la para amenizar a dor, penetrou na montanha, mas se perdeu, dizem até que de frio morreu.

O texto não tem mais narrador, nem menina, apenas montanha e neblina.

Criador de vaga-lumes
Paulo Ribeiro de Alvarenga

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O País das Maravilhas - Antonio Cícero

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Não se entra no país das maravilhas,
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.
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.In "A Cidade e os Livros", p. 13.
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domingo, 26 de fevereiro de 2012

margaridas

Elas me olhavam suaves
como se quisessem mostrar-me
o carinho que receberam
das mãos que as apanharam

Eugênio Bucci nos conta que “Lampião é macho, macho por despacho” - Enviado por Ana

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Difícil saber o feminino do cangaceiro Lampião. Será Lampiã? Lampioa? Ou será Lamparina? Existe o feminino de Lampião? Difícil saber, mortalmente difícil. E muito perigoso. Se especularmos por essa vereda escorregadia, alguém poderá se abespinhar e dizer que está em curso uma heresia contra o legado másculo do legendário bandido. Portanto, não lhe duvidamos da masculinidade. Fica decidido que Lampião não tem feminino, é macheza pura.
Mesmo assim, mesmo afirmando a macheza, temos aqui um problema de gênero. Não um problema do homem chamado Lampião, por favor, que este se encontra acima das suspeitas. Nosso problema de gênero diz respeito ao vernáculo: nem todos os substantivos, infelizmente, são do gênero masculino, de sorte que fica inviável defender a macheza do Rei do Cangaço sem o auxílio de palavras femininas. Macheza é substantivo feminino. Virilidade também é palavra fêmea. Hombridade, valentia, todos vocábulos femininos. Vai soar como provocação, mas a língua embaralha o feminino e o masculino, a maldita. Fazer o quê? Talvez ela não esteja à altura de descrever o destemido cangaceiro, encarnado pelo pernambucano Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938). Ele, sim, não tinha nada que fosse emasculado; não há de ter tido, nunca, jamais, uma “porção mulher”, para adotar aqui a expressão consagrada pelo cancioneiro.
E que ninguém discuta. Cumpra-se. Foi assim que a Justiça decidiu. Foi assim que despachou o juiz Aldo Albuquerque, da 7ª Vara Cível de Aracaju, Sergipe, há pouco mais de uma semana, ao proibir a publicação e a comercialização do livro “Lampião - o Mata Sete”, de autoria de Pedro de Morais, em atendimento ao pedido da família do temível Virgulino. A família se declarou ofendida porque, na obra, Virgulino aparece como homossexual. Não é só. Ele teria sido um marido traído, uma vez que sua companheira, Maria Bonita, teria sucumbido ao adultério nos braços de um sujeito do mesmo bando, de nome Luiz Pedro. E mais: com suas perneiras de couro enfeitado, seu paletó azul e sua testeira salpicada de medalhinhas, o próprio Virgulino caiu de amores pelo mesmo Luiz Pedro.
Aí também não dá, raclamaram em juízo os descendentes. Os historiadores podem dizer à vontade que Lampião estuprava garotas indefesas, que lhes marcava o rosto com ferro quente, que sangrava lentamente os desafetos, cravando-lhes o punhal entre a clavícula e o pescoço. Podem dizer que ele castrava seus reféns, que arrancava olhos, línguas e orelhas. Até aí, não se vê ofensa nenhuma. Mas essa conversa de triângulo amoroso com pitadas homoeróticas, essa sim, ultraja a honra familiar. Por isso, os familiares pleitearam a censura, que chegou veloz e escura, feito uma peixeira noturna.
No livro proibido, Virgulino é gay. Nada disso! Ele só pode estuprar as indefesas e castrar os desafetos...
O episódio parece uma crônica dos costumes, mas é sério. Embora o processo ainda admita recursos – a proibição do livro já começou a ser contestada na semana que passou –, o que temos aí não é uma peça meramente cômica, mas um caso de veto à expressão do pensamento. Sem trocadilho, esse veto ao pensamento deveria nos fazer pensar um pouco mais. De que honra, afinal, nós estamos falando aqui? Há tempos, na canção “Pecado original”, Caetano Veloso cravou uma de suas boas verdades: “A gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo”. Pois será que sabemos o lugar certo de colocar a honra?
Eis aí outra indagação difícil, moralmente difícil, além de muito perigosa. Esse conceito, o do macho viril, guarda um quê de animalesco, de irracional, de selvagem. Se macho, se incontestavelmente macho, o Rei do Cangaço teria uma licença para aterrorizar os humildes com suas brutalidades de facínora. Ele teria sido apenas mais macho que os demais, só isso. Daí que, ele que viveu como fora da lei, tem agora, depois da morte, a sua macheza – vai no feminino mesmo – tutelada pela própria Justiça. Ele pode ser chamado de homicida e de ladrão, tudo bem. Não de marido traído. Nem de homossexual.
Essa moral polar, “monopolar”, esquarteja tudo o que seja ambíguo. E, no vasto mundo dos amores, o humano não é acima de tudo um forte, mas acima de tudo ambíguo, como a própria língua. Por isso, essa moral monopolar é desumana. Ela não sabe que, como o Diadorim de Guimarães Rosa, o jagunço valente guarda dentro de si uma mulher. E que outro jagunço valente, como Riobaldo, pode amá-lo sem entender porque ama, e suspirar, perdido: “Diadorim é minha neblina”. O mito sem neblina de Lampião é um tributo à intolerância.


*Eugênio Bucci é jornalista e professor da ESPM e da ECA-USP.



Fonte: Revista Época, Nº 707, 5 Dezembro 2011, p. 21.

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sábado, 25 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Coração Racional? Razão Emocional?

No início, não notei. Depois, percebi que me olhava sempre e sempre intensamente! Aquele olhar intenso provocou algo em mim. Não soube decifrar logo... Aos poucos, fui correspondendo aquele olhar com igual intensidade. Quando estávamos perto um do outro, a conversa fluía natural e continuamente.
Engraçado... Nunca passou disso... Olhar e olhar intensamente... Conversar e conversar continuamente... Mas aqueles olhares eram tudo de bom... Durante mais de uma semana, olhamo-nos sempre e sempre intensamente!
Na minha racionalidade, sabia que aquilo teria um fim, mais cedo ou mais tarde. Emocionalmente, não queria que isso acontecesse, embora não soubesse ainda como lidar com essa emoção. Há tanto tempo que não sentia nada igual! Há tanto tempo que estava acostumada à minha inatividade emocional.
Mas como foi bom sentir-me olhada, percebida, viva! Foi muito bom enquanto durou... Vamos ver o que a vida vai nos reservar... Se é que vai mesmo nos reservar alguma coisa...
De repente, não mais que de repente, o coração envia mensagens criptografadas e condensadas que vão se revelando, pouco a pouco, claras e cristalinas.
A troca de olhares provoca uma corrente elétrica que vai adentrando o ser, e deixa uma sensação de satisfação e saciedade. O que é isso? O que significa? De onde vem? Veio para ficar? É passageiro?
O coração não quer entender; só quer sentir.
A razão não quer sentir; só quer entender.
Porém, como entender um sentimento? Para quê? Necessidade de compreensão não há. O que se sente é só para sentir, não para entender...
Coração e razão estão dialogando... É um diálogo difícil, pois cada um acha que está certo. Onde vão chegar? Se é que vão chegar...