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domingo, 22 de dezembro de 2013

Pedro Paixão e o “Quarto 909” - Citado por Violeta

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“O quarto é o 909. A porta fica aberta. Quando chegares, entra.” E deitei-me sobre a cama, duas almofadas debaixo da cabeça, um livro de poesia nas mãos. Por mais que tentasse ler, regressava sempre ao mesmo verso, “porque aqui não se pode amar, senão deixar-se amar”, por me parecer mesmo verdade e ficar a pensar nisso ou porque a ansiedade me imobilizou qualquer gesto. Eu estava à tua espera há muito tempo, é bem verdade.
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Pintura: “quarto”, de Violeta
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.Excerto do capítulo “Quarto 909”, do livro “Amor Portátil”.
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A 5000 Pés - por Violeta

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A intenção de postar imagens neste blog
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Duas Coisas Tão Distintas Como “Meu Amor” e “Meu Amor” - por Violeta

Meu amor, basta ouvir a entoação. Repara, quando digo “meu amor” digo-o de forma diferente de “meu amor”. É bem claro, se digo “meu amor” não digo “meu amor”. Entendes, meu amor? “Meu amor” chamo a quem gosto e por quem tenho estima. Já “ meu amor”… não. Não chamo a ninguém. Devo ter chamado “meu amor” a duas pessoas na minha breve vida, mas não volto a dizer. Não. Fechei quem de direito à chave e não volto a abrir. Acabou. Acabou e não há mais “meu amor” para ninguém. Fico com os “meus amores”. Pessoas de quem gosto e pelos quais tenho uma leal estima e que vão deixando marcas… marcas bonitas de serem sentidas.
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Desenho de Violeta
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Hoje Choveu - por Violeta

A frase dizia qualquer coisa como: “manda-me uma palavra”… Só uma. Uma. Às vezes necessito de qualquer coisa… uma espécie de inspiração e, muitas vezes, quanto mais pequena… melhor. É nas coisas ínfimas e simples que encontramos aquilo que nos altera, no sentido de vivermos um pouco mais a dita “efémera felicidade” que todos buscamos. Por isso, uma palavra. Uma só palavra pode ser sinónimo de nada, mas pode também ser sinónimo de tudo. Lembro-me sempre da passagem de uma carta que Frida Kahlo escreveu ao seu amigo de longa data Alejandro Arias, na qual dizia qualquer coisa como “escreve-me, nem que seja só uma palavra, mas escreve-me. Assim saberei que enquanto escrevias aquela palavra pensavas em mim…” Frida era brilhante. Um gigante brilhante, mas assustado. Assustado com uma coisa que se chama esquecimento... Uma palavra. Uma só. O poder do seu significado. Lápis, mar, manta, colher, entardecer, arrepio, pedra, cheiro … não importa se é um verbo, um adjectivo ou um substantivo, é uma palavra e as palavras transportam-nos. Leio: “chuva” e de repente já não estou aqui… não. Fui transportada pelo significado e estou no meio de um sítio mágico, numa cidade que adoro. Chove. (Eu amo a chuva, mas…) Chove muito. Refugio-me num espaço que me assombra com a sua intensa magia… estou na Casa Batlló. Logo nas primeiras salas não deixo de me encantar com uma das minhas filhas que tenta brincar com todas as formas das paredes e das portas… são rampas, são montes, são florestas e ela rapidamente compõe um conto infantil. Na verdade, ela também já não está ali, já está num outro lugar onde a magia dos talhes tomou conta da sua fértil imaginação de criança. Uma palavra. Às vezes basta uma palavra.
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Foto: “A Popcorn na casa Batlló”, de Violeta
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Quarto 527 - por Violeta

Aqui vai…
1… 2… 3… (pausa) Espera. Espera, deixa-me respirar. Não é fácil. Não penses que é fácil. (pausa). Ok… agora… Sim, pode ser. 1, 2, 3: o dia, a casa, o mundo, as horas, o duche, a toalha, o vestido, os sapatos, as horas. (pausa) o telefone, a garagem, o carro, a estrada, a velocidade, as horas, a estrada, a música… a música… não me lembro da música. Como não me lembro da música? Espera, espera… lembro-me… lembro-me. Escolhi alguma coisa que me levou até um lugar seguro… Agora lembro-me bem. De volta à estrada, a velocidade, o medo, as horas… (pausa) a mensagem… (pausa). (respira, respira, respira, res…) a resposta. Agora, a resposta à resposta… O carro, a velocidade, os semáforos, o estacionamento subterrâneo… a porta do carro aberta… (pausa) o elevador. O elevador… o reflexo do vestido no espelho… os sapatos… estes sapatos fazem-me lembrar o movimento Arte Nova… muito… Klimt. Klimt… O corredor e a macia carpete debaixo dos meus sapatos… sapatos e passos… a passada pelo corredor… A porta… o número… o toque suave e a medo… (pausa). a parede, o roupão, a mala, o beijo, os sentidos… todos. (pausa) a tua mão na minha cintura, nas nádegas, (pausa) em todo o lado… o prazer de estar finalmente ali e ser enfim tua.



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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Secretaria Judicial - por Violeta

Estou finalmente a ficar uma mulherzinha. Acabei de vir da Secretaria Judicial da Comarca do meu Concelho… Um episodio lindíssimo e digno, para que possamos perceber que até uma ida a um sitio destes pode ser “delicioso”…
Vamos? Secretaria ju-di-ci-al. Deve ser aqui. É pá!!!! Bem… eu espero que nunca, jamais, JAMAIS digam que a minha casa está desarrumada. Uau… que visão… aqui findam os meus sentimentos de culpa por ser desorganizada. Disse. A repartição é grande, muito cumprida, o balcão… revestido de uma fria pedra negra, mas não consigo descortinar de que tipo… dentro do balcão já não existe mais a típica senhora roliça de meia idade que vestia sempre a blusa de seda… nop… um simpático cavalheiro… que prima pela informalidade sem nunca deixar de ser formal… Espera. Estarei mesmo neste país? Não me lembro de ter viajado… por isso, deduzo que ainda aqui estou. Ah! O espaço. Um delicioso caos visual. Não sei como se consegue trabalhar nestes sítios, não faço a melhor ideia de como o fazem, mas estou certa que devem ter qualquer preparação académica nesse sentido. Uma disciplina na faculdade que se deverá chamar: métodos e técnicas de produção no caos. Delicioso caos. Se esta secretaria fosse um quadro seria de Jackson Pollock. Tela no chão, um furo no fundo da lata e… tinta a viajar pelo tecido. Linhas… Emaranhados de cordões… lombadas assimétricas (muitas delas bem tortas)… linhas labirínticas… as portas dos armários abertas… manchas de tinta… Muito bom… e as garrafas de água pelas secretárias dos funcionários… pingos de tinta… delicioso. O funcionário entrega-me a certidão que lhe pedi… simpático. Acabaram os meus minutos por ali… dez deliciosos minutos na Secretaria Judicial.




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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Pormenores que Marcam - por Violeta

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O Chevrolet BelAir do Burt e os Bloqueios no Passeio Marítimo de Alcantara - por Violeta

O texto escrito por Eve Ensler, que posteriormente deu origem aos famosos Monólogos da Vagina, foram baseados numa serie de testemunhos que a escritora recolheu junto de um grupo bastante heterogéneo de mulheres. Uns mais emotivos e chocantes, outros mais descontraídos (chegando alguns a ser até hilariantes), estes testemunhos são (na sua maioria) uma prova de que muitas vezes não somos mais mulheres porque teimamos em ignorar, em não entender e a desrespeitar nossa linguagem instintiva. De todos eles, há um que me agrada particularmente, trata-se de um testemunho ao qual Eve intitulou de “A Inundação” e que eu não resisto em enviar-to. De certo que te vais deliciar com o testemunho desta septuagenária americana, mais propriamente de Queens. Penso que é a melhor maneira de descrever o meu bloqueio no Optimus Alive… Também naquele momento houve uma tremenda “torrente”… É que nos meus sonhos o caudal do rio sobe demasiado às vezes…


“As minhas partes baixas? Já não as visito desde 1953. Não, não teve nada a ver com o Eisenhower. Não, não. Lá em baixo há uma cave. É muito húmida. Descer até lá não é nada agradável. Acredite em mim. Uma pessoa fica agoniada. É sufocante. Dá enjoos. Há um cheiro a humidade e bolor. Ui! É insuportável. Cola-se à roupa.
Não, não houve um acidente ali em baixo. Não houve uma explosão nem um incêndio. Não aconteceu nada desse género. Não foi nada assim tão dramático. Aliás… bem, não interessa. Não. Não interessa. Não posso falar consigo sobre isso. Porque é que uma pessoa inteligente como a menina anda por aí a falar com velhotas sobre as suas partes baixas? Quando eu era rapariga, não era assim que nos entretínhamos. O quê? Deus do céu, está bem.
Houve um rapaz. Chamava-se Andy Leftkov. Era giro… bem, pelo menos eu assim pensava. Era alto, tal como eu, e eu gostava muito dele. Convidou-me para dar uma volta no seu carro…
Não lhe posso contar isto. Não posso falar sobre o que há lá em baixo. A gente simplesmente sabe que existe. É como uma cave. Por vezes ouvem-se ruídos lá em baixo. Ouvem-se os canos e certas coisas ficam presas… coisas e animais pequenos. É húmida e por vezes é preciso tapar as fendas. Porém, a porta está quase sempre fechada. Esquecemo-nos de que existe. Repare… uma cave faz parte da casa mas não a vemos nem pensamos nela. Mas existe porque em todas as casas é necessária uma cave. Caso contrário, o quarto seria na cave.
Oh, o Andy, o Andy Leftkov. Certo. O Andy era um rapaz bonito. Era um bom partido. Era o que dizíamos naquela altura. Estávamos no carro dele, um Chevrolet BelAir branco novinho em folha. Lembro-me de pensar que as minhas pernas eram demasiado compridas para o banco. Eu tenho as pernas muito compridas. Batiam no tablier. Eu olhava para os meus joelhos grandes quando ele me beijou de surpresa tal como nos filmes, na cena em que o rapaz abraça a rapariga e a arrebata. Fiquei excitada, muito excitada e, bem, houve uma torrente lá em baixo. Era incontrolável. Era como se uma corrente de paixão, um rio de vida, jorrasse de mim, das minhas cuecas, direitinha ao banco do seu Chevrolet BelAir novinho em folha. Não era urina e cheirava mal. Bem, para ser sincera, não me cheirava a absolutamente nada mas o Andy disse que cheirava a leite azedo e que eu estava a manchar o banco do carro. Eu era uma ‘rapariga esquisita e malcheirosa’, dizia ele. Queria explicar-lhe que o beijo me tinha apanhado desprevenida e que normalmente eu não era assim. Tentei enxugar a torrente com o meu vestido. Era um vestido novo amarelo-claro e, manchado pela torrente, ficou muito feio. Sem me dirigir a palavra, o Andy levou-me a casa e, quando saí do carro e fechei a porta, também fechei a loja. Fechei-a à chave. Nunca mais se abriu. Depois, ainda saí algumas vezes com rapazes mas o receio de outra torrente deixava-me muito nervosa.
Eu costumava ter sonhos. Sonhos loucos. Oh, são disparates. Porquê? Porque eu sonhava com o Burt Reynolds. Não sei porquê. Nunca me entusiasmou muito na vida real mas nos meus sonhos… era sempre eu e o Burt. Eu e o Burt. O Burt e eu. Eu e o Burt saímos juntos. Fomos a um restaurante semelhante a tantos outros em Atlantic City. Um restaurante grande com candelabros enormes e milhares de empregados de mesa com coletes. O Burt dava-me uma orquídea para pôr ao peito. Eu prendia-a ao meu casaco. Ríamo-nos. Ríamo-nos muito, eu e o Burt. Comíamos cocktails de camarão. Camarões enormes e saborosos. Não parávamos de rir. Éramos muito felizes. Depois os nossos olhares cruzavam-se e ele puxava-me para si no meio do restaurante. Quando estava prestes a beijar-me, a sala estremecia, pombos esvoaçavam de baixo da mesa — não sei porque raio havia pombos debaixo da mesa — e surgia a torrente. Jorrava sem parar. E com ela vinham peixes e barcos pequenos e o restaurante ficava cheio de água. Burt estava ensopado até aos joelhos, com um ar terrivelmente decepcionado por eu ter feito das minhas outra vez, e olhava horrorizado para os seus amigos, o Dean Martin e outros tantos, que passavam por ele a nadar nos seus smokings e vestidos de noite.
Já não tenho estes sonhos. Desde que me tiraram praticamente tudo o que estava nas partes baixas. Retiraram-me o útero, as trompas, tudo. O médico quis armar-se em engraçadinho. Disse-me que era melhor deitar fora o que já não tinha uso. Mas descobri que afinal era um cancro. Tiraram-me tudo. De qualquer modo, quem é que precisa de tanta coisa? Não é verdade? É algo muito sobrestimado. Já fiz outras coisas. Adoro exposições de cães. E vendo antiguidades.
O que escolhia para ela? Que espécie de pergunta é essa? O que escolhia? Escolhia uma enorme tabuleta:
‘Fechada devido a inundação.’
O que diria ela? Eu já lhe disse. Não é bem a mesma coisa. Ela não é como uma pessoa que fala. Calou-se há muito tempo. É um lugar. Um lugar onde ninguém vai. Está fechada, nos subterrâneos. Fica lá em baixo. Está satisfeita? Já falei consigo… arrancou-me as palavras. Fez uma velhota falar sobre as suas partes baixas. Está satisfeita agora? [Vira as costas. Depois volta-se novamente.]
Sabe, na verdade, é a primeira pessoa a quem contei esta história e sinto-me mais aliviada.”
Um beijo enorme
.....................Aurora
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Amar a Dez Mil Metros de Altitude - por Violeta

12 de Setembro de 2009


Voo para o Rio de Janeiro

De repente já não estou aqui. Senti que me levas-te. (meu amor). Estou a bordo de um avião e rumo a uma distante cidade algures num outro continente. Estou dentro de ti, alguém que me ama. Sei que não devia estar. Sei que estou a mais. Tenho de voltar para casa. É urgente. Não consigo. É esta minha vontade (ou será a tua?). A tua vontade leva-me (meu amor). Por momentos estou mesmo contigo, levas-me no pensamento. Levas tanto de mim que quase me arrancas a carne dos ossos. (meu amor). Voltei a chorar com saudades tuas. Eu não te devia amar assim. Amar assim é errado. Este amor é errado. José Luís Peixoto repete 240 vezes “quero morrer”, eu repito “amo-te”, porque amo-te. Sinto que estás dentro de mim. Sinto que te entranhas-te na minha pele, na minha carne… (meu amor). Amo-te mil vezes. Amo-te sempre. Amo-te. O avião. Dez mil metros de altitude. Lá fora a temperatura é aterrorizadora, mas aqui estou viva e afortunada. (meu amor). Não estou aqui.

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domingo, 13 de setembro de 2009

Bíblias de Neons - por Violeta

Ponto um – O paradoxo
Sempre o mesmo. As faces depressivas são sempre delicadas. Conheço-as tão bem. Sinto-as vir ainda ao longe. Sei que são sempre dolorosas, mas não as posso evitar. Instalam-se e o resto é “mais do mesmo”. Não há nada mais estúpido e paradoxal que isto. Sou feliz, mas… deprimida. Não me dói nada, apenas a alma. Uma dor tão absurda que quase mata. Eu sei que é apenas uma substancia que falta no meu delicado “rapaz cinzento”. Uma espécie de defeito de fabrico do meu cérebro, mas a verdade é que muitas vezes me incomoda. Preferia não entender nada disto, porque o pior é ter a percepção de tudo e de não conseguir controlar. O passo seguinte é sempre o da auto-medicação.

Ponto dois – A Terapêutica
Duas horas. Duas horas numa suite de hotel. Sozinha. Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhh... Sozinha sim. Precisava de uma desintoxicação. Imperativamente. Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh…. Eu sei. Eu sei que sou perigosa sozinha. Eu sei disso, mas por vezes tenho mesmo de ficar. Preciso prender-me a mim mesma e enfrentar-me. O que nem sempre resulta, mas se não olhar para dentro não me posso ajudar. Shhhhhhhh… é sempre o mesmo. Trouxe ajuda: Som, Palavras e o Sol também por cá apareceu. Já não era capaz de ouvir, nem de ler nada do que me andava a rodear. Era urgente o isolamento, o sair do círculo e o respirar. Às vezes a melancolia vai embora assim.

Ponto três – No cars go
2006, Arcade Fire. Eu sei que já passaram três anos, mas há coisas que são mesmo intemporais. Precisava de ouvir, de chorar (pensava que já nem sabia chorar), de sentir, de me sentir. As coisas são mesmo assim. Há sítios onde os carros não vão mesmo. Não vão! Tenho de ser eu. O espelho negro e o seu terrível reflexo, não permito que me iniba. Não posso permitir. Definitivamente. Há um biquíni no fundo da mala e lá fora está uma pipoca e uma sereia à minha espera.

Ponto quatro – “Deixa o carro a trabalhar…”



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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Violeta em Abrigo - Citada por Leandro de M. Oliveira

Posso sentar-me aqui? Aqui, neste canto desta caixa postal? Quero ficar aqui. Escondida. (Aqui não me vão encontrar de certeza. Aqui nem eu me vou encontrar.) Não digas nada. Nem precisas de olhar para mim. Deixa. Se eu gritar não ligues, se soluçar de choro não olhes. Não te preocupes. Tudo passa. Que raio de dia. Eu sei que já te devia ter escrito. Eu sei exactamente o que tenho para te dizer. Digo depois. Música. Põe qualquer coisa, mas alto. Põe Blur. Song 2. Isso. Mas alto. Muito alto. Não quero ouvir o meu pensamento. Estou farta das minhas ideias. A luz. Apaga. Comecei o dia com uma palmada na “Miss” Popcorn, devias ter visto a birra. Logo a seguir a “Miss” Mermaid perdeu os óculos. Porque perdem as pessoas os óculos? Eu também perco os óculos, mas eu sou eu, sou um despiste sempre pronto a acontecer. Mas isso agora não interessa nada, eu só não quero ouvir as minhas ideias… estão por todo o lado. Abafa-as. Estão espalhadas pela casa toda, na sala, na cozinha, até na lavandaria tenho ideias. A música? O que quiseres. Qualquer coisa. Escolhe. Não sei. Espera! Creep, dos Radiohead. Já tenho saudades. Andávamos a estudar e ouvíamos. Que bom. Lembro-me da Teresa que sofria de um síndrome antiapartamento. Nunca tinha vivido numa coisa daquelas, então resolvia arrumar o quarto, e muitas vezes a disposição dos móveis, às 4 ou 5 da manhã. Enquanto isso, ouvia Radiohead ou Tindersticks. A Teresa era uma querida. Tenho saudades dela. Tenho saudades de todos. Tenho saudades dos cheiros daquela altura. Muito bom. Saudades bonitas. Melhor. Já me sinto melhor, obrigada. É verdade, já ouviste o álbum do Thom Yorke? O Eraser? Está giro. Analyse é um tema que acho particularmente interessante. Deixa ouvir só um pouco, porque tenho de ir. Já estão à minha procura. Estão sempre à minha espera, eu é que penso que não. Ainda tenho de ir buscar a Popcorn e a Mermaid. Preciso daquele mimo que elas têm sempre para me dar. Sim. Podes acender a luz sim. Obrigada pelo abrigo.
Fica bem
Cristina



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