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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Colcha de Retalhos - por Adir Vieira

Todas as vezes que me encontro “vazia de mim”, recorro a um trabalho manual para, através dele, ocupar a mente e as mãos. Estatisticamente, evidenciei quantas foram as vezes que assim me achei ao longo da vida adulta, pelo número elevado de sacolas com pequenos pedaços de tecido cortados assimetricamente e outros em crochê, em forma de quadrados ou círculos, alguns estampados e vibrantes nas cores, empilhados segundo sua forma e a espera, sempre a espera… À espera de que pudessem ser unidos para dar forma talvez a colchas de retalhos apreciadas por mim, trabalhos fenomenais em costura feitos por uma vizinha da infância… Estatisticamente também constatei que esses “vazios de mim”, rapidamente se preenchem à sua própria custa (ou não?), impedindo a seqüência do trabalho final e fazendo com que os antigos e novos retalhos retornem às suas sacolas de origem, até que um novo “vazio de mim” se instale.
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Noite de Chuva - por Raquel Aiuendi

Há coisa mais linda
que uma noite de chuva?!
Para mim...
Eu que tenho teto...
teto de cimento, parede
de cimento, janelas de vidro.
Há coisa mais fascinante
que uma noite de chuva?

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Chove Fino - por Ana

Chove fino.
Caem gotas leves sobre minha alma de barro seco,
que não conhece flores há muitos anos.
Arrasto-me dolorida, sem erguer os pés nos passos inchados,
as roupas em trapos, encardidas pela aridez de minha paisagem interior
que suga a luminosidade da janela sem êxito.
Quando choro não umedeço,
é apenas a vazante de um rio subterrâneo que,
na superfície, secou faz tempo.
Minha pele é de camaleão, opaca,
confundida com os dias amarelentos.
Sabor de giz na língua, saliva grossa de sede,
cabelos de quem não se vê no espelho.
Não mais rimo a dor com outros sentimentos.
Sofro em uma depressão longa,
da qual não se vê o final no horizonte estéril.
Sigo em frente, sem lágrimas,
sem dor no coração, porque o desconheço.
Que é de mim? Não lembro...
Há tempos tive sonhos, hoje não durmo.
Meus olhos seguem duros por sobre o isolamento,
fixos em frente, sempre, fiéis à direção de meus passos involuntários.
Quero cair, prostrar, esquecer...
morrer sob um céu que não protege.

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Chuva - por Adir Vieira

Chove fino e constante lá fora, mas, aqui dentro, é sol em minha alma. A alegria se instalou tão acelerada que não percebi o chão molhado, as árvores chorando e os pássaros recolhidos. Tudo aqui dentro, fora e dentro de mim, é como o calor abrasador, motivado pela minha alegria de então… Não penso no mendigo sem proteção, pois a chuva, embora fina, lhe tirou o abrigo… Não penso naquela criança que volta da escola a pé e que, surpreendida com a chuva de repente, não tem a capa na sacola… Não penso nos moradores daquela casa humilde que pode desmoronar a qualquer momento se a chuva fina persistir… Não penso no ancião que acabou de deixar o hospital depois de tanto tempo e sequer pode se alegrar com a volta à vida aqui fora… Não penso naquelas pessoas que residem em áreas carentes, enlameadas e perigosamente escorregadias devido à chuva fina… Não penso em nada, é sol em minha alma e me descubro egoisticamente feliz na minha alegria.
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Carência - por Alba Vieira

Vida insana:
algoz de si mesma,
busca desesperada por punição.

Vida confusa:
embaraçada em teia invisível,
tentando escapar do enredo absurdo que se propôs.

Vida penosa:
imersa em sofrimentos autoinflingidos,
bandeira permanente de sua vitimização.

Vida sem nexo:
vazia de objetivos e prazer,
simplesmente cumprindo as horas.

Vida revoltada:
estéril, invejosa e carente,
impondo a todos sua ira e penas.

Vida dolorosa:
estampada no rosto perplexo
diante da possibilidade...
de que a vida seja sentida,
tenha sentido no amor pela vida
que é vivida só com amor e por amor.

Vida sofrida,
apenas cumprida,
exaurida,
carcomida,
suicida,
ou pior:
homicida.

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Desconstrução - por Alba Vieira

Desconstrução. Acordei com esta palavra na cabeça. Acho que já me desconstruí em vários aspectos e há, ainda, outros tantos a serem postos abaixo.
Fico me imaginando como uma construção em que, aos poucos, seriam retiradas as telhas e buracos no teto surgiriam deixando o sol entrar. E ele iria iluminar os cantos mais escuros do ser, desvendando mistérios e desnudando a alma; mas os mesmos buracos terminariam com a proteção de um teto espesso, talvez milenar.
Desconstruindo as paredes/limites, estenderia os campos de atuação, alargando a consciência e permitindo a expansão em todos os sentidos. Algumas paredes, já infiltradas pela água/emoção, cairiam sem resistência, esfarelando, desintegrando, úmidas, caindo sem barulho. Outras, secas que se fortaleceram ao longo do tempo, acostumadas ao sol forte que as cobria diariamente, resistiriam mais, sendo necessários golpes mais duros da vida para demoli-las, não raro fazendo estrondos ao despencarem.
E, sem teto, sem paredes/limites, mais vulnerável, sentindo frio, me restariam os alicerces e a base, o solo.
Entretanto, seria preciso também desconstruir a base. A base é sólida, os alicerces, profundos, enterrados, com ferros entrelaçados num emaranhado de formas de ser/sentir que já não devem subsistir.
Será que um processo comum de demolição é ineficaz? Será preciso um cataclismo que possa varrer de vez as partes que ainda resistem?
Enquanto o cataclismo não vem, o prédio/eu fica em ruínas. Adoro ruínas. É sinal da ação do tempo, de resistência, de fé na vida. Um prédio em ruínas, bem velho, marcado pela passagem do tempo, me fascina, sempre me atraiu. Adoro notar o limo verde nas paredes, as teias de aranha nos telhados, os chapéus de sapos nos jardins. Tudo isto marca o que tenta ser imutável e mesmo assim não é, não consegue ser, porque o fluir da vida, o tempo, tudo transforma.
E a desconstrução dá espaço para o novo. É o porvir da pessoa, a expectativa, o grande salto. Só que, para ser concretizado, é preciso ir lá embaixo, demolir tudo, descer ao reino dos infernos, desnudar-se, sair do castelo guardado a sete chaves, baixar as pontes levadiças e permitir a chegada dos arautos que trazem as notícias dos novos tempos/formas de ser.
Meu despertar de hoje, pensando em desconstrução, talvez me desperte para alguma coisa. Quantos novos dias devem chegar com promessas de ruína para me sacudirem e tirarem do curso calmo dos dias de mediocridade?
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Caminho - por Adir Vieira

Mais uma vez percorro o mesmo caminho. Pelas repetidas vezes por que ali passei, posso descrever mentalmente as ruas, as casas, o comércio, os arbustos e os animais que ali fazem sua morada. Sei que sou capaz de notar um letreiro sem uma das letras, uma pequenina árvore na calçada modificada pelo maltrato das crianças e dos mendigos, a nova cor da parede de uma das casas. Sei mesmo que posso identificar todas as peças do trajeto na cadência dos meus passos, facilitada que sou por ali me achar todos os dias, no mesmo horário. Tão acostumada estou com essa paisagem que a faço familiar e única em minha história. Dela, já não posso prescindir. Ofereça-me a vida outros caminhos, sejam quais forem as alternativas de mudança, já não quero excluir do meu quebra-cabeças a peça que compõe o meu quadro principal.
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Preciosa - por Alba Vieira

Hoje, o que escrever a você,
se de fato estive todo tempo por perto,
vivendo das lembranças e do desejo de logo renová-las?

Dizer que amo você, mais uma vez e mais outra?
Não, eu gostaria de mostrar isto de outras maneiras.
Talvez oferecendo-lhe o que de mais belo encontrasse pelo mundo...
Sair garimpando preciosidades só para orgulhosa exibi-las para você um dia.

Mas, para que você iria querer olhá-las
se já todos os dias vê a mais bela de todas
quando se mira no espelho?

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Caixinha de Costura - por Adir Vieira

Não sei costurar, mas não consigo me desvencilhar de uma antiga caixinha de costura, presente delicado de uma amiga bem mais velha, como mimo de Natal. Pergunto-me o porquê de, a cada final de ano, quando os armários da casa são colocados de pernas para o ar na busca incessante do que transformar em lixo para a renovação das energias do local, não conseguir abrir mão de uma coisa que, sem sombra de dúvidas, passa o ano todo ali, fixada naquela prateleira, fechada e à mercê da dona que sequer a abre. Ela é equipada com tudo de necessário, como botões coloridos, linhas de cores diversas, agulhas de várias espessuras, presilhas, carretéis, elásticos, tesouras, tesourinhas e até mesmo uma fita métrica acoplada a um dedal. Não a utilizo, mas tê-la faz-me sentir segura. Parece-me que estarei livre de ficar desnudada por aberturas que mostram o corpo, por decotes invadidos por botões que podem se quebrar, por costuras desfeitas ao movimento do corpo. Parece apenas, não é real. Continuo investigando e buscando causas para a sua utilidade, a sua permanência e chego à conclusão de que o que me prende a ela é a lembrança efetiva do carinho de quem me presenteou e, assim, a faço ali permanecer.
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Amor - por Raquel Aiuendi

Olhos vidrados no tempo
Corpo quebrado no tapete
Cacos junto à poeira
A cidade é uma
Grande zoeira
Um beijo, até tão à toa
Um abraço, disfarça
O sarro
A transa, arremata
O vazio que fica
Entre todo mundo
Quero carinho, não vê
Feito bicho
Saio em busca de
Uma lata de lixo
Para doar minha dor
Para reciclagem
Do que chamo amor.

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Brincadeira de Roda - por Adir Vieira

São duas meninas… uma veste rosa com babados, a outra saia comprida com bainha desfeita e botas de cano curto. As duas, fisicamente, em nada se parecem. Até na cor e forma dos cabelos destoam. Parecem ser amigas, tamanho o entendimento dos seus olhares quando se cruzam. Ao seu redor, outras meninas e meninos pulam corda, jogam bola… Fixo-me apenas nas duas meninas que, de mãos dadas e com passos cadenciados, desenham círculos no chão entoando alguma coisa a uma só voz. Fixo ainda mais meu olhar, tento aguçar meus ouvidos e percebo, pelo movimento dos lábios, que cantam a velha canção conhecida “Atirei o pau no gato to… mas o gato to…” Por segundos, energizo meu coração e retorno em pensamento, nessa brincadeira de roda, à minha infância querida.
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Ausência - por Adir Vieira

Era sempre assim que acontecia.
A urgência de realizar nossos sonhos adolescentes sempre nos levava, antes, a tentar sentir, através da mãe, sua aceitabilidade.
Às vezes sonhávamos juntas, eu e minhas irmãs, quando nosso sonho atingia apenas a ida à casa de um parente próximo. Às vezes sonhávamos separadas, imaginando uma praia deserta, bem distante, onde a sonhadora e seu príncipe encantado viveriam, longe de tudo, seus momentos especiais. Não importava qual sonho era, se banal ou inatingível.
Sabíamos, antes de tudo, que aquele olhar perscrutador estaria ali, presente, no momento de pedirmos autorização para vivê-lo e em alguns segundos desistiríamos do sonho, tamanha seria a insalubridade de sua beleza quando esmiuçado por aqueles olhos nos fazendo do mesmo abrir mão.
Era sempre assim. E o pior é que tínhamos a certeza, e a temos até hoje, de que precisávamos ser “protegidas”… Existiriam sempre bandidos de alma a nos aguardar, existiriam sempre percalços desnecessários de viver, existiriam sempre lágrimas a derramar se não aceitássemos, de pronto, sua justificativa para não o permitir.
Hoje podemos sonhar e viver qualquer sonho, mas como ir em frente, se faltam aqueles olhos para nos abençoar?
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Bolo Inglês - por Ana

4 xícaras de fleuma
250 g de indiferença
8 xícaras rasas de tradição
2 colheres de sopa de egocentrismo
1/2 xícara de austeridade
1/2 litro de cerveja
7 palavras monossilábicas
2 expressões faciais sutis
1 colher de café de elegância
Bata a cerveja com a indiferença, 2 palavras monossilábicas e 2 expressões faciais sutis até ficar muito branco.
Adicione aos poucos as palavras restantes, batendo após cada adição, muito lentamente.
Junte o egocentrismo, a elegância, a tradição, a austeridade e a fleuma, peneirados.
Asse em forminhas forradas com símbolos monárquicos em forno pré-aquecido baixo, baixinho mesmo, quase frio.
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Perdi Meu Patuá - por Adir Vieira

Perdi meu patuá.
Agora não tem mais jeito…
Sem meu fiel amuleto,
não sei mais o que será…
Sinto-me assim, mal nutrida,
vazia, sem força,
tal qual Sansão sem Dalila
e pergunto: Como será?
A certeza dos conceitos,
De quem mais dependerá?
De mim, sem ele, não será…
Tão presa ao objeto eu estava,
com a sua proteção,
na medida que me vejo
arraigada a muitos males que tal.

Cadê meu patuá?
Tão grande é o meu desespero
e, apenas num momento,
revivo sua atuação…
Pelo menos, desde que veio
parar na minha mão…
Quero descobrir seus feitos,
saber se cumpriu direito
tudo o que prometeu…
E por mais que eu busque,
em prós e contras,
sinto que foi tudo ilusão.

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Delírio - por Adir Vieira

É uma pequena padaria.
Dessas de bairro pobre, daquelas que, você adivinha, nunca vai se tornar confeitaria.
Foi, propositalmente, ali colocada. Ali, bem ao lado de uma escola de adolescentes, os maiores admiradores e consumidores de confeitos e sanduíches (se bem que daqueles bem frugais, pois os requintados vão, à noitinha, no encontro com o “ficante”, buscá-los em qualquer McDonalds ou Girafa’s).
É a terceira vez que por ali passo, mas hoje, como se houvesse no ar um ímã e me puxasse, fixo-me próxima ao balcão de pães de todos os tipos. Em pequenas quantidades, devido ao espaço para eles reservado, são de várias qualidades e espremem-se entre si para caberem naquele pequenino balcão aquecido. Até as abelhas, em busca do sabor doce do creme, disputam um lugar ali.
Observo que não seguem qualquer regra de marketing e doces com canela e açúcar, misturam-se aos pães salgados cheios de calabresa e queijo ralado, dando um colorido fantástico ao local.
A única regra que parecem seguir é a de higiene. A pele bronzeada da balconista sorridente se contrasta com o avental branco, impecavelmente limpo. Uma toalha, igualmente branca, também faz parte do seu adereço e ameaça e indica, aos menos cuidadosos, onde colocar copos já utilizados e guardanapos sujos.
Estou ali parada e fascinada, já há algum tempo, e só agora percebo a semelhança dessa padaria com aquela da minha infância. Também lá, os grupinhos da turma lanchavam a cada manhã, no intervalo das aulas.
Surpreendentemente, vejo-me, como no passado, isolada em um canto, transportando, só com o olhar, o sabor desejado do pão doce mais bonito para o meu sanduíche caseiro recheado apenas com açúcar.
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Amor - por Adir Vieira

Ouço sua voz. A princípio ela vem mansa, como a concebo para mim.
Quando se aproxima, seus olhos são doces e ternos, a invadir minha alma, exatamente como espero que devam ser todas as vezes que me olhar.
Suas mãos, na minha direção, ensaiam e dançam no ar até pousarem por sobre as minhas, com a suavidade dos gestos dos amantes, como eu quero que sejam para mim.
Seus carinhos impetuosos têm o tamanho exato e a força transformadora do meu ser, como eu desejo que seja para mim.
Seu descanso junto ao meu, bem paralelo, confirma, em câmera lenta, dessa forma, a existência e o egoísmo do amor.
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Abandono - por Adir Vieira

Hoje acordei indolente… Quero ficar no abandono da minha vontade. Vontade de nada ver, vontade de nada fazer, vontade de nada sentir… Quero ficar no abandono dos próprios pensamentos vagando pelas paredes da casa, buscando, aqui e ali, razões para esse momento. Esse momento de abandono que começa com o pouso cauteloso das pernas no colchão, com o despejar do corpo ali, relutante em ficar, com a colocação irregular dos braços, tal qual dois pássaros em desalinho no ar… Quero ficar assim, no abandono… à espera de qualquer comando que seja só meu, sem a interferência das risadas das crianças no playground, sem a interferência dos odores de comidas sendo preparadas que se misturam aos perfumes dos sabonetes e entram pela minha janela sem pedir licença… Quero ficar assim no abandono, sem a intromissão dos acordes de músicas que não quero ouvir e, sobretudo, sem a interferência dos seus carinhos na minha vontade de ficar assim, abandonada.
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