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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




quarta-feira, 10 de junho de 2009

Inanição - por Leo Santos

Quis impor minha força,
achei o fim do meu braço;
tentei amarrar a lua,
ela se foi, levando meu laço.
Resignei-me a ser sozinho,
e a solidão me chamou amigo;
ela não foi má companhia,
mas é úmido e sombrio, seu abrigo…

De onde a saudade é extirpada,
um afeto teve habitação;
novo alento minando lembranças,
mata aquela, de inanição.
Em outra fase, o brilho da lua,
olhares que miram o mesmo horizonte;
passos contíguos, marcam a rua,
e almas sequiosas, repousam na fonte…

Primavera fez a flor brotar,
ornando a margem do caminho;
também fez a ave voar,
levando partes do ninho.
Não mais vou cansar o braço,
agora é um lugar para repousar;
tampouco laçar a lua,
só beber, gotas de luar.



Visitem Leo Santos
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Separação - As Nossas Histórias XII

Eu não quero a nossa separação apesar das nossas diferenças, do emaranhado de desentendimentos em que nossa vida se transformou. Eu amo o som da tua voz, a cor dos teus olhos, o calor da tua pele, o teu cheiro.
Não quero a nossa separação porque sei, desde já, a falta que vou sentir da tua mão firme segurando meu braço, me conduzindo na hora de atravessar a rua, do peso de tua perna descansando sobre a minha coxa toda noite antes de dormir.
Não quero a nossa separação porque sinto reciprocidade nos carinhos, sei o efeito do meu cheiro e da minha pele em você.
Eu não quero me afastar de você porque quando não formos mais nós, estaremos sós e todas as horas se precipitarão no vazio de tua ausência, e todos os nossos sonhos se precipitarão no vazio de uma vida sem amor.
Eu não quero a separação porque não há formas de fazermos isso, não há maneira de rompermos o indivisível: habitamo-nos mutuamente e não há saída, não há chaves que nos libertem, que desfaçam esta escolha antiga e, se é verdade o que dizem que vivemos muitas vidas, eu entenderia o porquê deste sentimento tão forte que resiste às diferenças e nos faz assim ligados um ao outro, isto explicaria a sensação que tivemos quando nos vimos pela primeira vez: que nos conhecíamos tão intimamente desde sempre.
Eu não quero me afastar de você porque quando descobrir que te perdi descobrirei que também perdi uma parte de mim e então só me restará vagar por aí, procurando em vão essa porção de mim que já não me pertencerá.
Definitivamente, eu não quero a nossa separação. Mesmo você se dizendo decepcionado, frustrado e infeliz com a nossa relação. Isso não importa. Você está enganado. Não consegue ver o quanto somos necessários em nossas vidas que, se for ver bem, é uma só vida. E por sermos um só te digo estas coisas com toda certeza. Você não sabe, mas eu sei. Definitivamente, você não quer a nossa separação. E fim.



Texto criado por Alba Vieira, Escrevinhadora, Clarice A. e Ana.
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Abandono - por Ana

Ele vivia sozinho. Agora. Mas não havia sido sempre assim. Ele tinha tido um companheiro inseparável. Uma relação íntima, profunda. Iam à escola, ao futebol, ao cinema, ficavam sozinhos no quarto de Maurício ouvindo músicas, vendo clips, às vezes por horas a fio... Quantas vezes, nestes momentos de alcova, Maurício, apaixonado, deslizava seus dedos sobre ele, pensativo, com aquelas mãos adolescentes inquietas e desejosas... E ele ali, sempre disponível, oferecendo tudo que estivesse ao seu alcance...
Ele não tinha sido o primeiro, houvera outros antes, muitos, pois Maurício exigia demais... Tinham sido relações pouco duradouras, mas igualmente profundas. Ele sabia que um dia iriam se separar também, mas não imaginou que duraria tão pouco. Sim, para ele tinha sido tão breve porque tão bom... Maurício encheu sua vida de conversas, de sons, de cores, de emoção... E agora nada mais, apenas o silêncio insistente, o isolamento. E aquela situação deprimente: para onde quer que olhasse só via feiura, tristeza, abandono, tudo cheirava mal... “Tudo é descartável - pensava, com seus botões - tudo tem um fim, sempre. É tolice imaginar a eternidade neste mundo, a imortalidade das relações.” Aprendera... diante de seu triste fim, aprendera. Outro ocuparia seu lugar em breve. Deveria ficar apenas com as lembranças até que nada existisse mais. Resignou-se, imerso em infinita saudade e esmagadora sensação de inutilidade.


- Meu filho, joguei fora. E não adianta remexer o lixo, Maurício! O seu mp4 escangalhou mesmo...



Texto cujos título e início foram utilizados para Abandono - As Nossas Histórias XI.
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As Nossas Palavras XIV - por Alba Vieira

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Tente fazer do seu jeito, ainda que não tenha qualquer elogio. Fuja de repetir só para merecê-lo ou é um sujeito vazio.



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Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Raquel Aiuendi

Dos posts da Ana... chorei, sorri e ri, trouxe-me paz e lembrança de alguém querido...
O post é:



HÁ UM BISCOITO QUE EU ADORO...
(ANA)

Eu moro perto de uma escola
que é grande como o quê
lá tem árvores e sombra,
e dá p’ra rodar bambolê.

Nessa mesma escola aprendi
a escrever o bê-a-bá.
Hoje, ouço daqui os recreios
e a criançada a gritar.

Quando eu ouço a meninada
fazendo bagunça adoidado,
penso numa coisa boa
e o coração fica apertado.

É que nessa escola, agora,
estuda um lindo garotinho
que é fofo, branco, magrinho,
que eu chamava “biscoitinho”.

Depois ele virou biscoito
Porque, de repente, cresceu...
Do jeito que está espichando
ficará maior que eu.

Logo depois, outro segundo,
virou um lindo garotão,
esticou uma vez ainda,
e eu chamei de biscoitão.

Eu sou sua “tia Ana”,
que não gosta de ouvir: -“Tia”.
Porque tias existem muitas:
na escola, na rua, família...

Quando ele me chama assim,
meus ouvidos dão um nó,
eu faço ameaça, careta
e respondo assim: -“Óóóóóóó...”

Esse menino-biscoito,
branquinho como polvilho
hoje tem sardas lindas
e nos olhos tanto brilho!

Pois é por isso que eu,
que não posso mais ir vê-lo,
fico triste de dar dó
quando ouço, no recreio,

as vozes das criancinhas
e imagino o biscoitão,
já tão crescido brincando
no meio da berração.

Não posso vê-lo, nem nada,
e ele não vem me ver.
Estas coisas do destino
que não se consegue entender...

Às vezes eu vou à janela
e vejo as crianças sentadas
esperando a mamãezinha,
a titia ou a empregada.

Imagino que um dia
alguém pode se atrasar
e eu verei o biscoitinho,
sentadinho a esperar.

Meu coração bate forte,
olho, olho e nada vejo.
Deixo, então, para amanhã,
talvez, realizar meu desejo.

Mesmo que fosse de longe,
queria ver Ronier.
Sei que está lindo de morrer,
queria ver como é que é.

Dá um vazio por dentro,
uma tristeza calada,
é tanta falta que eu sinto...
uma saudade danada...

Lembro o sorriso, olho a foto,
é uma judiação!,
choro um pouquinho de nada
p’ra aliviar o coração.

Em breve ele vai mudar
p’ra longe, um lugar bom,
para perto da vovó
com a mamãe e o irmão.

Não sei como irei vê-lo,
ficará tão mais difícil!
Será mesmo absoluto
impedimento, impossível!

Mas, assim que eu tiver um quarto
todo espaçoso e arrumado,
enquanto eu trabalho duro,
vou pôr seu retrato a meu lado.

Olharei sempre pra ele
junto a tantas outras fotos
de gente que também amo...
o meu sentimento remoto.

Pensarei sempre em você,
querendo que esteja sorrindo
naquele momento e sempre,
do jeito que eu acho lindo.

Aproveitando essa vida
da melhor forma possível,
pois tem tantas coisas boas
e pode ser tão incrível.

Desejarei sempre assim,
só pensando positivo
a quem será sempre, pra mim,
o meu biscoito preferido.

Ah! Meu biscoito querido,
adorado biscoitão...
Quanta saudade que eu sinto
dentro do meu coração!
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Faço Minhas as Suas Palavras- por Alba Vieira

Fui tomada de grande alívio ao ler um artigo escrito por uma patologista que foi editora da New England por vinte anos, para uma revista da Fiocruz de março deste ano (Radis 79, p. 30-33).
A corajosa médica denuncia um esquema de corrupção envolvendo a classe médica, com relação às pesquisas realizadas nos Estados Unidos, patrocinadas e manipuladas por grandes grupos farmacêuticos.
No importante e surpreendente artigo, são expostas diversas outras práticas de profissionais médicos (pesquisadores, professores, catedráticos) formadores de opinião que, vergonhosamente, por ganhos materiais de grandes proporções, colocam em risco a saúde das pessoas e a credibilidade e ética de outros médicos, pesquisadores e das publicações feitas por profissionais responsáveis e íntegros.
É impressionante a que ponto a classe médica se deixou corromper e prostituir, deixando qualquer idealismo virar coisa do passado.
Aqui no Brasil imagina-se, ou melhor, sabe-se que acontece o mesmo. E, se não existir vontade e coragem de pessoas incorruptíveis para reverter esta situação inaceitável, as consequências no futuro serão ainda mais desastrosas.
Em minha prática de 28 anos como patologista em dois grandes hospitais gerais do Rio de Janeiro (sendo a Anatomia Patológica uma especialidade médica que funciona como controle de qualidade) e como homeopata há 20 anos, com estudos aprofundados que me permitem uma abordagem holística do paciente, considerando a doença como guia no processo de aprimoramento do ser, tenho observado que a prática médica vem deteriorando progressivamente. E as pessoas, hoje, principalmente as que possuem planos de saúde, quase sempre são tratadas de forma compartimentada por profissionais despreparados que muitas vezes brincam de fazer ciência ou são exímios leitores de bulas farmacêuticas, enquanto deixam de raciocinar clinicamente sobre os sintomas, tratando apenas de suprimi-los sem antes buscar a mensagem que trazem e permitir a sua integração pela pessoa doente.
Assim, proliferam agora os “novos” diagnósticos de patologias já conhecidas que trocam de nome e passam, mesmo se forem problemas simples ou variações da normalidade, a requerer tratamento com drogas potentes, com efeitos colaterais cada vez maiores. O referido artigo destaca o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e transtorno bipolar em crianças, depressões, transtorno de fobia social (timidez) como alguns diagnósticos muito frequentes hoje, baseados em interpretações de sintomas que tentam adequar os pacientes aos diagnósticos pretendidos e que têm levado profissionais desavisados, ignorantes e/ou mal intencionados a prescreverem cada vez mais medicamentos, mais potentes e perigosos, muitas vezes sem necessidade.
Se a corrupção está à solta, se a ética desapareceu, se a consciência dos profissionais deixou de prevalecer, o que fazer?
Penso que é simples: pesquisas, informações, novidades devem servir aos profissionais como base de estudo e reflexão para que daí cada profissional estruture a sua prática, que deve ser calcada sobretudo na observação do paciente: na escuta atenciosa do que ele relata, em relação ao que sente e percebe em si e como evoluem os sintomas, como o seu organismo reage e como o tratamento medicamentoso atua sobre ele. Acho que também é preciso dar tempo ao corpo para reagir, evitando intervenções medicamentosas desnecessárias e prejudiciais.
Outro ponto importante que foi levantado diz respeito às “novas descobertas” na área médica veiculadas pela mídia (vide Fantástico) e que desencadeiam verdadeira neurose em pacientes, seus responsáveis e mesmo em terapeutas, no sentido de fazer diagnósticos e instituir tratamentos. Hoje é bastante comum que pais tragam seus filhos ao médico, pedindo que ele solicite exames que eles, os pais, enumeram, simplesmente porque ouviram falar sobre a necessidade deles serem realizados. Ocorre que essas práticas só proliferam em terreno propício, ou seja, junto a profissionais despreparados, inseguros, de egos insuflados e que, ainda por cima, acabam tirando vantagem da situação, com maiores lucros para as suas clínicas e ajudando a enriquecer as empresas de planos de saúde.
Mas tenho certeza de que nem tudo está perdido, já que o caos que existe hoje na saúde, com a incompetência dos governantes e o descompromisso da classe médica com a sua honra e a saúde dos pacientes, inevitavelmente levará as pessoas a concluírem que é imprescindível que cada um passe a se responsabilizar pela sua saúde, buscando informações e estando atento na hora de escolher o profissional que seja necessário para ajudá-lo, através de observação acurada da sua prática técnica, mas, sobretudo, da sua pessoa, que transparece em suas atitudes e postura. E que, acima de tudo, possam compreender que todos nós dispomos da capacidade de autocura que pode ser despertada com a focalização do Eu interior, através de práticas de meditação, por exemplo, ou simplesmente sabendo que temos esta capacidade e aprendendo a estimulá-la com a mente e esperar que se manifeste. É claro que, dependendo do grau de comprometimento e do caso clínico em questão, será necessário e de melhor indicação contar com ajuda profissional. Mas, nem sempre, esta é a regra.
Percebemos que as pessoas, atualmente, em sua maioria, vivem reféns do medo de adoecer, se desesperam, correm para buscar fora o que têm dentro como recursos de cura e, frequentemente, a evolução acaba sendo pior do que seria se deixada seguir normalmente, sem intervenção. Isto ocorre, comumente, nos casos de viroses, onde o uso indiscriminado de antibióticos é desastroso, só para citar um exemplo.
Dessa forma, eu me senti amparada nas minhas ideias e louvo a atitude de coragem, ética, responsabilidade, inteligência, abertura mental (acompanhando o desenvolvimento de novas descobertas em variados campos de estudo), profissionalismo e exercício de consciência dessa excelente médica.
Essa profissional se arrisca, denunciando que as pesquisas com medicamentos são dirigidas, gerenciadas pelas grandes empresas farmacêuticas, que conduzem as pesquisas, controlam a apresentação dos resultados, excluindo o que não lhes interessa que seja mostrado.
E aí? Dá para confiar nos resultados de pesquisas sobre as doenças e seus tratamentos? Os próprios profissionais poderão confiar nos efeitos prometidos de atuação das drogas, posologias e ausência de efeitos colaterais?
É mais prudente desconfiar sempre e basear sua prática naquilo que é tradicionalmente eficaz, sem deixar de acompanhar o progresso da ciência, mas só depois de deixar assentarem os modismos e separar com muita diligência o joio do trigo. Dessa forma prosseguem com ótimos resultados as Medicinas Tradicionais Chinesa e Indiana.



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Glândula Pineal - por Kbçapoeta

Na acesa fantasia estou medindo,
O doce amor que sentira um dia,
No tempo que sobre asas,
Leva-me incauto ao abismo.

De lá, observa-se um turbilhão de ideias.
Alumbramentos desfigurados em visões,
Onde não está anunciado o novo mundo,
E sim, o mais puro papel em branco.

Isso mesmo!
Um papel em branco onde gesto e reação
Funcionam qual a pena, que destila letras,
Nau singrando o mar das divagações.

Em dias de ressacas suas ondas
Expõem o rochedo de minha razão,
E ri, como um infante do meu ceticismo.

Procuro acreditar nas ciências,
Nas entrelinhas do jornal.
Que galhofa!

O mar não é recipiente
Não tem forma

E eu?
Fico rochedo no fundo do mar.




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Carlos Drummond de Andrade Sentencia: “Escrever é Triste” - Citado por Penélope Charmosa

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam, para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever “O Capital” é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu “O Capital”. Não é todos os dias que se mete uma ideia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.
Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhes os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado do espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isto entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...



In “O Poder Ultrajovem”.
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Sofrimento - por Raquel Aiuendi

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Melhor que o sofrimento seja solitário, porque o sofrimento solidário pode se transformar em calamidade pública.
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Clarice Lispector e o “Escrever” - Citada por Alba Vieira

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Não se faz uma frase. A frase nasce.
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