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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Engenho - por Leo Santos

Não vês o que Pai prepara,
por trás do não, de cada dia;
Constrói uma ponte Sua engenharia,
sobre o rio que nos separa.

Inda que contido o pulso,
nos mostra graça, o Senhor;
E só o faz por puro amor,
pra dar ênfase, dar impulso.

O trampolim da espera montado,
na piscina da sabedoria;
Base do mergulho na alegria,
quando o salto for autorizado.

Por ora, essa distância perto,
abstinência involuntária;
Pois tal sina, não é arbitrária,
é o exercício do deserto.

O treinador sabe que é preciso,
purgar o jardim d’uns insetos;
P’ra depois alar aos afetos,
que voarão no paraíso…
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.Visitem Leo Santos
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Refazendo (Final) - por Duanny

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Acordei como se tivesse sido atropelada, na verdade eu queria mesmo era ter sido atropelada e ter sido levada pra longe de você, onde seus olhos não iriam poder mais me arruinar ou me humilhar como fizeram da última vez.

Mal tive tempo de constatar que estava mesmo viva quando meus olhos se encontraram com os seus. Você estava na cama, me olhando em tom de desaprovação, como se eu fosse uma estranha invadindo seu apartamento, eu ainda estava naquela poltrona de vinil, em que eu tanto tinha chorado. Sem cerimônias me levantei, me sentindo envergonhada por toda aquela situação, queria te pedir desculpas e dizer que eu faria o que fosse pra ter você comigo outra vez, mas aqueles olhos me maltratavam, chegavam a ser cruéis.

Sem palavras ou gestos, peguei minha mala e saí daquele apartamento, queria que tivesse vindo atrás de mim, me impedido de entrar naquele carro; eu estava descabelada, com olhos inchados e uma tremenda ressaca que não me deixava esquecer de você. Fiquei um tempo na rua esperando você vir até mim e pedir pra ficar, mas você não veio, e aquilo me destruiu por dentro de uma forma que ninguém entenderia, só eu.

Cheguei no meu apartamento e deixei que todos aqueles dias se tornassem noites. Queria deitar e sonhar, me fantasiar e depois acordar e ver que tudo não passou de um engano, mas meu sono não vinha, no lugar dele vinha você, me enlouquecendo, me obrigando a me humilhar pedindo seu perdão. Sim, me humilhei diversas vezes, ligava todos os dias querendo você, mas você nem atendia mais as minhas ligações. Até que uma dessas noites uma mulher atendeu o telefone. Eu não entendia como você poderia ter feito aquilo, desliguei sem ter pronunciado uma palavra sequer e chorei, continuei chorando.

Eu precisava dormir, me desligar dessa realidade. Achei alguns calmantes. Por ansiedade tomei todos, todos aqueles comprimidos pra tentar me desconectar de você, de suas lembranças pelo menos temporariamente, mas parecia que o sono não vinha, não importava quantos comprimidos eu havia tomado, o sono não vinha. Peguei mais uma daquelas bebidas baratas e não deixei nenhuma gota, fiquei lá, embriagada, dopada e abandonada.

Finalmente consegui dormir, mas, para sua infelicidade, nunca mais acordei.
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Ferreira Gullar e “A Estante” - Citado por Penélope Charmosa

Naquele novo apartamento da rua Visconde de Pirajá pela primeira vez teria um escritório para trabalhar. Não era um cômodo muito grande mas dava para armar ali a minha tenda de reflexões e leitura: uma escrivaninha, um sofá e os livros. Na parede da esquerda ficaria a grande e sonhada estante que caberia todos os meus livros. Tratei de encomendá-la a seu Joaquim, um marceneiro que tinha oficina na rua Garcia D’ávila com Barão da Torre.
O apartamento não ficava tão perto da oficina. Era quase em frente ao prédio onde morava Mário Pedrosa, entre a Farme de Amoedo e a antiga Montenegro, hoje Vinicius de Moraes. Estava ali há uma semana e nem decorara ainda o número do prédio. Tanto que, quando seu Joaquim, ao preencher a nota da encomenda, perguntou-me onde seria entregue a estante, tive um momento de hesitação. Mas foi só um momento. Pensei rápido: “Se o prédio do Mário é 228, o meu, que fica quase em frente, deve ser 227.” Mas lembrei-me de que, ao ir ali pela primeira vez, observara que, apesar de ficar em frente ao do Mário, havia uma diferença na numeração.
- Visconde de Pirajá 127 - respondi, e seu Joaquim desenhou o endereço na nota.
- Tudo bem, seu Ferreira. Dentro de um mês estará lá sua estante.
- Um mês, seu Joaquim! Tudo isso? Veja se reduz esse prazo.
- A estante é grande, dá muito trabalho... Digamos, três semanas.
Contei as semanas. Não via chegar o momento de ter no escritório a estante sonhada, onde enfim poderia arrumar os livros por assunto e autores. E, mais que isso, sentir-me um escritor de verdade, um profissional, cercado de livros por todos os lados. No dia da entrega, voltei do trabalho apressado para ver minha estante.
- Como é, veio? - perguntei ao entrar.
- Veio o quê?
- Como o quê? A estante!
Não viera. Seu Joaquim não cumprira com a palavra empenhada, ah português filho de... Telefonei para ele sem dissimular, no tom da voz, minha irritação. E ele:
- Como não cumpri? Andei com dois homens de cima para baixo da rua e não encontrei o tal número que o senhor me indicou. Não existe na rua Visconde de Pirajá o número 127, senhor Ferreira.
Fiquei sem ação. Dera a ele o número errado.
- Diga-me o número certo e sua estante estará em sua casa amanhã mesmo.
Fiquei sem palavra. Se não era 127, qual número seria? Não era 227, disso tinha certeza... E o Joaquim ao telefone:
- Qual o número, seu Ferreira?
- É 217, seu Joaquim... É isso, 217.
- Muito bem, 217. Já anotei. Amanhã terá sua estante.
Não tive. Ao chegar em casa e verificar que a estante não estava lá, conclui que havia dado de novo o número errado ao marceneiro. E corri para o telefone a fim de me desculpar.
- Seu Joaquim, é o senhor Ferreira... da estante.
- O senhor está querendo brincar comigo?
Fui tomado por um frouxo de riso, enquanto seu Joaquim, indignado, dizia que não ia mais entregar estante nenhuma, que eu fosse buscá-la, pois já era a segunda vez que subira e descera a Visconde de Pirajá, carregando aquela estante enorme etc. etc...
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