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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles - por Ana



Antes, durante e depois do baile verde


“Antes do Baile Verde” é intenso, profundo e fantástico.  Formado por diversos contos, não é um livro comum: é da Lygia Fagundes Telles.  Não entraremos em contato com narrativas lineares, superficiais ou óbvias.  Leremos os acontecimentos que nos são descritos pelas almas das pessoas, por sua visão mais íntima, aquela normalmente menos visível.  São pedaços de vidas que nos são trazidos por olhos incomuns, por mentes inesperadas e pela cor verde que entrelaça todos os contos.  O livro nos conduz a um mundo de personagens com algo em comum: o falar emocional, inusitado. 
Acompanhando estas pessoas começamos a ver o mundo de outra forma, percebemos o quanto a alma participa de nossas interações e aprendizados.  Há dor, há aparente crueldade, há certa indiferença, há falta de caráter, há traições, mas estão lá, também, todos os seus opostos.
Então tudo isso nos remete ao título e à nossa experiência como leitores: as coisas não serão as mesmas depois de “Antes do Baile Verde”.
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terça-feira, 30 de julho de 2013

terça-feira, 23 de julho de 2013

Tempo - por Angel

Acordou com o grito das crianças que brincavam do lado de fora. O quarto escuro não permitia saber que já era dia. Abriu os olhos com dificuldade e segundos se passaram até que se lembrasse quem era e o que fazia ali. Tentou se levantar mas as forças lhe faltaram, segurou com as duas mãos em um dos lados da cama e um impulso se fez, na tentativa de se erguer. Não conseguiu, e sentiu o corpo ser tomado por uma dor insuportável que começou em seu peito e se espalhou por cada parte viva que existia. A dor foi tanta que mal conseguia respirar, e entre suspiros profundos se esforçou como nunca para permanecer viva.

Minutos eternos se passaram, o teto do quarto ganhou vida enquanto a dor parecia querer tirar-lhe a sua. Resistiu. Quando finalmente a dor cessou decidiu que sairia dali a qualquer custo. Estranhamente sentiu-se um pouco mais forte e aproveitando-se desse breve momento de firmeza, ergueu-se. Primeiro sentou sobre a cama, respirou fundo duas vezes e se levantou completamente.

Sentia as costas curvadas, uma fraqueza recorrente, os olhos pouco enxergavam mas acreditou que isso a claridade resolveria. Caminhou até o banheiro, fechou o armário sobre a pia que ainda estava aberto. Viu no espelho uma imagem sendo formada, não reconheceu. Uns poucos cabelos brancos que cobriam-lhe parcialmente a face, os olhos cansados, a pele seca e enrugada marcada com os inúmeros traços que a velhice lhe causou. O colo manchado e sem vida, as mãos disformes. Tocou o rosto na esperança de que fosse uma alucinação, um sonho ruim que ainda não terminara. Sentiu a realidade do toque e na mesma hora seu coração disparou.

“Não pode ser”, pensou.

Saiu do banheiro afobada e voltou para o quarto, e ouvindo as crianças que ainda gritavam foi de encontro à janela. Abriu parte dela e sentiu a luz do sol quase cegá-la, a cabeça despertando em dor, precisou de tempo até conseguir ver o que lá fora se passava. Não reconhecia nenhuma daquelas crianças, seus rostos estranhos, a falta de nomes, com certeza não eram suas.

Atravessou o quarto e foi até a sala, viu os móveis velhos e empoeirados. Sobre a escrivaninha, ao fundo, uma garrafa de vinho ainda pela metade. O cheiro de mofo machucou suas narinas e o cheiro de abandono machucou seu coração. Não havia mais ninguém ali, só ela. Procurou por sua família, imaginou que teria filhos, talvez netos, já que estava assim tão velha. Nenhum porta-retrato, nenhuma carta ou bilhete, nenhum traço de vida, o que só lhe permitia pensar que era mesmo sozinha. Ao lado da escrivaninha um outro espelho onde podia ver seu corpo inteiro, se colocou bem perto e de frente a ele. Não sabe quanto tempo ficou ali se vendo, nem quantas lágrimas rolaram.

“Como foi que isso aconteceu?”, falou.

E naquele momento se deu conta de que o tempo havia passado, não sabe como, mas havia... Não tinha lembranças, não realizara sonhos, não fora feliz.

“Como foi que eu deixei isso acontecer...?”, pensou.

Tarde demais para tentar entender o que se passou, agora só conseguia ver que não havia acordado a tempo, que a juventude lhe fora tomada e a saúde também, sem que sequer percebesse. Não conseguia pensar em mais nada, apenas, na vida que perdeu...
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Visitem Angel
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Medo de Amar - por André Dametto

Quero
Imagino
Me aproximo
Deixo
Sinto
Desconfio
Racionalizo
Duvido
Comunico
Enlouqueço
Recomeço…
Medo de amar



Visitem André Dametto
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Trânsito no Rio - por Fatinha


Querido Brógui,

A segunda coisinha mais inútil (e previsível) do mundo é notícia acerca de como vai o trânsito na cidade. Só perde para aquelas previsões de final de ano feita por videntes.
Todo o santo dia, no horário de ida e de volta para o trabalho, em todas as rádios, ouço o repórter aéreo informar que a Radial Oeste está com o trânsito lento, por conta das obras no entorno do Maracanã. Há retenções na chegada à Praça da Bandeira e na altura dos Correios. O motorista também terá que ter paciência na Presidente Vargas na altura da Central do Brasil, na entrada para a Rio Branco e na Candelária. As obras de revitalização do Praça Mauá causam transtornos no viaduto da Perimetral e no Mergulhão da Praça XV, que está completamente engarrafado. Quem não é do Rio deve ter seus similares locais. Aliás e a propósito, desconfio mesmo da existência de um repórter aéreo diário. Deve ser tudo playback.
Não sei muito bem como funciona a cabeça de um engenheiro de tráfego (existe essa profissão?). Às vezes eles mandam uma bola dentro, como no caso das seletivas para ônibus. Cada macaco no seu galho, protegendo os pobres motoristas de carro particular das investidas dos motoristas de ônibus psicopatas. Outro dia fui perseguida por um deles, que conseguiu me dar três fechadas no curto espaço de um quarteirão. Estava o homicida em potencial em alta velocidade num horário que não dá pra passar de 20km/h, passando de uma faixa para a outra, espremendo todos os carros que se atrevessem a dividir a rua com ele. Um louco assassino. Queria eu ser tão louca como ele pra não desviar um milímetro e deixar bater. Mas como meu dinheiro não é capim e além disso eu iria causar mais um engarrafamento…
Se você pensa que com o carro parado minoram as chances de ser abalroado por um coletivo, engana-se. Redondamente. Quase tive um treco quando vi o retrovisor do meu veículo todo ralado. Provavelmente o motorista do ônibus resolveu verificar na prática se dois corpos conseguem ou não ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Não conseguiram.
Percebo também que, no mais das vezes, o que causa os malditos engarrafamentos não são as obras, nem acidentes, nem o excesso de veículos nas ruas, mas a mais pura e simples falta de educação e civilidade. Fechar cruzamento é um clássico. Costurar pra lá e pra cá como se isso fizesse alguma diferença, é outro. Todas as vezes lembro daquele desenho animado do Pateta motorista. Lembram? Quando ele entrava no carro, se transfigurava, virava um monstro? É a pura realidade. Quem não lembra, ou nunca viu, coloquei o link no “Fatinha viu e gostou” (Mr Walker e Mr Wheeler).
Beijocas, fique em paz.

Visitem Fatinha
 

Ensaios Pra Quê? - por Andrea Custodio

Definitivamente as pessoas ainda pensam que a vida é apenas um ensaio e que dia após dia temos que decorar nosso texto, pensando que um dia possamos exibi-lo com toda a perfeição, mas... lamento informar que é pura ilusão, e que talvez o dia da estreia nunca chegue, porque o mundo está cheio de pessoas covardes que nunca irão estrear, nunca terão coragem de sair de trás das cortinas e aparecer com suas imperfeições à frente do palco.

“O teatro é uma forma de manifestação artística em que uma história e seu contexto se fazem reais e verídicos pela montagem de um cenário e a representação de atores em um palco, para um público de espectadores.”

Esse é o conceito real, porém nossas vidas devem estrear todos os dias, mesmo que não haja texto decorado, mesmo que não haja cenário, mesmo que não exista um diretor, muito menos plateia, precisamos nos inventar seja com melodrama, comédia, farsa, pantomina, moralidade, romance e apenas seguirmos nosso “script”, e nos sentirmos os protagonistas de nossas histórias, e nunca os coadjuvantes.

Cada dia que vivemos, devemos expressar nossas mínimas ações e expressões, transmitir nosso significado mais intenso, criar nosso próprio cenário, nossa trilha sonora, e tudo aquilo que nos enche de satisfação e orgulho de nós mesmos.

Ensaios? Para quê? Somos totalmente capazes de estrearmos nossa mais linda peça, apenas guiados por nosso coração, e emocionar quem quer que esteja por perto, e no final ainda sermos aplaudidos.

Seja autor(a) da sua própria história, eu sou da minha, sem edições, e você???


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Sobre Pessoas Econômicas - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Antigamente eu acreditava que pessoas econômicas só fossem aquelas que economizam dinheiro, nada mais.
Contudo com o tempo aprendi, convivendo com tanta gente que passou pela minha vida, que as pessoas podem ser econômicas de carinho, de palavras, de sorrisos, de tudo, até de luto.
Tem aquelas pessoas que escrevem em uma linha e querem que a gente consiga entender toda uma vida às vezes numa única frase.
Não quero dizer que gosto de pessoas prolixas.
Não! não é isso.
Falo daqueles que parecem ter preguiça de usar os dedos no teclado, a cabeça para pensar, a mente para usar…
Outras, são tão econômicas que beijam de leve rapidinho como se fosse uma borboleta que roçou no seu rosto e quando você percebeu ela já tinha ido…
Existem pessoas que mandam e-mails tão curtos que você acha que no teclado do computador delas estão faltando letras e por isso elas economizam tanto…
E os economizadores de sorriso? Já conheceu algum? ele ri pela metade. É como se fosse rir e de repente parasse. O sorriso fica assim no meio do nada, desconcertado, inquieto, incerto.
O econômico de afetividade é assim, um meio sorriso, um abraço pela metade, um carinho pairando no ar mas que nunca chega em você, uma ligação onde só se ouve o alô e ela cai, o abraço que vinha e desistiu no caminho…
Porque será que as pessoas estão assim? Será que é reflexo da bolsa americana? da quebra dos bancos? do medo? da insegurança? do amanhã?
E pensar que quanto mais você dá, mais você recebe. Talvez seja isso… As pessoas econômicas dão menos porque não querem receber muito.
No skype elas aparecem sempre como ocupadas, no msn off line e na vida ocupadas demais para se dar aos outros.
Existem até os econômicos do luto: choram por segundos e param em minutos…
Sofrem por minutos e esquecem num segundo…
Ah…. que coisa sou tão perdulária nos meus abraços, nos meus carinhos, nos meus afagos, na minha saudade, na minha dor e no meu luto….
Sou perdulária na minha forma de ser, de me dar, de receber.
Efetivamente não nasci para ser miserável no amor…
Descobri que nas letras e no afeto eu sou gastadora, perdulária, incontida, irreverente sou assim gente como a gente.

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Sorrateira - por Ana Lucia Timotheo da Costa

Ajeitou a cadeira
como a esperar
um convidado de honra.
Como estava precisando!
Dias se passaram
mas ela não arrefeceu.
Tinha a intuição de que
era questão de tempo.
Começou a modificar-se.
O primeiro passo
foi consentir-se
abrir as portas
da esperança.
Um dia, quando menos esperava,
lá estava ela – clara, concreta,
palpável, ao alcance da mão.
Emocionou-se.
Aos poucos foi se entregando
e agradecendo.
Sabia que a sorte
chegara para coroar a sua vida
trazendo mudanças.
Há tempo certo para tudo.
Importante é nunca deixar de sonhar…


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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Ana

Considero este post inesquecível, pois, como tudo que Alba escreve, traz reflexões profundas a respeito do comportamento humano e das escolhas que fazemos. Mas este é especial porque trata deste tema com muita sensibilidade. Adorei.



AO FILHO QUE NÃO NASCEU
(ALBA VIEIRA)
Você veio.
Eu não te pensei.
Portanto, não te espero.
Nem mesmo sei se te quero.
Te sinto? Será?
Não há tempo.
Você cresce rápido.
E os outros? E a minha vida?
Eu, sempre eu.
E meus medos e inseguranças.
Penso logo, ajo ainda mais rápido.
Encontro cúmplices tão cegos quanto eu.
Que pensam e só pensam.
E não sentem como tu sentes.
Não se responsabilizam.
Apenas anuem e colaboram.
Um dia também eles se darão conta.
Desenho um plano perfeito,
penso que não deixarei marcas.
Ledo engano:
desde o primeiro momento em que te rejeito
sulco em mim gretas profundas.
E quanto mais se avoluma teu desamparo e cresce tua dor,
piores e mais profundas as cicatrizes em mim.
Porque pensando sobre o que não posso,
sobre o que com certeza não terei forças para enfrentar,
não sinto a força que já tu me dás sem nada pedir em troca,
posto que teu sustento já vem contigo.
Teu destino antes combinado será traído por mim.
As marcas em mim pelo desatino
irão além do corpo, certamente.
Porque sentindo, mesmo anestesiada, a dor do teu agonizar,
minha essência será sacudida pelo vendaval da culpa
que deixará marcas profundas no meu corpo, sim,
mas muito menores que aquelas que estarão
no curso de minha existência empobrecida pela tua falta.
Hoje, minha consciência tardia te pede perdão por haver te abortado.


Visitem Alba Vieira ..............
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terça-feira, 16 de julho de 2013

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Alfred Montapert e o Comportamento - Citado por Ana

 
O comportamento é um espelho no qual todos mostramos o que somos.
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Juliana Mynssen: "O dia em que a Presidenta Dilma em 10 minutos cuspiu no rosto de 370.000 médicos brasileiros." - Citada por Alba Vieira

 
Há alguns meses eu fiz um plantão que chorei. Não contei à ninguém (é nada fácil compartilhar isso numa mídia social). Eu, cirurgiã-geral, "do trauma", médica "chatinha", preceptora "bruxa", que carrego no carro o manual da equipe militar cirúrgica americana que atendia no Afeganistão, chorei.
Na frente da sala da sutura tinha um paciente idoso internado. Numa cadeira. Com o soro pendurado na parede num prego similiar aos que prendemos plantas (diga-se: samambaias). Ao seu lado, seu filho. Bem vestido. Com fala pausada, calmo e educado. Como eu. Como você. Como nós. Perguntava pela possibilidade de internação do seu pai numa maca, que estava há mais de um dia na cadeira. Ia desmaiar. Esperou, esperou, e toda vez que abria a portinha da sutura ele estava lá. Esperando. Como eu. Como você. Como nós. Teve um momento que ele desmoronou. Se ajoelhou no chão, começou a chorar, olhou para mim e disse "não é para mim, é para o meu pai, uma maca". Como eu faria. Como você. Como nós.
Pensei "meudeusdocéu, com todos que passam aqui, justo eu... Nãoooo..... Porque se chorar eu choro, se falar do seu pai eu choro, se me der um desafio vou brigar com 5 até tirá-lo daqui".
E saí, chorei, voltei, briguei e o coloquei numa maca retirada da ala feminina.
Já levei meu pai para fazer exame no meu HU. O endoscopista quando soube que era meu pai, disse "por que não me falou, levava no privado, Juliana!" Não precisamos, acredito nas pessoas que trabalham comigo. Que me ensinaram e ainda ensinam. Confio. Meu irmão precisou e o levei lá. Todos os nossos médicos são de hospitais públicos que conhecemos, e, se não os usamos mais, é porque as instituições públicas carecem. Carecem e padecem de leitos, aparelhos, materiais e medicamentos.
Uma vez fiz um risco cirúrgico e colhi sangue no meu hospital universitário. No consultório de um professor ele me pergunta: "e você confia?".
"Se confio para os meus pacientes tenho que confiar para mim."
Eu pratico a medicina. Ela pisa em mim alguns dias, me machuca, tira o sono, dá rugas, lágrimas, mas eu ainda acredito na medicina. Me faz melhor. Aprendo, cresço, me torna humana. Se tenho dívidas, pago-as assim. Faço porque acredito.
Nesses últimos dias de protestos nas ruas e nas mídias brigamos por um país melhor. Menos corrupto. Transparente. Menos populista. Com mais qualidade. Com mais macas. Com hospitais melhores, mais equipamentos e que não faltem medicamentos. Um SUS melhor.
Briguei pelo filho do paciente ajoelhado. Por todos os meus pacientes. Por mim. Por você. Por nós. O SUS é nosso.
Não tenho palavras para descrever o que penso da "Presidenta" Dilma. (Uma figura que se proclama "a presidenta" já não merece minha atenção).
Mas hoje, por mim, por você, pelo meu paciente na cadeira, eu a ouvi.
A ouvi dizendo que escutou "o povo democrático brasileiro". Que escutou que queremos educação, saúde e segurança de qualidades. "Qualidade"... Ela disse.
E disse que importará médicos para melhorar a saúde do Brasil....
Para melhorar a qualidade....?
Sra "presidenta", eu sou uma médica de qualidade. Meus pais são médicos de qualidade. Meus professores são médicos de qualidade. Meus amigos de faculdade. Meus colegas de plantão. O médico brasileiro é de qualidade.
Os seus hospitais é que não são. O seu SUS é que não tem qualidade. O seu governo é que não tem qualidade.
O dia em que a Sra "presidenta" abrir uma ficha numa UPA, for internada num Hospital Estadual, pegar um remédio na fila do SUS e falar que isso é de qualidade, aí conversaremos.
Não cuspa na minha cara, não pise no meu diploma. Não me culpe da sua incompetência.
Somos quase 400mil, não nos ofenda. Estou amanhã de plantão, abra uma ficha, eu te atendo. Não demora, não. Não faltam médicos, mas não garanto que tenha onde sentar. Afinal, a cadeira é prioridade dos internados.
Hoje, eu chorei de novo.
 
 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Goethe, Aptidão, Vontade e Ação - Citado por Penélope Charmosa

No reino da Natureza dominam o movimento e o agir. No reino da liberdade dominam a aptidão e o querer. O movimento é perpétuo e, sendo favoráveis as circunstâncias, manifesta-se necessariamente nos fenômenos. As aptidões, desenvolvendo-se embora em correspondência com a Natureza, têm contudo que ser postas em exercício por parte da vontade para poderem elevar-se gradualmente. É por isso que nunca temos no exercício livre da vontade a mesma certeza que temos na autonomia do agir natural; este último é qualquer coisa que se produz a si mesma enquanto que o primeiro é produzido.
O exercício da vontade, para ser perfeito e eficaz, tem que se adequar: no plano moral, à consciência - a uma consciência sem erro -, e, no domínio das artes, à regra - a uma regra que em nenhum lado está enunciada. A consciência não precisa de nenhum patrocínio, porque tem tudo o que lhe é necessário e porque só tem que ver com o mundo pessoal interior. O gênio também não precisaria de nenhuma regra, mas, uma vez que a sua eficácia se dirige para o exterior, está na dependência de múltiplas contingências materiais e temporais, não lhe sendo possível escapar a erros que daí decorrem. E é assim que tudo o que diz respeito a qualquer arte, desde a condução de uma orquestra até a composição de um poema, desde a produção de uma estátua até a execução de um quadro, nos parece, do princípio ao fim, tão espantoso e tão inseguro.



In “Máximas e Reflexões”.
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domingo, 7 de julho de 2013

A Peste - por Jair Lopes


No princípio parecia apenas que um número maior de pessoas estava gripado, os acometidos por um possível vírus apresentavam sintomas iguais ou parecidos com os da gripe, como irritação na garganta, coriza, alguma obstrução nasal e, em alguns casos, uma febre leve.
Palmeira era uma cidade pequena e as ocorrências, fatos e eventos que lá se passavam eram de conhecimento de todos, como se pertencessem a uma grande família. Então, quando os casos de “gripe” começaram a levar gente ao único hospital do burgo em busca de tratamento, os dois médicos e as irmãs de caridade que atendiam os doentes perceberam que eles estavam mais prostrados do que se poderia esperar se estivessem apenas gripados. Toda a cidade tomou conhecimento que mais gente e com gravíssimos sintomas estavam baixando aos leitos hospitalares.
Mais ou menos no segundo mês depois que os primeiros casos apareceram quase um terço da população, inclusive um dos médicos, estava acometido dessa doença que passou a preocupar tanto as autoridades quando os cidadãos que ainda não tinham sido contaminados. Pelo que se sabia era uma doença virótica ou bacteriana contagiosa, porque era comum pessoas de uma mesma família ou que conviviam em ambientes confinados como salas de aula ou escritórios, apresentassem sintomas em cadeia. As primeiras mortes vieram logo a seguir, mortes horríveis com os doentes assumindo posições arqueadas, olhos esbugalhados, boca aberta e gritando como se o fogo do inferno os tivesse queimando, parecendo possuídos por demônios. Em um mês, mais da metade dos cidadãos já estavam doentes e os coveiros passaram a fazer horas extras para enterrar os mortos. Notadamente, a doença não escolhia classe social, idade ou sexo, ainda que os primeiros mortos tenham sido pessoas idosas e crianças muito novas.
O prefeito apressou-se em decretar estado de vigilância e decretou que escolas fossem fechadas, dispensou os funcionários públicos municipais e sugeriu que todos os serviços que não fossem essenciais deixassem de funcionar.
Muitos dos mais ricos arrumaram as malas e se mandaram para Curitiba ou outra cidade onde tivessem parentes ou amigos. Aos pobres coube apenas se trancar em casa tanto quanto possível, e rezar para que a doença não os alcançasse. Houve dois ou três casos nos quais todas as pessoas de uma mesma família confinada foram atacadas morreram e só se tomou conhecimento disso quando os corpos começaram a exalar mau cheiro.
O padre, alguns pastores, beatas e outros devotos faziam penitências, rezavam, oravam e pediam perdão por pecados nunca cometidos e por faltas nunca acontecidas. Apareceram três pregadores místicos que bradavam pelas ruas vazias dizendo que aquele era um castigo de Deus pelas iniquidades daquele povo incréu e pecaminoso. Se alguém acreditava nisso nada dizia, mas era aparente o medo e a desconfiança. Será que Deus estava castigando a todos por algo que alguns fizeram? Será que o Criador havia escolhido aquela cidade para servir de exemplo para uma humanidade pecadora, cruel e belicosa? Foi nesse clima que alguém ressuscitou a palavra PESTE. Para a crendice do povão ignaro palmeirense, peste significava muito mais que uma grave doença ocasional, ou mesmo um epidemia inesperada e fatal; peste significava algo determinado por uma força superior como punição; peste era penitência por pecados cometidos, e isso mexia com o imaginário daquelas pessoas simples. Então, a partir da lembrança da palavra, muitos passaram admitir que estavam sendo punidos com a peste. Por estranho que pareça, o fato de agora saberem o que era e qual a finalidade do mal, fez com que alguns se conformassem com o destino e, com humildade, admitissem que eram pecadores e deviam ser punidos.
Mas a peste continuou ampliando seu alcance e mortalidade, mais gente foi infectada e muitas mais morreram. Os cemitérios já não comportavam tantos defuntos e as autoridades liberam outros dois terrenos públicos para os sepultamentos, que agora se faziam até a noite. Calculava-se que um terço dos cidadãos havia falecido, outro terço estava doente e o terço final rezando e tremendo em suas casas. Dos que partiram, depois se soube, também um terço havia deixado de viver nessa mesma época.
Ainda que o apelo das autoridades médicas tivesse sensibilizado a Secretaria de Saúde do Estado, e esta tenha enviado uma equipe médica e um hospital de campanha cedido pelo Exército, os casos da doença misteriosa só aumentavam e o número de mortos também. Curiosamente, ninguém que tenha vindo para a cidade para trabalhar ou que por lá tenha passado adquiriu a doença. Parecia uma epidemia seletiva, só atacava os moradores de Palmeira. Mas, assim como havia começado seis meses antes sem trombetas ou foguetórios, saiu de cena de mansinho sem deixar saudades, acabou. Os últimos doentes sararam de um dia para outro e os que não haviam ficado doentes saíram de suas casas e perderam o medo. Palmeira, agora rarefeita de gente, começou lentamente e se recuperar da catástrofe, era uma cidade convalescente e com outro espírito, como fênix renascida, purificou-se.
O formoso burgo, que já era conhecido como Cidade Clima do Brasil, agora aguilhoado pela mórbida moléstia, podia ser chamado de Cidade Bem-aventurada do Brasil, a bondade, o denodo, o altruísmo, o bom mocismo, a benevolência, a filantropia, a caridade, a prodigalidade, a piedade, o brio, a consideração, a reflexão, a tolerância, a candidez, a moralidade, a nobreza de caráter, o pundonor, a gentileza, a compostura, a fineza, a probidade, o esmero, a maturidade, a sobriedade, o recato, o equilíbrio, a calma, a elegância no trato aos outros, a prudência e a lealdade passaram a ser a marca registrada dos habitantes daquela comunidade. Todos se tornaram mais felizes e passaram a contagiar de felicidade quem viesse morar na cidade.
Muitos anos depois, cronistas relataram que mais da metade da população havia perecido, dos que sobraram mais da metade mudou-se para sempre. Os que ficaram formaram uma pequena sociedade extremamente coesa, honesta e solidária, a mais exemplar do país a qual até hoje pode ser citada por suas realizações humanitárias. Palmeira é a melhor cidade do Brasil desde então.

 

Jair Lopes, Floripa, 16/09/11.

I Got My Own Wings - por Yuri


“Quando eu era criança, eu falava como uma criança, agia como uma criança e entendia como uma criança. Mas quando me tornei homem deixei de ser criança.”

Sinto minhas lágrimas descerem sobre meu rosto quente.
Vovó dizia que o melhor lugar para se chorar é em nossa própria cama, pois é lugar quente.
E eu me perguntava: Por que não conversar sobre tudo isso?
Por que? Se...
Eu só queria ter alguém que não fizesse minha parceira se sentir tão só nesta luta.
Mas eu não tive. E ela não teve, realmente ela não teve. Foram apenas lençóis falsos, lençóis manchados da fumaça que saía da lareira quente.
Eu me sentia bem, mas não o suficiente.
Você acorda um belo dia e percebe que aquilo não vai melhorar, não vai sair dali.
Logo então se acostuma com o dilema, mas sabendo que pode fazer diferente.
Então me perguntava quando pequeno: Por que respirar? Pra que continuar vivendo? E meu avô respondia: Yuri você ainda não viu nada sobre o que é a vida.
Quando eu sentia meu mundo caindo eu ia no faro do seu cheiro porque lá eu podia encontrar abrigo, colo.
Mas sobre a parte que eu nunca tive, eu percebi que se não dependesse de mim, eu não teria algo bom para recordar, mas poderia fazer diferente.
Ele não sabe de nada, ele não sabe nada sobre mim.
Ele não sabe sobre meu potencial, sobre o que eu realmente posso ser: melhor! Não pior.
Eu não preciso de nada que ele tenha.
Eu tenho minhas próprias asas!

“Na vida o que importa é amar, e em troca amado ser”.

Meu coração bate graças a o amor que há.
Se eu chutasse isso por coisas banais, por que viver nesta terra?

Visitem Yuri

Agora Não, Skype! - por Adir Vieira




 
Ligo o computador e imediatamente e automaticamente entra o Skype e o MSN.Às vezes isso é tão bom!
Mas hoje, especialmente hoje, não foi.
Vejam bem! Eu já estava atrasada para o Banco e ainda tinha que imprimir dois boletos de pagamento. Os sites procurados não facilitavam a entrada talvez por ser início de mês, o que retardava minha saída ainda mais.
E nesse pequeno tempo que me parecia uma eternidade, a campainha sonora do skype me chamando não dava trégua, desligando e ligando a cada três minutos.
Como se não bastasse esse chamado, minha amiga começou a escrever mensagens no MSN abrindo e fechando a tela do site do meu interesse naquele momento.
Eu já estava a beira de um ataque de nervos, quando deseducadamente, mudei meu status nos dois programas para offline, quando para meu castigo, caiu a conexão com a Internet, fazendo com que eu me dirigisse aos Bancos para realizar os pagamentos.
 
Visitem Adir


Leo Santos e o “Naturismo” - Citado por Alba Vieira

É coerente o medíocre escritor
se expor à risada analítica
se é limitado como autor
seria genial na auto-crítica?

Um estímulo sempre extravasa
quando outro atrevido se arrisca
e até o braseiro sonha com asas
contemplando voar a faísca

Perfil desnudo em cada haicai
digitais sobre o pergaminho
impressa em versos a cara do pai
inda que esse se esconda no ninho

Um perdido tentando a si mesmo buscar
melhor dirigir-se em apelos
os pés do solo impossível tirar
puxando os próprios cabelos

Poesia, pois, impudico ativismo
pleno exercício do despudor
visitas regulares ao naturismo
sempre trajado a rigor

nessa arte atrevida, insana
meu tempo e cuidado esbanjo
de poesias, são, disse o Quintana
os livros pornográficos dos anjos



Visitem Leo Santos
Mário Quintana

Ser... - por Raquel Aiuendi

ter certeza do bem que se faz
ao dizer um não
ou afirmar o mal que se provoca
ao fazer uma concessão
é ser muito pretensioso
é ser irresponsável
talvez previdente
ou então superficial
com certeza não custa nada
a amabilidade
ou carinho
mas ter firmeza é ser incansável
e ser alegre é ser caliente.
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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector - por Alba Vieira

Falar sobre este livro é como mergulhar no mundo de Clarice: não se sabe aonde vai dar. Mas, com certeza, é luz, é pura lucidez. É voltar-se para si, descobrir-se, descobrir o mundo, a ligação que há entre todas as coisas, todos os fatos, é a noção da Unidade, da conexão, da teia que nos une a tudo, de estar irremediavelmente conectado, de fazer parte (bem antes da “explosão” da Física Quântica). E esta noção de nunca estar só, que apenas se consegue com a prática da solidão, no sentido de voltar-se para dentro e observar, me foi despertada pela descoberta de Clarice, através deste magnífico livro, o primeiro dela que eu li. Interessante que isto aconteceu na década de 1980. Ele foi presente do meu grande amor e passei meses nas primeiras páginas, como se algo em mim fosse aguardado, até poder devorá-lo, penetrar no âmago de suas palavras, incorporá-lo e nunca mais esquecê-lo. Depois, vieram muitos outros, com “Água Viva” quase desisti de aprender, mas era impossível não prosseguir e assim, ela tornou-se minha escritora preferida.  É um livro belíssimo, de uma delicadeza espantosa, apesar de tantas vezes nos lançar, sem pedir licença, às profundezas e abismos de nossas almas.
É interessante lê-lo, mesmo para aqueles que não se identificam com a obra de Clarice.
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Mário Quintana e a Arte Poética - Citado por Penélope Charmosa

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Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.



In “Do Caderno H”.
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Saudade Morta - por Vicenzo Raphaello (Erótico)

Ele a esperava, na véspera avisara que iria.
Havia tempo que se mudara.
Ele a conhecera ainda jovem, o tempo passara, mais madura, mãe, mantinha o viço da juventude apesar das pequenas rugas surgindo junto aos seus olhos, o que a tornava mais interessante.
Há quanto tempo não se viam.
Surgira a oportunidade de voltar àquela cidade, ligara procurando roubar um pouco do seu tempo, pedira a ela que reservasse um flat próximo de sua casa, era cômodo, num pulo lá estaria e noutro ela voltaria.
Ela chega, por um momento ele se vê envolto em ternura, o encontro era de fato desejado, sentia saudades, do seu jeito, da sua vontade de fazer sexo, do carinho que demonstrava.
Era bom.
Beija aquele rosto, onde, sempre presente, um sorriso alegre.
Já na porta ela mete-lhe na boca a língua ágil, procura recordar o sabor e calor guardados em suas lembranças, sem surpresa ele retribui, duelos de línguas, gemidos, mordidas de lábios, orelhas, lambidas no rosto, no queixo, nariz, sugar de saliva, lubrificados os sexos, o passado torna-se presente.
Nesta luta, caem no sofá, ágil ela levanta a saia, que nada por baixo esconde, arqueia o corpo oferecendo o rasgo sob a sedosa plumagem, que penetrado é, movimentos tranquilos e agitados se sucedem, até o frêmito dos corpos tensionados.
Relaxam.
Como vai você? E as meninas? Teu marido?
Perguntas sem sentido, conversa jogada fora, nada importa do saber do outro, apenas o prazer de ali estarem novamente.
Volto logo, ela diz recompondo-se saindo do quarto, ele deixa-se ficar sem questionamentos, ainda entumescido, tenta relaxar.
Breve ela volta, trazendo de casa vinho do Porto e caviar.
Tira a roupa, sentada numa banqueta deixa cair lentamente líquido pelo colo que flui entre os seios, acomoda-se suavemente no umbigo até chegar ao fruto, agora adocicado pelo licor.
Passando o caviar pelos fios de cabelos que ornam sua concha, ali sentado no chão ele sorve tudo temperado com o sabor que vem do seu interior.
O líquido escorre, chega no pequeno orifício, a língua naquela grota alcança o poço e inicia vigorosa massagem acompanhada de pequenas estocadas.
Sussurros e gemidos aumentam quando seu dedo penetra naquele estreito buraco, ali se acomoda alargando aquela passagem em cuidadosos movimentos.
E o licor correndo.
Abraçando aquele corpo coloca-a na cama, apoiada nos cotovelos, arregaçada expõe tudo o que expor podia.
Ela pede, come, come, come o que quiser.
A boca na flor marrom, lambe e chupa, com fome há muito não sentida, levanta-se, com delicadeza ali enfia devagar e depois com forte movimento chega ao fundo, um gemido.
Ele imóvel fica.
Ela em movimentos circulares e num vaivém, geme, sem pudor pedindo mais e mais.
Numa explosão de prazer gozam, ele com suas mãos agarradas nas suas ancas.
Caem no chão, olham-se, abraçados, mudos, assim ficam.
Está morta a saudade.
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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Hermógenes - Citado por Alba Vieira


Autopiedade é o fermento da dor.
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O Eremita, de Felix Schmidt (Organizador) - por Alba Vieira


É um livro muito instrutivo sobre a iniciação espiritual, contada em detalhes por um alemão que depois da guerra franco-prussiana, da qual participou sendo ferido gravemente, resolve largar o trabalho em seu país e viajar para as montanhas do Himalaia e outros locais longínquos para se curar dos ferimentos.  Lá encontra mestres especiais e se dispõe a rigoroso aprendizado até concluir seu discipulado num mosteiro da Fraternidade Branca.  Finalmente retorna e se torna um fazendeiro incógnito nos Estados Unidos que se dispõe a relatar suas vivências num periódico em jornal local especializado.

O texto é claro, com fatos surpreendentes que convidam e possibilitam ao leitor uma expansão de consciência, refletindo sobre o que realmente importa nesta vida.  Os relatos são ricamente desenvolvidos, permitindo acompanhar todo o seu processo de iniciação, dando acesso ao leitor a questões importantíssimas referentes à evolução humana.

É um livro indispensável para todos que desejam aumentar o contato com sua porção imaterial e buscar a iluminação.
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