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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

mahler e eu - por Cármino Caramello


acordei com vontade de fumar
os cigarros dos meus pais
que eles nunca fumaram
e de agradecê-los por fumarem
sua vida inteira

eles não estão
e os cinzeiros estão espalhados pela casa
então não há problemas
vou jogar na privada
e vai estar tudo bem

eu acendo o primeiro
e vou fumando com prazer
mentalmente
trago por trago

enquanto mahler
me adverte
na ausência deles
polidamente
como se soubesse
lidar comigo

e você sabe que banheiros
são ótimos lugares
para refletir
relaxar
resfriar-se
e conversar

logo mahler
me acompanha
entusiasmado
ele havia parado
mas não há problema
estamos falando
de assuntos corriqueiros

e é impressionante
como duas pessoas lúcidas
podem se comunicar
com tanta objetividade
que é quase fluído

eu conto pra ele
que o filtro é feito de nuvem
e que foi um amigo nosso
que está perdendo os cabelos como ele
que me disse isso

quando paro
e olho para frente
vejo mahler
fumando minha mãe
no mesmo instante
abaixo os olhos
e vejo o meu pai-cigarro
queimando em minha boca

eu lembro-o
de cuidar do coração
e sugiro
que não demoremos muito mais
se senão nos atrasaremos
ele consente
e depois de mais um pouco de conversa
se despedi

em seguida
eu dou descarga

domingo, 16 de dezembro de 2012

Tabagismo - por Cármino Caramello


o mar,
fiel adepto do tabagismo,
o faz com largos tragos infinitos,
permitidos apenas para o deleite solitário,
fumo áspero da observância,

de alguém que há eras espera
por doses matinais
de ventos frutíferos e saborosos,
carregados com aromas da estação;

de alguém que espera
pássaros de alma branca
da imensidão das águas
que chegam
com as primeiras notas
brancas de luz,
com penas graciosas
de veludo arbóreo,
sutil e duro

seres distintos, raros
como as árvores de plumagem aérea,
estabelecidas entre as nuvens,
porto e cais
dessas linhagens ancestrais,
estalagem de brisa e migração,
no qual se falam línguas sussurradas,
próprias a esses lugares mágicos
e seus seres cultos de simplicidade;

é a esperada boa nova esquecida
espera por palavras soltas,
livres, de alma limpa e branca,
dançarinas sob chuva divina
de prata, néctar e seiva

velho na varanda do mundo
de esperança calma e crente,
apego voluntário
ao vício do fogo antigo,
às damas de branco
e casamentos em jardins

apenas a vigília
de uma alma velha,
desgastada na umidade,
mais um vício louco,
um apego tosco,

devaneio nostálgico
de uma vida passada,
alucinação profética,
crença particular desacreditada

o esperar de uma
espécime rara,
desconhecida,
inútil,
cansada,
antiquada,
num mundo de pó
e palavras rápidas

apenas maré, hábito cotidiano,
diligência prazerosa

vício voluntário
de um viver,
tão velho quanto
o mundo