Emprestar as coisas é uma coisa complicada. Tem coisas que eu evito emprestar, como livros, CDs e dinheiro. Mas tem horas que as pessoas que querem algo emprestado me deixam me sentindo tão culpado que acabo cedendo:
- Flavio, você pode me emprestar esse CD?
- Não.
- Por quê não?
- Porque esse CD, como disse um ex-presidente do Corinthians, é inegociável, insubstituível e imprestável. Nem se minha mãe me pedisse eu emprestaria.
- Mas, Flavio, eu sou sua mãe.
- Mãe, lamento, regras são regras.
- Como eu pude criar uma criatura que não confia nem na própria mãe? Que vergonha!
- Tá bom, mãe, eu empresto. Mas faz um favor?
- Tá.
- Preencha esse formulário aqui, é coisa boba, só para me dar uma segurança, se você danificar o CD, e mais esse contrato aqui no caso de acontecer alguma coisa mais grave comigo, tipo eu precisar de um rim ou um coração. Qual seu tipo sanguíneo mesmo, mãe?
- Mas que moleque cético que criei! Eu te amamentei, dediquei os melhores anos da minha vida em prol da sua criação e você cria toda essa novela para me emprestar um CD?
- Mãe, não é “um” CD, é “O” CD. Assina aí embaixo e tá tudo certo.
Agora, tem o outro lado, quando você torce para que te peçam alguma coisa emprestada que você se arrepende, até a medula, de ter. Eu, particularmente, faço o esforço que for preciso para a pessoa levar o objeto de tanto arrependimento:
- Flavio, estava dando uma olhada nos seus CDs e vi um aqui que eu estou procurando há tempos e não consigo achar.
- Olha, se for o mesmo que a minha mãe estava querendo emprestado há uns dias atrás, você vai precisar preencher esse formulário e...
- Não, rapaz, não é esse não, eu sei que você não empresta esse CD nem se Bob Marley ressuscitasse e te pedisse o tal CD em pessoa, cantando sua música predileta e te oferecendo um teco no baseado. Eu quero esse aqui, ó...
- “O Melhor do Tecno-Funk – Verão de 1999”?
- É.
- Cara, pode levar esse troço daqui, e toma mais R$50 para não trazer de volta.
- Quero R$ 100.
- Toma R$ 300.
E ainda tem quando o vilão é você, que, sempre bonzinho, solícito, empresta as coisas e acaba sempre sem as coisas que emprestou. Então, para se vingar desse mundo tão injusto e cruel, você devolve na mesma moeda. Mas como tem coisas que só acontecem com os bonzinhos, com o Botafogo e a Portela, você tem que se virar quando está prestes a ser desmascarado:
- Flavio, há quanto tempo!
- Ô, rapaz, quanto tempo! Como você está?
- Estou bem... O de sempre: trabalhando, estudando. Criando os filhos... E você?
- Mesma coisa... Mesma preguiça, mesmo emprego, mesmo apartamento...
- Me lembrei de uma coisa agora...
- É? O quê?
- Eu te emprestei um livro, tem uns quatro anos, lembra? Nós éramos vizinhos...
- Sim, lembro sim, mas eu me mudei, e devo ter perdido o livro na mudança, sabe como que é, mudança é complicada, blábláblá...
- Mas você acabou de dizer que mora no mesmo lugar...
- Não, é que eu me mudei. Mas aí depois eu voltei para o apartamento, entendeu?
- Sei...
- Sério, rapaz, não é desculpa para não te devolver o livro não, sou um cara responsável, pai de família, servidor público, vascaíno...
- E mentiroso!
- Olha a hora! É melhor eu correr...
Siga meu conselho. Em caso de dúvida, não empreste. Venda. Ou alugue, como o rapaz da piada.
- Flavio, você pode me emprestar esse CD?
- Não.
- Por quê não?
- Porque esse CD, como disse um ex-presidente do Corinthians, é inegociável, insubstituível e imprestável. Nem se minha mãe me pedisse eu emprestaria.
- Mas, Flavio, eu sou sua mãe.
- Mãe, lamento, regras são regras.
- Como eu pude criar uma criatura que não confia nem na própria mãe? Que vergonha!
- Tá bom, mãe, eu empresto. Mas faz um favor?
- Tá.
- Preencha esse formulário aqui, é coisa boba, só para me dar uma segurança, se você danificar o CD, e mais esse contrato aqui no caso de acontecer alguma coisa mais grave comigo, tipo eu precisar de um rim ou um coração. Qual seu tipo sanguíneo mesmo, mãe?
- Mas que moleque cético que criei! Eu te amamentei, dediquei os melhores anos da minha vida em prol da sua criação e você cria toda essa novela para me emprestar um CD?
- Mãe, não é “um” CD, é “O” CD. Assina aí embaixo e tá tudo certo.
Agora, tem o outro lado, quando você torce para que te peçam alguma coisa emprestada que você se arrepende, até a medula, de ter. Eu, particularmente, faço o esforço que for preciso para a pessoa levar o objeto de tanto arrependimento:
- Flavio, estava dando uma olhada nos seus CDs e vi um aqui que eu estou procurando há tempos e não consigo achar.
- Olha, se for o mesmo que a minha mãe estava querendo emprestado há uns dias atrás, você vai precisar preencher esse formulário e...
- Não, rapaz, não é esse não, eu sei que você não empresta esse CD nem se Bob Marley ressuscitasse e te pedisse o tal CD em pessoa, cantando sua música predileta e te oferecendo um teco no baseado. Eu quero esse aqui, ó...
- “O Melhor do Tecno-Funk – Verão de 1999”?
- É.
- Cara, pode levar esse troço daqui, e toma mais R$50 para não trazer de volta.
- Quero R$ 100.
- Toma R$ 300.
E ainda tem quando o vilão é você, que, sempre bonzinho, solícito, empresta as coisas e acaba sempre sem as coisas que emprestou. Então, para se vingar desse mundo tão injusto e cruel, você devolve na mesma moeda. Mas como tem coisas que só acontecem com os bonzinhos, com o Botafogo e a Portela, você tem que se virar quando está prestes a ser desmascarado:
- Flavio, há quanto tempo!
- Ô, rapaz, quanto tempo! Como você está?
- Estou bem... O de sempre: trabalhando, estudando. Criando os filhos... E você?
- Mesma coisa... Mesma preguiça, mesmo emprego, mesmo apartamento...
- Me lembrei de uma coisa agora...
- É? O quê?
- Eu te emprestei um livro, tem uns quatro anos, lembra? Nós éramos vizinhos...
- Sim, lembro sim, mas eu me mudei, e devo ter perdido o livro na mudança, sabe como que é, mudança é complicada, blábláblá...
- Mas você acabou de dizer que mora no mesmo lugar...
- Não, é que eu me mudei. Mas aí depois eu voltei para o apartamento, entendeu?
- Sei...
- Sério, rapaz, não é desculpa para não te devolver o livro não, sou um cara responsável, pai de família, servidor público, vascaíno...
- E mentiroso!
- Olha a hora! É melhor eu correr...
Siga meu conselho. Em caso de dúvida, não empreste. Venda. Ou alugue, como o rapaz da piada.
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