Creative Commons License


Bem-vindo ao Duelos!
Valeu a visita!
Deixe seu comentário!
Um grande abraço a todos!
(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O Homem no Lixo é Lixo - por Alba Vieira

Numa manhã fria de um inverno mais rigoroso na Cidade Maravilhosa minha visão é atraída por uma cena patética enquanto passo de ônibus por uma área residencial pobre que retrata perfeitamente este momento no Rio de Janeiro, no mundo e dentro de cada um de nós.
O negro do homem contrasta com as sacolas plásticas brancas “indestrutíveis”: é um morador de rua que se deitou sobre um monte de lixo deixado ao lado de uma caçamba da Comlurb. Aquilo me choca e, aos poucos, a outros passageiros - que ousam enxergar fora, além da sua realidade incômoda: um coletivo lotado, em que pessoas semi-acordadas se espremem para ocupar um espaço que não existe para todos.
Não há espaço para todos e este homem sabe disso.
Sua consciência o conduziu para onde de fato estava: no lixo. Ele é o lixo da sociedade que reduz o homem.
Quantos de nós, em momentos subseqüentes, em dias que se repetem, em semanas intermináveis, em meses e anos que não nos levam além da certeza de que, a cada dia, a luta para sobreviver será maior e a possibilidade de exclusão aumentará, já tiveram estes insights... Quantas vezes já nos sentimos no lixo? Nós somos o lixo a cada vez que permitimos que o homem seja visto assim, feito assim, degradado.
Ah! Como incomoda ver pelas ruas, em número cada vez maior, meninos que saem de casa expulsos pelos maus tratos e abusos e passam a viver ao relento, dormindo no chão sujo, protegidos apenas na parte superior do corpo pelas camisas ralas, imundas, que esticam e prendem até os joelhos para proteger o sexo, num frio de desproteção emocional muito maior do que o do inverno! Como nos causa repugnância quando sobem pela porta de trás dos ônibus moradores de rua drogados, sujos, fedidos, tuberculosos, tossindo sua dor na nossa cara, poluindo o já rarefeito ar dos veículos cheios de gente que volta do trabalho exausta e consome o resto de energia agarrando-se como podem aos apoios dos microônibus que solavancam sem amortecedores e com molas gastas, guiados por condutores explorados, insanos, que extravasam a raiva dos donos das empresas em demonstrações irresponsáveis de direção perigosa!
O que somos senão lixos quando, todos os dias, nos permitimos ser tratados desta forma? Que menos-valia é esta que faz com que permaneçamos impassíveis, sentados em nossos carros, quando crianças molambentas ou deficientes tentam nos vender balas ou fazem acrobacias diante de uma platéia que finge não ver, em troca de trocados que geralmente não vêm? E, nas lanchonetes, quando você, por não ter dinheiro para almoçar, pede um sanduíche barato com refresco e, na primeira dentada, tem seu braço puxado pelo moleque que, com expressão de choro e abandono, pede que lhe pague um lanche porque ainda não tomou café? Você pode ter uma boa refeição ou tem seu estômago revirado numa ânsia de vomitar toda a sua indignação com este estado de coisas, sobretudo porque é extorquido, sem opção, por impostos abusivos que equiparam, nas alíquotas cobradas, seu minguado salário aos ganhos estratosféricos de privilegiados funcionários públicos de alto escalão?
E então, refletindo sobre tantos absurdos que cada um de nós enxerga em sua área de atuação nesta sociedade todos os dias, de tantos anos que já aconteceram e na expectativa de tantos outros que virão, eu me pergunto: a atitude deste homem que se deitou hoje no lixo não foi mesmo um alerta formidável? Porque, simplesmente estando onde estava, sendo o que de fato era, nos jogou, a todos nós que o vimos de súbito, na consciência de que cada um de nós também é ele, a despeito das artimanhas que inventamos e dos disfarces que assumimos para nós mesmos quando negamos, em nossa vida, a sujeira, a dor, a pobreza, a velhice, a nossa sombra, a própria morte. Quando aceitamos a corrupção, os desmandos, a impunidade, as contradições, as safadezas, os descaramentos do poder reinante, somos o lixo que precisa urgentemente ser reciclado. É necessário conscientizar que não é possível deixar fazer aos outros, nossos semelhantes, o que não admitimos para nós.
.

Menopausa - por Alba Vieira

(Paródia da música infantil “Terezinha de Jesus”)


Menopausa, menopausa,
não demore pra passar...
Se ela fica por mais tempo
acho que eu vou pirar.

O primeiro foi o calor,
castigava sem cessar,
vinha numa onda quente
e a cabeça a zonzear.

Num segundo esfriava
e eu tremia, sem entender...
Cobre corpo, descobre corpo
a noite toda... dormir pra quê?

E em terceiro foi pior,
isto então não quero mesmo,
ressecada para sempre...
Desse jeito eu não mereço

Mas já sei como se faz
e agora é pra valer:
exercícios, meditação
e cuidar do que comer.

Claro, a natureza é sábia...
Precisamos reservar
os remédios e outras coisas
só pra quem não melhorar.

Equilíbrio, harmonia,
calma e ponderação
muito ajudam nesta fase.
Acreditem, é muito bom!
.

Juntando Letrinhas - por Eliezete Luna

Chama, bota-fora,
cora a cara
corra a tranca.
Está frio, está sedento,
sai do vento
meu rebento.

Chacoalha,
coalha, caolha,
estou brincando com
as palavras,
descobrindo que sou boa

Boa no B+A = BA
Boa no lá-rá-rá
Boa sem destoar
BOA PRA ENROLAR…

.

Rotina (Por Cada Um de Nós) - por Alba Vieira

Seis horas da manhã. Segunda-feira. Acorda, filha! Está na hora da escola. Anda. Levanta. Mamãe vai se atrasar. Hoje o dia vai ser horrível! Não me atrase, por favor, diz a mãe em súplica quase. Aí, meio atônita, olhinhos inchados, meio apagadinhos, a gordinha fica sentada na cama tentando se apoiar nas cobertas, travesseiro na mão. Nenhum bom dia. Beijo e abraço, então, nem se fala! Hoje é segunda-feira. Arrasta-se até o banheiro, nem se olha no espelho. Corre pra fazer xixi. Boceja cheia de sono. Dos sonhos, não se lembra. Foi cortada, logo cedo. A mãe grita do lado de fora: Anda, menina! Troque logo o uniforme! Daqui a pouco volta ela trôpega. A mãe, feito barata tonta, movimenta-se pela casa recolhendo as mochilas, jogando as roupas usadas na máquina; bebendo leite desnatado em goles rápidos, não sente o sabor do que bebe. Não sossega. Na cabeça, o dia que vai ter se desenrola apressado. A garota não consegue, na mesa, tomar o café da manhã, tenta engolir mas não desce, seu pequeno estômago ainda não acordou. Aquela que se diz mãe, desabalada pela casa, escreve bilhete para a empregada, atende à ligação matutina da mãe dela que se preocupa com seu ritmo acelerado, olha na mesa da sala as contas que o marido, ao sair, esqueceu, e xinga porque então pagarão multa, recolhe seus papéis numa pasta transparente que agarra debaixo dos braços e impede que abrace a filha, coitadinha, que é subitamente retirada do transe em frente à xícara do café com leite pela buzina insistente do ônibus escolar àquela hora da manhã. As duas, mãe e filha, mal se olham nesta corrida desabalada para iniciar um novo dia de uma nova semana que vai correr assim, sem significado, por muito tempo ainda.

Outra casa, outra menina dorme relaxada. Na cozinha, radinho de pilha tocando baixinho, a mulher se movimenta devagar. Já está acordada há um tempo, já olhou no espelho e ajeitou o cabelo, enquanto sonhava ou se lembrava do sonho que teve hoje. O rosto, já lavado, com o perfume de rosas do seu sabonete favorito. No fogão a água já está fervendo e, delicadamente, é derramada por ela sobre as encostas de pó de café que deslizam pelo coador enquanto exalam aquele cheiro gostoso que enche a casa e chega até o quarto da menina, talvez virginiana, que abre os olhinhos e sorri animada enquanto se espreguiça, solta um gritinho e se levanta, feliz. Na cozinha se encontram mãe e filha, se abraçam, se olham, falam pouco, não há muito que falar, as atitudes são plenas de significados. Tomam juntas o café, o pai já saiu mais cedo, foi levado à porta pela esposa que se despediu com um abraço e um beijo demorado de quem vai sentir saudade pelo resto do dia. A escola é só mais tarde. Na mesa, a menina brinca fazendo bichinhos com o farelo do pão comprado um pouco antes na padaria. Falam sobre o dia na escola, sobre os colegas, os medos, as provas, os professores; a mãe conta como era no seu tempo e promete fazer uma comida especial para o almoço. Elas comem com prazer, saboreando tudo; estão ali, somente ali, o futuro ainda não chegou. Tomam café. A menina então toma banho, até ensaia uma música debaixo da água do chuveiro, a sua roupinha espera por ela no cabide do banheiro, veste-se devagar, chama a mãe para pentear seus cabelos e, no espelho, coloca os enfeitezinhos preferidos na cabeça. Saem juntas, mãos dadas, às vezes se solta e corre livre, olhada de perto pela mãe que vai atrás, rumo à escola. Pegam sol, vêem pessoas, conversam enquanto caminham. No pátio se despedem com beijos e sorrisos. Logo estarão outra vez juntas para celebrar esta coisa especial que pode ser a vida.

Nossa vida é feita de escolhas que a todo momento somos chamados a fazer. São duas história diferentes de pessoas parecidas. As meninas estudam no mesmo colégio, as casas ficam em bairros próximos. Mas os destinos são tão diversos em função de opções tão diferentes. Lá na frente veremos que ambas as mães chegarão ao mesmo lugar quase. Tanta diferença na qualidade dos dias não significará nada em termos de progresso material e, em termos concretos, as expectativas dos filhos serão as mesmas para as duas famílias, só que a qualidade da vida sacrificada da mãe executiva em função da esperada conquista do poder pessoal é ruim. Sua filha será emocionalmente defasada, de nada adiantarão os bens que conseguiu adquirir para ela, as melhores escolas não a capacitarão para ter um destino mais feliz: ela não se sentiu amparada, estimulada, seu coração não pôde estar pleno do amor materno. Nem a mãe, na corrida incessante, pôde manifestar o poder pessoal, pois ele se faz sentir de forma mais fácil quando se realiza o que se quer, quando se escolhe, movido pela própria percepção do desejo, pela motivação maior. A mãe que entendeu o seu papel de harmonizar o lar, orientar os filhos, cuidar daqueles que ama, exerceu seu poder pessoal e esteve preparada para, mais tarde, desenvolver sua vida profissional alicerçada pelo conforto emocional de quem faz o que é preciso, que traz beleza e significado para tudo com que se envolve.

Ser mãe, esposa, dona de casa pode ser tão gratificante, especial e importante quanto ter uma carreira. Mas se você é capaz de trabalhar fora de casa, vivendo todos os dias o seu momento presente com envolvimento total com as pessoas e com o que faz, sem sofrer a atração fatal das expectativas do futuro ou as amarras das teias do passado, poderá ser igualmente feliz. O que faz a diferença não é o que se faz, mas como se faz, e se isto corresponde ao seu real desejo e não à expectativa dos outros.
.

Silêncio Solitário na Casa Enorme - por Luiz de Almeida Neto

A voz falta, palpita a garganta
Falta fôlego, as pernas cansam
A cabeça lateja
De tanta esperança

E em vez da desgraça
Que antes seria melhor
que toda essa agonia
o momento se prolonga

A casa vazia, um livro cai
em um cômodo distante
A vida sai por um instante
e se esvai
Ainda não era você que tinha chegado
pra acertar as minhas contas
Ainda não fora a iminência do destino
e eu ainda agüento um pouco mais

.

Minha Música - por Alba Vieira

Minha sensibilidade é como uma música. E esta música, nem sempre posso cantá-la. Há momentos em que ela soa livre, densa, melodiosa. Nesta hora, todo meu ser vibra, minha alma se eleva e paira sobre mim.
Mas nem sempre é assim. Às vezes sou desafinada e me incomoda esta expressão incompleta, distorcida, incapaz de ser o que é de verdade.
Outras vezes, esta música é parte de um coro e eu me sinto amparada. Ah! Como é delicioso ser junto sendo ainda o que sou!
A minha música pode ser uma balada, pode ser uma marcha - obsessiva marcha que pretende, a todo custo, se impor- e pode ser ainda tão sutil como sinfonia de violinos que vai se infiltrando e se imiscuindo no que de mais profundo existe em alguém.
E esta música, ela é capaz de ser tão branda, tão mansa, que pode fazer dormir uma criança. Pode ser, também, envolvente, enfeitiçar e trazer sob domínio todos os que compartilharem a mesma emoção. Ela pode trazer consolo e pode fazer chorar um ser sensível. Pode festejar, pode ser algazarra ou tão-somente música de fundo.
Mas o fato é que esta música, minha eterna companheira, pode até ser cantada por mim, mas o mais belo som é o que é tirado de mim, roubado por todo aquele que tiver o dom de me fazer vibrar, instrumento que sou.
.

Não sei como começar... - por Adir Vieira

Não sei como começar, mas me impressiono com o fato de algumas pessoas dragarem, para si, jeitos e trejeitos daquelas que lhe estão mais próximas. É como um rio que passa, levando no seu percurso as folhas amareladas, as pedrinhas quebradas pelo bater das ondas e o lixo sujo. É assim o que ocorre com Alcinda e Lucíola. Diferentes na sua forma de ser, atesto que, de uns tempos para cá, as confundo no falar. Termos nunca usados por uma vagueiam nos lábios da outra como sua propriedade, com a mesma entonação. A maneira de sorrir descambada para a esquerda, de uma, hoje, na outra, se repete escondendo a covinha que antes ali realçava. Não entendo como o ar, tal qual espelho, reflete de uma para outra (e vice-versa) meios e manuseios que, executados identicamente pelas duas, chamam minha atenção com vibração.
.

Minha Alma - por Adir Vieira

Minha alma, cheia de você,
vê em tudo motivo de sorrir.

Minha alma, vazia de você,
se irrita, se enerva, se dilacera em questões sem solução.

Como pode minha alma lúcida, firme, racional,
depender de você, de suas essências, de suas verdades,
se é ela, minha alma, quem decide apreender ou expulsar o que você lhe concede?

Como pode minha alma, à mercê dos seus encantos,
traçar meus caminhos na alegria do ser?
.

Eu - por Alba Vieira

Era uma vez uma menina de olhos negros, tão viva e leve quanto clara. Vivia sem complicações, fixada nas tarefas, nas coisas concretas, interessada por pessoas e acontecimentos. Era feliz dentro de sua simplicidade. Tinha seus medos, é certo. Medo do que escapasse ao seu controle, medo do irreal e daquilo que, sendo do mundo real, um dia já a tivesse molestado. Assim, procurava se proteger. Vivia em estado de alerta e organizou poderosas defesas ao longo de sua vida, que acabaram por suprimir sua leveza e espontaneidade. Agora estava impedida por grilhões auto-impostos e precisava rompê-los, custasse o que custasse.
Aventurou-se a conhecer o mundo e, principalmente, a si própria. Estudou muitas coisas - teoria não lhe faltava -, mas sempre esbarrava na prática, onde acabava se repetindo sem promover as verdadeiras transformações de que se julgava capaz. Enfim, era uma tola. A descoberta de suas dificuldades para libertar-se de si mesma acabou lhe trazendo um certo ar de tristeza que procurava disfarçar com excesso de movimento, mas lá no fundo sentia-se estagnada. O que fazer, pensava sempre. Sabia, por ouvir dizer, de todos os caminhos possíveis, mas não se aventurava a percorrê-los de fato. Queria não ter dúvidas, queria ser plácida, queria ter na vida o olhar calmo que sua alma detinha. Mas, que nada! Era insegura. Não conseguia ser o que no fundo era.
Um dia a menina de olhos negros pensou na morte. Como seria não mais ser o que era? Seria tão difícil ser estática e fria? Precisava deixar morrer em si o que não mais lhe servia. Tinha que desapegar de tudo, das pessoas, das posses, das habilidades, dos sonhos, das idéias. O que restaria? Olhou no espelho, através dos olhos negros e não encontrou nada. Estava feito. Poderia partir então. Fixou o nada. Despojou-se de toda luz que pensava ter. Era só trevas, só solidão, só desespero. Contraditório. Porque o real é a vacuidade, a escuridão... tudo mais se constitui em ilusão e até a simplicidade da menina era ilusão. Na verdade era um disfarce. Ela era abissal. Tão negra quanto seus olhos. E estava mergulhada numa densidade difícil de vencer. Não queria mudar nada. Sentiu, pela primeira vez, como era triste, complicada e deprimida. E gostou de ver-se pela última vez.
.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Espadas - por Adir Vieira

Eram oito as espadas. Habitavam a mesma prateleira. De feitios diversos, com ornamentos diferenciados, ali estavam com o único propósito de guerrear e defender.
A primeira chegou em tempos plácidos, foi cuidadosamente escolhida. A princípio bastaria só ela. Como não havia guerras, sua finalidade era agradar, servir de exibição e atender aos desejos de posse do seu dono. Assim passou pela vida, sendo aquela cujo trabalho era desdobrar caminhos, às vezes para satisfação própria. Foi lutar, quando raramente era necessário, em local destacado, aparecendo para as outras como sendo atarefada e sofrendo com o seu papel. Tinha o seu valor intrínseco de ser a preferida e de nada mais precisava. Se necessitava de um lustre especial para manter seus dois gumes altaneiros, lá estava seu dono pronto a atendê-la.
A segunda também chegou em tempos calmos, embora comprada em oferta de ocasião. Por um longo tempo ficou sem a oportunidade de guerrear, até que, surgindo tempos bravios, lembrou do seu papel e iniciou estudos e mais estudos no seu aperfeiçoamento. Não tinha dois gumes como a primeira, mas mais ciente do seu papel, necessitava exibir a melhor performance pelas duas. Foi assim pela vida, até encontrar um espadachim que a dominasse e a impedisse de exercer seu papel tão bem aprimorado.
A terceira chegou para compor o quadro. Afinal, a primeira tinha dois gumes e era toda trabalhada, uma peça de raro valor, talhada em manhas e artimanhas; a segunda, especial na forma com que se lançava na luta, carecia de uma terceira, não tão bem facetada como a primeira, mas que fosse mais atuante (mesmo com apenas um gume), pois os mares já estavam bravios. Passou pela vida fiel ao seu propósito e, principalmente, fiel ao que lhe pediu seu dono. Se decidia ir por caminhos mais fáceis na luta, voltava a se conduzir da forma com que o seu dono pedia, somente para lhe ser fiel. Guerreou até o fim pelo simples prazer da luta, pelo simples prazer de defender direitos e defeitos do seu dono e por muito tempo buscou, fora do seu domínio, outros campos para guerrear. Mostrar sua fidelidade ao dono era o seu mais crucial desejo.
A quarta chegou em momentos de vez em quando bravios, mas relutou em ser espada. Era plácida, quieta, alheia a tudo e não queria ser reconhecida como uma espada. Sua forma despojada, chata e larga dava trabalho ao espadachim, como a lembrá-lo a todo momento que não era hora de lutar. Mas a terceira, que reinou junto com as duas primeiras por um longo período, a forçava a exercer o seu papel, o que era mais do que compreensível. Assim, aos poucos, foi desenvolvendo sua condição de espada. Seu dono não necessitava de sua defesa, tinha as outras três, e assim ela se aquietava no seu canto, exibindo em outros momentos a revolta natural por não lutar. Assim viveu, tentando entender o porquê da luta, pois era tão penoso e trabalhoso... Se pudesse escolher ia se enfeitar e ornamentar o armário e as outras. Ensinaria seus dengos e suas peripécias no ar, nos torneios lúdicos.
Mas aí, então, chegou a quinta, logo em seguida, de súbito. Não importava se os mares estavam bravios ou não. Compreendeu que, no monte, algo corria sem propósito e com moradia bem próxima da quarta, de pronto percebeu - pois era muito perspicaz - que a quarta era uma inútil e que sem a presença dela próxima, todas deixariam de cumprir seu papel na defesa de seu dono. Tinha uma imponência própria, brilhava e chamava muito mais a atenção quando exibida. Negava-se a ter outro papel que não o de lutar, o de lutar e o de lutar. Seu dono também percebeu que era a mais observada nos torneios e a ela destinou as melhores batalhas, as lutas mais difíceis, aquelas que - ele tinha certeza - nenhuma das outras enfrentaria melhor. E, de batalha em batalha, sua altivez nunca era vencida. Assim passou a vida: guerreando, vencendo e perdendo para ganhar de novo.
A sexta veio num tempo mais adiante. Altiva e reticente, de forma diferente das demais, que a estranharam no monte, custando a reconhecê-la como parte do acervo. Veio em tempos mais que bravios, mas discordando da maneira quase parecida de todas guerrearem. Tentou mostrar laçadas diferentes, movimentos únicos e especiais, mas não encontrou seguidoras e rumou para outros territórios, sem, contudo, deixar de cumprir seu papel na defesa do seu dono. Assim viveu, cônscia do seu acerto por desse jeito se conduzir.
A sétima, ah, a sétima... Essa chegou quando seu dono precisava escolher uma em primeiro plano. Estava envelhecendo em mares turbulentos e as outras espadas já apresentavam ranhuras e amassados que dificultavam a luta. Lutavam entre elas com afinco para se fazer ideal perante o dono. Chegou a sétima e identificou o desejo do seu dono, de pronto. Não titubeou. Deu provas de sua capacidade de defesa, não só do seu dono, mas cuidou para que as outras espadas fossem poupadas das lutas mais árduas e difíceis. Não foi difícil para o monte se aperceber do seu papel. Umas lutaram em se fazer a escolhida, outras aceitaram com satisfação sua proteção, outras fingiram estar atuantes para não desagradar ao dono que, notando sua perspicácia, elegeu-a sua favorita. Afinal, nunca nenhuma das outras espadas captou a maneira com que ele queria a luta, como ela, a sétima. Assim viveu até o fim: no monte, com o monte e para o monte.
Mas seu dono, não satisfeito com o acervo, passados alguns anos, aceitou de presente uma nova espada. Tinha o objetivo de renovar o monte, era brilhante, com dois gumes afiadíssimos, pequena, mas carecia de ensinamentos especiais de todo o acervo para cumprir seu papel de espada. Veio em tempos menos bravios; com tanta espada pronta a defender seu dono, caminhou em terras outras para adquirir novos conhecimentos. Verificou que a luta deveria ser silente, sem estardalhaços, os golpes deveriam ser imperceptíveis para atingir o atacado e, mesmo sendo a última do acervo, tentou mostrar seus achados ao monte. No entanto, todas, ao longo da vida, já haviam incorporado atitudes próprias, calcadas na vivência da defesa particular do seu dono. Assim, recusaram mudar, mais uma vez.
Hoje, seu dono não mais existe e não há necessidade de lutas. Como deixar de ser quem se tornaram? Acho que, por isso, o monte luta entre si. Mas até quando?
.

Espadas - por Alba Vieira

Espadas?
Nascidas mesmo para lutar ou simplesmente representar o reino?
Até quando lutarão entre si?
Até que se dêem conta de sua verdadeira vocação e se permitam transformar em ondulantes fitas coloridas.
Decerto diferentes entre si, mas que juntas possam formar um lindo arranjo oferecido e dedicado à memória do dono das espadas.

.

O Tempo - por Leo Santos

Hoje, é só um amanhã que chegou. Amanhã,
o tribunal de apelação, para os que não
aceitam a sentença atual; ontem, testemunha
ocular, que nos viu construindo hoje.
O tempo extático, observa nossa monótona
Passagem; fazendo tudo de novo, de modo que
não há nada de novo, (inclusa a frase), no
entanto, é uma mesmice veloz. Todos correm.
Cada um segue seu “contador de histórias”
e atrás do esquisito, corre, corre…
O trágico dessa maratona é que a ceifeira
aguarda do outro lado da ponte; os mais
velozes, encontram-na primeiro…
O poeta sabe que ela esta lá, vai, pois,
sem pressa “no passo do gado” como ia Jacó,
tangendo seu rebanho de afetos, saudades…
Talvez seja uma exceção, por já ter morrido mesmo;
que razão pois, para temer a morte? Ademais, como
disse o Quintana: “A morte não é assassina”.
Por isso, é o último que chega, sem troféu
tampouco medalha, os quais, se recebesse, não
saberia o que fazer com eles.
Todavia, ninguém apreciou melhor paisagem,
e os múltiplos quadros que contemplou, são
seus lauréis…
Sua leitura eficaz do ontem, lhe dá hoje,
a profecia sobre o amanhã…

.

Quero Minhas Estatísticas! - por Ana

Estatísticas de novo,
Este é o meu desejo!
Um blog sem estatísticas
é como namoro sem beijo!

Mando e-mail todo dia
pedindo para elas voltarem.
Façam o mesmo que eu
pra eles reconsiderarem.

Conto com a ajuda de vocês
nesta honrosa cruzada,
um dia eles vão ceder (?),
pois tudo é melhor do que nada.

Queremos saber que visitam
nossa casa virtual
(quantos, quando, em que posts).
Isto é fundamental!

Os números dizem de vocês
que nos lêem e apreciam,
sem saber de seus acessos
fica um profundo vazio...

.

Eram Tempos de Flor - por Alba Vieira

Pensei em sair pela vida rumo a um futuro atraente como quem vai ao piquenique. Levaria uma enorme cesta em que caberiam, juntos, entrelaçados numa forte teia que sustentaria meus passos certos e seguros, os acontecimentos bons do passado. Seriam somente aqueles carregados de emoções positivas e imagens coloridas. E que teriam aquecido meu coração. Lembranças de gestos gentis e amorosos também estariam ali - dádivas concedidas por almas claras. Na minha cesta, eu colocaria, por exemplo:
- uma noite de chuva em que minha mãe sentou-se e delicadamente convidou minha cabeça a pousar sobre suas pernas enquanto eu estava estirada no sofá e acariciou meus cabelos - ela que era sempre tão ocupada, não se permitia parar e eu tão criança que ainda não tinha recebido um carinho tão significativo (nunca soube se para ela este fato marcou tanto quanto para mim);
- as incontáveis noites da infância em que perdia o sono e procurava meu pai para que ele ficasse acordado - mesmo que fosse de onde estava dormindo - até que eu pudesse voltar a adormecer; apenas o seu despertar calmo e sua voz doce que me dizia “Vai dormir, menina!” já eram suficientes para me tranqüilizar e trazer de volta o sono, mesmo nas noites em que eu já era adulta (e só me dei conta de sua importância depois que ele se foi);
- o momento aguardado o dia inteiro em que minha irmã mais velha, minha madrinha, me trazia um novo livro da biblioteca da fábrica em que trabalhava, grande, grosso e de capa dura azul-marinho; ela me trazia um mundo novo, porta que se abria para viagens fabulosas, inesperadas e inesquecíveis;
- tantas manhãs, tardes e noites de convivência com meus pais, minha avó e meus sete irmãos barulhentos, aos quais eu era visceralmente ligada e tão diferentes entre si que me permitiram desde cedo o contato profundo com a alma humana;
- a alegria assanhada que tantas vezes senti ao abrir a caixa do correio e olhar o envelope escrito com letra pequena e desenhada que eu levava para o banheiro para ler em paz, guardando para sempre o pedaço de papel rasgado para abrir a carta do meu amor, naquela época em que ainda só havia amizade entre nós (posso sentir ainda o misto de curiosidade, o calor no corpo e o coração acelerado);
- a tarde em que nos declaramos e sentimos pela primeira vez o entrelaçar de nossas mãos, num casamento perfeito das auras no dia em que uma amizade profunda se confirmou o amor da vida inteira.
São tantos momentos marcantes, que certamente esta cesta teria um fundo falso que me conduziria aos recônditos do inconsciente e, como jardineiro atento ao belo, eu poderia colher até o último dia as flores de minha vida, ainda que elas ocasionalmente tivessem crescido entre ervas daninhas indesejáveis e intrusas.
Pense em como seria a sua cesta, mas observe bem: idealizando-a, seja benevolente com você mesmo, atento ao que realmente lhe faz bem, use os olhos do coração ao escolher as lembranças e perdoe-se - ou à Vida - se seus tempos de flor foram escassos ou ficaram no passado, e lembre-se que é possível, ainda, criar para você um belo jardim florido.
.

Quero Minhas Estatísticas! - por Alba Vieira

Quero minhas estatísticas
e eu não faço por menos.
Se você não gosta delas,
deixa pra nós que queremos.

Estatísticas não servem pra nada?
Quem foi que te enganou?
Dão a graça e trazem vida,
mostram quem te visitou.

.

Eram Tempos de Flor... - por Ana

Eram tempos de flor. Tempos de bananeiras transparentes sob o sol a pino, com suas cores infantis e lúdicas. Tempos de eucaliptos perfumados que enlevezam as auras. Tempos de paz na alma, de céus azuis com nuvens que se movem, brancas e ameaçam, cinzas. Tempos de chuvas nos cabelos, no corpo, fazendo os sapatos reclamarem, as meias gelarem e o sorriso surgir em meio às corridas até a casa.
Eram tempos bons, de sentir a própria alma em seus gestos, quando ainda se percebe a alma sem cobrar, sem julgar, mas com curiosidade e paixão; quando a alma é virgem da própria visão e transparece como o outro dentro de si. Alma que pode infinitamente ser generosa e abissalmente, egoísta.
.

P'ra Minha Avó - por Alba Vieira

Não era fofinha nem risonha. Ela era alta, magra e raramente sorria. Exigia respeito e, em sua casa, quem gritava era só ela. Mas geralmente falava baixo e era ouvida sempre. E adorava assoviar. E balançar obsessivamente o molho de chaves que carregava quando saía. É que ela morava sozinha e gostava muito de rua. E de pessoas - seja para encontrar e conversar nas suas idas à padaria, à quitanda, ao açougue, à farmácia ou ao armarinho, geralmente para comprar coisas para minha mãe e nossa família; seja para criticar. Criticava toda gente e suas vidas erradas (do ponto de vista dela, é claro). Acho que eu a adorava exatamente por isto, porque sua crítica não era a que encontramos comumente, pois ela não era convencional e não esperava das pessoas comportamento tradicional. Pelo contrário, o que criticava eram as mulheres submissas aos maridos que se mantinham em casamentos falidos por falta de coragem de ir à luta; eram homens covardes que hostilizavam suas esposas; mulherengos que as humilhavam com suas conquistas baratas e, principalmente, a ignorância das pessoas.
Simpática? Nem um pouco. Só bem mais tarde, na velhice, às vezes se emocionava e até chorava quando, na rua, as pessoas a paravam para elogiar a vitalidade apesar da idade avançada e o perfume gostoso que sentiam nela.
Tinha um rosto duro, quase repulsivo, de quem foi rejeitada pela vida. Era compreensível, já tivera muitas perdas: teve um irmão querido assassinado aos 21 anos, enviuvou aos 26 anos, a filha mais velha suicidou-se em depressão pós-parto aos 23, deixando para ela criar uma neta com 2 anos e um neto de 2 meses. Não teve vida fácil e, apesar de sentir a ação da morte em tenra idade, foi apaixonada pela vida e recusou-se a deixar de amar. Perdido o marido militar, com duas filhas para criar, sem pensão (direito que não existia no seu tempo de jovem), amou ainda duas vezes de verdade. E isto lhe valeu, pelo rigor dos conceitos de sexualidade daqueles tempos, a rejeição da família pelo preconceito. E, de quebra, mostrou um sentimento de rancor pelos homens que lhe conferiu uma atitude de defensora das mulheres, a quem passou a alertar quanto ao perigo do casamento que deveriam evitar, a todo custo, caso fossem inteligentes. Assim despertou em mim e em minhas irmãs o gosto pela independência.
Esteve sempre próxima de nós. Ela era quem comprava os tecidos para que minha mãe costurasse nossas roupas; ela fazia as compras de casa todos os dias, já que adorava ir à rua; ela nos visitava diariamente, sempre à mesma hora, e já chegava almoçada, embora ainda não fosse meio-dia.
Era extremamente simples, sem vaidades, tinha uma beleza própria, era muito atraente e muito, muito diferente das mulheres do seu tempo. Era forte e sem frescuras. Sabia matar galinha e era quem cuidava da carne, coisa que, por sua habilidade de cirurgiã (que só não foi por acaso), eu adorava ver e em que me inspirei na profissão bem mais tarde. Só ela dava injeções na família e, na maturidade, esta habilidade lhe serviu para justificar as saídas à noite quando ia namorar, viva que era.
Só mais tarde, na sua vida, passou a ganhar a merecida pensão militar e, desde então, exerceu, de fato, sua independência natural. Gastava seu dinheiro como queria, trocava de móveis freqüentemente em sua casa, comprando-os e exigindo que fossem levados imediatamente, pois só pagaria quando os recebesse. Nos dias de pagamento sempre nos trazia um saquinho de balas boneca. Esta é uma lembrança doce que trago dela.
E por ser quem era, tão fiel a si mesma, me serviu de exemplo. E o que mais admirei nela, a vida inteira, foi ser livre, tendo nada cobrado de ninguém. Tanto que minha parte também livre sempre quis ter uma mãe como minha querida avó.
.

Conflito - por Raquel Aiuendi

Quanto mais penso, mais me distancio…
Há o que observar e condenar até.
Portanto há o que lutar e resistir
Bem como persistir.
Não sei como nem onde encontrá-lo
Mas luto por algo mais que minha incapacidade humana
Ascender em vão é atormentar a Deus.
Ascender em espírito e corpo é conflitivo.
As lutas só se esvaem quando não têm sentido real
As lutas se compensam quando desempenhadas altruisticamente
Minha capacidade humana
Não permite que seja mais, além:
Essa virtude reserva-se para as limitações
Que, na oposta, trago.
Pergunto-me se sou vã
Descubro que sim: embora não me leve
A um suicídio, me traz a morte.
Insatisfação do viver doativo, entregante.
Às, reis, rainhas...
Mãos apressadas, mentes ágeis (malabaristas)
E, tão bastante, comprometidas.
Com o quê?
Ora, porá (ou porás) tudo a perder
Tamanha ingenuidade que trazes,
Grande destato na vigente situação
É disso que corro, decorro e sobre isso discorro!
O Grande, que não Deus, me perdoe
Busco o pequeno dentro do labirinto
Cuja saída difícil existe.

.

A Crise - por Alba Vieira

Lusco-fusco na lareira
Quase fria, apagada,
Sem tostão na algibeira
Vou seguindo minha estrada.

Já fui rico, quem diria,
E palácios freqüentei.
Hoje durmo na sarjeta
Sem contar com mais ninguém.

Esta vida é assim mesmo,
Quem espera, leva um não.
Sê feliz, conta contigo,
Todo resto é ilusão.

.

Desespero - por Alba Vieira

Tudo está errado, tudo torto, tudo fora do lugar, fora de esquadro. Sinto-me submersa num mar de lama muito preta que me cobre o corpo deixando só a cabeça de fora, enquanto me esforço para mantê-la na superfície, tendo uma opressão no peito, um cansaço por evitar ficar totalmente submersa. Às vezes quase perco as forças, me entrego e deixo soterrar por esta lama negra tão mais densa e pesada que se mar fosse.
Tudo se movimenta no sentido inverso do que gostaria e preciso, tudo oprime. Cerro a mandíbula, mordo o nada, trinco os dentes, berro minha indignação num grito inaudível ao mundo. Estou triste, fechada, sem saída, presa, refém de uma realidade dura, incompreensível, cheia de incoerências, insanidades e dores desnecessárias. Convivo com a loucura, refém do objeto do meu amor e de todo o seu lastro, crias e erros.
Ainda trago vivas na memória as lembranças de um passado feliz, harmonioso, dominado pela ordem, regido por alguém equilibrado, organizado, lógico, coerente, racional. Sinto saudade de um tempo em que havia respeito por horários, sono, trabalho, estudo. Hoje, esbarro em semiloucos perdidos vagando desvairados em busca de um sentido para a própria existência infeliz.
.