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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




domingo, 21 de dezembro de 2008

Se Minha Criança Sofre… - por Ana

Os receios de criança
que persistem em nossas vidas
são lixos a jogar fora…
Vide a estrada percorrida:

seu corpo cresceu, mudou,
você amadureceu
em outros tantos aspectos
dentro do seu próprio eu;

passou por problemas diversos
com coragem os enfrentou;
sofreu com tristezas, perdas…
e com força as encarou;

cresceu profissionalmente
às custas do próprio valor;
ajudou tantas pessoas
com carinho e com amor.

Foi crescendo no tamanho
sem perceber que, a seu lado,
há uma menina pequena
que precisa de cuidado

e arrasta, pesadamente,
com as pequenas mãos feridas,
temores, medos, pavores
que lhes dificultam a vida.

Por vezes ela te domina
com seu pessimismo aprendido,
isto arrasa a alegria,
faz tudo perder o sentido.

Ela não pode influenciar,
você nela não deve crer;
pare, adulta, para ouvi-la,
para que ela possa viver

leve, como veio ao mundo,
alegre, feliz, satisfeita,
risonha e brincalhona,
uma criança perfeita.

Coloque a menina no colo,
cuide dela, beije, abrace,
console, acalente, sorria,
olhando-a face a face.

Diga que tudo passou,
“Das tristezas cuido eu,
cuido das dificuldades,
cicatrizo onde doeu”.

A ela cabe sorrir,
confiar na sua ação
assertiva nos momentos
em que lhes faltar o chão.

Diga a ela que aqui,
nesta terra de humanos,
há problemas, coisas boas,
sortes e desenganos,

mas que você constrói os dias
da melhor forma possível:
semeando alegrias,
afastando o que é terrível.

Se bobagens vêm à porta,
entrando sem permissão,
você cuidará de tudo,
pois esta é a sua função.

Que você sabe, convicta,
que cada pessoa uma vida;
as dores que são dos outros
não pertencem à sua lida.

Que você ajuda, se pode,
apóia, se for aceita,
colabora, tão amiga,
não faz corpo mole, não “deita”.

Mas que se algum mal surgir
dizendo respeito a vocês,
ela estará protegida
em seus braços, desta vez.

Desta vez e em outras tantas,
sempre que precisar,
pois adultos são pra isso:
defender e amparar.

Diga a ela que crianças
não devem se preocupar,
diga que não faz sentido
e explique, pra confirmar:

“Por que vai se preocupar
se o caso tem solução?
E por que se preocupar
Se é sem resolução?

É coisa tão sem propósito,
isto de preocupação…”
Esclareça a garotinha…
Acalme seu coração…

Depois de tranqüilizá-la
com todo afeto e calor,
faça uma coisa por ela,
definitiva, por favor:

desembarace a pequena
da tristeza do seu fardo,
jogue fora, de uma vez,
aquele lixo pesado.

Libere as suas mãozinhas,
cuide de seus ferimentos,
trate bem sua criança
e use bastante ungüento.

Depois de passado um tempo,
quando ela estiver curada,
toda boba, saltitante,
sentindo-se tão amada,

agradecendo com olhares,
te esticando os bracinhos,
pedindo colo, dengosa,
quando cansar no caminho,

te fazendo mil gracinhas,
sorrindo o tempo inteirinho,
te afogando em abraços,
te enchendo de beijinhos…

chame-a pra, com você,
novo hábito iniciar:
passar os dias da folhinha
sem temer o que virá.

Assim seguirá a vida,
mais tranqüila, finalmente,
envolta em felicidade
e segurança… plenamente.
.

Há Outras em Mim - por Alba Vieira

Inquieta figura movimenta-se em mim.
Passeia de um canto a outro sem objetivo.

Ou prescrutando a vida, silenciosa,
em passos medidos, caminha com segurança,
talvez sabendo o que encontrará adiante.

Às vezes se solta,
indo decidida, balançando os braços,
olhando em frente, rumo à meta perseguida.

Mas um dia
corre desvairada, sem limites,
rasgando a existência, com desatino e coragem.

Algumas vezes
desafia o mundo, ignorando os obstáculos,
batendo de frente com as adversidades,
anestesiada de impulso.

Mas, tantas vezes,
esta figura se arrasta, sentindo cinza o caminho,
incapaz de levantar a cabeça e perceber fora,
tragada pela escuridão de dentro.
Logo se recupera curiosa, de olhos vivos, abre-se para o novo
e se inunda de imagens que, caleidoscópicas, se sobrepõem,
impressionando uma retina ávida de experiências.

Tenho enorme simpatia por aquela que é cega do mundo
e se orienta tão-somente ao captar o invisível,
traçando o caminho enquanto segue, sem rumo, sem destino,
desfrutando cada passo, vivendo intensamente.

(Ou será que minha avó tinha razão: “Esta menina é esquizofrênica.”?).
.

Abandono - por Alba Vieira

Sou uma pétala
esvoaçando
ao sabor do vento,
solta,
embora levada
por algo maior…

Nesta liberdade de ser,
seguindo a própria natureza,
estou em paz.

.

Preciosidade - por Alba Vieira

Jóia, pedra lapidada,
às vezes pendo de um fio,
balançando levada
pelo movimento
de um pescoço voluntarioso;
outras vezes,
enfeitando a aliança de amor,
componho uma prisão simbólica
que pode até ser
um jardim florido sem muros.

Mas sou a expressão máxima de preciosidade
quando, como camafeu,
repouso na caixinha antiga,
talvez com bailarina e música,
atapetada por nebuloso algodão cor-de-rosa,
como saudade envolvendo
todo o significado
de um presente do passado.

.

Alter Nativa - por Raquel Aiuendi

O burguês
é um louco
numa sociedade
alternativa e
anarquista.

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sábado, 20 de dezembro de 2008

Recomeçar - por Jair Antônio Pauletto

Recomeçar é começar de novo. Não é nada mais do que o óbvio, no entanto é uma palavra ligada tanto ao medo, quanto à esperança. O medo de um novo fracasso, no qual estaremos novamente expostos ao erro e outros fatores, que por alguma razão, anteriormente, não alcançamos os resultados desejados. A esperança, por sua vez, está ligada à expectativa de iniciar uma nova caminhada em busca do que se deseja, com a certeza de que estamos mais experientes e conhecedores de certos obstáculos que impediram o sucesso anterior. Recomeçar com esperança é fundamental para obtermos sucesso em qualquer objetivo, pois é o combustível que nos faz andar atropelando o medo e a insegurança, que eventualmente pode surgir no caminho. É preciso coragem para recomeçar, seja reconstruindo algo que não deu certo, ou mesmo para lançar-se a um novo desafio.
A ambigüidade, entre o medo e a esperança que acompanham a palavra recomeçar, no cotidiano popular devem ser esquecidos e substituídos pela palavra chance. A chance de fazer melhor, de fazer diferente, de ser mais feliz. Recomeçar é: dar uma nova chance à vida; é acreditar que as oportunidades se renovam; que cada dia é um novo tempo nunca antes vivido por ninguém. Começar de novo é: permitir-se acessar outras formas de aprendizado; consertar erros; evoluir; é a chance de acessar novas páginas branquinhas e prontas para receber os registros de nossos aprendizados e conquistas daqui pra frente.
A vida nos proporciona uma infinidade de momentos favoráveis, para que possamos exercitar nossas potencialidades e evoluirmos como seres humanos, sejam elas no individual ou na coletividade. Entretanto, desperdiçar estas oportunidades, paralisados pelo medo é muito mais que falta de confiança, é não acreditar que podemos ser felizes, é não acreditar em Deus. É claro que devemos ser prudentes, e avaliar com atenção todas as possibilidades, mas permanecer paralisado com medo de recomeçar, é prejudicar o próprio crescimento. Quando se está diante deste medo é preciso ter serenidade para pensar, avaliar à situação isentos de preocupações, cheios de confiança e com a certeza de que o amanhã reúne todas as condições para desfrutarmos da felicidade.
Quando um ciclo chega ao fim, é sinal que se concluiu um aprendizado, embora que em muitos casos relutemos para aceitar o encerramento de um ciclo, de um relacionamento ou uma fase qualquer que só correu porque a lição que tínhamos de aprender foi assimilada. É uma verdade difícil de aceitar, mas basta um pouco de atenção para perceberemos quantas destas situações já vivenciamos. O recomeçar é o fim de um destes ciclos de aprendizado, ou seja, significa que já estamos aptos a novas lições e experiências. Permanecer no ciclo anterior é o mesmo que querer repetir de ano, no colégio, por várias vezes. Se um ciclo parece ter terminado, não resista, encerre-o e permita-se recomeçar. Jogue fora o que te prende ao passado, guarde somente a lição e estabeleça novos objetivos. Iniciar uma nova etapa é acreditar em si novamente, é permitir que a luz penetre no seu interior iluminando a esperança, aquecendo o coração. É como a primavera que vem e faz brotar o verde, o colorido das flores, dando continuidade à vida que parecia estar morrendo pelo frio do inverno.
Quem tem força e coragem para recomeçar vive mais e melhor, joga a tristeza fora e espalha alegria. Quantos jovens de mais de oitenta anos recomeçam todos os dias novos desafios, cheios de vitalidade, e quantos velhos de quarenta anos choram as perdas por terem se fixado no passado, tristes e cheios de medo com o amanhã. O que os diferencia é a atitude que os impulsiona para a felicidade, uma vez que a energia gasta com as lamentações e o medo de recomeçar é muito maior do que aquela que precisamos para iniciar uma nova etapa. Ao estabelecermos novos objetivos desencadeamos uma onda de energia mais leve, proporcionando as realizações, capazes de alimentar novos sonhos e conseqüentemente nos elevará a um novo patamar.
Às vezes não conseguimos fazer essa transição com tanta facilidade quanto gostaríamos, mas permanecer na indecisão é prolongar desnecessariamente uma dor que muitas vezes nos faz chorar. Se for preciso chorar, chore, pois chorar é lavar a alma, e então, com a alma limpa recomece sem medo, confiante que sempre é possível melhorar. Dar-se uma nova chance é permitir que os desejos divinos se manifestem e principalmente se concretizem através de nossas atitudes.
Espero que o seu recomeçar seja uma oportunidade em sua vida, uma renovação para novos aprendizados, crescimento e realização pessoal, mas sobretudo, que espalhe amor e esperança ao seu redor. Recomeçar é muito mais do que foi dito neste texto, pois tem um significado particular em cada um de nós, mas não permita que o negativismo se instale pela ação do medo. Independente do ponto de parada, até mesmo se tudo parece perdido, sempre temos a oportunidade de fazer de novo, e o que é melhor, com grandes chances de nos sairmos vitoriosos. Portanto, sempre que tiveres a chance de recomeçar, perceba que é uma nova oportunidade para ser mais feliz.



Qual é a Sua Esperança? - por Ana

Dizem sempre por aí:
quem espera sempre alcança.
Justifica a inação
e é o princípio da esperança.

Neste mundo de ai, meu Deus,
esperar não é custoso:
agrada muito ao tranqüilo
e também ao preguiçoso.

Mas, ao agir desta maneira,
só sobra o que a vida trança
àquele que passa a vida
convivendo com a esperança.

Esperança de que melhore,
esperança de que mude,
esperança de que resolva…
Esperança que ilude.

Porque enquanto eu espero
com base no que pode ser
deixo de agir prontamente
e fazer acontecer.

Mas… se o meu esperar
tem por base a constatação
de que o destino define
a melhor ocasião

então esperar faz sentido,
não ajo feito criança
que, por ser pequena ainda,
nem tenta e nem alcança.

Qual é o seu esperar?
Qual é a sua esperança?
É a que deixa passar
ou a que na vida lança

sementes do que é possível
esperando pela bonança
que permita virem os frutos
suculentos da esperança?

.

Atitude - por Alba Vieira

Estou feliz porque vivo. Vivo e a vida se renova. E transforma o que hoje é desespero em tranqüila passividade. Todos os dias a chegada da noite e depois do alvorecer me fazem acreditar que assim também será em minha vida: a esperança sempre presente. Apesar disto, tantas vezes me aflijo em dúvidas sem razão de ser. Dúvidas que nada mais são que falta de fé, de crença numa energia superior que dirige meus passos, que prepara os cenários, que fornece os papéis e provê de talento o ator certo para aquele papel. Se penso assim, se me recordo de que certamente só viverei aquilo que tiver estrutura para enfrentar, me tranqüilizo e calmamente aceito o meu texto do momento, ansiosa por nova cena que, como a aurora, tranqüiliza e enche meu coração de alegria.
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Os Livros - por Alba Vieira

A idéia desta história me ocorreu ao saber da existência de uma biblioteca comunitária que, por ora, se localiza em uma casa no subúrbio da Penha, onde um ex-analfabeto aos 18 anos, hoje já um senhor, aguarda a boa vontade de empresários que se habilitem a fornecer os recursos necessários para a construção da sede onde funcionará a biblioteca dos seus sonhos.
Durante o documentário sobre o assunto, uma jovem lembrou a citação do dito senhor, de que livros são feitos para circular (aliás, como já foi falado sobre o dinheiro, a moeda, que, por isto mesmo, era circular) e que não se importava se, ao serem emprestados, os livros não fossem devolvidos, visto que não havia qualquer burocracia para tomá-los emprestados.
Fiz a imagem do livro como um garotinho travesso circulando por aí, ou como uma jovem curiosa e namoradeira correndo mundo atrás de novos contatos. Daí em diante os livros não mais seriam para mim, ao nível da materialidade, a conjunção de papéis, tintas, cola e outros artefatos. Seriam sim, entidades dotadas de vida, de sentimentos, de capacidade de expressar, atuar e interagir.
Assim imaginei a biblioteca dos sonhos deste abençoado leitor doador de livros que seria apinhada desta “gente rica de idéias”.
Haveria áreas em que seriam alegres crianças barulhentas, hiperativas talvez, pulando, correndo, sendo espontâneas e despertando, nos seus possíveis leitores (companheiros de brincadeiras), a revivência da infância.
Outras áreas seriam compostas de gente responsável, ocupadas, sedentas do saber, de óculos, com páginas menos ilustradas, de letra pequena, com assuntos sérios. Este pessoal constituiria o círculo de amizade de muitos homens de negócios, estudantes de áreas tecnológicas ou mesmo eruditos mais taciturnos.
Alas mais abertas com prateleiras leves, seriam ocupadas por pessoas mais livres, de capas-brochura, com suas histórias de aventura, de busca de tesouros, conflitos com piratas e lutas com dragões imaginários. Este povo da terra dos sonhos traria para seus amigos o encantamento.
E me ocorre agora que livros, sendo, portanto, gente, providos de vida, carecem de laços com quem os tome.
Os livros nos mostram as verdades, as dúvidas, conversam conosco, explicam tudo. Livros desatam a chorar, nos molham e fertilizam com a carga de emoções dos sentimentos que mobilizam. Livros precisam de carinho, de espaço e de luz. Necessitam passear conosco e devem ser bem tratados. Não podem ficar confinados em estantes para cumprir apenas a função de compor o ambiente que ostenta pretensa sabedoria. Livros querem ser trocados, conhecer outros donos temporários. Livros se enternecem com aqueles que viram suas páginas com emoção e com aquele aperto no peito dos sedentos de conhecer os que eles lhes trazem.
Às vezes os livros são insondáveis, mesmo para os que se debruçam sobre eles tentando decifrá-los. Talvez, para estes, ainda não tenha chegado o tempo de desfrutá-los completamente.
Muitas vezes são inusitados, contribuindo com o novo, inspirando um mundo de possibilidades para seus leitores.
Algumas vezes estes diabinhos nos fazem sofrer quando nos envolvemos com eles a tal ponto que passamos a viver a sua história.
Livros são instigantes, abrindo, em nossa vida, portas que pareciam nem existir e há, como em todos os mundos, “pessoas” não tão apropriadas, mas que, ainda assim, merecem ser conhecidas, por propiciarem experimentar a polaridade da vida.
Entretanto, o que me fascinou, sobremodo, nesta nova visão que tive dos livros, foi imaginá-los como gnomos. Pensar que nesta nova forma eles não são vistos por todos, apenas por aqueles que sabem de sua existência e têm sensibilidade para percebê-los. Eles fazem parte do mundo invisível, são subjacentes à realidade, enquanto fazem parte dela.
É isso: não só com os livros, como com qualquer outra coisa, perceber o que está por trás da realidade material é fascinante e enriquecedor.
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Mudanças - por Alba Vieira

Sou apenas uma folha ao vento. Folha de outono que tem época certa para cair.
Quando escrevi isto estava solta, me preparando para a mudança que viria. Tinha um pouco de medo, o que é natural para os que buscam sempre a segurança. No entanto, sabia que meu amadurecimento já tinha ocorrido, que era chegada a hora de cair do pé.
Era preciso morrer, desconstruir, varrer tudo o que já existia e não mais me satisfazia, deixar o campo livre para a nova semeadura.
Hoje, quando já passou o tempo, os ventos já tiraram as folhas das árvores, o espaço já está novamente preenchido pelo novo, não há mais vento e somente uma brisa amena toca meu rosto, vejo que nem tão difícil assim foi. Houve lamentações, resistência, teimosia. Sinto que tantas vezes finquei o pé e pensei em não sair de onde estava a qualquer custo. Mas o cansaço natural pela própria mudança que se instalava quebrou a última resistência e, finalmente, eu me entreguei ao novo. Deixei que a vida tecesse a nova teia onde hoje me abrigo. Teia que me envolve, toca de leve e me enreda outra vez, até que chegue o momento de novamente varrer os fios cuidadosamente traçados, antever o caos e sofrer pela desconstrução, mas poder experienciar, então, a alegria de traçar um novo caminho. E, surpresa com a edificação nova, há necessidade de reunir as habilidades, concentrar-me no processo e ser feliz de poder renascer, fênix liberta.
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Corpo, Espírito e Retorno - por Ana

O invólucro mortal é primitivo, pesado, sujeito a leis físicas e químicas altamente desagradáveis, e limitadíssimo em comparação às possibilidades que são atribuídas à alma.
No entanto, pode ser bonito, permite que apreciemos aromas deliciosos, percebamos sons adoráveis e tenhamos sensações extremamente agradáveis através do tato e do olhar.
São realidades diferentes, com suas características positivas e negativas bastante distintas que fazem com que, encarnados e com a consciência das vivências espirituais, tenhamos saudade do antes e, depois, sintamos falta de sensações corporais terrenas.
Acredito que o aspecto mais importante da crença na alma, além do consolo da imortalidade, seja o de que nos encontramos no meio de alguma coisa muito maior e que somos nós mesmos: assumimos um caráter tão sobrenatural perante nós que chegamos a nos desconhecer antes e depois.
Em termos de reencarnação, torno-me estranho a mim!…
Alguém que não era eu mas que eu fui fez com que eu fosse o que sou hoje e o que eu for hoje fará com que eu seja alguém que não sei quem será, mas serei eu também com novas im- e possibilidades.
Dessa forma, meu caminho torna-se mágico, eu sou humanamente imortal e meu crédito é várias vezes renovado (com cláusulas punitivas, obviamente, pois quem merece o Éden não anda por aqui, à exceção dos voluntários).


Resposta à Reencarnação, de Leo Santos.
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Aparição - por Alba Vieira

Já anoitecia quando algo me tirou de casa. Fui puxada por uma força diferente que me fez caminhar em direção à bicicleta e sair a passear pelos arredores de minha casa. Nunca fazia isso, por achar perigoso andar por lugares ermos àquelas horas. Uma vontade irresistível, quase um desejo que eletrizava meu corpo, me impulsionou a andar no meio da noite, descobrindo caminhos, guiada pelos olhos da intuição, sentido despertado pela noite, com vontade de ver não sei o quê.
Eu ia num esforço de enxergar no escuro, mas com a direção já traçada por aquele impulso louco que me conduzia. Pedalava, pedalava, dava pulos saltando obstáculos na estrada vazia. Varava a noite, suada, com o coração aflito, as pernas firmes, na certeza de chegar, não sabia aonde.
Sentia o vento arranhando meu rosto. Volta e meia esbarrava com insetos que se chocavam com meu corpo no seu vôo errante. Quase atropelei um pequeno lagarto que perseguia uma presa, ele que já estava habituado à escuridão.
As árvores se mexiam e eu não podia deixar de notar aqueles vultos que me assombravam. O suor me escorria pelo rosto, um suor frio que refrescava o calor da tensão.
De súbito estanquei, como que fosse brecada por uma força estranha. Eu não compreendia muito bem, mas de repente quis interromper a caminhada e, sentada na bicicleta, voltei a cabeça pata trás. Fiquei paralisada. Os meus olhos caíram direto nela, nos seus olhos verdes claros. Foi um susto e um prazer. Misto de surpresa e alegria. Ela era pequena, muito menor do que eu poderia imaginar e isto lhe conferia ainda mais candura. Era clara. Quieta me observava. Ela me seduziu. Aquele momento foi indescritível. Voltei-me para ela bem devagar. Eu que sempre tive adoração por elas, que guardo junto aos meus livros vários exemplares de todos os tamanhos, cores e materiais. Elas que para mim representam o mistério, o oculto, a noite. Elas que simbolizam o magnetismo, a profundidade e o poder das sombras. Vibrei. Meu corpo parecia ser percorrido por uma corrente de prazer. Fitei seu rosto pequeno, fixei meus olhos no seu olhar, me sentia atraída por aqueles olhos que queriam me prender, mas olhei mais profundamente, me transmutei e tentei dominá-la pelo olhar, seus olhos ficaram presos nos meus e, na tentativa inútil de me hipnotizar, ela cedeu. Não agüentou sustentar meu olhar e soltou um grito forte, sumindo para longe, desprendida do meu poder. Ela fugiu, não quis ficar, teve medo de uma profundidade talvez semelhante à dela. Não quis se perder num poço fundo de águas escuras, talvez mais escuras que as delas. Foi boba. Não sabia que era paixão, que foi por pura paixão que mergulhei naqueles olhos verdes, sedenta de beber naquelas águas, de sondar seus mistérios e me perder neles.
Quem sabe se ela permitisse ficar por mais um tempo estaria fecundada, mansa, e o som emitido seria então um grito de prazer?
Voltei para casa pedalando devagar no meio da noite, com a lembrança da figura de cor bege, com traços mais escuros nas asas, pousada sobre o mourão de uma cerca… a primeira coruja que vi na vida.
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Cássia - por Alba Vieira

Brilho que invoca a alma,
Calma que faz transbordar de alegria,
Sopro de vida em minha existência,
Emoção tanto tempo contida,
Desabrochando com sua chegada.
Amada menina, tão esperada,
Tão querida e tão linda,
Pinturinha traçada pelo Artista Maior.
Cássia criança,
Esperança de nova vida,
Fogo que queima e purifica
O coração lavado em lágrimas
Pela emoção de tê-la perto agora.
Linda flor acácia viçosa,
Mãos de princesa,
Olhos castanhos poderosos,
Boquinha vermelha e carnuda,
Miúda e já plena de grandeza.
Realeza absoluta
Entre nós, seus súditos, carregados de paixão.

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Redescoberta - por Raquel Aiuendi

“E ‘o tempo não pára’, portanto como voltar?”
Houve o tempo que no dicionário da vida achei a palavra ESPERANÇA e, simbolicamente, cheguei a experimentar tal sentimento; mas ter que criar e recriar símbolos, arquétipos, estereótipos, para brincar de ser feliz, parece-me bastante anormal quando exercitado a vida toda, principalmente na maturidade, tal catarse.

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Amante - por Ana

Mergulhar no mar de sua boca;
minha vida,
enfim,
abandonada entre as ondas
que me afastam do mundo terreno de dor
e me embalam para dentro de seu universo
cujo portal se fecha após minha entrega,
última vontade do corpo,
primeiro desejo da alma,
que se concretizam
após vidas que passei em branco
antes de,
finalmente,
me afogar em você
para sempre.

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Consciência - por Alba Vieira

Vejo o céu claro de um azul apaziguador, com chumaços de nuvem algodão branco ao longe e corre um vento forte que balança os toldos nos prédios vizinhos ao mesmo tempo em que acaricia a pele do meu rosto espectador. Não há ruídos com personalidade lá fora. São apenas sons de pássaros que sobrevoam as árvores ou latidos de cães preguiçosos na hora do almoço, gritos de crianças nos apartamentos ou correndo nas ruas próximas. São barulhos de vida fora de mim que me acalmam, não me trazem nenhuma história conhecida, nem expressam os conflitos que me dizem respeito. É como se minh’alma planasse sobre a densidade das emanações das vidas de todas as pessoas que moram ou passam por perto de onde vivo. Da janela observo o mundo. Não com um olhar curioso como fiz tantas vezes, mas com todos os sentidos e além deles, tentando apreender as vibrações de vida em torno.
O céu distante me traz a consciência da vida além da materialidade. Tenho saudade de pessoas que já se foram e me eram caras e saudade antecipada das que ainda irão e, no mesmo momento em que aperta o peito a dor da perda, me sinto expandir para uma nova realidade, em que nada nos pode limitar, em que podemos chegar aonde o que somos permitir. Esta liberdade que a consciência da morte me traz perpassa todo meu ser, me revigora, me dá esperança, aquece meu coração humano. É vida, é plenitude, é equilíbrio e serenidade.
Hoje, meu olhar antes curioso pelo externo, mesmo que representasse aspectos do meu ser, se volta agora para dentro, onde encontra o silêncio e busca equilíbrio e paz. É nesta fonte que procuro as respostas para entender o que o olhar para fora encontra de perplexo.
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Simbiose - por Alba Vieira

Eu hoje estou tão frágil que o choro vem a qualquer descuido meu...
Acabei de reparar no sorriso de minha mãe. Por que será que o sorriso dela é capaz de encher de alegria o ambiente? Pode iluminar, incendeia o meu olhar e dispara a flecha do entusiasmo. Acho que meu interior é o espelho do que vejo no olhar de minha mãe. Sim, porque qualquer oscilação que eu perceba nela me atinge em cheio, modificando para melhor ou pior.
Que coisa estranha ser vinculada assim a outra pessoa! E é tão profundo, tão vital, tão louco... diferente até da mais profunda ligação amorosa, já que não depende do meu desejo. É como reação em cascata dos processos orgânicos: não se tem controle.
Como é bom, como me enche de vida o sorriso de minha mãe! Que alívio me dá olhar o brilho nos olhos dela, sentir o seu entusiasmo que me conecta com a melhor parte de mim!
Que coisa tão estranha... por ser tão forte, tão arrasadora e, por isso mesmo, tão frágil. Como é difícil ser tão vulnerável, ter meu ser dependente do ser de outra pessoa.
Mas que lindo! Que refrescante! Que alegria o sorriso de minha mãe!
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Consciência - por Raquel Aiuendi

A consciência traz ao humano, neste infinito mundinho, o poder de transformações e o privilégio sofrido de se sentir responsável por tudo quanto sucede a um ato seu. Lutar contra a consciência é um esforço vão, pois ela está para o humano como a morte está para todos os seres vivos no plano mater.
“Quando o enfoque altera a relação” é necessário que tentemos outros enfoques sobre um mesmo assunto se a proposta é de harmonia e não de ‘caos’.
O desenvolvimento da inteligência dificilmente se dá de forma isolada, talvez nunca. Todo ser pensante desenvolve, no mínimo, através de observações e o desdobramento dessas observações é a resposta interativa. Logo, a inteligência só poderá ser desenvolvida conjuntamente e não de forma individual.

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O Presente de Natal - por Adir Vieira

Recebi, hoje, meu primeiro presente de Natal desse ano.
Veio sem que eu esperasse, pois ainda faltam alguns dias para a troca de presentes.
Veio das mãos de pessoa que me preza, pois não temos relações de amizade que justifique tal ato.Mas não foi isso que me chamou a atenção no gesto. O que me impressionou foi o presente em si.
Para que vocês possam entender do que estou falando, é primordial que eu fale de mim. Sou uma senhorinha simpática com seis décadas bem vividas e bastante conservadora no meu agir.
O presente foi-me dado com todas as recomendações e com a absoluta certeza de que iria me agradar mais do que qualquer outro. Tratava-se de uma apresentação de um grupo de forró do Nordeste, em DVD, com músicas num ritmo alucinante, numa batida única e descompassada, fazendo rodopios com as poucas peças de roupas que lhes cobriam os corpos e exibindo gestos acentuados para provocar a sensualidade dos demais.
Sei que nunca compraria tal produto para ter em casa. Não pelo que assisti, mas por não me agradar tal apelo musical com versos mal construídos e rimas forçadas.
Pensei a respeito sobre o que levou meu admirador a ter tanta certeza de que o presente me agradaria.
Repassei na mente o que vi – vibração positiva, alegria, felicidade, despojamento e beleza nos corpos jovens e sarados.
Tive de repente um insight e fiquei superfeliz.
Não com o presente, repito, mas com o que viram em mim para crer que eu ia gostar.
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Natal... - por Adir Vieira

Faltam apenas poucos dias para o Natal e, desde o início do mês, como no passado, essa ansiedade, essa interrogação de não sei o que no ar, me causa um tremendo dissabor.
Afinal, no dia de Natal, toda a família deverá estar bem saudável, em paz, pronta para encerrar um ciclo e iniciar outro.
As esperanças deverão estar vívidas e plenas, presentes em todos, sem exceção, para que nenhuma energia em desacordo quebre a paz para se viver o Natal com todo o esplendor.
É uma sensação inconsciente e má, que me deixa em constante expectativa, como que cuidando, a cada minuto, para que nada de ruim aconteça até lá.
O calendário do mês, pendurado num canto da cozinha, mostra um aspecto amassado de tanto manuseio nervoso na eliminação de cada dia transcorrido em paz.
Com tanta coisa a fazer, com tanta programação para os preparativos, com tanta energia a despender na compra de presentes mínimos e de mínimos presentes, com e-mails, mensagens e cartões a enviar para os mais distantes, e minha cabeça parece estar sempre alerta ao que possa acontecer que não seja bom.
Há um desacordo constante e gigante entre preparar o bom e temer o ruim.
Esse “medo” me faz pensar que, quando criança, vivi essa mesma sensação, mas tinha motivos reais para tal.
A ansiedade era centrada no medo de não ganhar o presente pedido ao Papai Noel…
A ansiedade era centrada no medo de não ser aprovada na escola e, assim, não receber os aplausos da família…
A ansiedade era, enfim, gerada pelo medo de não concretizar desejos reais, palpáveis.
Hoje, os desejos são outros, desejos não palpáveis que não dependem de nós, desejos baseados em fatos que o destino traça e determina, sem nos consultar…
Lamentavelmente, chego à conclusão de que meu medo, nessa época do ano, vai persistir, para todo o sempre.
Que pena!
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