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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
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sexta-feira, 31 de julho de 2009

O Menino e os Causos - por Clarice A.

Nas férias, a família, o pai, a mãe, os cinco filhos e uns amiguinhos das crianças iam para as chácaras que o pai comprara.
A primeira era longe, viagem de ônibus, trem e lotação, mais uns vinte minutos de caminhada até a casa, muito simples de telhas aparentes e chão de cimento. Água era de poço e energia elétrica ainda não tinha chegado por aquelas bandas.
A diversão era garantida e as crianças das casas próximas - e o próximo nem era tão próximo assim - vinham brincar com eles.
O dia passava rápido e à noite era a vez dos adultos aparecerem para uma prosa. O pai acendia uma fogueira na frente da casa e todos se sentavam em volta. As cadeiras eram para os adultos, as crianças sentavam-se nos degraus da varanda ou no chão (nas cadeiras só se sobrasse lugar). Conversa vai, conversa vem e o assunto invariavelmente enveredava pelos caminhos do assombro. Mulas sem cabeça, sacis, assovios e psius misteriosos no meio da noite, e ele, o mais assustador, com seus uivos horripilantes, pelos e dentes enormes, o lobisomem. Sim, alguns já o tinham visto, com esses olhos que a terra há de comer. Nas noites de lua cheia, ele andava à solta assustando e fazendo vítimas.
As crianças sentiam medo, juntavam-se umas às outras à procura de segurança - o medo compartilhado diminui um pouco. O menino, quarto filho do casal, era o mais medroso e os outros se aproveitavam disso para colocar mais medo nele. Quando as conversas iam por esse caminho ele protestava dizendo que não era hora de conversar essas coisas, mas ninguém lhe dava bola. Na verdade, essas coisas só se conversavam nessas horas. Que graça tem contá-las se não assustarão ninguém?
O menino era falante, inteligente, memória excelente e curioso. Alimentava muito bem seus medos, pois apesar de medroso não deixava de ler gibis de histórias de terror, zumbis, Frankstein e o temível Conde Drácula. Para dormir colocava o terço e o catecismo embaixo do travesseiro e rezava até o sono chegar, o que acontecia rapidamente.
Na roça, como eles chamavam a chácara, havia muitos morcegos e os irmãos sempre levantavam a dúvida de que algum deles fosse o Conde Drácula.
Quando iam deitar-se a mãe apagava as velas e os lampiões e o quarto ficava um breu. Durante um tempo os irmãos o assustavam, certamente para esquecer os próprios medos, mas cansados do dia de brincadeiras e muito próximos uns dos outros, alguns dividindo a mesma cama, adormeciam logo.

A segunda chácara era bem maior e, como a anterior, a água era de poço e também não havia luz elétrica. A casa simples bem no estilo da outra, um pouquinho melhor.
À noite, a fogueira, os vizinhos e os “causos”. A vizinha mais próxima era uma senhora de idade que vivia sozinha num casebre de estuque no sítio ao lado. Suas histórias tinham como protagonistas as cobras. A urutu cruzeiro - que, segundo ela, se chamava assim porque tinha desenhada uma cruz no alto da cabeça - era a preferida, embora também falasse nas jararacas. Uma vez entrou uma urutu das grandes em sua casa e foi para baixo da cama. O cachorro que a expulsou e perseguiu pelo mato nunca mais voltou.
O menino, quanto mais rezava, mais assombração lhe aparecia. Já não bastavam as noites de lua cheia e suas criaturas? Agora as cobras, que existiam de verdade - certeza absoluta - podiam aparecer até com o dia claro e ele se borrando de medo de dar de cara com uma urutu cruzeiro pelas trilhas que andava. Drácula não é conhecido por aqui mas, em compensação, cobras, escorpiões e os já conhecidos saci, mula sem cabeça e ele, o lobisomem que também era visto na lua cheia, a frase conhecida reforçando a visão: vi sim, com esses olhos que a terra há de comer.
O menino calçava a bota do pai para não ser surpreendido por um desses seres rastejantes e tentava em vão mudar de assunto com sua ladainha: não é hora de conversar essas coisas. Não dava para entrar porque ficaria sozinho lá dentro e na verdade queria estar ali, ouvir as histórias, nutrir seu medo.

O tempo passou, o menino cresceu, casou, tem filhas e o medo de assombrações ficou no passado. Espremido na classe média, as filhas cursando a faculdade, aposentado e trabalhando de segunda a segunda, o que agora é incrível, fantástico, extraordinário é viver com a grana curta, a violência, o desgoverno e as balas perdidas.
Saudades do lobisomem e do Conde Drácula.
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5 comentários:

Dan disse...

É muito pior cque Drácula e a realidade do dia a dia deste brasil varonil...

Muito Bom

Ana disse...

É isso aí, Dan! Sou mais o Drácula, a mula, o saci, o curupira e todas as cobras venenosas...

Ana disse...

Clarice:
Muito bom! Como sempre!
Adorei!
Beijos!

Alba disse...

Clarice,
Amei as duas histórias. Essa me fez lembrar dos causos que o meu pai adorava contar pra gente(os filhos), à noite de preferência e que davam o maior medão e o descarado ria muito falando sobre coisas sobrenaturais que aconteciam na fazenda em Minas onde ele nasceu e foi criado. Voltei no tempo. Beijo.

Rita disse...

Cla, muito bom!
Não sei pq, mais me parece muito familiar.
beijo
Rita