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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




terça-feira, 8 de setembro de 2009

Acróstico III - por Gio

Incrível como o homem atual
Negando o seu senso ceticista
De não crer mais no imaterial
Esquece o que há em sua vista
Pondo toda a sua fé em ídolos.
Estes, que nem sempre são de barro
Não têm na sua forma algo restrito -
Desde uma ideia a um cigarro,
Ênfase aqui: o nosso é um grito.
Na ânsia de livrar-se dos problemas
Costuma jogá-los à própria sorte
Inútil, ainda escravo, diz seu lema:
Aqui eu brado “Independência ou Morte”!




........Visitem Gio
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Bruna Lombardi no “Intervalo” - Citada por Penélope Charmosa

João, nós temos visita
vamos fingir felicidade
a casa organizada
os sentimentos em ordem.
Vamos fingir harmonia
e equilíbrio emocional
vamos pôr a empregada
de avental.
Vamos sorrir serenos
falar baixo, pisar leve
(que a paz more conosco)
mesa posta, flor no vaso
cerimônia, chá servido
comentários em geral.
- João adora... eu prefiro
você também? que engraçado.
É, a vida é assim mesmo
mas não há nenhum problema
que não possa ser superado -
E depois etc. e tal
tudo em volta funcionando
com a maior perfeição
todos os gestos medidos
para dar boa impressão.
As coisas dentro dos eixos
o coração em horário.
João, nós temos visita
tira o jornal do sofá
guarda a angústia no armário.



In “No Ritmo Dessa Festa”.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Névoa - por Marília Abduani

Caminho em torno de mim mesma.
Areia movediça,
vulcão encardido,
névoa que o vento desfaz.
As minhas mãos acariciam o dia que nasce.
Imponderável feito o pranto,
eu me descubro,
e me desfaço,
refaço
e me adivinho
no riso desbotado,
nos beijos sem calor,
nos abraços sem corpos,
nas lágrimas sem olhos.
É o que sei da vida:
o fechar de portas, o diluído silêncio,
o mudar de rumos.
A vida passou pela minha ansiedade
em compasso de espera.
Só assim me vejo.
Só assim me explico:
sonho, poesia,
ilusão e berro.



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Hoje é Sete de Setembro - por Adir Vieira

Lembro que nos meus tempos de escola, hoje era um dia por demais importante.
Semanas antes as escolas, sem exceção, públicas e privadas, preparavam seus alunos com aulas de civilidade e amor à pátria.
Treinavam marchas e respeito à bandeira, enaltecendo o dia da nossa Independência.
Era com muito orgulho e expectativa que estávamos todos passeando pelas ruas, exibindo uniformes engomados e perfeitamente limpos. Os meninos de cabelos cortados e as meninas bem penteadas e de unhas feitas faziam daquele ritual num dia por demais lembrado.
É uma pena que hoje tenhamos perdido tanto. O sete de setembro é apenas mais um feriado em que as famílias se programam para um dia à praia ou ao campo.
O que será que isso significa?



Visitem Adir Vieira
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Parabéns, Meu Irmão! - por Ana

Há algum tempo atrás
Nascia um meu irmão.
Veio como caçula,
O “Nem” do coração.

Uma graça de garoto,
Tão lindo, tão sorridente!
De cabelo enroladinho,
Era um menino contente.

Mas o tempo foi passando,
Ele assumiu outras formas,
Por conta da inteligência
Que, sendo muita, se inconforma.

Pois com enorme senso crítico,
Extrema agudeza mental,
Tão claras as suas ideias...
Isso faz bem e também faz mal...

Já que nada escapa dele,
De sua visão perspicaz,
Enxerga bem as injustiças
E com elas sofre demais.

Deseja um mundo mais justo,
Sem absurdos extremos,
Sem dores desnecessárias,
Todas estas coisas do demo...

Mas, apesar disso tudo,
O sorriso permanece,
É pessoa original,
Mesmo quando escurece.

Sua voz é muito linda,
Quando fala, é um afago.
E eu te amo muito mesmo,
Meu adorado Tiago.
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anA (ao contrário, pra ninguém saber) - por Anônima

Já que a covardia tá reinando
Quero falar de você agora
Não ligue, vou só delirando
Se não quiser, só manda embora

E não leia meus versos escritos
São desenhos, arte de louco
No papel expostos, só gritos.
Lucidez, sanidade tampouco.

Mas vou falar do caracol,
A quem amo muitão de fato
Quem me ensinou a ver o sol
Quando reclusa me ato

Me mostrou que sozinha
Minha cabeça é erguida
Que ainda sou muito menina,
Não saco nada da vida

Como o cubo mágico
Que nunca vou completar
Assim é minha irmã
Difícil de se alcançar

Como as escadas em meu sonho
Uma encaixa sobre a outra
Pra chegar a ti proponho
Quem quiser, segura a boca.

Por isso amo a distância
Que sempre me é imposta
Fico então só com lembranças
E sei que de nada importa.

Porque amor não se sente
Com tato, audição, olfato...
É informação que não mente
ao seu coração; um retrato.
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Bruna Lombardi em “Farpas” - Citada por Penélope Charmosa

Da mesma pedra
somos feitos. Tu e eu.
Do mesmo talhe
o nosso corte
o mesmo sulco
na nossa carne.
Da mesma terra.
E é por isso
que nós sofremos
dos mesmos atos
das mesmas marcas,
que carregamos
o mesmo crime.
E é por isso
que em nós nos flui
o mesmo sangue
que nos escorre
a mesma água
de gosto bravo
e que trazemos
a mesma febre
a mesma sede
o mesmo germe.
E que vivemos
do mesmo instinto
e precisamos
do mesmo grito.
E é por isso
que embarcamos
na mesma viagem
tendo nas mãos
as mesmas linhas
os mesmos traços
o mesmo cheiro
teu corpo e o meu.

O mesmo arame
na nossa cerca.
O mesmo rasgo.



In “No Ritmo Dessa Festa”.
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Que Ideia Bacana! - por Renata de Aragão Lopes

Ainda que não me comprometa
a participar do duelo
- por absoluta falta de tempo -,
voltarei aqui
para conferir os tantos abandonos...

Se quiserem conhecer meu espaço,
terei enorme prazer em recebê-los:
doce de lira

Beijos.



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domingo, 6 de setembro de 2009

As Nossas Palavras XXIV - por Alba Vieira

Colmeia me lembra ursos.
Doçura almejada e roubada, é certo.
E as abelhas furiosas com seus abusos...
É bom fugir antes que cheguem perto!!!



Visitem Alba Vieira
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Domingo! - por Adir Vieira

Hoje o dia surgiu alegre, como domingo mesmo, apesar de o sol estar indeciso sobre se deve ou não aparecer.
Dormi muito, parece que minha alma adivinhou que hoje eu teria o dia inteirinho para mim.
São mais de nove horas e tenho que correr para o café da manhã.
Às doze horas ficou combinado que o filho mais novo do meu marido passaria aqui com a esposa para nos levar para um almoço fora.
Penso nele e vejo-o diante de mim. Tem trinta e quatro anos e quase dois metros de altura, mas sua aparência é de uma criança feliz. Apenas seus olhos falam. Tem uma elegância natural, mesmo vestido de bermudas e chinelos de dedo. Vê-se logo que foi uma criança criada com muito amor e muito bem criada. Acho que herdou do pai o gosto pelas boas coisas da vida e tem o poder de descobrir sempre o melhor. Mostra estar sempre antenado com as novidades e faz questão de experimentá-las no momento do seu surgimento, sempre que pode. Não fala muito, mas sabe de tudo, principalmente do que lhe interessa.
Não é mesquinho, nem um pouco. Tem pena do mundo. Reúne mesmo todas as qualidades de um bom moço. É carinhoso com todos, principalmente com as crianças e com os velhos. Nunca piegas. Bonito, por dentro e por fora.
Pois é, hoje, daqui a pouco, estaremos juntos, caminhando com ele, nessa sua alegria, quando, como criança, entra no melhor restaurante e diz:
- Pai, aqui você vai comer “aquele” peixe cru!



Visitem Adir Vieira
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Tô Ferrada! - por Ana

Hoje eu tô aqui,
Ontem não tava não.
Eu vou contar a vocês
O que ocorreu... Judiação!

Ontem eu acordei
Legal, na minha caminha,
Passei o dia calminha,
Sem uma alteraçãozinha...

Fui dormir na paz de Deus,
Enrolada na coberta.
Mas sonhos são coisas doidas...
A mente é matéria incerta...

Comecei a ter pesadelos,
No sonho berrei adoidado!
Já sei que gritei dormindo...
Olhem só o resultado:

De repente foi-se o sonho,
Caí num sono sem nada.
Acordei na solitária,
Em camisa de força e abobalhada.
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Para Belinha - por Daisy

Será que ela intuiu
a palavra que faltava?
Sei que certamente viu
quão nervoso eu estava.

Por bem mais que toda a vida,
esperar foi meu viver.
Foi de fato minha sina
e me fez sobreviver.

Esperaria bem mais,
uns cinquenta anos mais
não fosse tão curta vida.

Mas sei que ficou contente
ao me ver, sorridente,
perceber a palavra falta.
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Visitem Daisy
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Solidão a Dois - por Duanny

Um único copo vazio em cima da mesa, um único prato sujo, um único som.
Você chegou tão de repente, esbanjado charme e me fazendo falar alto, me fazendo sorrir mais uma vez. Sujamos alguns pratos e outros copos, ouvia o som da sua voz que me ensurdecia, te olhava em estado hipnótico e falava com você em silêncio.
Não demorou muito tempo até meu castelo de porcelana desmoronar, minha atenção se desviar e você me faz falar nitidamente baixo, em uma noite quente e comprometedora.
Gostaria de naquele momento ter dito tudo o que não foi pronunciado, ver além do que não é visto, te fazer me amar cegamente.
Mesmo sentindo o toque das suas mãos, mesmo ouvindo você dizer elogios sedutores, mesmo vendo você se revirar todo, eu continuava ali, parada, estática, com os olhos vidrados, como se a morte estivesse preste a me beijar, como se meu tempo com você fosse se esgotar, como se você fosse o mais belo quadro. Mas somente um quadro.
Deitei-me ao seu lado, podia sentir dali mesmo seu perfume, sua pele, suas palavras impronunciáveis, seus segredos mais obscuros, suas manias mais perversas, suas vontades incontidas. Mas eu continuava ali, louca por atenção, sedenta por carinhos, faminta por paixão, e extremamente sozinha.



Visitem Duanny
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Inspire-se - por Poty

Surge do nada...
De alguma observação...
De algo que chama atenção...
D’um estalo,
D’um olhar,
De qualquer acontecimento...
Fonte inspiradora, você mulher.
Tudo há inspiração
Solte a imaginação.
Deixe teus sentimentos falarem alto.
Dance se for possível.
Cante sem saber cantar.
Escreva sem parar
Para a inspiração não falhar...
Inspire-se, não deixe para depois!



Visitem Poty
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sábado, 5 de setembro de 2009

Eu, Hein, Gio! - por Ana

(Paródia de “Eu, Hein, Rosa!”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro)


Eu, hein, Gio!
Se manca,
Segura essa banca
Inescrupulosa!
Eu, hein, Gio!
O seu jogo é na retranca!
A área é muito perigosa?

Você parece que nem lembra mais
De tempos atrás:
A tua figura era vergonhosa!
E eu atendi,
Parodiando sem ferir,
A quem hoje me
Agride tanto assim...
Mas eu nem me abalo:
Você vai cair do cavalo
Antes de encostar em mim!

Eu, hein, Gio!
Descansa,
Porque a contradança
É mais audaciosa!
Eu, hein, Gio!
Apelar pra ignorância
É uma coisa indecorosa!

Acho que estou é gastando demais
As linhas versais...
Você não merece nem verso nem prosa!
E pra resumir,
Faço questão de conferir
Se se quebra ou não
Um vaso ruim.
Saia no pinote,
Senão vai ser de camarote
Que eu vou assistir seu fim!
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Resposta a Sozinha, de Gio.
Referência a R-Evolução, de Gio.
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As Nossas Palavras XXIII - por Alba Vieira

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A beleza pode abrir portas, somente quando a virtude entra também.



Visitem Alba Vieira
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A Viagem Durante o Sono - por Adir Vieira

Hoje acordei indolente como só.
Não sei o que me deu, talvez a quantidade de doces que eu comi na véspera tenha feito com que acordasse quase de duas em duas horas para ir ao banheiro.
Embora automaticamente voltasse a dormir, acho que o sono não foi reparador. Também, com tantas interrompidas...
Acho que essa noite minha alma não pode viajar sossegada pelos caminhos de flores que, habitualmente, está acostumada a percorrer.
Aliás, essa é uma questão polêmica quando a coloco em discussão com os amigos.
Alguns creem verdadeiramente nessa possibilidade, mas outros, quase na mesma proporção, acham que eu estou surtando quando nisso falo.
Não importa a qualidade cultural do amigo, nem tampouco se é cético ou não, mas percebo que todos abominam o fato de durante a noite nossa alma ter a condição de deixar o corpo e viajar de encontro a vidas já vividas.
Confesso que eu mesma, durante grande parte de minha vida, ficava arrepiada só de ouvir o assunto, mas hoje, com tantas experiências, não vejo outra razão para explicar a calma na manhã seguinte à noite que quase não nos deixou dormir com um problema “cabeludo”.
Como explicar nossa mudança de humor diante de uma situação complicada, logo ao acordarmos?
Como explicar aquela sensação de perfeito bem-estar, sem ter motivo aparente, se quando deitamos a cabeça latejava de tanta preocupação?
Com certeza, não foi só o fato de termos descansado...
Não sei não, mas acredito firmemente nessa viagem e sei que, lá, “alguém” nos auxilia...



Visitem Adir Vieira
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Para Uma Amiga - por Daisy

Teu coração generoso
nos abrigava.
Todas nós.
Teus conselhos pertinentes
nos dirigiam.
Todas nós.
Tuas palavras carinhosas
nos confortavam.
Todas nós.
Tua alegria autêntica
nos contagiava.
Todas nós.
Tua fortaleza constante
nos inspirava.
Todas nós.
Vais fazer muita falta, amiga,
nem imaginas quanta!
Sabemos que estarás enfeitando
tua nova morada,
tão bela flor que és!
Amaryllis.

Adeus,
Daisy




Visitem Daisy
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Cansei-me Daqui - por Leandro M. de Oliveira

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Acontece que estou cansado de inventar coisas que não tenho, de tentar doutrinar em fé que não creio. Quero a espiritualidade do corpo em carne viva, o riso fácil, o ímpeto livre, a comida desregrada. Quero acordar de noite e dormir de dia, andar entre homens apagados como quem caminha em estrelas.

Maldito seja!
Maldito seja!

Quem roubou minhas certezas? Tudo parecia bem enquanto boiava naquele caos, e agora vens a mim como um homem santo. Dê-me cá esse seu deus, vamos enterrar nossos mortos, dê-me todos os seus deuses, messias, arcanjos e demônios. Como quero aniquilá-los! Bem-vindo à época da não inocência. Eu fui aquele que subiu a montanha durante a treva, velei enquanto todos dormiam. No regresso, ofertei meu coração aos homens e aos seus ídolos, tive de vê-lo se partir em mil enquanto as bestas famintas tentavam devorá-lo, intragável, muito acre, mesmo para uma besta. Confiei nos que estavam ao meu redor, não obtive mais que correntes e desenganos. Com uma mão me ofereciam com tantas outras me esvaziavam. É hora de batizar com fogo! Deus, me faça um Deus! Mas eu não sou Deus, eu não sou homem; eu não sou ninguém. Muito embora isso, ainda posso cismar. E é o mínimo que se outorga a um ser desperto em alta noite, ter a própria consciência, ainda que isso o entregue ao abandono. Não tenho pai, mãe, irmãos ou amigos, às vezes ocorre que não tenho a mim mesmo. É essa a última catarse, deixar-se ao abandono.

Não sei!
Não sei!
Mil vezes, Não sei!

Por que violentar o silêncio em sítios de meditação? Cala-te língua traiçoeira! A noite avança e a lua não veio, cala-te depressa. Quem mo dera uma tumba sem lápide, e eu teria a graça dos animais que passam, mas a memória ambiciona em silêncio. Vocês me entretiveram aqui, agora a lama soterra minhas pernas e tronco, como voltar pra casa? Tenho as mãos livres e a cabeça atada, tenho o sol do dia e a perversão em cada célula. O galo canta, o céu se anuvia. Uma menina perde a virgindade, uma mulher perde a vida, o mundo caminha sem sentido como houvesse harmonia na desordem. E eu me sinto insólito e sinto no existir uma lida tresloucada. Onde está o taberneiro, quero em mim a mãe de todas as carraspanas, contudo ergo a taça, não há vinho. Certa vez ouvi dizer, Dionísio perecera no último inverno. Vamos homem! Avante; se ainda há tempo.



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O “Ragamofe” - por Luiz de Almeida Neto

É, meus amigos, hoje entraremos em um território pouco explorado. Suspeito eu se tratar talvez até da prática de um crime, ou coisa assim. O fato é que de todo jeito o artista, superando seus delírios momentâneos, conseguiu superar seu estado de alucinação e nos trazer uma verdadeira pérola, rica em detalhes sobre seus distúrbios, e que, portanto, faz o texto ser analisado agora.
O fato é que o compositor da música em apreço acabou por ingerir uma “mistura”, que tem bom sabor, mas que faz a pessoa “pirar”, nos termos usados por ele próprio, possivelmente alguém que colocou em sua bebida para alterar seu estado nervoso normal e fazer sabe Deus o quê com a vítima. É um crime comum, mas o que há de raro aqui é que, no momento em que estava em estado de alucinação, inclusive a pensar que era uma “baratinha”, o artista não se rendeu à substância e, ao invés disso, resolveu sentar-se e escrever um relato sobre a droga que lhe vitimara. Vejamos:

“Música: Baratinha.
Artista: Banda Requebra

Sou baratinha e a rapa chegando outra vez
Trazendo o ragamofe e a suinguera também
Mistura gostosa faz você pirar
Sacode a galera faz o povo delirar
Vai
Rebola Bola eu quero ver você dançar
Rebola Bola e vamos todos balançar
Rebola Bola e dá uma paradinha assim
Rebola Bola e vem em câmera lenta para mim
Aperte o botão para a musica andar
Jogando as mãos para frente....”

Como o próprio poeta mostra, a “mistura” faz o povo “delirar”, “pirar”, e ainda não está aí tudo. A substância psicotrópica, infelizmente desconhecida, traz consigo, além de uma “suingueira”, um objeto esquisito, nunca dantes avistado nos anais da História moderna, que o autor denomina “ragamofe”, este objeto vem, vem, e dá ao alucinado a impressão de que as pessoas estão se sacudindo, ele vai, segue, desesperado, num problema disléxico causado pela droga, instando as pessoas a bolar e rebolar, balançar, querendo que as pessoas passem a movimentos mais graciosos, porque do delírio de onde ele as avista elas estão a se sacudir, se debater, é uma visão estarrecedora.
Ele não aguenta em alguns momentos, e em uma fraqueza ele chega a pedir que as pessoas parem, ou que ao menos sigam em slow motion, vejamos, in verbis: “Rebola Bola e dá uma paradinha assim / Rebola Bola e vem em câmera lenta para mim”. O “ragamofe”, que ele infelizmente não conseguiu descrever em detalhes, judia do rapaz, e faz, inclusive, ele querer apertar algum botão imaginário, não consegue perceber a música em seu curso normal, pensa que ela está parada, e pensa que o supramencionado botão teria o condão de dar andamento ao espetáculo, em dados momentos ele quer até jogar suas mãos para a frente. Olhe, é uma tristeza, mas, o pior, é que não se esqueçam que ele acredita ser uma baratinha, e mesmo assim acha que conseguirá fazer uso de membros tipicamente humanos, pensem bem: uma barata jogando braços para frente, ou até tentando apertar um botão. Nossa! Eu não consigo visualizar a crueldade desta substância.
O “ragamofe” depois retorna com força total. E aí é uma tristeza, porque ele começa a vê-lo em todos os lugares, e fica tentando capturá-lo para extirpá-lo de sua vida. Vejamos um outro trecho:

“Olha o ragamofe é
Se liga na parada
Olha o ragamofe é
Eu quero ver a mulherada
Olha o ragamofe é
Se liga na parada
Olha o ragamofe é
Eu quero ver a mulherada”

É claro que o que ele quer ver é a “mulherada”, pois, apesar de se considerar momentaneamente no reino dos animais, ele não abandona seus instintos oficiais, só que o “ragamofe” fica aparecendo, causando distúrbios, e atraindo sua atenção. Quero que constem desta análise literária o sacrifício e a abnegação deste artista, pois, mesmo vitimado por um engodo que lhe fez ingerir tão monstruosa substância, ele consegue, apesar dos delírios, focar na composição de uma obra de arte de valor instrutivo, para que as pessoas venham a perceber seu drama, que, em última análise, qualquer um de nós poderia vir a sofrer, ser enganado e começar a ver um “ragamofe”, é uma coisa triste. Cuidado, pessoal, com as companhias. E ainda piora, vejam só.
O “ragamofe” começa a atirar coisas nele, e ele começa a sentir pancadas, é uma barata sofrendo com agressões de um objeto inimaginável, e em intervalos curtíssimos de apenas dois segundos. O que nos mostra que a droga ingerida tem também uma carga de dor física. Sintam só:

“Um dois jogou bateu
Um dois jogou bateu
Um dois jogou bateu
Um dois jogou bateu”

E assim ele seguirá, até que o efeito deste alucinógeno, que tanto mexe com o inconsciente das pessoas, venha a perder seus efeitos. Lamentável.



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