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sexta-feira, 10 de julho de 2009

Duelando Manchetes II: Eutanásia - por Ana

Minha querida Ninguém:
Vamos sentar aqui nas cadeirinhas no Litercafé para uma conversa mais longa sobre a questão da eutanásia?
Vou pedir um chá de camomila com bolo de chocolate pra nós enquanto ouvimos Gracias a la Vida, o que acha?

Bem, para falar sobre a eutanásia você nomeou o texto como “Médicos que Matam”. Devo discordar de você: neste caso específico, em que há a certeza da morte devido a um estado patológico, o que mata é a doença, não o médico.
Sobre “até onde nos cabe o direito de decidir pela vida de outro, quando o outro (...) não pode dizer suas vontades”, acho que não nos cabe, em hipótese nenhuma. Este direito cabe apenas à própria pessoa. Não é decisão do médico, dos familiares ou do Estado. Se a pessoa, antes de se encontrar nesta situação, não se posicionou, não expôs a quem de direito sua vontade, vacilou legal.
Sobre o nosso poder de escolher morrer ou não, creio que temos este poder (à margem das questões metafísicas) e que ele é só nosso.
Então você pergunta: “Temos o direito de ter eutanásia?” Eu respondo: sim, nós temos.
Você diz que “eutanásia seria um suicídio e um assassinato”. Bem... voltamos à questão da causa mortis e surge um outro ponto importante a considerar. Sobre a causa mortis, quem está matando a criatura é a doença, não o médico, então não é assassinato. A outra questão é: qual o problema do suicídio? Quando eu ouço “Deus dá o frio conforme o cobertor”, costumo dizer que, se fosse assim, não existiriam suicidas. Muitas vezes o sofrimento é tão intenso que as pessoas não aguentam, preferem não viver mais; e esta é decisão que só cabe a elas, a mais ninguém por elas. O quanto cada um suporta de sofrimento é absolutamente particular e não passível de julgamento ou imposição de crenças de outrem. Se eu estiver numa situação destas: irremediavelmente crônica, vegetando num leito (de hospital ou não), comatosa ou sofrendo desesperadamente e tendo por únicas possibilidades a morte (breve ou tardia) ou alguma descoberta fantástica da ciência (sei lá quando), pode ter certeza absoluta de que vou querer a morte breve com o mínimo de sofrimento. E vou ser muito grata à vida se ela permitir que eu encontre um profissional que respeite meu desejo. Eu jamais vou querer ser (nem por meses, que dirá anos!) um vegetal dependente, fedido, inútil, cheio de secreções nojentas, tubos, escaras e dor. Aos 12 anos, quando tomei conhecimento de um caso polêmico envolvendo a questão da eutanásia, determinei para a minha família que esta era a minha vontade, mantenho-a até hoje e manterei sempre.
Quanto ao médico, pode-se esperar que ele preserve a vida, faça-a melhor, prolongue uma sobrevida mais confortável, mas, acima de tudo, respeite o desejo de seu paciente. Acredito que a maior parte dos médicos não lide bem com a eutanásia porque foram instruídos na crença (falsa) de que tudo podem e que só devem capitular diante da morte depois de fazerem tudo para evitá-la. Na realidade, quando falamos em eutanásia, não estamos tratando, prioritariamente, de médico x morte, mas de paciente, sofrimento e morte (o médico é apenas o profissional envolvido responsavelmente (ou não, dependendo da legislação)).
Quanto às leis, penso que elas devem ser capazes de contemplar todas as vontades e crenças. Se há pessoas que privilegiam a vida, mesmo com intenso sofrimento, a legislação deve garantir que esta escolha seja cumprida; e se há pessoas que preferem abrir mão de viver nesta condição, esta escolha também deve estar protegida pelas normas legais.
Devo esclarecer, antes de me despedir, que todas as minhas observações dizem respeito à eutanásia passiva ou ortotanásia (em que são interrompidas todas as ações para o prolongamento da vida) e não à ativa (quando a morte é planejada por paciente e profissional). No que se refere ao segundo caso, a minha posição é que: sim, trata-se de assassinato e suicídio. Mas não julgo. Porque, como disse, acho que todas as pessoas têm o direito de cometer suicídio (como têm o direito de se manterem em estado terminal ou comatoso pelo tempo que desejarem) e, em relação ao médico, é uma decisão muito particular e cada caso é único. Quem sou eu para afirmar alguma coisa em relação a alguém que agiu movido pela compaixão diante do sofrimento e do desejo de seu paciente? Eu poderia ser este paciente que pediria ajuda para dar cabo da própria vida e seria ótimo se houvesse alguém que se dispusesse a fazer isso e pudesse fazê-lo sem bloqueios de ordem legal.
Mas não sinta desprazer ou vergonha de querer ou ser médica. Exatamente sua sensibilidade e sua humanidade são coisas que andam faltando nesta classe.

Acho que é tudo o que penso sobre o assunto. Só me resta dizer, ainda, que trabalhei por 15 anos na rede pública de saúde, estive internada algumas vezes por períodos de tempo consideráveis (inclusive já estive em CTI), acompanhei de perto pacientes terminais (familiares ou não). Desta forma, meu posicionamento tem por base não só o que acredito ser melhor para mim, mas a convicção de que não cabe julgamento em situações como esta, já que existe uma enorme diversidade de pontos de vista, crenças, medos e outros sentimentos envolvidos no processo de morte.

Apesar do tema de nossa conversa, espero que tenha apreciado nosso lanche.
Um beijo grande.




Resposta a Duelando Manchetes II: Eutanásia, de Ninguém Envolvente.
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Um comentário:

Alba disse...

Ana,
Seu texto está perfeito. Você faz uma análise de uma questão tão complexa, de forma organizada, lúcida, contemplando vários pontos de vista e demonstrando grande sensibilidade. Concordo com cada palavra e penso que para expressar todas essas coisas tão claramente e com tanta propriedade, só alguém que fala não apenas de teoria, mas de vivências. Parabéns! Beijos.