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Não pinte abstrato antes de saber desenhar a figura. Você só poderá quebrar a forma com sucesso se a tiver dominado. A estrutura é a base, depois poderá brincar com ela ou afastar-se dela ao mesmo tempo. Tem de conhecer seu ofício: na pintura ou na escrita.
“De repente, começou a soar uma canção: um murmúrio frio que subia e descia de tom. A voz parecia distante e infinitamente lúgubre, algumas vezes num tom alto e agudo subindo pelo ar, outras como um gemido grave vindo do solo. Naquela cadeia disforme de sons tristes e horríveis, sequências de palavras tomavam forma uma vez ou outra: tristes, duras, frias palavras, impiedosas e desprezíveis. A noite blasfemava contra a manhã que lhe fora roubada, e o frio amaldiçoava o calor pelo qual ansiava.”
. . .
E você? Que passagem de que livro você considera linda?
Ela tinha o teu fantasma
quando a conheci.
Ela ainda te carregava dentro.
Havia muito pouco dela
e quase tudo teu
e o caminho que tive que transpor
para chegar a ela
foi a distância impossível
que afasta as pessoas
de seus reflexos.
Havia gestos teus
na ponta dos dedos dela
quando a conheci.
Seu corpo, reminiscências
resíduos de amor suado
tinha teu cheiro ainda.
E febre tua.
Ela tinha o desespero calmo
dos que enlouqueceram
quando a conheci.
A carne contraída e aquela espécie
de sentimento que separa as pessoas
da realidade.
Ela trazia teu germe
lhe doendo nas entranhas
quando a vi pela primeira vez
atravessando o lado esquerdo da avenida
sem olhar em direção alguma. . .
Uma vez admitidos dois fatos: que o devir não tem fim e que não é dirigido por qualquer grande unidade na qual o indivíduo possa mergulhar totalmente como num elemento de valor supremo, resta só uma escapatória possível: condenar todo esse mundo do devir como ilusório e inventar um mundo situado no além, que seria o mundo verdadeiro. Mas, logo que o homem descobre que este mundo não é senão construído sobre as suas próprias necessidades psicológicas e que ele não é de nenhum modo obrigado a acreditar nele, vemos aparecer a última forma do niilismo, que implica a negação do mundo metafísico e que a si mesma se proíbe de crer num mundo verdadeiro. Alcançado este estado, reconhecemos que a realidade do devir é a única realidade e abstemo-nos de todos os caminhos afastados que conduziriam à crença em outros mundos e em falsos deuses - mas não suportamos este mundo que não temos já a vontade de negar.
(...) Que se passou portanto? Chegamos ao sentimento do não valor da existência quando compreendemos que ela não pode interpretar-se, no seu conjunto, nem com a ajuda do conceito de fim, nem com a do conceito de unidade, nem com a do conceito de verdade. Não chegamos a nada, não logramos coisa nenhuma dessa espécie; a unidade global não aparece na pluralidade do devir: o caráter da existência não é o de ser verdadeira, mas o de ser falsa (...) não há razão alguma para nos persuadirmos de que existe um mundo verdadeiro. (...) Em suma, as categorias de fim, de unidade, de ser, graças às quais demos um valor ao mundo, retiramo-lhas e o mundo parece ter perdido todo o valor.
O gênero de aborrecimento de que sofre a população das cidades modernas está intimamente ligado à sua separação da vida da Terra. Essa separação torna o seu viver ardente, poeirento e ansioso, tal como uma peregrinação no deserto. Nos que são suficientemente ricos para escolher o seu gênero de vida, o estigma peculiar de insuportável aborrecimento que os distingue é devido, por muito paradoxal que isso possa parecer, ao seu medo do aborrecimento. Ao fugirem do aborrecimento que é fecundo, são vítimas de outro de natureza pior. Uma vida feliz deve ser, em grande medida, uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer.
Muros erguidos, pontes, continentes, fronteiras... desconhecemos a transitoriedade da alma. Estamos expostos e ao mesmo tempo escondidos. Ou será que apenas um de nós se esconde?
Quero falar e não consigo encontrar o tempo exato, sinto que as palavras soam fragmentadas e divago assustada... a intensidade dos fatosé amedida que preencheo diafragma. Respiro profundamente, como alguém que cava um poço. Por vezes me dói um simples suspiro. Evapora a tua voz na minha pele tingida pelos raios daquele sol acima de qualquer nuvem.
Sobrevivo ao deserto que ecoa a tua presença sob o pretexto da miragem. Há um oásis longe da civilização. É no deserto que habito. Tu és o estrangeiro que invade minha morada. Os camelos estão longe daqui de qualquer modo a batalha está travada.
Ó estrangeiro, recordai da árvore que finca suas raízes no deserto. Ide com o vento, lançai os grãos para bem longe daqui. Mas se por acaso relutares, direi que tudo não passou de um delírio.
Apesar de toda clareza, vultos se amontoam. Ou a consciência me parece cega, ou nunca percebi o que está além da visão.
- Boa noite, gostaria de agendar consultas para o mês de janeiro. Me foge o nome da psicóloga... sei que o sobrenome é dos Anjos.
- Boa noite, senhora, tem em mãos o código de cliente e guia autorizada?
- Sim.
Balbuciou desanimada: só falta a estrela
- Perdão, senhora, não ouvi a ultima frase.
- Que frase?
- A senhora falou que tinha a guia e faltava algo, não compreendi exatamente, mas escutei que faltava alguma coisa. É que a senhora falou de um modo que não deu para ouvir bem.
- Perdão, como se chamas?
- Saturnino senhora
- Saturnino?
Rui sem a menor preocupação diante da formalidade do atendimento que a entediava ainda mais. Estava cansada, passou o dia cuidando dos afazeres domésticos e sobretudo do filho de 4 anos que se recuperava de uma otite.
Era aproximadamente 23h quando sentou para agendar as consultas mensais. Em seguida daria continuidade a rotina de estudos planejado com certa expectativa. Estava tensa, cansada dos incansáveis telefonemas e agendamentos médicos. Cercada por pessoas que viviam suas vidinhas sem poesia, pessoas do outro lado da linha, do outro lado da tela, do outro lado na multidão. Pessoas que iam e viam ao encontro da menina dos olhos que se perdia na solidão.Finalmente descontraiu, mais uma zombaria do destino... o nome do tal atendente tinha que remeter a um planeta? Logo ela que vivia no mundo da lua... Pelo visto a estrela era mesmo inalcançável...
- Desculpe senhor, Sat, não consigo conter o riso, mas qual é mesmo o seu sobrenome?
- Saturnino senhora.
- Ok e o primeiro nome
- Getúlio
- Getúlio? Um tanto quanto patriótico, Get. Seus pais são mais devotos da era Vargas ou da espacial? Desculpe a brincadeira tenho que descontrair tive um dia cansativo
- Não se preocupe senhora estou aqui para atendê-la, fico feliz que esteja de bom humor.
- Imagino que lidar com o publico exige muita psicologia, se surpreende que eu esteja de bom humor?
- Sim, a maioria das pessoas que entram em contato com a central de agendamentos são breves e em alguns casos estressadas .
- Sinto muito em saber que tens que lidar com tais situações, logo o senhor que é tão educado
- Não se preocupe senhora, na maioria das vezes finalizamos o dialogo com a sensação de termos feito mais um amigo
- Amigo? Consideras o nosso dialogo como sendo o inicio de uma amizade? Amizade descartável o senhor que dizer rsrs.
- Senhora Júlia, qual é mesmo o seu sobrenome?
- Serafim e não me venha com o trocadilho interrogativo, senhor Saturnino. À propósito o sobrenome da psicóloga é dos anjos, e é tudo que lembro.
- Verificarei a agenda de janeiro, Julia Serafim. Desculpe perguntar há quanto tempo a senhora é paciente? Só mais um momento, por favor. Ah, doutora Mara dos Anjos.
- Que diabos, como fui esquecer um nome assim... Mara? Ah, quer saber essa historia de nome e sobrenome me inspirou.Devo escrever algo sobre a nossa conversa e o fato de não ter mencionado o esforço que faço para ouvir sua voz distante. Deve ser por causa do sistema.
- Sistema?
- Sim, o sistema solar rsrs. Desculpe, perco o amigo, mas não perco a piada.
- Senhora Júlia?
- Pode falar, por acaso o senhor não viu um cometa? Ah me desculpe, de repente me senti tão descontraída. Ok, vou me conter.
- Tudo bem, Júlia. Nesse horário são raros os agendamentos.
- É Saturnino, só os insones resolvem trabalhar ou agendar consultas. E olhe que tenho um plano de estudos para iniciar assim que desligar. Correria essa vida...
- Sei como é, tenho dois empregos.
- Suponho que a energia que lhe sobra é por que lhe falta a mulher da sua vida.
- Mulheres...
- Homens...
- A senhora é casada, tem namorado etc?
- Hahaha que vingativo. Ok, sou divorciada e pode me chamar de irmã. Meu marido agora é a disputa por um bom emprego (agente da polícia federal).
- Nada como um dia após o outro.
- Pois é e por falar nisso teria vaga para janeiro?
- De emprego ?(em tom irreverente) brincadeira (risos). Pode ser em fevereiro?
- Ok pode agendar, quando é mesmo o carnaval? Por favor marque para depois, por favor.
- Posso agendar para o dia 8?
- Sim e é uma pena ter que desligar depois de finalmente marcarmos. Podemos manter contato? Quero te mostrar o que posteriormente escrever, afinal você me inspirou?
- Pode deixar que eu retorno.
- Ok, fico no aguardo, Batman. Beijos.
Após verificar o cadastro, uma súbitacuriosidade despertara. Tinham quase a mesma idade. Ela era de julho e ele de dezembro. Moravam em bairros distantes. Ambos eram divorciados. Perguntou a si mesmo o que levaria aquela mulher, que ria de tudo, a procurar um psicólogo. Teria sido por causa do divórcio ou será que sofriaalgum tipo de distúrbio? Será que também se consultava com psiquiatras? Diante do dilema ético e profissional, a curiosidade foi maior e tocou do outro lado...
- Olá, esta me ouvindo melhor agora?
- Saturnino, você me ligou mesmo?
- Sim e também gosto de escrever. Escrevo reflexões. A ligação está melhor? Te ligo do celular.
O diálogo se deu com naturalidade e é sabido que havia um tom muito agradável entre eles. Quando já estavam prestes a se despedirem, Júlia perguntou:
- Ei, saturnino, mudando de assunto gostas de carnaval?
- Um pouco e você?
- Das fantasias, é uma pena que haja tanta m...lícia.
- Escutei uma interferência e não pude te ouvir bem. Você falou milícia?
- Milícia é o que mais falta, quis dizer malícia mesmo.
É incrível como uma única vogal muda completamente o sentido da palavra.
Temos errado em supor que
eu sou um e tu és outro. Vale a pena escutar a inteligente advertência de um
rio que assim falou a outro:
- Não somos dois rios
nascidos de fontes diferentes, correndo em leitos diferentes, sem nada ter um
com o outro. Se achamos que não somos um só é porque uma ilha fluvial nos
separa e nos ilude. O nome desta ilha é Ignorância.
Prepara o palco para tantas
fantasias E faz o coração se fartar
com mil amores. É o que confere alegria à
alma Colorindo paisagens para
viagens inesquecíveis Mas tudo se desvanece
quando chegaaurora. Acordamos sem saber o
quanto fomos felizes.
o mar, fiel adepto do
tabagismo, o faz com largos tragos
infinitos, permitidos apenas para o
deleite solitário, fumo áspero da
observância,
de alguém que há eras
espera por doses
matinais de ventos frutíferos e
saborosos, carregados com aromas da
estação;
de alguém que
espera pássaros de alma
branca da imensidão das
águas que chegam com as primeiras
notas brancas de
luz, com penas
graciosas de
veludo arbóreo, sutil e duro
seres distintos,
raros como as árvores de plumagem
aérea, estabelecidas entre as
nuvens, porto e cais dessas linhagens
ancestrais, estalagem de brisa e
migração, no qual se falam línguas
sussurradas, próprias a esses lugares
mágicos e seus seres cultos de
simplicidade;
é a esperada boa nova
esquecida espera por palavras
soltas, livres, de alma limpa e
branca, dançarinas sob chuva
divina de prata, néctar e
seiva
velho na varanda do
mundo de esperança calma e
crente, apego
voluntário ao vício do fogo
antigo, às damas de
branco e casamentos em
jardins
apenas a
vigília de uma alma
velha, desgastada na
umidade, mais um vício
louco, um apego
tosco,
devaneio
nostálgico de uma vida
passada, alucinação
profética, crença particular
desacreditada
o esperar de
uma espécime
rara, desconhecida, inútil, cansada, antiquada, num mundo de
pó e palavras
rápidas
apenas maré, hábito
cotidiano, diligência prazerosa vício
voluntário de um viver, tão velho
quanto o
mundo
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Se tô fora
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expectativa ...
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Como é dura a vida de um porco espinho
Que não pode receber carinho
Como é dura a vida de um porco espinho
Tão sozinho, tão sozinho
Todo mundo quer um cacho...
Antífona da chuva
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I
Limalhas de aço a sibilar liquidamente
Espaço entre o corte e a compostura,
A presença da água assim como o desatino
A fazer mais úmida a caminhada do hoje...
'Corum'
-
Amarelo sol que entra pela janela, rastros de um sentimento que se fez.
Feito criança que brinca na areia da praia, e transforma sonho em dia
claro. Em m...
Satsang
-
Encontro Com a Verdade
*Pergunta: *Discípulo é o mesmo que disciplina?
*Resposta:* Sim, a palavra discípulo vem da mesma raiz da palavra
disciplina. Por...