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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




quarta-feira, 17 de março de 2010

Vagões - por Leo Santos

No trilho da vida, enorme comboio,
passa e passa, cansando a vista;
cabina escura, oculto maquinista,
mas há quem o possa enxergar;

O trem da avareza queimando seu óleo,
amontoando o que devia ser plano.
Dia pós dia, vagões engatando,
a uma locomotiva que já vai parar…

Transporta pro além a dor de alguns,
fabricantes de dores aqui.
Guardando as sombras somente pra si,
e a calma, que queime os rivais…

Mas, os dormentes já estão carcomidos
e a ponte não cruza o desfiladeiro;
as coisas que não compra o dinheiro,
embora gratuitas, lhes são caras demais…

Há muitos que os invejam, no entanto,
e pelo bilhete, dariam tudo;
imaginando a aquisição de um escudo,
por verem, tal qual parece;

Seus olhos fitos, ninguém os demove,
do sonho da grande escalada,
reputando tudo, aquilo que é nada,
o que ouvem diverso, logo esquecem…
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Visitem Leo Santos
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Hermógenes e a Quietude - Citado por Alba Vieira

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Se o vaga-lume aprendesse a ficar quietinho, aceso, satisfeito, humilde e tranquilo, não haveria quem não o tomasse por estrela.
É bom ficar quieto, paciente, em silêncio, esperando a visita da Luz.
O vaga-lume tem luz, mas é ainda vaga.
Falta-lhe quietude. Silêncio já tem. E tem também o negrume da noite envolvente a servir-lhe de fundo, a realçar-lhe o fogo.
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Albert Einstein e a Tradição - Citado por Penélope Charmosa

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A tradição é a personalidade dos imbecis.
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O Caminho - por Yuri

foi em uma noite
tenho uma vaga lembrança como se fosse ontem
havia pouca luz e muita chuva
como eu fui tão bobo? e você tão mau?
e pra onde foi toda aquela sua paixão?
nós éramos tão ligados, e acho que ainda somos... mas depois que te assisti mas ou menos de camarote
eu não tive mais tanta certeza...
eu era tão novo ontem
hoje levo como lição, até porque nada é pra sempre
e eu nunca pensei que seria com você, só cheguei pensar que tinha um toque de realidade
agora minha cabeça gira, gira e gira... mas tanto que não consigo te achar em cada posto que ela estaciona rápido
e tenho na mente agora o que um velho conhecido disse: a paixão requer respeito, e ela não te deu isso
e eu enxergo agora com luz sua paixão venéfica
antes eu tivesse uma antropofobia para que minha algofobia não surgisse nunca
porque quando o tenho em minhas mãos começo a tremer mais uma vez como se fosse cair no mesmo instante com medo nos olhos e nas mãos
de seguir em frente
é quando você quer alguém pra desperdiçar toda aquela dor que parece ser sem fim
tudo aquilo que ela te causou
parece que todos se transformam em nuvens, flutuam e simplesmente somem
na verdade estou de saco cheio disso! de pessoas egocêntricas! e não sei se aguento mais por muito tempo
ficar só na caminhada dói, mas dói mais seguir deixando pra trás cada instante perdido
não preciso mais que esfreguem na minha cara, já está tudo 4x4 em meus olhos
deixe que o barulho do mar quebre nosso silêncio
até porque eu não tenho mais nada pra te dizer hoje...
fatos concretos ou não, não preciso deles, já está tudo tão perto, é só ligar os fatos reais
e o caminho é longo
está em meus olhos!
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.Visitem Yuri
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terça-feira, 16 de março de 2010

A Máquina de Lavar - por Fatinha

Querido Brógui:
.Segunda-feira, dia de corno. Nada como uma edição do Querido Diário requentada para começar bem o dia. Essa é do início de 2007.
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.“Querido Diário:

Cássia está com tendinite. Não veio trabalhar essa semana toda. Aqui em casa a roupa é lavada semana sim, semana não. Como essa era a semana sim que virou semana não, na sexta-feira percebi aterrorizada que não me restava limpo um pé de meia, uma blusinha, uma roupinha de ginástica, nadinha. Minhas gavetas estavam completamente vazias e o cesto de roupa suja completamente cheio. O meu terror veio da dupla constatação: 1) eu teria que encarar uma lavação de roupa; 2) tenho bem menos roupas do que gostaria de ter. Das duas, a última foi a que mais me doeu, é claro.
Então, cheguei ontem do curso já preparada psicologicamente para dar uma de peniqueira. Enquanto almoçava, lembrei-me vagamente de que não dominava a complexa técnica de operar a nova máquina de lavar. Pode parar de rir, essa é uma tarefa difícil, sim, nem vem. Poucas pessoas a sabem executar com maestria.
Bem, como penica que é penica não foge à luta, peguei o cesto de roupas sujas, fui lá pra trás, dei uma olhadinha nos botõezinhos daquela coisa (é botão que não acaba mais, a outra máquina só tinha o de ligar e o de desligar), tentei adivinhar como aquilo funcionava, não consegui e acabei por me render à leitura do Manuel.
Na máquina antiga, a gente primeiro enchia de água e depois botava a roupa. Foi o que fiz, coloquei a máquina pra encher enquanto lia as instruções. Aí, dez páginas depois, chegou numa parte que dizia: “nunca encha a máquina de água antes de colocar as roupas”. Danou-se. Já comecei errando. Desliguei rapidinho e pensei em esvaziá-la pra botar a roupa e depois encher de novo. Só que no Manuel não ensinava como tirar a água da máquina. Não sucumbi à tentação de tirar a água de dentro dela com um balde, achei que seria burrice demais, até para mim. Decidi colocar a roupa com ela cheia mesmo, qual o problema? Na medida em que fui colocando a roupa, o nível de água foi subindo, subindo. Simples lei da física aplicada à atividade peniqueira. Enquanto isso, continuei lendo as dicas do Manuel e cheguei na parte que ele dizia: “o nível da água não pode passar do quarto furo da bacia.” Que bacia? A bacia aqui de casa não está furada… É até relativamente nova… Não, sua Anta, a bacia da máquina, disse-me o Manuel. Parei de colocar roupa antes que transbordasse, liguei novamente a máquina e ela começou a bater.
Daí o Manuel me disse: “coloque o sabão em pó e o amaciante nos recipientes devidos.” Danou-se de novo! Esqueci que tinha que colocar sabão em pó e amaciante. Abri a máquina pra colocar o tal do sabão em pó e o amaciante e ela parou de bater. Pronto! Quebrou. Não, sua Anta, toda vez que você abre a tampa, ela para. Ah, tá. E cadê os tais dos recipientes devidos? Achei. Comecei a puxar e o treco não abria a tampinha. Lógico, sua Anta, não é de puxar, é uma gavetinha dividida em duas metades. Qual será a metade pra botar o sabão? E cadê o sabão? Onde será que a Cássia esconde o sabão em pó e o amaciante?
Vitória! Imagina se eu, com dois cursos superiores completos, mais de mil livros lidos, curso de inglês na Cultura, vinte anos de magistério e dez anos de academia de ginástica, iria ser derrotada por uma simples máquina de lavar! Fiquei contemplando minha façanha, embevecida, toda orgulhosa, quando de repente a bicha parou de bater de novo. Agora danou-se mesmo. Dessa vez eu consegui quebrar a máquina. Minha mãe vai me matar e o pior é que depois de morta ainda vou ter que lavar essa montanha de roupa no tanque!
Fiquei alguns minutos olhando para a máquina, em estado de choque, tentando inventar uma boa mentira pra contar pra minha mãe e ao mesmo tempo pensando como iria fazer pra tirar a roupa e a água de dentro daquela meleca. Repentinamente, ela começou a bater de novo. ???? É que o ciclo de lavagem completa tem uma batidinha e um intervalo pro molho, outra batidinha, outro intervalo, sua Anta! Legal, entendi.
Dei conta de toda a roupa da casa após três ciclos de lavagem completa. Pendurei tudo na corda, subindo e descendo as escadas para o terraço com as bacias cheias. Pura aeróbica.
Finalizei a missão com a alma lavada e enxaguada, como dizia Odorico Paraguaçú. Nada como um servicinho de corno pra deixar a pessoa livre de quaisquer problemas existenciais, emocionais, sexuais ou financeiros.”
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.Repostado, originalmente, em 13/10/2008.
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.Visitem Fatinha
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Hermógenes e o Asceta - Citado por Alba Vieira

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Somente na alma do asceta reina a Paz. Ele não quer mais do que tem. Não anseia tornar-se o que ainda não é. Não se angustia nem mesmo com a estupidez dos homens. Não se filia a doutrinas, que deva defender ou impor. Não persegue ilusões. Não teme a morte. Nunca se sente pobre. Não deseja poderes, honras, lugares, haveres... Não reprime. Não se reprime. Não se engana. Não engana. Não explora. Mas também nada tem e, se nada tem, não anseia aumentar ou guardar. Não se perturba, pois nada o ameaça. Não se ira, pois ninguém o pode ferir.
Ele só tem uma estrela a supri-lo com Infinito, Beleza, Justiça, Amor, Verdade, Beatitude...
Sua estrela é Ele mesmo.
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Augusto dos Anjos, “A um Gérmen” - Citado por Penélope Charmosa

Começaste a existir, geleia crua,
E hás de crescer, no teu silêncio, tanto
Que, é natural, ainda algum dia, o pranto
Das tuas concreções plásmicas flua!

A água, em conjugação com a terra nua,
Vence o granito, deprimindo-o... O espanto
Convulsiona os espíritos, e entanto,
Teu desenvolvimento continua!

Antes, geleia humana, não progridas
E em retrogradações indefinidas,
Volvas à antiga inexistência calma!...

Antes o Nada, oh! gérmen, que ainda haveres
De atingir, como o gérmen de outros seres,
Ao supremo infortúnio de ser alma!
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segunda-feira, 15 de março de 2010

O Grito - por Marília Abduani

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Um grito acordou a noite.
Onde florescem sonhos,
borboletas se agitam
ao vento.
Movimento como se trovejassem primaveras.
Eu desperto,
tímida rosa no teu jardim
esperando o orvalho.
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Hermógenes, a Pedra e o Lago - Citado por Alba Vieira

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Jogaram uma pedra na tranquilidade do lago.
O lago comeu-a.
Sorriu ondulações e...
ficou novamente tranquilo.
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Augusto dos Anjos, “A um Epiléptico” - Citado por Penélope Charmosa

Perguntarás quem sou?! - ao suor que te unta,
À dor que os queixos te arrebenta, aos trismos
Da epilepsia horrenda, e nos abismos
Ninguém responderá tua pergunta!

Reclamada por negros magnetismos
Tua cabeça há de cair, defunta
Na aterradora operação conjunta
Da tarefa animal dos organismos!

Mas após o antropófago alambique
Em que é mister todo o teu corpo fique
Reduzido a excreções de sânie e lodo,

Como a luz que arde, virgem, num monturo,
Tu hás de entrar completamente puro
Para a circulação do Grande Todo!
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Poesia - por Ana

Se você, com frio, espera,
que a vida lhe ofereça,
numa xícara de chá,
alguma coisa que aqueça…

Na maior parte dos dias
irá tiritar no gelo,
endurecer de frio,
sofrer de desaconchego.

Mas, se olhar pra dentro,
com bastante atenção,
verá uma délicatesse
em forma de coração

onde o espírito-garçom
serve, em linda porcelana,
sentimentos que alimentam
um ser que, às vezes, reclama

de viver silêncio triste,
não ter encontros de amor,
não cultivar amizades,
não ter vida interior.

E depois de alimentado,
este ser, então, percebe:
não é de fora que vem,
é de dentro que recebe

tudo que de mais precisa
pra sua felicidade,
pra seu descanso tranqüilo
e sua sensibilidade.

E o éden de seus desejos,
do belo, da emoção,
vem em um pires finíssimo
com flores pintadas à mão.


............Resposta a Poesia, de Alba Vieira.
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Noa - por Kbçapoeta

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Mais uma vez inicia minha noa.

Noctâmbulo nas grafias que jazem

No sepulcro das palavras.

Almejo vislumbrar

No criado-mudo de Hades,

Línguas mortas, desvarios psicossomáticos

De corpos esquecidos,

Dissipados na cinza do tempo.

Tempo, meu caro tempo...

Díscolo, dissimulado incentivador das

Dismnésias

Dos sicofantas.

Renegados do passado,

Heróis do futuro

No presente de hoje,

Passado de amanhã

Tornando-o agora

Pretérito do futuro

Onde,

Tudo passa,

Lava e melhora.

Mas não limpa.
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Visitem Kbçapoeta
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Hermógenes e o Rio - Citado por Alba Vieira

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Antes de ser remanso, o rio se arrebenta todo nas corredeiras da montanha.
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O Buraco - por eros.ramirez

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Tinha um buraco no meio do caminho. No meio do caminho tinha um buraco. Antes de me deparar com ele achava que obstáculos eram as pedras que se agigantavam encolhendo nossa passagem. Hoje temo mais os buracos que sorrateiros nos esperam, por vezes até camuflados com um pouco d’água. Nunca me esquecerei deste acontecimento na vida de minhas botinas tão castigadas. Enquanto as pedras se exibem permitindo que passemos a largo, os buracos nos surpreendem quando nos vemos já dentro deles.
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Augusto dos Anjos, “A um Carneiro Morto” - Citado por Penélope Charmosa

Misericordiosíssimo carneiro
Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio
E em todo aquele que for seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio
Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro
E guarda as carnes dos que estão com frio!

Quando a faca rangeu no teu pescoço,
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos - fontes de perdão - perdoaram!

Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia de Juízo,
Talvez perdoasses os que te mataram!
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quinta-feira, 11 de março de 2010

Três - por Gio

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Carlos estava na parada de ônibus, esperando o velho Mercedes-Benz – provavelmente o único Mercedes em que andaria, ao menos nos próximos 50 anos – chegar, e o levar para casa. Era um daqueles dias (noites, na verdade) em que todas as linhas parecem estar funcionando, menos a sua: a chance de o ônibus chegar é inversamente proporcional à sua pressa. Mais que com pressa, estava cansado, já que aquele sábado no balneário foi mais cansativo do que proveitoso.

– Ei, Carlitos!

Demorou a reconhecer a figura que vinha da penumbra, mas, ao fazê-lo, quase deu um pulo. Era João Pedro, amigo de colégio desde os tempos do ensino médio, o qual não via há uns dois anos. João foi fazer curso técnico em uma cidade interiorana, e eles acabaram perdendo contato. Foi inevitável a mais clichê das perguntas-exclamação:

– Joãozinho, há quanto tempo a gente não se vê!?
– O tempo suficiente para você criar barba na cara.
– É verdade. E eu que disse que nunca usaria barba?
– E eu que disse que nunca sentiria saudades daqui?
– Disso eu já não tinha dúvidas. Diga, faz quanto tempo que você voltou?
– Uns três meses. Mas não se preocupe, não avisei ninguém – queria tempo para me reorganizar, me readaptar. Mais tempo pra respirar, eu diria.
– Pelo jeito, tiraram o teu couro lá naquela cidade...

E esqueceram-se da vida, colocando a conversa em dia, comparando as cidades, relembrando os velhos tempos, com o assunto caindo periodicamente em futebol, dinheiro e mulher – não necessariamente nessa mesma ordem. Ficaram lá uns 35, 40 minutos, durante os quais nenhum ônibus passou, obviamente.

Quando o velho Mercedes chegou, a impressão que se tinha é que era Mercedes só no nome: em vez do visual polido, uma carcaça deteriorada pelo uso e pelo tempo; em vez de bancos de couro e ar condicionado, assentos de um estofado de quinta e passageiros com o desodorante vencido; em vez do espaço e conforto característicos, pessoas espremidas nos corredores, portas e janelas.

– Tem espaço pra gente aí dentro? – perguntou João ao motorista.

O motorista olhou para trás, como que perguntando ao cobrador. As pessoas dentro do ônibus gemeram – já estava difícil respirar do jeito que a coisa estava, e colocar dois passageiros a mais não iria melhorar a situação. Ouviu-se um grito lá de dentro.

– Se o pessoal do fundo apertar, cabe mais uns cinco!

Ao entrarem, em vez de um chofer, quem os recebia era um motorista mal-humorado fumando um dos cigarros mais fedorentos dos quais eles poderiam lembrar. Seu humor só não era pior que o do cobrador que, na última viagem de seu turno, atendia com resmungos. Humor que não melhorou ao receber uma nota de vinte de Carlos.

– Senta aí, e espera. Vou ver se tenho troco.

E assim os dois ficaram ali, quase do lado da roleta, espantados tanto com a grosseria do cobrador, quanto com o fato de ele os ter mandado sentar. Deve ser o sono, comentaram. Enquanto o próximo pobre passageiro que daria o que faltava ao troco de Carlos (antes de ser espremido feito uma laranja) não chegava, retomaram a conversa. Foi quando Carlos avistou algo na janela.

– Tá vendo aquele cara passeando com a garota no início da avenida?
– Sim, por quê?
– É o meu herói.
– Como?
– É como ele é conhecido. “Meu herói”. De herói não tem nada, mas é chamado assim devido às suas façanhas.
– E quais seriam essas façanhas?
– Atualmente, ele está com três namoradas ao mesmo tempo. E eu, que já tenho dificuldades para lidar com uma só...
– Três namoradas? E quanto ele gasta de avião para manter isso?
– Nada.
– Ônibus?
– Não.
– Ele tem carro?
– Nem perto.
– Não vá me dizer que...
– Exatamente. As três são aqui da cidade.
– O que esse cara tem na cabeça? Isso é suicídio!
– Ele diz que gosta de viver perigosamente.
– Mas como alguém consegue administrar três garotas na mesma cidade, sem elas nunca se encontrarem?
– Entende porque o chamam de “meu herói”?

O cobrador finalmente tinha arrumado troco. Carlos esticou o braço, e os dois se moveram para um lugar menos desconfortável no fundo do ônibus. João Pedro retomou:

– Mas... Três? Não seria mais fácil com duas?
– Ele diz que não. Com três, se uma das mulheres o descobre com outra, ainda sobra a terceira. Ei, se a Renata me escuta falando isso...
– Renata?
– É, minha namorada. Não te comentei na parada?
– Comentou, mas não tinha dito o nome dela. Estão juntos há quanto tempo?
– Quase dois anos. Conheci ela pouco tempo depois que você partiu.

O ônibus deu um solavanco ao passar por um quebra-molas na estrada, arremessando desavisados alguns metros para trás. Um rapaz que estava atendendo o celular caiu sentado no chão.

– Conheceu ela na faculdade? – divagou João.
– Não, ela faz faculdade particular. Foi em uma dessas festas da vida, regada a tequila liberada.
– Não sabia que dava para se conhecer namoradas nessas condições...
– Nem eu, Joãozinho, nem eu... Mas sabe, até que ela anda bem acomodada. Nem quis vir comigo hoje para cá!
– Ah, que pena. Acho que perdi de conhecê-la esse final de semana.
– Ah, qualquer dia essa semana eu te levo no trabalho dela, quando for buscá-la. Ela trabalha no posto de saúde ali no centro. Podemos sair para comer alguma coisa!

Que estranho, pensou João Pedro, mas guardou isso para si.

– Hmm... Pode ser. Ela faz o que no posto mesmo?
– Estagiária. Ajuda com as vacinações, e confere as carteirinhas.
– Sei.
– Só espero que ela queira sair. Como eu disse, ela nem para a praia quis vir hoje. Foi visitar a...
– ...Dinda doente?
– Exatamente. Como adivinhou?

O ônibus dobrou rápido demais em uma curva, jogando uma senhora de idade, cuja bengala acertou em cheio na coxa de um homem que, ao menos até ali, estava dormindo.

– Carlitos, eu também estou vendo alguém.
– Nossa, que bom! Finalmente você pretende tomar jeito. Desde quando?
– Desde que eu cheguei aqui, quase.
– Onde a conheceu?
– Num posto de saúde. Fui checar se havia alguma dose de vacina que eu tinha esquecido.
– Num posto? Não diga! Vai ver ela conh...
– Carlos, ela é loira, tem aproximadamente 1,75m, trabalha no turno da tarde, tem um sotaque meio...
– Carioca. Vive de rabo-de-cavalo, usa um perfume que já saiu de linha, e não suporta cheiro de...
– Fritura. Especialmente batata frita. Passou a semana inteira em função...
– De provas, e agora esse fim-de-semana não pode sair do centro, pois tinha de cuidar de sua dinda...
– Helena. E o nome dela é...
– Renata! – Ambos exclamaram. Várias pessoas se viraram, espantadas. O cobrador olhou com cara de reprovação. A senhora que sentava no banco ao lado deles também os olhou com cara de reprovação, mas não era por causa do grito.

Em um outro canto da cidade, Renata rolava em abraços calorosos dentro de um quarto. É, a essa altura eles já se encontraram. Se fossem só dois...
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Visitem Gio
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As Surpresas do Dia - por Adir Vieira



Ontem, o dia amanheceu morno, assim... com aquele ar parado, como se não tivesse sido programado, inconscientemente, no dia anterior.
Embora as expectativas me levassem a crer que tudo correria de acordo com os compromissos já agendados, no meio do dia uma surpresa mudou meus planos, quase sem que eu percebesse.
Vi-a ali, deitadinha, com aquela carinha enigmática, talvez pensando se deveria ou não me dizer o que estava sentindo.
Já tínhamos todos almoçado e aguardávamos o horário de sair para a academia de ginástica, quando eu, ao estranhar seu comportamento quieto, tão diferente do habitual, indaguei sobre o que estava acontecendo.
Senti que ela temia me dizer que não estava bem para fazer aula de ginástica olímpica, pois já havia faltado a aula anterior para brincar com as amigas na piscina do prédio.
À minha insistência, disse estar com dor abdominal. Pronto, aí entrei em desespero. É sempre assim. Não consigo conviver com mal-estar de criança. Macromizo meus pensamentos pessimistas e de súbito a vejo apática e sem a alegria tão espontânea. Acerquei-me dela, preocupada, e aí é ela que me deu lições com sua voz meiguinha e decidida querendo tranquilizar-me.
Esqueci-me do mundo para prestar atenção aos seus sintomas. Unimo-nos para que a dor não avançasse e acho que fui feliz nessa tarefa.
Pelo resto da tarde jogamos, lemos e interpretamos os textos, assistimos um novo DVD e a “tal dor” sumiu, como apareceu.
Deixei de fazer minhas compras, coloquei em segunda ordem o que havia priorizado, mas valeu a pena sentir seus bracinhos em volta do meu pescoço, no abraço de agradecimento por eu ter esquecido de tudo e me dedicado somente a ela.
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Visitem Adir Vieira
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Hermógenes e as Estrelas - Citado por Alba Vieira

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Não pules ansioso e ávido querendo agarrar estrelas.
Senta-te quieto e mudo e esquece-as inteiramente.
Quando teu silêncio fizer de ti uma estrela, uma das do céu descerá para brincar contigo.
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Augusto dos Anjos e “A Peste” - Citado por Penélope Charmosa

Filha da raiva de Jeová - a Peste
N’um insano ceifar que aterra e espanta,
De espaço a espaço sepulturas planta
E em cada coração planta um cipreste!

Exulta o Eterno e... tudo chora, tudo!
Quando Ela passa, semeando a Morte,
Todos dizem co’os olhos para a Sorte
- É o castigo de Deus que passa mudo!

- Fúlgido foco de escaldantes brasas
- O sol a segue, e a Peste ri-se, enquanto
Vai devastando o coração das casas...

E como o sol que a segue e deixa um rastro
De luz em tudo, ela, como o sol - o astro -
Deixa um rastro de luto em cada canto!
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quarta-feira, 10 de março de 2010

Midas - por Leo Santos

Falta uma orquídea que inda não floriu,
e o jardineiro rega, em paciente espera;
até que vibre a corda do amor,
acordando a esperança que dormiu,
ao ecoar o som, da harpa da primavera…

Falta uma seta, Cupido guardou,
e Vênus distraída, nem notou a concorrência;
senão, já teria advertido,
e seu filho arqueiro a teria ferido,
pra mim e a deusa, a sobrevivência.

Sobra um cálice amargo, não bebo,
pois o teor não apraz minha sede;
um vagar por vagar, ir ao léu,
correr para o mar anelando o céu,
sob o peso das asas, e a restrição da rede.

Falta coragem pra dizer o que gritei,
quando o eco devolvia sem uso, minha voz;
é que agora ouviria alguém,
que por certo, falaria também,
ah, essa insegurança atroz…!

A canção do amor, planta mal regada,
Sina de um Midas, em fértil solo:
Primeiro,ouro, tocando em tudo,
e por fim – pobre louco! – orelhudo,
por ter questionado a vitória de Apolo…
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Visitem Leo Santos
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