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quinta-feira, 11 de março de 2010

Três - por Gio

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Carlos estava na parada de ônibus, esperando o velho Mercedes-Benz – provavelmente o único Mercedes em que andaria, ao menos nos próximos 50 anos – chegar, e o levar para casa. Era um daqueles dias (noites, na verdade) em que todas as linhas parecem estar funcionando, menos a sua: a chance de o ônibus chegar é inversamente proporcional à sua pressa. Mais que com pressa, estava cansado, já que aquele sábado no balneário foi mais cansativo do que proveitoso.

– Ei, Carlitos!

Demorou a reconhecer a figura que vinha da penumbra, mas, ao fazê-lo, quase deu um pulo. Era João Pedro, amigo de colégio desde os tempos do ensino médio, o qual não via há uns dois anos. João foi fazer curso técnico em uma cidade interiorana, e eles acabaram perdendo contato. Foi inevitável a mais clichê das perguntas-exclamação:

– Joãozinho, há quanto tempo a gente não se vê!?
– O tempo suficiente para você criar barba na cara.
– É verdade. E eu que disse que nunca usaria barba?
– E eu que disse que nunca sentiria saudades daqui?
– Disso eu já não tinha dúvidas. Diga, faz quanto tempo que você voltou?
– Uns três meses. Mas não se preocupe, não avisei ninguém – queria tempo para me reorganizar, me readaptar. Mais tempo pra respirar, eu diria.
– Pelo jeito, tiraram o teu couro lá naquela cidade...

E esqueceram-se da vida, colocando a conversa em dia, comparando as cidades, relembrando os velhos tempos, com o assunto caindo periodicamente em futebol, dinheiro e mulher – não necessariamente nessa mesma ordem. Ficaram lá uns 35, 40 minutos, durante os quais nenhum ônibus passou, obviamente.

Quando o velho Mercedes chegou, a impressão que se tinha é que era Mercedes só no nome: em vez do visual polido, uma carcaça deteriorada pelo uso e pelo tempo; em vez de bancos de couro e ar condicionado, assentos de um estofado de quinta e passageiros com o desodorante vencido; em vez do espaço e conforto característicos, pessoas espremidas nos corredores, portas e janelas.

– Tem espaço pra gente aí dentro? – perguntou João ao motorista.

O motorista olhou para trás, como que perguntando ao cobrador. As pessoas dentro do ônibus gemeram – já estava difícil respirar do jeito que a coisa estava, e colocar dois passageiros a mais não iria melhorar a situação. Ouviu-se um grito lá de dentro.

– Se o pessoal do fundo apertar, cabe mais uns cinco!

Ao entrarem, em vez de um chofer, quem os recebia era um motorista mal-humorado fumando um dos cigarros mais fedorentos dos quais eles poderiam lembrar. Seu humor só não era pior que o do cobrador que, na última viagem de seu turno, atendia com resmungos. Humor que não melhorou ao receber uma nota de vinte de Carlos.

– Senta aí, e espera. Vou ver se tenho troco.

E assim os dois ficaram ali, quase do lado da roleta, espantados tanto com a grosseria do cobrador, quanto com o fato de ele os ter mandado sentar. Deve ser o sono, comentaram. Enquanto o próximo pobre passageiro que daria o que faltava ao troco de Carlos (antes de ser espremido feito uma laranja) não chegava, retomaram a conversa. Foi quando Carlos avistou algo na janela.

– Tá vendo aquele cara passeando com a garota no início da avenida?
– Sim, por quê?
– É o meu herói.
– Como?
– É como ele é conhecido. “Meu herói”. De herói não tem nada, mas é chamado assim devido às suas façanhas.
– E quais seriam essas façanhas?
– Atualmente, ele está com três namoradas ao mesmo tempo. E eu, que já tenho dificuldades para lidar com uma só...
– Três namoradas? E quanto ele gasta de avião para manter isso?
– Nada.
– Ônibus?
– Não.
– Ele tem carro?
– Nem perto.
– Não vá me dizer que...
– Exatamente. As três são aqui da cidade.
– O que esse cara tem na cabeça? Isso é suicídio!
– Ele diz que gosta de viver perigosamente.
– Mas como alguém consegue administrar três garotas na mesma cidade, sem elas nunca se encontrarem?
– Entende porque o chamam de “meu herói”?

O cobrador finalmente tinha arrumado troco. Carlos esticou o braço, e os dois se moveram para um lugar menos desconfortável no fundo do ônibus. João Pedro retomou:

– Mas... Três? Não seria mais fácil com duas?
– Ele diz que não. Com três, se uma das mulheres o descobre com outra, ainda sobra a terceira. Ei, se a Renata me escuta falando isso...
– Renata?
– É, minha namorada. Não te comentei na parada?
– Comentou, mas não tinha dito o nome dela. Estão juntos há quanto tempo?
– Quase dois anos. Conheci ela pouco tempo depois que você partiu.

O ônibus deu um solavanco ao passar por um quebra-molas na estrada, arremessando desavisados alguns metros para trás. Um rapaz que estava atendendo o celular caiu sentado no chão.

– Conheceu ela na faculdade? – divagou João.
– Não, ela faz faculdade particular. Foi em uma dessas festas da vida, regada a tequila liberada.
– Não sabia que dava para se conhecer namoradas nessas condições...
– Nem eu, Joãozinho, nem eu... Mas sabe, até que ela anda bem acomodada. Nem quis vir comigo hoje para cá!
– Ah, que pena. Acho que perdi de conhecê-la esse final de semana.
– Ah, qualquer dia essa semana eu te levo no trabalho dela, quando for buscá-la. Ela trabalha no posto de saúde ali no centro. Podemos sair para comer alguma coisa!

Que estranho, pensou João Pedro, mas guardou isso para si.

– Hmm... Pode ser. Ela faz o que no posto mesmo?
– Estagiária. Ajuda com as vacinações, e confere as carteirinhas.
– Sei.
– Só espero que ela queira sair. Como eu disse, ela nem para a praia quis vir hoje. Foi visitar a...
– ...Dinda doente?
– Exatamente. Como adivinhou?

O ônibus dobrou rápido demais em uma curva, jogando uma senhora de idade, cuja bengala acertou em cheio na coxa de um homem que, ao menos até ali, estava dormindo.

– Carlitos, eu também estou vendo alguém.
– Nossa, que bom! Finalmente você pretende tomar jeito. Desde quando?
– Desde que eu cheguei aqui, quase.
– Onde a conheceu?
– Num posto de saúde. Fui checar se havia alguma dose de vacina que eu tinha esquecido.
– Num posto? Não diga! Vai ver ela conh...
– Carlos, ela é loira, tem aproximadamente 1,75m, trabalha no turno da tarde, tem um sotaque meio...
– Carioca. Vive de rabo-de-cavalo, usa um perfume que já saiu de linha, e não suporta cheiro de...
– Fritura. Especialmente batata frita. Passou a semana inteira em função...
– De provas, e agora esse fim-de-semana não pode sair do centro, pois tinha de cuidar de sua dinda...
– Helena. E o nome dela é...
– Renata! – Ambos exclamaram. Várias pessoas se viraram, espantadas. O cobrador olhou com cara de reprovação. A senhora que sentava no banco ao lado deles também os olhou com cara de reprovação, mas não era por causa do grito.

Em um outro canto da cidade, Renata rolava em abraços calorosos dentro de um quarto. É, a essa altura eles já se encontraram. Se fossem só dois...
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