quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Franz Kafka e o Livro - Citado por Penélope Charmosa
Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Vias - por Leo Santos
tração animal, ciclos da desesperança;
Anotações vitais em parco papel,
num bilhete lotérico, sonhos de vingança.
Aprisiona afetos malogrados tristes,
em grilhões de mórbidas cores;
Enquanto a hipocrisia discursando insiste,
em apresentar pedras de parcos valores.
Acerca-se, mesas fartas, migalhas,
nas quais jaz a porção do dia;
Enquanto o que tece loas à caridade,
vislumbra a carência, e dela desvia.
É pois parte sempre à parte, omissa,
mas atuante nos desvarios da boca;
Tentando edificar uma torre maciça,
sobre o fundamento de palavras ocas.
Enquanto a virtude silente se toca,
e dizima a própria colheita;
Sem alarde, sem nada em troca
ameniza o ultraje a desfeita.
Eis a cidade onde a dor viceja!
Injustiças várias fomentam a desdita;
Na via das benesses o tédio boceja,
na senda do rigor, a carência grita.
Pessoas que Fazem Parte de Nós - por Adir Vieira
Certas pessoas entram em nossa vida assim por acaso. Ou cremos que é por acaso. Se observarmos com mais detalhes, vamos perceber que tudo faz parte de um caminho que temos que seguir, seja para o amadurecimento, seja para resolvermos questões passadas e interrompidas.Consigo identificar minha afirmativa no que se dá hoje entre mim e minha amiga do colegial, separadas por mais de cinquenta anos. Vejo que ela sempre esteve ali comigo: nas minhas atitudes, nos meus gestos, na minha forma de pensar. Essa é a razão de não haver surpresa no reencontro. Hoje, quando nos falamos à distância, porque moramos em cidades distantes, sinto como se tivéssemos nos falado no dia anterior, passem ou não semanas sem nos falarmos. Com que simplicidade atualizamos nossos registros e rimos das mesmas coisas, como outrora.
Existem pessoas assim, na nossa vida que, parentes ou não, fazem parte dela, fisicamente separadas ou não.
E como isso é bom!
Angústia - por Alba Vieira
Quando penso sobre a Vida que aos homens abandona,
Que caminham cegos, tropeçando, sem tentarem entender
O porquê dos acontecimentos, o que devem compreender...
Seguem cometendo injúrias, conspurcando o próprio ser,
Parecendo não notarem que fazem por merecer
Quando logo ali adiante, esbarram numa conduta igual
De outro semelhante insano, fazendo sua vida banal.
Então vem a vontade de imaginar como seria
Dormir nesse lugar e acordar num lugar de fantasia,
Onde fosse a consciência que ditasse o padrão
De comportamento do homem, em cada importante ação.
Entenderiam, finalmente, que não existe lugar
Para seres egoístas que só pensam em lucrar.
Já que somos todos iguais e estamos ligados em rede,
Compaixão seria a regra e não só matar a própria sede.
E os homens de poder teriam a retidão de administrar
O dinheiro da nação com respeito e inteligência,
Cuidando e provendo a todos com o que é básico dar:
Educação e trabalho, o resto o povo alcança com diligência.
Não custa sonhar com um lugar assim, tudo parte da imaginação.
Cada um enxergando no outro um semelhante, é pedir demais?
Sentindo-se parte da natureza, integrado a ela e por ela responsável,
O homem expressaria assim o Amor e meu peito não apertaria mais...
O Escritor e a Falta de Inspiração - por Flavio Braga
É dura a rotina quando não se está inspirado. A gente fica revirando nossos pensamentos, tentando encontrar algo que preste. Vira, revira, e re-revira, e revira de novo. Não acha. Tudo bem. Já que cabeça vazia é oficina do Diabo, quem sabe ele não dá uma ideia dos infernos? Diante de um quadro tão desesperador, o escritor apela para tudo. E haja café. E haja cigarro. E haja insônia. E haja paciência. A caneta já passeou por boa parte do corpo do escritor: da mão para a boca, da boca para detrás da orelha, da orelha ela sai para coçar a cabeça, da cabeça volta para a boca, da boca vai acabar jogada num canto qualquer, porque ele está em vias de desistir. É um pobre coitado. Sem inspiração, sem dinheiro, mal lido, muitas vezes mal interpretado e na maioria das vezes mal amado, e ainda pode acabar doente por conta dessa maldita caneta.
Será que sai um poema? Não, não sai. As rimas deixaram um bilhete dizendo que foram ali na esquina comprar um maço de cigarro e voltam só daqui a seis meses. E uma crônica? De jeito nenhum. Dona Crônica, preguiçosa que só ela, está neste momento dormindo e se for acordada ela deixará de ser uma dama e acabará arrumando uma confusão daquelas dignas das mulheres barraqueiras. Será que não sai nada? Não sai. A Inspiração tem espírito de moleque, daqueles bem boca-suja e malcriado. Agora, por exemplo, o escritor, completamente exausto, olha para um canto da sala e vê a Inspiração, rindo da cara dele e ainda fazendo aquele gesto brasileiríssimo da mão espalmada batendo na outra fechada. O escritor anda vendo muita coisa. Precisa parar de ingerir essas substâncias proibidas. Se ele é careta, é melhor procurar ajuda médica. Coitado. Está até tendo visões. Precisa mesmo é ter uma vida social, já que seus melhores amigos, uns escritores iguais a ele, como Lima Barreto, Jorge Amado, Machado de Assis e outros estão meio... meio... meio... como posso dizer? Estão meio mortos para sair para tomar umas cervejas. É nessas horas que o escritor se entrega. O dia amanhecendo e o papel em branco. Então ele usa o último recurso, que todos os escritores odeiam usar, mas sempre usam, devido à falta de inspiração ou a uma ressaca: escreve sobre a sua falta de inspiração.
Remake - por Leandro M. de Oliveira
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Um fabricador d’engenhos apanha suas invenções já inventadas, plageia a própria alma, dá seu âmago ao desatento que por aqui passou. Nada é original. Todo sacrifício é vão. Criador olha com retidão a criatura, não vê senão o eco perdido do abandonado caminho. O novo é uma casa antiga cujas paredes foram caiadas, no interior o sepulcro é o mesmo de tempos sem conta. Toda produção, toda expressão, é só um murmúrio da ânsia da vida por si mesma. Da vida que deveria ter sido mas, na perdição das horas lentas e ociosas, viu se achegar ao peito um pleno de impossibilidades irrevogáveis. Idealização frente à construção é deveras uma lida de menor esforço pra alguém tão exausto de ser ele mesmo.
E assim foi, o homem d’engenhos passou todo um dia (ou seria ano?) na clausura da cela à busca da revelação derradeira. Passou à memória seu legado, como passa um general à frente da tropa, como passa o pacifista frente ao tanque de guerra. Como pudesse fazer moenda do candial da vida pra erguer com ele a argamassa da resposta, conjeturou infância e velhice, mesmo sentindo-se desde sempre imune a condicionamentos temporais. “A única liberdade é esmerar um algo inédito, com vida insuspeitada, com estatura que se note. Quero sair desse teatro pra escrever minha própria peça, essa companhia tornou-se, ao longo de tantas temporadas, demasiado enfadonha.” Nisso pensava ele resignado enquanto arquitetava seu livramento. “Quero comer sem arrotar, doer sem chorar, amar sem morrer, sangrar sem doer... Tudo será possível àquele que cresceu selvagem, que o mundo não teve tempo hábil a gravar seus sortilégios de derrota no côncavo do peito nu. Ademais, existir é invariavelmente um assombro.” Desceu enfim até as catacumbas, ambicionando que de lá emergisse seu novo, se eterno incriado.
Chegando ao átrio, eis que então, crente e desavisado, aquele ser de indiferença e esquecimento confronta seu legado. Para o próprio assombro, descobre que é ele. É ele duplicado!
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Eu e Você, Amém - por Passa-Tempo
Curtindo o momento em que não sabíamos mais o significado da palavra roupa,
Muito menos para que servia tal objeto.
E pra que se importar com roupas feitas por mãos de homens,
Se tínhamos ali dois corpos feitos pelas mãos de Deus?
E eu estava ali, com você,
Foi quando te vi abrindo, pela primeira vez,
E era pra mim,
As portas de um túnel, onde não se via luz em seu fim,
Mas era um lugar seguro,
Quentinho, apertadinho, aconchegante,
Onde eu mais queria estar naquele momento.
E lendo minha mente, seus olhos ardentes
Me convidavam para entrar,
E assim eu fiz, entrei!
De imediato pude sentir
O enrijecer dos músculos de cada membro seu,
fazendo assim enrijecer o meu.
Enquanto unhas penetravam minha carne,
Mais fundo eu chegava nesse limitado túnel,
E as gotas de suor faziam queimar as feridas.
E nessa loucura dançávamos em movimentos sincronizados, de direções opostas,
Ao som da melodia mais gostosa e harmônica que o chocar dos corpos e seu gemido incontrolável de prazer poderiam formar.
E assim eu ficaria ali,
Montando e desmontando esse quebra-cabeça de duas peças,
Onde a minha encaixa na sua.
Passaria o dia todo
Dançando a mesma música, jogando o mesmo jogo,
Até chegar a Senhora Fadiga,
Juntamente com o Senhor Cansaço,
Me levar para os braços de Morfeu.
Mas acordo feliz e animado,
Pois sei que a Lua vai tomar a noite,
Seja tarde ou seja cedo,
Para que eu seja seu morcego,
E você, minha Dama da Noite.
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O Chevrolet BelAir do Burt e os Bloqueios no Passeio Marítimo de Alcantara - por Violeta
“As minhas partes baixas? Já não as visito desde 1953. Não, não teve nada a ver com o Eisenhower. Não, não. Lá em baixo há uma cave. É muito húmida. Descer até lá não é nada agradável. Acredite em mim. Uma pessoa fica agoniada. É sufocante. Dá enjoos. Há um cheiro a humidade e bolor. Ui! É insuportável. Cola-se à roupa.
Não, não houve um acidente ali em baixo. Não houve uma explosão nem um incêndio. Não aconteceu nada desse género. Não foi nada assim tão dramático. Aliás… bem, não interessa. Não. Não interessa. Não posso falar consigo sobre isso. Porque é que uma pessoa inteligente como a menina anda por aí a falar com velhotas sobre as suas partes baixas? Quando eu era rapariga, não era assim que nos entretínhamos. O quê? Deus do céu, está bem.
Houve um rapaz. Chamava-se Andy Leftkov. Era giro… bem, pelo menos eu assim pensava. Era alto, tal como eu, e eu gostava muito dele. Convidou-me para dar uma volta no seu carro…
Não lhe posso contar isto. Não posso falar sobre o que há lá em baixo. A gente simplesmente sabe que existe. É como uma cave. Por vezes ouvem-se ruídos lá em baixo. Ouvem-se os canos e certas coisas ficam presas… coisas e animais pequenos. É húmida e por vezes é preciso tapar as fendas. Porém, a porta está quase sempre fechada. Esquecemo-nos de que existe. Repare… uma cave faz parte da casa mas não a vemos nem pensamos nela. Mas existe porque em todas as casas é necessária uma cave. Caso contrário, o quarto seria na cave.
Oh, o Andy, o Andy Leftkov. Certo. O Andy era um rapaz bonito. Era um bom partido. Era o que dizíamos naquela altura. Estávamos no carro dele, um Chevrolet BelAir branco novinho em folha. Lembro-me de pensar que as minhas pernas eram demasiado compridas para o banco. Eu tenho as pernas muito compridas. Batiam no tablier. Eu olhava para os meus joelhos grandes quando ele me beijou de surpresa tal como nos filmes, na cena em que o rapaz abraça a rapariga e a arrebata. Fiquei excitada, muito excitada e, bem, houve uma torrente lá em baixo. Era incontrolável. Era como se uma corrente de paixão, um rio de vida, jorrasse de mim, das minhas cuecas, direitinha ao banco do seu Chevrolet BelAir novinho em folha. Não era urina e cheirava mal. Bem, para ser sincera, não me cheirava a absolutamente nada mas o Andy disse que cheirava a leite azedo e que eu estava a manchar o banco do carro. Eu era uma ‘rapariga esquisita e malcheirosa’, dizia ele. Queria explicar-lhe que o beijo me tinha apanhado desprevenida e que normalmente eu não era assim. Tentei enxugar a torrente com o meu vestido. Era um vestido novo amarelo-claro e, manchado pela torrente, ficou muito feio. Sem me dirigir a palavra, o Andy levou-me a casa e, quando saí do carro e fechei a porta, também fechei a loja. Fechei-a à chave. Nunca mais se abriu. Depois, ainda saí algumas vezes com rapazes mas o receio de outra torrente deixava-me muito nervosa.
Eu costumava ter sonhos. Sonhos loucos. Oh, são disparates. Porquê? Porque eu sonhava com o Burt Reynolds. Não sei porquê. Nunca me entusiasmou muito na vida real mas nos meus sonhos… era sempre eu e o Burt. Eu e o Burt. O Burt e eu. Eu e o Burt saímos juntos. Fomos a um restaurante semelhante a tantos outros em Atlantic City. Um restaurante grande com candelabros enormes e milhares de empregados de mesa com coletes. O Burt dava-me uma orquídea para pôr ao peito. Eu prendia-a ao meu casaco. Ríamo-nos. Ríamo-nos muito, eu e o Burt. Comíamos cocktails de camarão. Camarões enormes e saborosos. Não parávamos de rir. Éramos muito felizes. Depois os nossos olhares cruzavam-se e ele puxava-me para si no meio do restaurante. Quando estava prestes a beijar-me, a sala estremecia, pombos esvoaçavam de baixo da mesa — não sei porque raio havia pombos debaixo da mesa — e surgia a torrente. Jorrava sem parar. E com ela vinham peixes e barcos pequenos e o restaurante ficava cheio de água. Burt estava ensopado até aos joelhos, com um ar terrivelmente decepcionado por eu ter feito das minhas outra vez, e olhava horrorizado para os seus amigos, o Dean Martin e outros tantos, que passavam por ele a nadar nos seus smokings e vestidos de noite.
Já não tenho estes sonhos. Desde que me tiraram praticamente tudo o que estava nas partes baixas. Retiraram-me o útero, as trompas, tudo. O médico quis armar-se em engraçadinho. Disse-me que era melhor deitar fora o que já não tinha uso. Mas descobri que afinal era um cancro. Tiraram-me tudo. De qualquer modo, quem é que precisa de tanta coisa? Não é verdade? É algo muito sobrestimado. Já fiz outras coisas. Adoro exposições de cães. E vendo antiguidades.
O que escolhia para ela? Que espécie de pergunta é essa? O que escolhia? Escolhia uma enorme tabuleta:
‘Fechada devido a inundação.’
O que diria ela? Eu já lhe disse. Não é bem a mesma coisa. Ela não é como uma pessoa que fala. Calou-se há muito tempo. É um lugar. Um lugar onde ninguém vai. Está fechada, nos subterrâneos. Fica lá em baixo. Está satisfeita? Já falei consigo… arrancou-me as palavras. Fez uma velhota falar sobre as suas partes baixas. Está satisfeita agora? [Vira as costas. Depois volta-se novamente.]
Sabe, na verdade, é a primeira pessoa a quem contei esta história e sinto-me mais aliviada.”
Um beijo enorme
.....................Aurora
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terça-feira, 15 de setembro de 2009
Bagulhinho Feliz - por Fatinha
Vida de concursando não é mole não. Hoje, conversando com minha Tequinha pelo telefone (num raro momento de recreio), chegamos à conclusão que estudar é um processo de embagulhamento inevitável. Não dá pra querer abraçar o mundo com as pernas, querer passar no concurso e ainda ficar bonitinha.
Tequinha sentenciou: “Candidata com as unhas feitas, roupinha da moda, sarada e sem precisar de retoque na raiz do cabelo, não tá estudando.”
É isso mesmo, respondi olhando para minhas unhas, cada uma de um tamanho, as cutículas devorando-as sem piedade. Depilação, só nas áreas abertas à visitação pública. Limpeza de pele? Sorte a minha de não ter problemas de acne. Ginástica? Meus músculos hipertrofiados já se despediram de mim há séculos. Barriga de tanquinho? Já tive um dia. Minhas olheiras estão indo no pé e minha bunda está no mesmo caminho. Estou três quilos acima do meu peso e precisando cortar o cabelo. Fazer o quê?
Mas não estou me queixando não. Estou feliz. Um bagulhinho feliz, vencendo a mim mesma. Reforçando minha obstinação e confiando na realização de meu objetivo. Oscilando, é verdade, entre a sensação de não saber nada e a sensação de estar preparada para a prova.
E os amigos? São tudo pra mim. A torcida, o empurrar pra frente, o dar esporro quando eu quero bater no tatame, o puxar o lencinho pra eu enxugar as lágrimas. Todos estão bravamente aguentando essa fase chatona da minha vida, com minhas conversas girando sempre em torno do mesmo assunto. Pareço um radinho de pilha enguiçado na mesma estação. Mas escutam a lenga-lenga com toda a paciência do mundo. Um amigo já me disse que está doido pra eu passar de uma vez pra ter mais tempo pra ele. Outra disse que já está planejando a viagem à Paris que faremos juntas. Outro disse que o embagulhamento tem solução. Outra já pensa nas comprinhas no shopping. Todo mundo vivendo comigo esse momento.
Então? Posso reclamar? Sou um bagulhinho feliz.
Feliz Aniversário, Antônio Carlos - por Alba Vieira
Adolesceu e ficou mais quieto. Logo sua personalidade se manifestou, mistura da mãe e do pai com pitadas de avós e tios. E, perto deles que tanto ama, passou a observar, calar e refletir sobre si mesmo e a vida.
Aprendeu com a vida, refinou seu olhar. As experiências lhe ensinaram e permitiram que mostrasse características marcantes de sua personalidade, bem cedo.
Independência, autodomínio, retidão de caráter, responsabilidade, intuição forte, teimosia, decisão, perseverança se misturaram a um espírito sensível, protetor, amoroso, dócil e inteligente. Experiência e trabalho são fundamentais para você.
E assim segue pela vida, guiado somente pelo que dita sua consciência, a força de sua mente, parecendo não aceitar as opiniões alheias. Mas, no fundo, você reflete, filtra, intui e segue fazendo seu próprio caminho.
Que sua estrada seja segura, florida, rica de experiências e o conduza para o que desejar e for melhor para você, sempre.
Parabéns de sua madrinha que o admira, ama e muito se orgulha de você. Beijos.
Da Vez em que Encontrei Jesus - por Flavio Braga
- Sim, sou eu.
- Oi, meu nome é Flavio e vim do futuro.
- Como assim?
- Sei lá. Só sei que eu ia visitar o Papai Noel. Saí de casa, fui para um ponto de ônibus, então parei o primeiro ônibus que passou. Perguntei “Pólo Norte?” e o motorista respondeu “Méier”. Então pensei: “Zona Norte, Pólo Norte, tudo fica para os mesmos lados da rosa-dos-ventos”, e entrei no ônibus. Só que acabei pegando no sono, e quando acordei estava aqui.
- Então você tem uma missão, meu filho. É coisa divina.
- Tenho não.
- Claro que tem! Você é um enviado dos Céus.
- Penso o contrário, mas tudo bem. Vou te avisar uma parada. Você fica fazendo milagre por aí, como andar na água, fazer cego enxergar, essas coisas?
- Sim, por quê?
- Cabeludo, para com isso!
- Por quê?
- Os romanos já estão de olho em você... tem gente do seu povo que tem uma inveja danada de você, abre o olho, rapaz. Conselho de amigo.
- Mas eles não podem me crucificar por eu ser um iluminado, digo, “O” Iluminado.
- Podem, e vão. Vai rolar sangue. Seu Sangue.
- Como assim?
- Já te disseram que você faz muitas perguntas?
- Como assim?
- Você transformou água em vinho ontem e bebeu um bocado ou você é assim mesmo?
- Desculpa, é que estou meio confuso. Peraê, eu realmente transformei água em vinho ontem, como você sabe disso?
- É que já escutei umas histórias sobre você.
- Hum?
- Longa história. Daria um livro. Uma Bíblia, de tão longa que é essa história.
- Mas você vem de quando no futuro?
- Pouca coisa, dois ônibus, 20 quilômetros e 2000 anos.
- Tudo isso?
- É. Mas faz esse favor para mim, fica fazendo esses milagres na moita, escondido, porque isso vai dar problema para você.
- Mas caí nas graças do povo! É todo mundo é gente fina. Eles gritam meu nome.
- Gente fina que vai preferir um ladrão a você quando você for julgado. Guarde bem esse nome: Barrabás.
- Como assim?
- Jesus, é meio complicado eu explicar essas coisas todas agora... mas segue meus conselhos, para evitar problemas futuros, para mim e para você.
- Por que problemas? Como assim?
- De onde venho, tem uma época do ano que comemoramos seu aniversário.
- Que bom! Mas qual o problema disso?
- É que uma data que teoricamente seria de reflexão virou um inferno! É computador vendido em 482x com uns juros exorbitantes, é Papai Noel descendo de helicóptero no Maracanã, é briga no supermercado por castanha, é aquela música insuportável da Simone... é complicado, Jesus, muito complicado...
- Vou ver o que posso fazer, mesmo sem saber o que é supermercado, helicóptero ou Simone.
- Tudo bem. Nem eu sei te dizer o que é a Simone. Posso te fazer uma pergunta?
- Claro!
- O 680 passa aqui?
Estou Lendo... Ten Little Niggers, de Agatha Christie- por Luiz de Almeida Neto
“A personagem que mais me fascina em todo o mundo é, sem dúvida nenhuma, Hercule Poirot. Adoro, e já li muitas estórias com ele. Quando comecei a ler este último livro, fiquei extremamente chateado quando percebi sua ausência. Contrariado, na verdade. Pensei em parar de ler.
Mas devo admitir que é, sem dúvida, um dos melhores romances da dama do crime. Fiquei fascinado por este romance também. Ela é ótima, e indiscutível, mas eu continuo não gostando de Miss Marple.
O livro é ‘O Caso dos Dez Negrinhos’, atualmente relançado sob a alcunha de ‘E Não Sobrou Nenhum’, que era, por sinal, o título, em inglês, do filme, lançado em 1945 e adaptado desta obra. Em português o nome deste filme é ‘O Vingador Invisível’.
Recomendo tudo, livro, filme... tem também uma outra adaptação de 1989, enfim, tudo. Sabe por quê? Porque o enredo é simplesmente impecável. De matar de inveja escritores medíocres como eu. Abraços.
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P.S.: Só não vão viajar muito na do assassino... ele é completamente surtado, não importa que pareça plausível o que ele diz. hehehehehehe.”
Um Alguém - por Passa-Tempo
Estou com um outro alguém,
Alguém que não me deixa,
Que está sempre comigo,
Mesmo que eu não queira.
É um alguém sempre presente,
Que, vira e mexe, quase sempre,
Constantemente me faz chorar;
Chorar de amor.
E nas horas mais difíceis está ali comigo,
E quando lembro de você, é quando não me larga.
Vai comigo aonde eu for,
Sei que hoje sou novo, e pouco importa a idade,
Enquanto esse alguém se chamar saudade.
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Florbela Espanca: “Amar!” - Citada por Penélope Charmosa
Amar só por amar: aqui ... além ...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!
E se um dia eu hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Reflexo - por Marília Abduani
no escuro dos meus olhos.
E o teu reflexo ficou em mim,
nítido,
a colorir o meu arco-íris com as tintas da memória.
Além desse mesmo arco-íris,
a minha alma voa,
e cochila sobre estrelas.
Nem o vento sopra nesses instantes
em que o meu olhar
bebe a luz dos teus.
A vida se detém.
Dor nenhuma alcança.
Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Ana
VOCÊ, MINHA VIDA
(ALBA VIEIRA)
Penso que sou como a espuma
Vindo a areia tocar...
Borbulhante brindando à vida,
Resultante de você, meu mar.
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As Nossas Palavras XXVI - por Alba Vieira
Vivenciamos o que Queremos Passar Adiante? - por DAS
Algumas pessoas concordam com nossas opiniões e outras não, mas será que vivenciamos o que queremos passar adiante? A gente ama ou tem todo esse amor de que falamos dentro de nós? Somos realmente capazes de perdoar? Quando pedimos perdão... é mesmo de coração?
É muito fácil julgar - e rápido também! - a opinião de outras pessoas, apontar o dedo pra um erro que não é nosso, ver a solução para problemas que não enfrentamos... dizer não chore, isso vai passar, quando nem sabemos a dimensão da dor daquele que sofre...
Pra quem está “de fora” a solução pra quase todos os problemas está bem ali, na cara! Como é que aquela pessoa ainda está passando por isso? Ela gosta de sofrer, gosta de chamar atenção pra si?... Olha lá, é tão fácil!
Isso, até passarmos por algo parecido e percebermos o quão difícil é! Mas até chegarmos a reconhecer nosso erro, já julgamos, já condenamos, já excluímos, já negamos a ajuda que poderíamos ter dado e talvez até amenizado o sofrimento do outro.
Bem, agora pense: se não fez pelo outro, é justo que façam por você?
É claro que sim! Devemos dar a mão a quem pede ajuda, a quem sofre, a quem necessita...
Mas e sua consciência, como fica?
Se você disser que merece... Bem, aquele que lhe pediu anteriormente, também achava que merecia...
E aí?
Cisma Primeva - por Leandro M. de Oliveira
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Não há sentido nesse banquete de mentiras, espere um pouco, vou escalar as paredes pra urinar no telhado. Por quem é que me trocaram quando estava a acreditar que só a mudança cabal do “status quo” salvaria minha pele? Papai Noel é um porco capitalista e a medida dos sonhos é a de quanto se pode pagar por eles. Não há regras nem pudores. Então vamos calçar nossas botas de chumbo e pisotear o canteiro florido, há mais estrume nessa terra do que em meu mundo concebia. Quero que você dance como uma bacante bêbada, vomite em mim, a revolta sou eu. Se quer salvar meu espírito é aqui que vai encontrá-lo, açaime meu corpo entre tuas pernas, possua minha carne com agressividade, nesse lugar repousa meu santuário. Invada-o! Ou deixe que os cães terminem sua valia. Quanto tempo faz não te vejo, quebrei os espelhos com fúria, ao ver que eles nunca traziam descobertas novas. O tempo tem sido líquido e esgarçado, como uma poça que seca lentamente. A cidade acordará, ela sempre desperta com aquele velho passo maquinal de fuligem e gente. Como passaram a sentir tanta aversão por si próprios? Que venha a sabedoria das coisas simples, para entender o mistério insondável de uma agressão mútua. “Amai o teu próximo como a ti mesmo”, palavras razoáveis para um messias, mas a grande morte exige uma motivação descente. Vamos derramar o nosso ódio contido, a besta nunca é escravizada, ou vive sob seus próprios ditames, ou morre em nome de sua ideologia. Ouvi notícias de um homem, era mais retido que um asceta e mais pacato que uma ovelha tosquiada, precocemente seus músculos atrofiaram e sua vida pereceu. Esse mundo é insano, se eu acreditasse na monogamia me acusariam de subversão. Queria estar com você todo o tempo, não posso ousar. Há ainda muitos botões por abrir antes que chegue a primavera. Tenho a vocação de um javali selvagem e o caos da noite primeira, não posso sorrir na fila do matadouro. Se soubesse, talvez escreveria um poema, como não sei, sigo ruminando os intermináveis dilemas até que a aurora violente o escudo da noite.
Amar a Dez Mil Metros de Altitude - por Violeta
Voo para o Rio de Janeiro
De repente já não estou aqui. Senti que me levas-te. (meu amor). Estou a bordo de um avião e rumo a uma distante cidade algures num outro continente. Estou dentro de ti, alguém que me ama. Sei que não devia estar. Sei que estou a mais. Tenho de voltar para casa. É urgente. Não consigo. É esta minha vontade (ou será a tua?). A tua vontade leva-me (meu amor). Por momentos estou mesmo contigo, levas-me no pensamento. Levas tanto de mim que quase me arrancas a carne dos ossos. (meu amor). Voltei a chorar com saudades tuas. Eu não te devia amar assim. Amar assim é errado. Este amor é errado. José Luís Peixoto repete 240 vezes “quero morrer”, eu repito “amo-te”, porque amo-te. Sinto que estás dentro de mim. Sinto que te entranhas-te na minha pele, na minha carne… (meu amor). Amo-te mil vezes. Amo-te sempre. Amo-te. O avião. Dez mil metros de altitude. Lá fora a temperatura é aterrorizadora, mas aqui estou viva e afortunada. (meu amor). Não estou aqui.


