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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Remake - por Leandro M. de Oliveira

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Um fabricador d’engenhos apanha suas invenções já inventadas, plageia a própria alma, dá seu âmago ao desatento que por aqui passou. Nada é original. Todo sacrifício é vão. Criador olha com retidão a criatura, não vê senão o eco perdido do abandonado caminho. O novo é uma casa antiga cujas paredes foram caiadas, no interior o sepulcro é o mesmo de tempos sem conta. Toda produção, toda expressão, é só um murmúrio da ânsia da vida por si mesma. Da vida que deveria ter sido mas, na perdição das horas lentas e ociosas, viu se achegar ao peito um pleno de impossibilidades irrevogáveis. Idealização frente à construção é deveras uma lida de menor esforço pra alguém tão exausto de ser ele mesmo.
E assim foi, o homem d’engenhos passou todo um dia (ou seria ano?) na clausura da cela à busca da revelação derradeira. Passou à memória seu legado, como passa um general à frente da tropa, como passa o pacifista frente ao tanque de guerra. Como pudesse fazer moenda do candial da vida pra erguer com ele a argamassa da resposta, conjeturou infância e velhice, mesmo sentindo-se desde sempre imune a condicionamentos temporais. “A única liberdade é esmerar um algo inédito, com vida insuspeitada, com estatura que se note. Quero sair desse teatro pra escrever minha própria peça, essa companhia tornou-se, ao longo de tantas temporadas, demasiado enfadonha.” Nisso pensava ele resignado enquanto arquitetava seu livramento. “Quero comer sem arrotar, doer sem chorar, amar sem morrer, sangrar sem doer... Tudo será possível àquele que cresceu selvagem, que o mundo não teve tempo hábil a gravar seus sortilégios de derrota no côncavo do peito nu. Ademais, existir é invariavelmente um assombro.” Desceu enfim até as catacumbas, ambicionando que de lá emergisse seu novo, se eterno incriado.

Chegando ao átrio, eis que então, crente e desavisado, aquele ser de indiferença e esquecimento confronta seu legado. Para o próprio assombro, descobre que é ele. É ele duplicado!
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Um comentário:

Ana disse...

Pelos eflúvios de Plutão e pelos labirintos de Hades você é levado e aqui nos descortina parcialmente sua jornada, com os olhos inertes e crus, enquanto sua alma se espanta diante do assombro de sua razão. Eu, Beatriz, te acompanho os passos dilacerados através desta impiedosa terra dos homens.