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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Meu Melhor Presente de Natal - por Esther Rogessi

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Naquele 23 de dezembro, acordei durante a madrugada e, na minha cabecinha de criança, contando apenas 7 anos de idade, fiquei sonhando acordado com o Natal. Eu não sabia bem o que era, porém ouvi os meus colegas do ‘Grupo Escolar’ contarem uns para os outros os pedidos feitos ao ‘Papai Noel’... E, timidamente perguntei-lhes:
– Quem é? Vocês têm um pai com o mesmo nome?
– Não! Seu bobo... Papai Noel é um velhinho que no dia de Natal dá presentes às crianças... Você nunca ganhou presentes dele não?
– Não... eu não tenho pai...
Imediatamente Hugo respondeu:
– Não é preciso ter pai pra ganhar presente do papai Noel!...
Perguntei-lhe:
– Não?...
– É claro que não! Eu não tenho pai, mas todo Natal Papai Noel me dá presente! - falou o Marquinhos, outro colega nosso, todo orgulhoso...
E perguntei espantado:
– Ah... Ele dá mesmo? Como é que eu faço? Como é que ele vai saber onde moro?
Hugo disse alegremente:
– Minha mãe me ajuda a fazer o pedido, me diz o que é melhor. Sabe? No Natal passado, eu pedi uma bicicleta, então a minha mãe disse que o Papai Noel era muito velhinho e que era difícil para ele subir o morro, carregando tantos presentes e, ainda mais, uma bicicleta pesada... Eu concordei com ela e pedi um carro bem bonito...
– E ele deu?
– Claro! Igualzinho ao que eu mostrei a minha mãe!
– Ah... Foi mesmo?

Fiquei pensando durante todo o dia... Como eu queria ganhar um presente... Quando mamãe chegou do trabalho – minha mãe trabalhava há dez anos na casa de um casal de médicos –, contei para ela sobre a minha conversa com os meus colegas. Ela ficou em silêncio, olhando para mim... E vi lágrimas escorrendo por suas faces... Perguntei-lhe:
– Por que a senhora está chorando, mãe?
– Por nada filho... É que eu cresci sem natais e esqueci de fazer você viver os seus... Perdoe-me, filho... Mas, o que você gostaria de ganhar mesmo?
– Um carro bem bonito!
– Vou falar para o Papai Noel, está bem?

Ah! Que alegria eu senti... Pela primeira vez, eu ganharia um presente do Papai Noel...
Papai!” Que palavra mágica! Boa de falar... Ah! Eu cresci chamando mamãe e só mamãe. Não sei do meu pai... Algumas vezes eu perguntava a minha mãe: – Mãe, por que eu não tenho pai? Por que eu não sou como as outras crianças?
Ela rodeava, porém não me falava a verdade.

Foi perdido em sonhos, com a alma agitada, que naquela madrugada abafada, no escuro do meu barraco, fitando o teto de zinco, me refrescando através dos chuviscos de uma chuvarada repentina que se fez cair... no descanso do desconfortável sofá sem pés rente ao chão, com um único lençol que eu tinha de optar entre forrar o seu plástico barato para não me esquentar as costas durante o sono ou me cobrir, me livrando dos pernilongos que brigavam entre si em disputa pelo meu sangue. Já passava das vinte e quatro horas. Havia uma casa de jogos próximo ao nosso barraco, que costumava fechar muito tarde, eu ouvia os comentários da vizinhança, que o seu fechamento se dava após as vinte e quatro horas... Ouvindo o barulho do fechar de portas, deduzi ser muito tarde... A minha mãe ainda não tinha chegado, porém eu não sentia medo, os meus pensamentos eram tão bons... Quantos sonhos!
Pelos furos do zinco, percebi pequenos raios luzentes, entrando e causando um efeito bonito no nosso barraco de dois cômodos. Os pingos fortes da chuva faziam-se ouvir no zinco... Era como se Deus estivesse a me falar em mensagem codificada: ‘Estou bem presente aqui, não estás só! Trago o céu para ti como presente de Natal, essas são as luzes de todos os natais que você não viveu meu filho!’...

Comecei a chorar mansinho. Eu era criança, não entendia... Mas, no meu coração, eu ouvia uma voz doce que, de repente, deixou de falar dentro do meu coração e inundou o nosso barraco, uma doce voz que soava forte; que se fazia ouvir como que fosse amplificada, enquanto o lugar simples e humilde ficava repleto de estrelas... O chão de barro batido, os poucos utensílios e projetos de móveis, a ‘minha cama’, tudo estava bordado por estrelas de luz tênue... Sou o teu Deus! O Pai dos órfãos e o marido das viúvas... Sou eu que zelo por ti e vou te dar o presente de Natal que, Noel não poderá te dar , não o receberás aqui, no morro, mas te farei descer o morro para recebê-lo, porque SOU o teu Deus!

Não sei se aquela voz se alongou ao falar-me... Foi um bálsamo para a minh’alma inocente e ansiosa, perdida em questionamentos mudos. A doce voz inundou não só os cômodos do nosso barraco, porém a minha alma... Adormeci ouvindo-a... não vi a minha mãe chegar. Acordei com ela me chamando, me apressando, pois iríamos passar o Natal na casa dos patrões da minha mãe – o casal de médicos –, algumas das vezes ela me levava para passar o dia lá... juntinho a ela naquele apartamento imenso e elegante.

O Dr. Fábio ficava olhando-me demoradamente... Algumas vezes era carinhoso... Eles não tinham filhos, a Drª Olívia – sua esposa– era estéril. Eles estavam em férias. E planejavam viajar logo após o Natal. A minha mãe também teria férias... Poderíamos ficar juntos por mais tempo. A família dos patrões da mamãe morava em outro país... distante, muito distante! Naquela noite de véspera de Natal éramos em número de quatro. Jantamos alegres e, em seguida, a Drª Olívia nos convidou para nos assentarmos junto à grande árvore de Natal, muito bonita e iluminada, com várias caixas de presentes embaixo... À vista de todos, o Dr Fábio calmamente me perguntou:
– O que você pediu ao Papai Noel, filho?
Olhei para ele muito sério e lhe respondi:
– Eu e minha mãe pedimos um carro bem bonito... Mas eu ouvi uma voz muito bonita e calma no meu coração dizendo que Ele era o pai dos órfãos e marido das viúvas e que eu não estava só... e que iria me dar um presente que o Papai Noel não poderia me dar, e eu teria que descer o morro para recebê-lo... Eu já não sei mais o que vou ganhar... Sabe o que eu queria mais do que qualquer presente doutor?
– Não, filho! Não sei... O quê?
O meu pai! O meu pai de verdade! Eu só tenho mãe...
Sem entender, vi o Dr. Fábio chorar como eu nunca pensei que um homem pudesse fazê-lo... Mesmo eu sendo tão pequenino, entendi que algo muito sério estava acontecendo naquela noite de Natal... E espantado vi o Dr. Pegar as mãos de sua esposa e lhe pedir perdão em pranto, a minha mãe nervosa colocou as mãos na boca e gritou:
Não! Não conte, Fábio!...
Fiquei mais confuso ainda... A minha mãe chamara o doutor simplesmente de Fábio... Ele não a ouviu e contou a doutora Olívia – a sua esposa – que eu era seu filho...
Não ficamos para a entrega dos presentes... mamãe me pegou e saímos rapidamente...

A minha vida mudou, a nossa vida mudou! Minha mãe não mais precisou trabalhar em casa de família, eu ganhei o pai que eu pensei não ter, o doutor Fábio me reconheceu como filho, nos deu uma casa decente, uma pensão para minha mãe cuidar de mim... E sua esposa, ao longo dos anos, lhe perdoou. Não se separaram. Não fiz a infelicidade deles, causei lágrimas, é verdade... Sem querer fiz a boa doutora sofrer...
Entendi que eu não deveria desejar presente algum na vida... Além do que ‘Aquela doce voz’ me deu... Ele cumpriu com suas palavras! A verdade sempre vence! Pois ela é amor, é fruto do Espírito de Deus e o amor vence o mundo!
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