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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Camping do Fim do Mundo - por Escrevinhadora

Eu tinha perto de 16 anos e quase não saía de casa. Meu pai, um homem antiquado e severo acreditava que lugar de mulher é em casa, que uma moça deve casar-se virgem e me trazia sob rédeas curtas (a década de 60, a pílula, a revolução sexual não tinham entrado na cabeça dele). Meu sonho de consumo era acampar. Algumas amigas de colégio já tinham acampado e vivam contando maravilhas sobre isso. Então eu me mordia de vontade.
Num fim de semana prolongado minha prima, mais velha que eu uns dois anos (ela já era maior de idade) ia acampar com duas amigas, acompanhadas pela mãe de uma delas. Eu não sei que milagre aconteceu, mas meu pai concordou que eu também fosse (acho que foi influência do meu tio, que prometeu que a prima tomaria conta de mim).
Então na sexta-feira, logo após o almoço, não sem antes ouvir um sermão do meu pai me garantindo que me moeria de pancada se por acaso eu bebesse ou fumasse (coisas piores que isso ele nem ousava supor que eu pudesse fazer), lá fui eu, cheia de expectativa e fantasias.
Chegamos ao acampamento no começo da tarde. O camping, na verdade, nada mais era do que um velho sítio que o proprietário resolvera transformar num negócio alternativo. Cobrava uma taxa de quem armasse barracas em seu terreno. Em troca, oferecia banho (água fria, de um pedaço de cano pendente da parede do lado de fora da casa), um único banheiro dentro da casa e um lugar pra lavar louça (dois tanques velhos nos fundos da casa).
Armamos nossa barraca e saímos pra um passeio de reconhecimento. Tinha chovido durante toda a semana e o terreno era um lamaçal só. O rio prometido na propaganda nada mais era do que um fiozinho de água, correndo sobre umas pedras cobertas de limo. O sítio tinha muito mais mato do que plantas. Mas eu, tão excitada com minha aventura, não notei nada de errado.
Até que me deu vontade de fazer xixi...
Para ir ao banheiro, era preciso passar pela sala da casa, que também servia como uma espécie de escritório do proprietário. O sujeito, por si, já era um tipo assustador. Moreno, pele muito queimada de sol, barba e cabelos compridos que ele trazia presos num rabo de cavalo, braços musculosos e cobertos de tatuagens (estrelas, dragões, espadas) e um vozeirão de trombeta.
A sala, escura e recendendo a incenso, era um museu anárquico. Havia caveiras na estante, teias de aranha pelos cantos, numa parede um quadro enorme que deveria ser a representação do inferno (homens e mulheres nus, se retorcendo sobre labaredas), uma coruja empalhada e mais uma infinidade de objetos estranhos e assustadores. (Depois vim a saber que o homem pertencia a uma seita que esperava o apocalipse, o fim do mundo que deveria ocorrer na virada do milênio. Misturava Jesus com John Lennon. Acreditava que no dia do Juízo o demônio despertaria de seu sono nas profundas do inferno e voltaria para um duelo final com Deus. Era vegetariano. Consumia e oferecia aos hóspedes que comungassem de suas crenças, um chá produzido lá mesmo no sítio, que possuía a miraculosa propriedade de purificar o corpo e preparar o espírito para o grande momento da transição.)
Mas voltemos ao desenrolar da história: atravessei a sala com as pernas meio trêmulas. Entrei no banheiro, fechei a porta e já ia me sentando no vaso quando levei um choque: na parede à minha frente, em tamanho natural, uma imagem de Jesus. Tentei abaixar a cabeça, olhar para um lado, para outro, não adiantou. Meu olhar era atraído pelo olhar hipnótico daquela figura. Impossível fazer xixi com Jesus me olhando daquele jeito. Apertadíssima, saí às pressas do banheiro e fui procurar lá fora uma moita que pudesse me servir. Encontrei uma, me abaixei e já estava me aliviando quando vi, bem pertinho de mim, imenso, verde, olhos esbugalhados, um sapo. Saí correndo, escorregando na lama, a calcinha que eu tentava erguer enquanto corria, se enroscando em minhas coxas.
A partir daí meu final de semana dos sonhos se transformou em pesadelo.
Vasculhei o sítio atentamente e descobri que havia sapos em todos os cantos, de todos os tipos, pequenos, grandes, verdes, marrons, cinzentos.
Dormi mal ou mal dormi todas as noites que passei lá. Depois de verificar se a barraca estava hermeticamente fechada eu me enrolava toda no cobertor, sem deixar nenhuma fresta. Mesmo assim, passava horas de olhos abertos no escuro, esperando que a qualquer momento um sapo fosse entrar debaixo das cobertas, subir pelas minhas pernas, pular em cima do meu peito. Xixi eu só fazia nas moitas, depois de examinar cada metro do terreno pra ver se não tinha nenhum sapo por perto. O resto eu nem fazia. Passei o fim de semana com a barriga inchada, cheia de gases, dura feito um tambor.
Minha prima, surpreendentemente, parecia muito relaxada, totalmente integrada ao ambiente (algum tempo depois descobri que era efeito do chá servido aos iniciados; na verdade, cogumelo alucinógeno, nada mais que isso). Não contei pra ninguém, porque não sou dedo-duro e também porque não queria ficar mal com minha prima.
Desde então, mais de 20 anos são passados. O mundo, felizmente, não acabou.
Mas eu nunca mais quis saber de acampar em toda minha vida.
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