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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Memórias de um Seminarista (Parte XIX) - por Paulo Chinelate

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Concomitante às perturbações políticas da nação brasileira, nossa vida em seminário segue a rotina usual só quebrada pela saída abrupta do nosso convívio de colegas, muitas vezes amigos chegados. A cada separação repentina cabe a quem fica a administração da perda.
Dá-se o nome de “ir para a bica”, o fato das saídas súbitas. O significado do cognome dado a este evento, conforme reza a tradição local, é de um sujeito que vai à bica para saciar a sede, escorrega e cai.
Vê-se que o sentido de queda não é aleatório. Associa-se ao episódio como derrota, ruína, perda e prejuízo. Há um quê de cuidados para não permitir muitos comentários sobre os afastamentos. Censura explicada, talvez, pela maledicência que daí pode advir ou, a meu julgamento, para evitar que companheiros simpáticos ao que “embicara” possam, sem razões maiores, seguirem os seus passos.
O certo é que eu analiso as reações de toda comunidade, já me colocando como um dos próximos candidatos a resvalar no “limo da bica”.
Iniciado o ano escolar, como de costume, é dada a partida aos ensaios de nova peça teatral. Meu papel, coadjuvante e de menor importância, com poucas falas, tem, porém, significado no enredo de “JULIANO, O APÓSTATA”. Peça que traduzia a saga dos primeiros cristãos ao tempo das perseguições.
Os cuidados da trupe na construção dos figurinos eram desde cedo tomados. Cada qual laborava, com base em um projeto, na construção dos capacetes dos soldados romanos, da coroa do rei, dos mantos, arcos e flechas, lanças, panos de bastidores etc.
Duas a três dezenas de companheiros estão investidos na façanha que apresentaremos em meados do ano. O interessante é que o Irmão Constantino, sempre solicito e amável, é severo o bastante para nos exigir que mantenhamos em segredo não só o enredo da peça como até mesmo o seu título. Não me recordo de que em anos anteriores houvesse vazamentos.
Eu farei também parte de uma esquete, geralmente humorística, que entremeia os atos da peça teatral permitindo que os bastidores sejam reformulados às exigências do enredo.
No cenário político os acontecimentos precipitaram-se: os militares, sustentados pela Igreja Católica e outras organizações da sociedade que clamam por ordem na ameaça anárquica, tomam a frente e o General Aragão Filho lidera, com as forças vindas de Minas Gerais, abafando qualquer levante a favor do infeliz João Belchior Marques Goulart, presidente perdido em querer transferir ao solo brasileiro um regime socialista.

De resto, rotina, rotina, rotina.

Junho desponta como sempre com os esperados festejos de São João, as apresentações teatrais tão aguardadas e a novidade: férias do meio de ano em família, dantes nunca ocorridas.
A apresentação teatral foi muito competida pelos convidados, como em todos os anos. Os trabalhos, tanto por parte dos atores como sonoplastia e iluminação, impecáveis. Só um acontecimento arranhou minha participação: enquanto aguardava a apresentação do terceiro ato da peça principal, e após ter concluído a exposição da esquete, estando eu e mais três colegas nos alçapões do palco, acendemos e “apreciamos” um cigarro retirado de um maço adquirido pelo contra-regras e usado pelo ator humorístico. Não contávamos com a ingerência do nosso Reitor Irmão Zeno Ângelo Camata, que certamente já pressentindo alguma peripécia nossa, nos pegou em fragrante. Nada foi dito, nada se escutou. Bastou seu olhar de inquisidor sobre os óculos redondos, grossos de aro fino para sabermos que estava tudo muito, muito censurável.
O tempo passou, saímos de férias e nenhuma consequência da peraltice praticada, aparentemente, teve curso.
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