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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A Saga de Ana e Escrevinhadora no Reino das Águas Claras - por Fatinha

Ana e Escrevinhadora durante muito tempo acalentaram um sonho: ir ao festival de música do Reino da Águas Claras. Ouviram dizer que rolava música de primeira qualidade, muita paz e amor, banho de cachoeira, um verdadeiro encontro espiritual com os gnomos e as fadas, além da oportunidade de conhecer o Príncipe Escamoso.
O pai delas disse que não liberava grana pra essas bobagens, então elas resolveram se virar. Ana arrumou um emprego de recepcionista numa academia de ginástica. Escrevinhadora dava aulas de aeróbica – tinha aprendido todas as coreografias assistindo ao vídeo de Jane Fonda. Nos finais de semana faziam pequenos bicos. Davam banho no cachorro do vizinho, limpavam telhados, consertavam encanamentos, calibravam pneus no posto de gasolina. Nada era penoso demais para elas.
Finalmente conseguiram juntar o dinheiro necessário. O pai deu a autorização com a promessa de que não bebessem, não fumassem, não se drogassem e não fizessem sexo. Foram comprar os ingressos numa salinha suspeitíssima do Centro da Cidade, descolaram uma barraca de camping de segunda mão, mas ainda inteirinha. Compraram alguns pacotes de miojo, biscoito cream cracker, água, latas de salsicha. Pediram emprestado, de joelhos, ao amigo Shintoni, o seu fusquinha 69. Ele concordou, ameaçando-as de morte caso dessem um arranhãozinho que fosse na lataria do veículo. Tudo estava perfeito. Até demais.
Murphy, de plantão, decidiu que não ia facilitar as coisas para as duas. Um dia antes da viagem, Escrevinhadora torceu o pé num arrojado salto mortal de costas. Teve que engessar. Ana, preocupadíssima, andava de lá pra cá como um leão enjaulado, pensando que ia acabar perdendo o festival por causa daquela irresponsável que não tinha nada que ficar se exibindo.
Escrevinhadora, guerreira que não chora, com medo de ser espancada pela Ana, logo que saiu pulando que nem um saci da sala de curativos, já foi dizendo que elas iriam de qualquer jeito. Ana abriu um sorriso de orelha a orelha e deu o braço para a outra se apoiar.
No dia seguinte, com o gesso ainda mole, colocaram tudo dentro do fusquinha e lá se foram cantando músicas de Beto Guedes estrada afora. Escrevinhadora, de navegadora, ia dando as coordenadas de acordo com o mapa que Shintoni havia desenhado.
Vira aqui, nessa estradinha de barro. Tinha chovido na véspera, a estradinha era uma verdadeira pista de rali. Será que o fusquinha tem tração nas quatro rodas? Não tinha. O carro derrapou, guinchou, soltou fumaça e atolou.
Ana, é contigo mesmo. Eu não posso sair desse carro, pulando num pé só, no meio da lama. Ana, bufando, arregaçou a calça, meteu o tênis novinho no atoleiro e embrenhou-se no mato para procurar socorro. Quarenta minutos depois, chegou com um velho, um menino e um burro. Escrevinhadora pensou que já tinha visto aquela cena antes, mas não lembrava onde.
Ana sentou-se ao volante, espumando de ódio, enquanto o velho amarrava o burro no pára-choque e o menino empurrava. Duas horas depois, o fusquinha desatolou e saiu corcoveando pela estrada.
Rodaram, rodaram, começou a chover de novo, e nada da tal da cachoeira que Shintoni tinha desenhado no mapa aparecer. Será que pegamos o caminho errado? Vamos pedir informação. Só se for para os bichos peçonhentos que habitam esse lugar.
Mato de um lado, mato de outro. Odeio a natureza! Escrevinhadora pediu pra ir ao banheiro. Putz! Você e essa sua bexiguinha! Vai no matinho mesmo. De forma alguma, tô com o pé quebrado.
De repente, vislumbraram uma fumacinha saindo do meio do mato. Olha lá! Onde tem fumaça, tem gente. Ana embicou o fusquinha numa trilha e deram de cara com uma tapera. De dentro dela emergiu uma figura estranha. Pronto! Deve ser uma psicopata assassina canibal. Vamos desaparecer sem deixar rastro.
Boa tarde. Será que a senhora deixa a gente usar o banheiro?
Fatinha apontou com a cabeça uma portinha do lado da tapera.
Escrevinhadora, pulando num pé só, enfiou a cabeça no vão da porta. Estava tudo escuro. Ela procurou o interruptor de luz. Não achou. Desculpe, mas, onde acende a luz?
Fatinha apontou para um candeeiro pendurado na parede.
Escrevinhadora iluminou o lugar. Era um cubículo com um cano saindo da parede – provavelmente um chuveiro - e um buraco no chão. Buraco no chão? Nem morta! Mas ou era o buraco ou o matinho. Escrevinhadora se resignou. Pelo menos o cubículo tinha porta. Começou a se preparar, quando olhou para baixo. Dentro do buraco, um sapo gigante a encarava. Virou-se desesperada para porta e levou outro susto. Nela havia uma pintura. Ela aproximou o candeeiro e viu que era a imagem de Jesus, tamanho natural, que a olhava fixamente.
E aí? Fez o seu xixizinho? Não deu, com um sapo me olhando de um lado e Jesus de outro, perdi a vontade.
Obrigada, moça!
Fatinha apontou para a trilha, virou as costas e sumiu dentro da tapera.
Será que a gente não vai chegar nunca nesse lugar? Chegamos. Olha quanta gente esquisita! Pára de reclamar e arma logo essa barraca. Já tá escurecendo e eu estou morrendo de cansada! Vamos comer biscoito com água e ir dormir!
No dia seguinte, as meninas se dispuseram a fazer o reconhecimento do terreno. Não conseguiram nem sair da barraca. Tinha um rapaz deitado na entrada.
Dá licença? Nada. Dá licença? Nada. Ana cutucou o cara. Nada. Será que ele está morto? Só me faltava essa: um defunto logo de manhã... Escrevinhadora deu mais uma cutucada nas costelas do cara com a ponta da bota de gesso. Perdeu a paciência. Meteu-lhe um chute.
Fininho acordou. Hei, não precisa chutar, não. Já acordei. Fininho, ainda deitado, olhou para as duas ninfetas. Seus olhos brilharam. Estava apaixonado.
Fininho era um ex-estudante de Direito que tinha largado tudo para levar uma vida natural. Vivia de artesanato, tinha renunciado aos hábitos burgueses como tomar banho e escovar os dentes, mas, em contrapartida, tinha adquirido outro, que lhe rendeu o apelido. Morava no Reino da Águas Claras há nem sei mais quanto tempo.
As duas, já irritadas, deram um empurrão no pobre do Fininho e foram procurar o lugar do festival.
Voltaram apavoradas com o que viram. Um bando de gente com aparência de drogada pedindo dinheiro, comida, água. Parecia o purgatório. A duras penas conseguiram voltar para a barraca. Ana ia à frente, distribuindo sopapos e puxando Escrevinhadora pelo braço. A última, coitada, ia pulando atrás.
Vamos comer alguma coisa e voltar pra casa imediatamente. Papai vai matar a gente se souber que viemos parar num lugar desses.
Quando chegaram à barraca, mais uma surpresa desagradável: ela tinha sido saqueada. Não sobrou nem um pacotinho de miojo pra contar a história. Pra completar, Fininho estava lá dentro. Tinha decidido que ia morar alí, com elas. Iriam formar uma comunidade, ter muitos filhos e viver em contato íntimo com a natureza.
Comunidade? Natureza? Filhos? Com você?
A viagem de volta foi num silêncio sepulcral. Não havia palavras que pudessem expressar a frustração, a raiva, a fome e a sede que sentiam.
Quando chegaram a casa, Ana se virou pra pegar as coisas no banco de trás. Quase teve um ataque cardíaco quando viu que tinham trazido do Reino das Águas Claras muito mais do que péssimas recordações: Fininho. Dormindo.
Como esse cara veio parar aqui? Sei lá. E o que a gente vai fazer com ele? Sei lá. Deixa ele aí mesmo. O Shintoni resolve. O carro é dele, o que estiver dentro também.
E assim foi feito. Fininho mora até hoje no fusquinha do Shintoni. Ele até já se acostumou com aquela companhia inusitada. Fininho mantém o carro limpinho, e de vez em quando vai visitar as meninas para renovar suas juras de amor eterno. Elas não se comoveram. Ainda.
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Visitem Fatinha
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