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sábado, 5 de dezembro de 2009

Memórias de um Seminarista (Parte XVII) - por Paulo Chinelate

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O novo ano que se inicia não deverá ser diferente dos outros anteriores. A rotina do internato é preenchida com muito estudo, missas e orações, retiros espirituais e, é claro, participações em jogos, disputas e campeonatos, desde o futebol, rúgbi e vôlei até os jogos de salão: xadrez, damas, carteados, pingue-pongue, sinuca etc.
Eu continuo expert em previsão do tempo. As setas da rosa dos ventos no cimo do dormitório dos noviços dão-me, através da posição do cata-vento adicionada pela direção das nuvens, a indicação se choverá ou não no dia seguinte. A pesquisa é maior quanto mais próxima houver a promessa de piqueniques, passeios, jogos.
Às quartas feiras temos livres as tardes para esportes ou trilha pela floresta. Portanto, nas terças o trabalho de pesquisa do tempo já está programado.
A grande novidade deste ano está sendo a participação maior em peças teatrais e esquetes. O Irmão Constantino, abnegado e paciente condutor dos peraltas adolescentes metidos a artistas, continua a tirar leite de pedra.
Por ocasião do encerramento dos semestres escolares de meio e final de ano são apresentadas seções teatrais. Os nobres convidados contam-se entre religiosos, políticos, fazendeiros vizinhos e moradores do entorno da fazenda que vêm usufruir conosco de momentos ansiosamente aguardados.
Apesar de eu participar de todas as atividades do juvenato, de ter passado como líder por Uberaba, sou tímido e retraído. Até mesmo assistir a filmes infantis de desenho animado faz-me ficar tenso e nervoso, ansioso com o destino dos personagens. Falar em público apresentando trabalhos - quer em sala de aula ou solando o cantochão nos recitais das “Vésperas” lá na capela - é para mim grande dificuldade.
Recebemos a visita de um Irmão Marista da província do Sul. Irmão Vital é o seu nome. Catarinense de porte considerável, tem em seu nome o que estampava em seu rosto vermelho e olhos de um azul celeste: expirava vitalidade.
Fará amanhã uma apresentação no salão de teatro sobre hipnotismo. Trabalha com letargia e paranormalidade. Procurou entre nós, fazendo testes, “cobaias” para sua apresentação. Fui escolhido tão logo colocou em mim seus olhos. Parece ler nossa alma. É psicólogo. Durante os testes que me coube fazer com ele acabou descobrindo meus problemas de timidez. Passou-me lição que deveria repetir para extirpar tal mal. Descobriu no dorso de minha mão direita, bem perto do pulso, como também na parte interna do meu polegar direito, duas verrugas que me causam muito desconforto. A do dedo prejudica, inclusive, a caligrafia. A do dorso sempre a bater em paredes sangrava amiúde. Passou-me lição urgente e sendo seguida, garantiu, em menos de quinze dias teriam sumido as aberrações que já me acompanhavam há anos. Eu já tinha feito antes diversos tratamentos inócuos, incluindo aí ácidos aplicados pelo “bondoso” Irmão enfermeiro.
No dia seguinte estamos eu e mais uma meia dúzia de colegas em cima, no palco, à disposição do “mestre”.
Entre diversas apresentações, a que mais surpreende perante uma plateia de mais de duzentas pessoas, é a imposição de mãos do Mestre Vital sobre pesada mesa e suspendê-la a considerável altura do solo. Em seguida, abaixada a mesa, nós seis auxiliares não conseguimos suspendê-la de forma alguma.
Outra impressionante demonstração foi testemunhar a interferência dele sobre um vaso de planta. Se seu rosto já é rubro por natureza, durante esta exposição ficou da cor de um tomate maduro. Espalma suas mãos em direção à planta a uma distância de uns dois metros, colocada que fora à beira do palco. Em pouco menos de minuto nota-se que a planta vai murchando defronte de nossos olhos.
Atravessou-me o pescoço com um grande alfinete e fez-me passear pela plateia. Retirou depois a peça de aço e novamente fui vistoriado pela curiosa plateia que estupefata não encontrou cicatriz e muito menos sangramento.
Diversas outras peripécias foram apresentadas: abraçados, dois a dois, nós éramos desafiados a desfazer o abraço. Um colega colocado deitado, tendo somente o calcanhar e a nuca apoiados em duas cadeiras, suportou três de nós sentados em cima dele sem ao menos vergar o corpo.
No mais, além de minhas verrugas se esfarelarem em menos de duas semanas, tudo corre sem grandes percalços.
Dentre todas estas amenidades e outras nem tanto tocamos o ano de 1963, só mesmo maculado pelas adversidades políticas que já permeavam o noticiário do “Repórter Esso”. O governo do “vassoureiro” Jânio Quadros está fazendo água. Há um desconforto político. O socialista João Goulart, nosso Vice-Presidente da República, tem praticado alguns atos que estão desagradando religiosos e militares.
Final de ano, vésperas de Natal, dá-se início ao nosso retiro espiritual.
Este ano seremos atendidos por um pregador Jesuíta. Homem sisudo, mas de coração brando.
Guardo, no entanto, grave impressão de suas pregações, principalmente quando afirmava que na porta do inferno existe um relógio cujo pêndulo, ao balançar, aponta para duas palavras escritas em cada lado: “Sempre” e “Nunca”. Significando, para quem cair no inferno, que nunca mais sairá e sempre ficará ali. Achei tétrica e inverossímil tal comparação. Não acredito em um Deus cruel que pune tão barbaramente seres ainda imperfeitos. No dia de confissões declarei a ele, pobre e singelo padre, minha visão sobre o Deus de amor que eu compreendia. Não gostou e pediu que eu rezasse para obter a minha conversão.
Chegam finalmente as férias em família. Posso desfrutar de vinte dias com meus familiares em Juiz de Fora.


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