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sábado, 10 de outubro de 2009

Memórias de um Seminarista (Parte XV) - por Paulo Chinelate

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CASA NOVA, VIDA NOVA!


Belo Horizonte. Como é desconhecida esta capital para os “mineiros” de Juiz de Fora! Não é à toa que nos apelidam de “cariocas do brejo”. Estamos lá, de costas para nossa capital e virados para Rio e São Paulo. Acho que vem daí a rivalidade também dos Cruzeirenses, Atleticanos e Americanos para com o nosso pobre Tupi Footeball Club.
Enquanto aguardávamos os transferidos de Mendes e os novos juvenistas para compormos uma só caravana, fomos conhecer os lugares mais pitorescos da capital mineira.
Mais uma vez o privilégio de tocar os pés no que seria o futuro Mineirão. As arquibancadas a meia altura de construção já nos deslumbrava. Fomos ao que seria o meio do campo. Tinha uma amostra em forma piramidal com as diversas camadas que formaria o subsolo do gramado: pedras graúdas, seguidas de outras menores até chegar à areia grossa, depois terra firme e enfim o gramado serviriam para os engenheiros projetarem o que seria o nível do segundo maior campo de futebol do mundo.
Visitar a Pampulha com seus murais, a lagoa e o seu vizinho aeroporto, bem retirados da cidade, foi um grande passeio.
Algo que presenciei ficou marcado em mim profundamente: Irmão Diniz, nosso futuro professor que iria conosco para Uberaba, nos levou à Faculdade de Letras onde terminara uma pós-graduação para pegar o seu diploma. Visitamos o grande complexo da Universidade Federal de Minas Gerais. Logo após esta visita, ele, Irmão Diniz, dirigindo a kombi em que viajávamos subiu um morro contendo casas muito pobres. Surpresa maior foi quando deparamos com diversas casinhas proletárias de tijolos. Muitas já prontas, outras pela metade e algumas nem tanto, com alguns voluntários, rapazes e moças a meter a mão no barro a erigir paredes. Ele fora o responsável técnico e mentor da grande obra de caridade destinada a substituir barracos de papelão e latão, ainda às fartas por onde a vista alcançasse. Pelos cumprimentos e depois despedidas, vimos muitas lágrimas, tanto dos trabalhadores quando dos futuros moradores. Fiquei sabendo então que seria a sua última participação naquele local de trabalho. Tinha tirado, logo que chegamos, farta quantidade de merenda distribuída a tantos quantos ali estavam. Creio que ele também, como eu e, aliás, como todos nós, sofria de suas perdas na vida.
Chegou o dia da viagem com a vinda do ônibus do Colégio Marista São José lá do Rio de Janeiro. Era uma grande jardineira, com seu bico comprido, trinta e dois assentos, todos ocupados por colegas chegados de Colatina-ES, Vila Velha-ES, Montes Claros-MG, Dores do Indaiá-MG e Patos de Minas-MG. Compúnhamos pequena comitiva, porém grandemente ansiosa pelo que nos pudesse aguardar em Uberaba-MG.
Algo interessante ocorreu nesta viagem. Dos dez contos de réis que ganhara do vovô, gastei um conto com o pintinho Lamparina e os outros nove estavam pesando em meus bolsos não acostumados a possuir tão “elevado” valor. Na primeira parada à beira da tremida estrada de chão batido que ligava a capital ao Triângulo Mineiro, comprei um pacote de balas e, não vendo nada mais útil, adquiri uma lata de azeitonas. Levando-a já aberta ao ônibus, ofereci aos colegas e estranhamente ninguém quis saber do meu regalo. Distraído com o chocalhar da estrada e da paisagem esvaziei a lata de quinhentos gramas, sozinho. Só sei que o resultado não foi bom. Não demorou muito uma cólica intensíssima me acometeu. Segura daqui e dali, não medi esforços para “determinar” ao motorista que parasse na primeira civilização que encontrasse. Foi o que ocorreu. Beira de estrada qualquer, às carreiras, adentrei um cubículo mal cheiroso instado como banheiro. O resultado foi sentido menos de um mês depois quando fui levado a um médico e constatada uma infecção na epiderme, por contato com algum lugar “sujo”.
O novo lar é lindo. Construção novinha cheirando a tinta fresca. Grandes e espaçadas salas de aula. Auditório de grandes dimensões. Uma capela especialmente construída com sistema de ressonância equilibrada para os corais que ali se apresentariam em missas solenes. Isto tudo em um grande sítio arborizado com piscina de água natural corrente e fruteiras diversas.
Não bastasse tudo isso, tínhamos a nossa disposição sete campos de futebol divididos entre si por frondosas mangueiras, localizados a pouca distância do seminário, no Colégio Diocesano de Uberaba, também dos Maristas.
Não consigo me esquecer do primeiro banho de piscina que fomos apresentados ao final do segundo dia. Eu, de calção novo, azul-marinho, a exemplo de companheiros que mergulhavam, decidi pular n’água. Mineirim dos bãos, diz o ditado, fica longe d’água. Constatei de imediato a razão disso. Novato na arte, senti a pressão da água em meus pulmões e ato contínuo aproximei-me da beira e pulei fora. Este pulei fora tem uma conotação bem própria: pulei sozinho, o calção ficou. Consegui, com uma entorse e um safanão evitar que o mesmo se afundasse e ali mesmo enfiei-o pernas acima. Envergonhado, não sei se do vexame ou da tinta azul que escorria pernas abaixo vinda do calção ex-novinho-em-folha.


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Um comentário:

Ana disse...

Paulo:
Adoro esta sua novela, que já está virando romance.
Abraço.