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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Espera - por Alba Vieira

Estou à deriva. Pensamentos invadem a minha mente e não se fixam. Não há obsessão que, pelo menos, direciona. Há um céu escuro e o mar bravio que joga a embarcação para onde quer. Não há bússola, não há farol, somente imensidão e vazio.
Quero ficar quieta, como quando temos medo de altura e ao atravessarmos uma ponte e nos darmos conta da altitude, nos abaixamos de cócoras no meio do seu trajeto e não há quem consiga nos arrastar dali. O encolhimento e a inércia parecem nos colocar a salvo. Mas, na verdade, é a morte prematura não experienciar o perigo.
Sei o que vem a caminho. Sei o que terei de enfrentar e a angústia da espera faz o fantasma ainda mais aterrorizante. Queria poder abreviar os dias e transpor essa dificuldade que toma grandes proporções por causa da expectativa.
Enquanto aguardo, parece que não consigo fazer nada direito. Os dias parecem nublados, o sol não consegue penetrar na minha alma, nem vem a chuva incessante para lavar de pranto as minhas dores e saudade. Estou alheia à vida. E afasto de minha mente o meu objeto de saudade. É como se relutasse em aceitar a dor da perda definitiva, pois que ultrapassado o tempo do luto, instala-se a ausência definitiva onde as lembranças rareiam e é como se a pessoa amada não mais nos acompanhasse no cotidiano, mesmo em recordação. É isso o que temo, é o que rejeito em aceitar e é o que será marcado com a exumação do corpo de minha mãe, quando se completar o terceiro ano de sua morte. Então terei que olhar para os seus ossos, os restos dos cabelos (que tantas vezes eu penteei e afaguei ao longo da minha vida), a ausência de carne, o reencontro com os despojos e também com a bonequinha que levou nas mãos quando partiu para a eternidade e que tem um significado simbólico tão importante para a família.
E ao olhar a morte de perto, o fim, bem diferente da simples saída do sopro do corpo que cedeu à doença, será impossível deixar de aceitar que ela se foi definitivamente como o ego que me acompanhou nessa vida e que tanto amei e agora é, paradoxalmente, só um espírito.
E assim, para quem a ama, sobreviverá como consciência apenas e lembranças.



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Um comentário:

Ana disse...

Emocionante, Alba, muito lindo!
Beijos mil!