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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




sábado, 1 de agosto de 2009

A Autora de Julho

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PARABÉNS, NINGUÉM ENVOLVENTE!
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Wordle: Autora de Julho
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Clique na imagem para ampliar.
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Imagem: Wordle
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Rodrigo de Souza Leão

Soube-se hoje, por intermédio de Clarice A., que Rodrigo de Souza Leão, participante do Duelos, faleceu no dia 2 de julho próximo passado. O caderno “Prosa e Verso”, do jornal “O Globo”, traz, hoje, matéria a respeito da vida e obra deste autor. Transcreve-se, aqui, parte do editorial deste caderno que trata do autor.
As letras sentirão saudade, Rodrigo, assim como seus leitores.



“Há quase um mês, dia 2 de julho, um ataque cardíaco matou o escritor carioca Rodrigo de Souza Leão, aos 43 anos. Ele estava internado numa clínica psiquiátrica há vários dias, a seu próprio pedido: sua esquizofrenia, detectada 20 anos antes, estava levando-o a surtos mais fortes, com os quais não conseguia lidar direito. Mesmo doente há tanto tempo, Rodrigo teve fôlego suficiente para escrever um elogiado romance, ‘Todos os cachorros são azuis’ (7Letras), um dos finalistas do prestigiado Prêmio Portugal Telecom deste ano. O Prosa publica, nesta edição, trechos de um romance inédito que Rodrigo deixou pronto, e que mostram a potência das palavras de quem transita na fronteira porosa entre delírio e realidade. O poeta Ramon Mello, que está adaptando para o teatro ‘Todos os cachorros são azuis’, escreve sobre a literatura do amigo.”
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Meu Pai que Não Está na Foto - por Rodrigo de Souza Leão

Comi distância nas pálpebras
Fechadas de minha razão
Pude sentir a minha Loucura
Sempre sorrindo de dentadura

Oro aos sãos que me querem
Tateando o Horizonte dentro
Daquela noite eterna
Em que me deitei em mim

Pra sempre quis estrelas
Quem sabe irei ser um dia
Aquela que adiante guiará
Meu pai no mar da poesia



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Renato Russo e “Índios” - por Kbçapoeta

Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha

Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda

Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer.

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
Esse mesmo Deus foi morto por vocês
Sua maldade, então deixaram Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda! Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura do meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
Que todas as pessoas são felizes...

Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos, obrigado.

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda! Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos
E vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.
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.Legião Urbana

Curral Eleitoral - por Alba Vieira

Estrada longa, de medo e desilusão
O desespero dá forças pra seguir
Buscando o sustento longe do terreirão
Deixando um pedaço de vida ali.

Seguem cansados, quase a desmaiar
Lutam com a fome que tenta impedir
Que deixem para trás aquele lugar
Única possibilidade de subsistir.

Cães magros acompanham a tropa.
Trôpega, na guerra contra a miséria
Essa gente tem coragem e procura a resposta
Pro abandono em que deixaram essa terra.

Tantos deixados ao acaso da sorte,
Dos pingos que às vezes caem do céu...
Políticos precisam e mantém a morte
Assegurando um novo mandato de fel.

Porque com esse povo ignorante,
Massa comandada que é deixada ao léu,
Os homens do poder se garantem
Quando os enganam só com um tantinho de mel.

A única saída é a consciência
Que só aflora se existe Educação.
Mas por aqui só temos a experiência
De ver o nosso povo mantido na escuridão.



Visitem Alba Vieira
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Fatos ou Fotos? - por Casé Uchôa

Se quero fotos, quero retratos,
Não quero muitos
Apenas o bastante para registrar os fatos.

Quero amigos interessantes
Pra toda hora, de todo jeito
Quero conversas edificantes
Quero Cultura, é meu direito!

Quero ser fútil de vez em quando
Mas nada grave, um deslize só
Quero falar, mesmo que não ouçam
E se alguém ouvir, quer coisa melhor?




...........Visitem Casé Uchôa
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Pense, Pondere, Antes de Anunciar! - por Esther Rogessi

Baseada na interrogação contextual do poeta João Batista Drummond: CONCURSOS LITERÁRIOS. VALE A PENA PARTICIPAR? Chego à conclusão de que, em verdade, por muitas das vezes, textos vencedores nos decepcionam...
E ficamos a perguntar: como pode? Outras tantas, a inspiração foi, por que não dizer, quase que momentânea – o premiado não tinha um potencial criativo em evolução, parando logo após. Ressalto também outro fato de suma importância, tanto para nós iniciantes, quanto para os consagrados e premiados: os organizadores de tal obra, antes de tudo, devem estar de fato ilesos de qualquer outra visão que não premiar a quem de fato o mereça, ter a honestidade de não se envolver emocionalmente ou de qualquer outra forma com quem quer que seja. Sou da opinião de que acadêmicos, tanto quanto os aspirantes a bela arte, são feitos da mesma massa e fazem OBRAS FISIOLÓGICAS, ou não? Portanto, devem-se esquecer os premiados, afilhados e observar-se a obra em si.
Aquele que se inscreve tem sonhos, esperança...
Apadrinhamentos existem – roubadores de ilusões –, de outra feita já participei de um concurso que logo entendi ter sido este organizado com o único intuito: promoção do site...
Minha decepção foi tanta que não mais depositei nenhum crédito no tal concurso e menos ainda nos organizadores do site. Não enviei meus dados para a dita etapa final, não li os e-mails a mim enviados, deletei todos e só não me desliguei do site em respeito aos leitores. O que é prometido em um concurso deve ser levado avante!
Pensar e ponderar, antes de anunciar, é preciso!



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Palavras Sábias - por Luiz de Almeida Neto

“Gatinha põe o dente no pescoço do rapaz, na dança do vampiro você se satisfaz.”
Gênio criador do compositor do Asa de Águia.



Durval Lelys
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La Rochefoucauld e os Aspectos da Virtude - Citado por Penélope Charmosa

O que tomamos por virtudes muitas vezes não passa de um conjunto de ações diversas e de diversos interesses que o acaso e a nossa indústria sabem ajustar; e nem sempre é por valentia e por castidade que os homens são valentes e as mulheres castas.
A virtude não iria longe se a vaidade não lhe fizesse companhia.
(...) Os vícios entram na composição das virtudes como os venenos na dos remédios. A prudência mistura-os, tempera-os, e serve-se deles eficazmente contra os males da vida.



In “Reflexões”.
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Fico no Aguardo - por Soraya Rocha

Já que o Gio resolveu continuar a combater
Este duelo eu vou assistir, pode saber!
De camarote vou me divertir a valer
E vou aguardar a contenda se resolver
Para lutar com aquele que vencer.
E não adianta implicar, Ana, que eu não vou te responder
Só volto a me manifestar quando só um sobreviver.



Resposta a “Santo Desafio, Batman!”, de Ana.
Referências: “Santa Paciência, Batman!”, de Gio
e “Desafio”, de Soraya Rocha.
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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Tema do Mês de Julho: Histórias Fantásticas

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Caríssimos amigos:
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Hoje foram publicados apenas os textos referentes ao Tema do Mês:
“Histórias Fantásticas” (sugestão de Alba Vieira).
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Participantes
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Clarice A. (2)
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Daisy
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Dan
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Saulo Rosa
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Muito obrigado a todos que colaboraram com esta “blogagem coletiva”!
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Um grande abraço!
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Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Ana

Como o Tema do Mês é “Histórias Fantásticas”, me lembrei desta história que li aqui, quando o Duelos estava iniciando, e que achei absolutamente fantástica! Adorei! Parabéns, Jorge!



O CANTO DA SEREIA
(JORGE QUEIROZ DA SILVA)

O canto da sereia existiu para mim! Ainda menino, em situação de coragem numa praia perigosa, pude constatar que eu nadava em direção a pedras, no mesmo momento em que a maré subia. O cansaço já tentava me parar e as braçadas não tinham mais a força necessária para me levar à margem. Eis que, de repente, um ruído à minha esquerda me assustou e me mostrou um grande peixe. Eu notava que existia uma corrente d’água e o peixe, para me orientar, fazia movimentos ritmados em direção a essa corrente, tão próxima de mim, a cinco braçadas apenas. Aí então, ganhando força, consegui chegar à corrente e de imediato ser levado até as pedras que me dariam a salvação. Cheguei à conclusão de que o canto da sereia, incorporada naquele grande peixe, exibiu-me o caminho para não morrer afogado.
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Um Sonho - por Alba Vieira

Desperta ofegante, com um gosto bom de beijo na boca, a pele aveludada, a cabeça nas nuvens, o corpo leve, renovado, com uma umidade doce no sexo, que a encanta e desconcerta.
Ao seu lado, dorme ainda a mulher, aconchegada entre as cobertas com o rosto calmo e a respiração tranquila, sua face emoldurada pelos cabelos curtos.
Senta-se com um sorriso nos lábios ainda molhados, o coração galopando e surpresa, recorda-se do sonho que tivera aquela noite. “Nele, era outra que estava com ela, que a olhava com os olhos penetrantes, puxando-a com doçura para si, envolvendo todo o seu corpo num abraço que a fazia estremecer. Sentia seu perfume, o toque das suas mãos ávidas procurando relembrar suas curvas, o seu calor a acordando de um sono profundo, inundando-a de um carinho que jamais esquecera. Foi tomada de um sentimento tão absoluto que soltou suas amarras e navegou no seu corpo, receptiva, experimentando novamente o mesmo amor que tinham vivido antes, se encharcando de doçura, com um prazer extasiante.”
Um prazer que ficou com ela. Seus dias eram felizes. Ela vivia um relacionamento estável com alguém de Terra e com uma Lua em Aquário que sendo generosa, toda meiguice e espontaneidade, guardava entretanto seu coração, que ainda inseguro do amor que lhe devotava, mesmo após tantos anos juntas, não se permitia uma entrega total.
Seu primeiro e grande amor, no fundo ela sabia que era a outra e que, soterrada no fundo de sua alma, havia ainda a esperança de tê-la novamente. Não era possível aceitar que um amor daquele, tivesse terminado sem explicação, que ela amasse outra pessoa e tivesse reconstruído a sua vida.
Não, ela sentia que ainda era seu e só seu o coração dela. E num cotidiano esquizofrênico, ela se dividia entre o amor que sentia e vivia na realidade daquele momento com a mulher amiga, carinhosa, descomplicada que estava com ela e o amor primeiro, vivido somente no íntimo, em segredo, pela mulher de longos cabelos, profunda, enigmática, com quem conversava em pensamentos e enviava sentimentos ardentes olhando o céu, mirando as estrelas e a lua cheia, ouvindo as suas músicas que, diariamente, insistiam em chegar aos seus ouvidos para que jamais a esquecesse.
Aceitava esta realidade que para ela era absolutamente normal, porque de fato, amava as duas pessoas, cada uma delas de uma forma, num universo diferente, as duas habitando o seu ser, inspirando-a e fazendo feliz.
Levantou-se então da cama, ainda imersa naquele universo paralelo, vibrante e apaziguada, trazendo aquela vivência só dela.
No banho, enquanto a água quente escorria pelas suas costas, relembrava cada instante, ainda incrédula, porque lhe parecia ter sido tudo tão real, como se a outra tivesse estado ali mesmo e houvessem se amado profundamente. Ela ainda podia sentir as impressões dos seus carinhos em sua pele, seu perfume no seu corpo, inconfundível, misto de presença e abandono, despedida e recordação.
Enfim, enquanto ensaboava as pernas, seus dedos trouxeram até seus olhos atônitos, neles enrolado, um fio de cabelo longo, um cabelo da outra, sem dúvida alguma, fininho e castanho-claro, testemunhando de forma inequívoca, a sua visita.
E, da mesma maneira como narrado no mito de Coleridge, ela se fazia a mesma pergunta.

“E se você dormisse, tivesse um sonho durante o sono, e nesse sonho você fosse ao céu, colhendo lá uma flor bonita e exótica e, depois, ao acordar, visse que a flor estava em sua mão? O que faria?”

O que faria agora?

E você, leitor, como agiria numa situação desta?



Visitem Alba Vieira
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Prenúncio - por Ana

Estava eu voltando do trabalho, por volta das 17 horas, indo para pegar o ônibus para casa. Quando estava atravessando uma das pistas internas da rodoviária, repentinamente me vi em outra situação.

Me vi, à noite, ao lado de uma lanchonete na própria rodoviária, olhando uma mulher loura que aguardava alguém. Então surgiu um Passat meio velho que parou ao lado dela e o homem que dirigia abriu a porta para que ela entrasse. Neste momento, o cenário mudou novamente: eu estava, então, num quarto de hotel e via o casal sentado na cama conversando. De repente, o homem levantou, tirou um revólver da cintura, atirou na mulher - que caiu morta na cama - e logo em seguida sentou-se novamente na cama e atirou nele mesmo, que caiu deitado ao lado da mulher. Fiquei olhando para os dois corpos feridos, ambos, no coração.

Então, de repente, estava eu novamente na rodoviária, na situação normal, mas já tendo atravessado a pista. Ao invés de me dirigir ao ponto do ônibus que me levaria a casa, parei para pensar. O que tinha acontecido? O que significava aquilo tudo? Seria um aviso? Se fosse, não havia acontecido nada ainda e eu deveria alertar a mulher a respeito do risco que ela estava correndo. Decidi ficar exatamente no local em que me vi antes, ao lado da lanchonete, esperar a noite cair e a mulher chegar para falar com ela. (Nem pensei que ela poderia me considerar uma louca de pedra e ter mais medo de mim do que do homem.)
O tempo foi passando... Às 20 horas resolvi questionar minha decisão. E se não fosse naquela mesma noite? E se fosse na seguinte, daí a uma semana, daí a um mês? Neste caso, eu estava ali à toa, não fazia sentido nenhum ficar esperando um fato que eu não sabia quando iria ocorrer. E se já tivesse ocorrido? E se não fosse nada disso, fosse apenas uma primeira alucinação de um quadro esquizofrênico que estava se instalando em mim sem que eu me desse conta?
Às 20:05 resolvi ir embora.

No dia seguinte, indo para o serviço de manhã cedo, li uma das manchetes expostas no jornaleiro:
POLICIAL MATA EX-MULHER PSICÓLOGA E SE SUICIDA
Comprei o jornal. Li a reportagem que descrevia exatamente tudo o que eu vira no dia anterior: o Passat, o local do encontro, a ida a um hotel para conversarem sobre o divórcio, os tiros nos corações, os corpos mortos sobre a cama. Mas nada me impressionou mais do que a hora em que eles se encontraram na rodoviária: noite anterior, às 20:15.
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O Menino e os Causos - por Clarice A.

Nas férias, a família, o pai, a mãe, os cinco filhos e uns amiguinhos das crianças iam para as chácaras que o pai comprara.
A primeira era longe, viagem de ônibus, trem e lotação, mais uns vinte minutos de caminhada até a casa, muito simples de telhas aparentes e chão de cimento. Água era de poço e energia elétrica ainda não tinha chegado por aquelas bandas.
A diversão era garantida e as crianças das casas próximas - e o próximo nem era tão próximo assim - vinham brincar com eles.
O dia passava rápido e à noite era a vez dos adultos aparecerem para uma prosa. O pai acendia uma fogueira na frente da casa e todos se sentavam em volta. As cadeiras eram para os adultos, as crianças sentavam-se nos degraus da varanda ou no chão (nas cadeiras só se sobrasse lugar). Conversa vai, conversa vem e o assunto invariavelmente enveredava pelos caminhos do assombro. Mulas sem cabeça, sacis, assovios e psius misteriosos no meio da noite, e ele, o mais assustador, com seus uivos horripilantes, pelos e dentes enormes, o lobisomem. Sim, alguns já o tinham visto, com esses olhos que a terra há de comer. Nas noites de lua cheia, ele andava à solta assustando e fazendo vítimas.
As crianças sentiam medo, juntavam-se umas às outras à procura de segurança - o medo compartilhado diminui um pouco. O menino, quarto filho do casal, era o mais medroso e os outros se aproveitavam disso para colocar mais medo nele. Quando as conversas iam por esse caminho ele protestava dizendo que não era hora de conversar essas coisas, mas ninguém lhe dava bola. Na verdade, essas coisas só se conversavam nessas horas. Que graça tem contá-las se não assustarão ninguém?
O menino era falante, inteligente, memória excelente e curioso. Alimentava muito bem seus medos, pois apesar de medroso não deixava de ler gibis de histórias de terror, zumbis, Frankstein e o temível Conde Drácula. Para dormir colocava o terço e o catecismo embaixo do travesseiro e rezava até o sono chegar, o que acontecia rapidamente.
Na roça, como eles chamavam a chácara, havia muitos morcegos e os irmãos sempre levantavam a dúvida de que algum deles fosse o Conde Drácula.
Quando iam deitar-se a mãe apagava as velas e os lampiões e o quarto ficava um breu. Durante um tempo os irmãos o assustavam, certamente para esquecer os próprios medos, mas cansados do dia de brincadeiras e muito próximos uns dos outros, alguns dividindo a mesma cama, adormeciam logo.

A segunda chácara era bem maior e, como a anterior, a água era de poço e também não havia luz elétrica. A casa simples bem no estilo da outra, um pouquinho melhor.
À noite, a fogueira, os vizinhos e os “causos”. A vizinha mais próxima era uma senhora de idade que vivia sozinha num casebre de estuque no sítio ao lado. Suas histórias tinham como protagonistas as cobras. A urutu cruzeiro - que, segundo ela, se chamava assim porque tinha desenhada uma cruz no alto da cabeça - era a preferida, embora também falasse nas jararacas. Uma vez entrou uma urutu das grandes em sua casa e foi para baixo da cama. O cachorro que a expulsou e perseguiu pelo mato nunca mais voltou.
O menino, quanto mais rezava, mais assombração lhe aparecia. Já não bastavam as noites de lua cheia e suas criaturas? Agora as cobras, que existiam de verdade - certeza absoluta - podiam aparecer até com o dia claro e ele se borrando de medo de dar de cara com uma urutu cruzeiro pelas trilhas que andava. Drácula não é conhecido por aqui mas, em compensação, cobras, escorpiões e os já conhecidos saci, mula sem cabeça e ele, o lobisomem que também era visto na lua cheia, a frase conhecida reforçando a visão: vi sim, com esses olhos que a terra há de comer.
O menino calçava a bota do pai para não ser surpreendido por um desses seres rastejantes e tentava em vão mudar de assunto com sua ladainha: não é hora de conversar essas coisas. Não dava para entrar porque ficaria sozinho lá dentro e na verdade queria estar ali, ouvir as histórias, nutrir seu medo.

O tempo passou, o menino cresceu, casou, tem filhas e o medo de assombrações ficou no passado. Espremido na classe média, as filhas cursando a faculdade, aposentado e trabalhando de segunda a segunda, o que agora é incrível, fantástico, extraordinário é viver com a grana curta, a violência, o desgoverno e as balas perdidas.
Saudades do lobisomem e do Conde Drácula.
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Apartamento 74 - por Daisy

“Você ligou para a casa da família Souza. Se quiser falar com o Dr. Paulo, ligue para 3335-0102 ou para 5554-0203 ap. 74. Obrigado”. Que estranho, pensou Marília, o que será apartamento 74?

E, como num filme, viu claramente aquela reunião no hospital, uns 15 anos atrás.

Já trabalhava lá há 3 anos, após ter se formado com louvor na Faculdade de Medicina. Era apaixonada pelo que fazia e sua vida era o hospital e o hospital; nada mais...
Esguia, pele clara e cabelos castanhos curtos ondulados que, volta e meia, caíam sobre os grandes olhos verdes amendoados; era muito bonita, mas passava desapercebida pelo modo despojado de se vestir.
Apesar de estar concentrada e atenta a tudo que estava acontecendo, quando ele entrou, seu coração começou a bater mais forte e descompassado. O que era aquilo?? Nunca havia experimentado nada parecido, nem mesmo quando namorou um colega da faculdade que era completamente louco por ela.
Alto, pele morena e cabelos escuros bem cortados que realçavam os olhos pretos e os lábios finos; era muito bonito e por onde passasse chamava a atenção. Não deixou de notar aqueles olhos verdes observando-o.
Já na primeira troca de olhares, podia-se detectar um magnetismo e uma atração imensa entre os dois. Não foi necessário muito tempo e já estavam conversando animadamente.
Paulo era um advogado conceituado, sócio de um dos maiores escritórios de advocacia da cidade, e estava ali a convite de um amigo médico que queria uma opinião jurídica sobre um projeto ambicioso de saúde do hospital.

Marília e Paulo começaram a sair e logo já estavam falando em casamento. Apesar de viverem em mundos totalmente diferentes, o amor era tanto que desculpava a falta de tempo, os atrasos, os plantões e as constantes viagens de negócios.
Casaram-se e, como sempre acontece no início de um relacionamento, a vida ia passando e construindo uma rotina confortável e segura; Marília absorvida pelo trabalho no hospital e Paulo constantemente viajando para acompanhar os casos mais importantes do escritório. Vieram os filhos: um menino com os olhos verdes da mãe e uma menina com os olhos pretos do pai.
O tempo ia passando e o amor arrefecendo. Nem Marília nem Paulo se deram conta do que estava acontecendo.

Numa de suas viagens, Paulo conheceu uma advogada com quem teve bastante contato e muitas reuniões para avaliação de alguns casos que estavam sendo acompanhados pelos dois escritórios onde trabalhavam. Sônia, que se separara há um ano, estava carente e encontrou um ombro amigo em Paulo. Ele, que também estava carente, sentiu-se renovado ao ver que estava sendo muito importante para ela.
Certa vez, foi Sônia quem viajou para as reuniões com Paulo. Após uma delas, saíram para jantar e conversaram tanto que quando se deram conta, já era madrugada. No dia seguinte, quando acordaram, estavam no quarto de um flat, felizes, confusos, amedrontados, mas decididos: um não conseguiria mais viver sem o outro.
Paulo atravessou uma fase muito difícil em casa, tendo que inventar desculpas a toda hora, até que resolveu comprar um flat, onde se encontraria com Sônia e onde, com o tempo, passaria a viver definitivamente com ela.
Sabia que não teria coragem de enfrentar Marília para uma conversa sobre separação. Então, decidiu deixar uma mensagem na secretária eletrônica de sua casa onde mencionava o número de um apartamento – o seu flat com Sônia. Tinha esperança de que Marília, ao ligar para casa e ouvir o recado, ficasse intrigada e viesse conversar com ele. Aí, então, seria mais fácil explicar tudo para ela. Só que isso não acontecia e o tempo ia passando, impiedoso.

Por outro lado, Marília, acumulando o trabalho com o cuidado com os filhos, inconscientemente, ia se afastando cada vez mais.
Um dia, houve uma reunião no hospital para que o novo coordenador fosse apresentado ao corpo clínico. Marília estremeceu quando avistou seu primeiro amor de faculdade, Plínio, indo em direção ao palco. Quanto tempo!!! Ele continuava o mesmo: aqueles olhos azuis, aquele cabelo louro já com alguns fios brancos, aquela pele morena.
Após a apresentação, durante o coquetel, Plínio veio falar com ela. Foi como se o tempo não houvesse passado. Marília, sem se perceber carente, foi ficando íntima. Plínio, que não se casara e sempre alimentara a esperança de um dia reencontrar seu primeiro amor, acolheu aquela intimidade com prazer. Conversaram sem ver o tempo passar. Plínio levou Marília para casa e ficou de telefonar no dia seguinte. Encontraram-se no hospital para almoçar; saíram para jantar outras vezes e quando perceberam, estavam num motel amando-se como dois adolescentes. Marília ficou muito mal, sem saber o que fazer. Plínio, sabendo que o casamento dela já não existia realmente, insistiu que ela conversasse com o marido sobre separação. Marília sabia que não conseguiria encarar Paulo para uma conversa dessas.
Resolveu, então, que ligaria para casa deixando um recado evasivo, contando que Paulo, ao ouvir, achasse estranho e a procurasse. Aí ela explicaria a situação.

“Você ligou para a casa da família Souza. Se quiser falar com o Dr. Paulo, ligue para 3335-0102 ou para 5554-0203 ap. 74. Obrigado”
Que estranho, pensou Marília, o que será apartamento 74?



Visitem Daisy
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Glauber e Buñuel na Terra do Surreal Usando Fragmentos de Outros Tempos Passados - por Dan

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Numa Terra em Transe, onde o Dragão da Maldade Batalha contra o Santo Guerreiro, nossos dois heróis, Arthur e Thelio, andam pela Via Láctea, por entre Cabeças Cortadas e Heresias, procurando o Discreto Charme da Burguesia. O que nossos heróis não sabem é que o Charme Discreto se perdeu nas fezes de uma burguesia que não é mais a mesma, ela mesma se perdeu, para uma outra que não é aquela. Esqueceram de falar que em Brasília existem duas torres também...

Tempos difíceis, tempos de ostentações, coronelismos daqui e dali. Num mar de sem fim.

Thelio olhou para frente andou pela Terra do Sol. Não viu nem Deus, nem Diabo. Conheceu o cangaceiro Corisco. Salvaram os passarinhos de frente. Soltaram da gaiola. Beijaram os beija-flores. Enquanto isso Arthur por entre os Sertões Veredas, numa zona estritamente modernizada, com ares de Refazenda encontrou-se com um Abacateiro que lhe ensinou a fazer renda, e a refazenda toda, por entre o espírito de São Thiago, no mesmo momento que a roubalheira corria solta no mercado da luxúria interna. Os Esquecidos caminhavam pelas ruas à procura de suas mães que trabalhavam em bordéis locais...
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Por entre Mulheres e Luzes em Andaluz, Os Palhaços e Giulietta assistiam assustados a uma dança de Espíritos que pelas Estradas da Vida guardavam o Sétimo Selo de Histórias Extraordinárias, levadas a cargo por uma produção de senadores que só faziam questão de seus ganhos no fim do mês com a Belle de Jour, grandes Subida ao Céu. Assim cansados de toda intriga palaciana nossos heróis se encontram outra vez na mesma Nave Que Va, e agora junto com Giovani Mariti, contavam Histórias de seus Retalhos da Vida para pessoas menos cultas e para pessoas sem muitas experiências nestes assuntos mercadológicos de latrocínios.

No final das quantas, Nossa Vida Não Cabe Num Opala, A Mulher Continua Invisível, Michael Jackson virou assunto de Globo Repórter, muito Além do Cidadão Kane, Há Poeira Nas Estrelas, O Caso Claudia não foi resolvido, A Terra É do Homem, Nem de Deus, Nem do Diabo e o Tempo Não Para...

Arthur, num grito soberbo de contestação, GLAMOU A TODOS:

- VIVA CAZUZA...

E Thelio?

Bom, Thelio é outro problema, saiu pelas esquinas, El Bruto, atrás de sua Viridiana, carcomido pela intolerância dos seres e saudoso de um bom vinho com queijo e marmelada, como nos áureos tempos do El Gran Calavera em 1949...

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Visitem Dan

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Ligeiramente Grávidos - por Esther Rogessi

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Noite de lua...
E eu, muitíssimo exausta, sentei sobre as madeiras amontoadas embaixo da árvore.
Carlos tinha pegado lenha seca na esperança de estruturar o que ele denominou ser uma fogueira – desajeitada arrumação de paus e gravetos, o cotidiano, a mesmice do dia a dia, tinha nos consumido a paciência.
Estávamos estressados... Um simples ruído, meio ao mato, nos sobressaltava, amedrontava.
Acostumados com a cidade grande e com toda sua peculiar agitação, com seus arranha-céus, buzinas de carros e o passar neurótico dos transeuntes a esbarrar em nós...
Aquele silêncio desmedido... Onde só se ouvia o chilrear longe e assustador das aves; o canto das cobras; o lamento tal qual o choro de bebês – das rãs – no riacho ao lado; as incontáveis luzinhas, na escuridão, como se fossem piscas-piscas – os vaga-lumes – nos levando a refletir... Se não fosse tamanho medo – diríamos ser: o céu na terra!
Estávamos em férias, nosso casamento estava uma loucura. Não havia entendimento. A nossa convivência estava se tornando insuportável. Não conseguíamos ver encanto algum em nada... Até mesmo à hora de dormir sempre havia uma desculpa para que não fôssemos juntos à cama... Um caos!
Resolvemos, então, viajar. Ir à fazenda de amigos que insistentemente nos convidavam...

Não tínhamos filhos, ainda. Carlos não os podia gerar por ter varicocele – varizes do testículo, muitos não têm válvulas no interior das veias do testículo para que impeçam o retorno do sangue ao coração: sangue drenado. Assim sendo, acontece o refluxo, no sentido errado, permitindo que este volte ao escroto, ficando parado e causando inchaço, vindo a formar a varicocele. Ah! Como eu queria ter filhos...
Isso afetava e muito a nossa vida em um todo... Principalmente sexualmente. Ele se julgava incapaz e isso estava levando-o a impotência sexual. Carlos tinha passado por uma cirurgia, porém sem sucesso até então.
Sabemos que a varicocele pode ocorrer em qualquer dos testículos ou em ambos. Comumente acontece do lado esquerdo, devido ao fato da veia espermática deste lado desembocar na veia renal esquerda por ser um ângulo reto, isto é, de 90°, sendo a pressão deste lado mais forte - mais alta - que a do lado direito, onde a veia espermática desemboca de forma oblíqua.
O grande sonho de ter crianças a correr na casa, de ser chamada de mãe... de sentir a sensação da gestação, passou de sonho a utopia... Sonhos, às vezes, são realizados... Carlos por vezes falava em adoção... Não! Não quero... Quero os meus! - eu respondia.
Tentava convencê-lo a usarmos a metodologia de inseminação artificial humana. Isto eu queria, seriam filhos nossos...
- Por que não, Carlos? Tentemos esta metodologia com o seu esperma! A criança será nossa, de fato! Quantos casos deram certo... Até mesmo com mulheres estéreis. Não o somos, você tem uma deficiência que pode ser tratada, resolvida em parte! O que importa é a nossa realização em termos filhos, em sabermos que o que construirmos não será vão. Teremos continuidade, descendência...

Assim, resolvemos viajar, dar uma oportunidade a nós mesmos, ao nosso casamento. Saímos em férias no mesmo período... E ali estávamos, rumo à fazenda.
Em uma noite fria e enluarada, meio ao mato... ouvindo o chilrear dos pássaros, o canto das cobras, e como se fossem bebês a chorar no riacho – as rãs – doce ironia do destino ou profecia através da manifestação da natureza...?
Só sei que o medo nos aconchegou, senti o hálito de Carlos bem no meu rosto, suas mãos como que a me proteger, protegendo-se... o calor da fogueira, desajeitada tanto quanto nosso casamento.
Senti ternura! Descobri que existia amor e muito amor entre nós...
Ali, no meio do mato, às margens do riacho, em noite de lua, nos amamos, fizemos amor...
Gozamos... férias acumuladas. Voltamos com sintomas estranhos e ligeiramente... Grávidos!



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Meu São José, Meu Fetiche - por Jorge Queiroz da Silva

Minha fé se mantém irredutível até hoje e sempre se fortalece com as minhas visitas ao Templo de São José, na rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, local onde pude sentir sua presença bem de perto, quase que fisicamente.
Em todas as turbulências de minha vida, era no silêncio daquela Basílica que eu encontrava a concentração devida e as respostas a todas as perguntas que eu fazia ao meu Santo conselheiro.
Foram nos diversos momentos de busca de uma nova carreira profissional que eu encontrei a segurança, nas tomadas de decisões e nos caminhos por onde seguir.
Sei, com bastante certeza, que ocupei tanto o meu protetor que ele acabou por me colocar bem junto dele, ali bem em frente ao Fórum, onde permaneci por mais de doze anos trabalhando num grupo cimenteiro.
Ali mesmo tive a oportunidade de confirmar, mais uma vez, a sua proteção e a certeza de que eu estava, verdadeiramente, sob seu manto e seu cajado.
Num determinado dia, em que fui convidado para almoçar com amigos de profissão num restaurante bem em frente à Igreja, estava eu me dirigindo para o restaurante quando fiz menção de atravessar a Rua Primeiro de Março e, não sei por que motivo, ao invés de atravessar, eu dei um passo para trás, o suficiente para que um carro de aluguel esbarrasse em mim e, em seguida, me jogasse para cima do seu teto, onde vivi segundos de incerteza.
Enquanto eu viajava no ar e pensava sobre o que seria de mim, em frações de segundos, pude sentir que pousava, de pé, na ponta da calçada.
Do outro lado da rua um senhor, mero expectador do fato, em aplausos gritava:
- Bravo! Bravo! Parece até um dublê de cinema!
Eu, muito assustado, ainda contemplei o táxi, que seguia em ziguezague a uns setenta quilômetros pela Avenida.
Passei a me observar, percorrendo rapidamente as mãos por todo o corpo, e senti que tinha sido apenas um grande susto, apesar de minha roupa estar amarelada do lado esquerdo, revelando a cor da tinta do carro nela impregnada. Apenas um pequeno corte no pulso, que nem sangrava e só ardia, provocado pela pulseira do meu relógio, me incomodava e firmava o que havia ocorrido.
Agradecido ao bom São José, não deixei de comparecer ao almoço combinado. Estive no restaurante com toda fé e galhardia e quando indagaram sobre as manchas na minha roupa, expliquei, prontamente, que eram do carro que havia me atropelado.
Com aquele fato verídico, eu somente posso crer numa coisa nesta vida: assim como temos o dia certo para nascer, também temos o nosso dia certo para morrer. Mas ainda posso afirmar que quem tem padrinho não morre pagão!



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Lá pelos 5 Anos - por Laila Braga

Sentado ali via aquele pequeno aviãozinho se movimentar nos céus manchados da cidade grande. Bolhas e pequenos rastros. Tudo estava ali parado disjunto e sem qualquer significação. E ali, sentado a olhar.

Olhar sempre me apareceu como estratégia. Tinha inveja dos autistas. Confesso-lhes que ainda a tenho em outras proporções. Sempre que podia exercitava o meu talento nato de olhar e me tornar alheio ao mundo. Mesquinhez que as pessoas têm de ser feliz. Mania atestada e abestalhada de querer coisas só pra poder querer mais depois. Eu não. Ali enquanto olhava com meus olhos de meninices – nunca entendi bem esse termo, mas meu avô sempre dizia: “pare de meninice” – e me tornava ausente, matutava com meus botões, não aqueles botões de ligar e desligar as coisas, aqueles botões que a gente tem dentro da cabeça, e que liga alguma coisa do cérebro e se desliga sozinho quando a gente dorme, sabe como é? Pois sim, estava eu com meus botõezinhos cerebrais tentando entender porque se perde tanto tempo reproduzindo alguma coisa. Sempre quando eu parava pra brincar com minhas coisas imaginárias, tinha alguém pra dizer “esse menino vai ficando maluco, coisa besta de enxergar ‘trens’ que não existem”. Nem sabem eles que tenho medo de trem. Nunca inventei um trem. Inventava outras coisas que já existiam. Inventava dentro da minha cabeça e quando eu tirava de lá ficava lindo, eram sempre perfeitas as minhas invenções. Parecia maluquice de criança, mas não era não. Eu enxergava, sentia e dava vida a todas as minhas invenções. E elas eram minhas, só minhas. Nunca gostei muito dessas coisas de compartilhar.

Quando eu inventava coisas que já existiam, as pessoas achavam maluquice, mas quando as pessoas perdiam seu tempo inventando coisas que já existiam, era coisa de gênio. Avião... Rum... Jeitinho mais feio de imaginar um pássaro grande. E se eu inventar um avião? Nunca que ele vai ser feio e malfeito daquele jeito. Não invento aviões não, prefiro inventar outras coisas. Certa vez inventei um barquinho. Chamo de barquinho por que era barquinho mesmo. Era cara de barquinho de papel que se parece com chapéu de soldadinho de chumbo, mas inventei-o pra me caber dentro e andar devagar sobre as coisas. Nada de avião: nem de papel, nem de nada. Até os de papel são rápidos demais, aí não dava pra olhar as coisas direito. E como sou um olhador nato, não gosto de inventar coisas que não me deixem olhar direito. Avião é pra gente grande, não pra gente alheia. Talvez eu tenha medo de avião, mas não é medo de cair não. É medo de coisa rápida mesmo. Igual trem. Se a gente se põe a correr, tem sempre alguém que vem atrás pra entender por que, mas se você fica quietinho? Ninguém mexe. Não mexe mesmo. Gente quietinha assusta outras gentes. Eu sei como que é, sempre fiz isso...

Continua...



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