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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Mito da Moral Superior - por Leandro M. de Oliveira

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A propósito da ideia de moralidade do indivíduo, há que se considerar inexatidão de qualquer gradação de valor imposta a ela num panorama de abertura. A palavra “moral” cria uma série de agenciamentos, de maneira geral é possível conectá-la com a ideia de um conjunto de regras, de uma orientação religiosa, de uma forma de relacionar-se em sociedade e daí por diante. Assim é a moral um produto das condições geográficas, políticas, temporais, emocionais e espirituais de cada qual. Tomando-se essa afirmação como positiva, é possível analisar fenômenos históricos de uma outra perspectiva. Por exemplo, os Espanhóis que aportaram na América Central no início do século XVI foram profundamente imorais ao impor sua moral cristã aos povos Maias que nada tinham haver com a mesma, e esses, por sua vez, cometeram o mesmo crime quando anteriormente à conquista europeia guerrearam abertamente com as tribos menores da região dizimando-as ou cooptando-as a seu serviço para a formação do império. Nos dois casos tudo pareceu lícito, tanto aos maias que pela glória de seu nome e da mãe Ixchel¹ subjugaram as pequenas tribos que nada entendiam de sua cultura superior, quanto aos espanhóis e antes ao sul os portugueses que em nome do bem (moral) cristão dizimaram povos inteiros por não serem compatíveis com suas aspirações ético-morais.

Dessa forma, poder-se-ia concluir que a moral é para o homem uma espécie de argumento criado por uma racionalidade não racional, ao passo que não é algo necessariamente descoberto do interior de cada um mas quase sempre absorvido através das condições em que se vive ou que lhe são impostas por uma força externa. Esse argumento objetiva, então, criar um conforto na consciência quando a práxis parece duvidosa, ou ainda nos conferir um sentido de superpotência, uma sensação de estar acima de qualquer instância do entendimento humano, permitindo ao ser que se imponha da maneira que lhe convier sem respeitar qualquer espaço comum. Essa segunda faceta da moral que licencia o homem a agir (às vezes bestialmente) vem produzindo ao longo da história episódios impactantes na forma de se perceber o mundo, bons exemplos estão no recém-findo século XX. Em amostra, quando se observa o fenômeno do nacional-socialismo alemão, não se vê em essência um grupo de monstros ou de qualquer outra sorte de criatura degenerada, o que se tem são homens comuns, que formam uma das nações mais culturalmente evoluídas do mundo que num determinado momento histórico sob a influência de acontecimentos e circunstâncias anteriores constroem e lapidam uma forma moral que lhes permite a tentativa da limpeza étnica, da invasão de outros países, da destruição de legados artísticos e sociais daqueles que não estão arrimados com a sua visão (moral) de mundo.

Os carrascos de Auschwitz só se tornaram carrascos porque foram derrotados pela história mas, se o vento tivesse lhes soprado a favor, hoje poderiam ser considerados heróis da raça humana e bustos de bronze poderiam ser erguidos em homenagem a tais feitos por todo o mundo. Talvez adaptando sua moral aos novos tempos, o vaticano poderia até canonizá-los como já fez algumas vezes com colonizadores das Américas e outros assassinos brutais. Nesse sentido, o crime nazista não foi a caçada de judeus, gays e ciganos, foi em última análise a inabilidade em fazer sua visão triunfar.

Assim, a moral prevalecente é antes uma afirmação política legada pelos vencedores da história, seja em um país, cidade, gueto ou nas nações unidas. É preciso abandonar o ideal imaculado de uma Aletheia² suprema, o bom e o justo que a nosso entendimento são dois dos responsáveis diretos pela produção da moral enquanto imperativo que orienta um determinado grupo, consubstanciam-se tão somente na legitimação de uma ideia qualquer, que na quase totalidade dos casos é alcançada pelo triunfo dessa ideia em seu meio. Por fim, não há moral fundamentalmente superior, todas são expressões da diversidade humana e merecem ser igualmente tomadas em conta. Budistas, católicos, protestantes, comunistas, homoafetivos, veteranos de guerra, hindus, vegetarianos, carnívoros... todos possuem uma raiz comum em sua percepção da vida, ao homem evoluído cabe adentrar esses meandros para extrair o melhor de cada um sem nunca encerrar o diálogo com todos. O que determina a abominação de determinada moral é tão somente o instinto de sobrevivência das demais.
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¹Ixchel – A principal deusa do panteão Maia.
²Aletheia – Do grego, verdade.
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