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quinta-feira, 6 de março de 2014

Estou Lendo... - por Escrevinhadora

Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago


“Estou lendo Ensaio sobre a cegueira. José Saramago é um pouco difícil, escreve tudo de um fôlego só, acho cansativo. E o próprio enredo é pesado, mas mesmo assim estou firme. Vamos ver ao final o que vou achar.”
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E você? Que livro está lendo no momento?
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quinta-feira, 1 de março de 2012

Pandorga Negra - por Escrevinhadora


Uma pandorga negra caiu do céu sobre o meu quintal
e aterrisou na minha árvore de Natal
sim, minha árvore de Natal é um pinheiro
fica lá fora o ano inteiro
só a enfeito para os festejos natalinos
atrás da nave de papel vieram os meninos
queriam pular o muro e resgatá-la, um troféu
felizmente eu tenho um guardão,
uma cão fiel que mantém meu território seguro
e a pandorga ficou lá a tarde inteira
a balançar no ar, negra bandeira.
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Escrevinhadora - set/2011
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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

É Bom Estar de Volta - por Escrevinhadora

Nestes tempos em que o Duelos esteve fora do ar publiquei um novo livro de poesias "Tubarões nunca dormem", escrevi quase que diariamente num blog "Insanosetalentosos" e, admito, senti muita falta do contato com o Duelos, do Gio, da Ana, do Shintoni, da Fatinha, da Alba.
É muito bom saber que estamos de volta. Recuperarei o hábito de visitar o blog todos os dias, de procurar avidamente pelas novidades, de comentar as postagens dos meus colegas virtuais.
E tentarei encontrar inspiração para escrever em dois blogs ao mesmo tempo.
Saudações literárias a todos os frequentadores destas páginas.
Escrevinhadora
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Duelando Manchetes XI: Homossexualidade (IV) - por Escrevinhadora

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Você como sempre, imbatível, absoluta, jogou a pá de cal na discussão. É por essas e outras que sou tua fã.
E parafraseando a Alba vou ficar com Omo, não só porque lava mais branco, mas também porque quero exercitar o direito de me sujar, de terra, de chocolate, de amor (e ser plenamente feliz).
Abração.
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Resposta - por Escrevinhadora

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Precisão cirúrgica, mas eu devo confessar um pecadilho: eu assisto ao BBB (assisto mas não voto, não gasto meu rico dinheirinho...). Assisto, mas entre um programa e outro leio livros, escrevo poemas, participo do Duelos, faço terapia e aulas de canto. Assisto porque uma grande questão me intriga: o que leva alguém a se submeter a tamanho grau de exposição. Não que acredito que dinheiro seja a resposta. O que vocês acham?
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Comentário a:
“Começou mais um BBB”, de Paulo Chinelate
e Resposta (I), de Flavio Braga.
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domingo, 16 de janeiro de 2011

Duelando Manchetes XI: Homossexualidade (III) - por Escrevinhadora

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Objetiva, lúcida, clara você colocou a questão nos exatos termos aos quais ela deve se restringir, sem as paixões equivocadas que muitas vezes prejudicam o debate. Sinto-me honrada por ter sido mencionada por você. Obrigada.
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sábado, 15 de janeiro de 2011

Duelando Manchetes XI: Homossexualidade (I) - por Escrevinhadora

O discurso a respeito da salvação da alma, por seu cunho religioso deve restringir-se ao âmbito das igrejas, que é local apropriado para esse debate. Para a sociedade civil, interessa que todos são iguais perante a lei, por preceito constitucional. E pelo cumprimento da lei devem zelar os que fazem a lei, o que a aplicam e os que a ela ficam sujeitos, ou seja, todos nós.
Por outro lado, a ideia de que a heterossexualidade por si só é santificada, não passa de um engodo. Primeiro porque em lugar algum está escrito que a danação advém exclusivamente do campo sexual. Na verdade, a danação está muito mais ligada ao desamor, a avareza, à falta de caridade e de respeito ao próximo.
Heterossexuais existem aos milhares que pecam diariamente, por desrespeito a seus parceiros, por promiscuidade, infidelidade, abuso de incapazes ou por irresponsabilidade em suas relações. Homens e mulheres que praticam sexo sem fazer uso de contraceptivos; que geram filhos e não os reconhecem; que criam filhos mas não os educam nem os preparam para a vida.
Do mesmo modo, a homossexualidade não é obrigatoriamente vício, dissolução, pecado. Centenas, talvez milhares de homossexuais vivem sua sexualidade com respeito a si mesmo e ao próximo, com dignidade, que é o atributo mais importante da pessoa humana. E de quebra, não geram filhos para relegar ao abandono.
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Resposta a:
Duelando Manchetes XI: Homossexualidade, de S. Ribeiro
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Duelando Manchetes XI: Homossexualidade (II) - por Escrevinhadora

Em momento algum também se pretendeu impor a homossexualidade a quem quer que seja. Se você é heterossexual, convicto e bem resolvido pode e deve viver livremente tua sexualidade. O que se postula é a igualdade de direitos, ou seja, que aos homossexuais seja permitido viver livremente sem que os dogmas de ordem religiosa se imponham sobre as regras jurídicas que garantem os direitos de todos. A Bíblia não é nem deve ser o único parâmetro para estabelecer critérios de definição da dignidade humana. E se a controvérsia te causa tanta repulsa, talvez o Duelos não seja mesmo um espaço adequado à sua argumentação, posto que você chama o debate de “brincadeira” e ameaça retirar-se. Ao que me parece, o Duelos é um espaço democrático onde todos podem manifestar-se. Quem não aceita argumentação contrária é você.
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Não à Morte - por Escrevinhadora

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Perdoem-me os amigos dos Duelos. Sei que este é um espaço democrático e que houve uma votação.
Sei também que a morte é um tema fascinante, por sua grandiosidade, por seu mistério, por nos colocar frente a frente com o medo inconsciente da nossa própria finitude.
Mas acho que o mês de dezembro não é adequado para se falar em morte.
Dezembro é Natal, é nascimento, é renovação. É o tempo em que os cristãos comemoram o advento de Jesus Cristo. É a época em que os não cristãos trocam presentes, enviam votos de felicidades, reafirmam a esperança no futuro.
A morte pode ser um assunto para o outono, ou o inverno. Quando as plantas perdem as folhas, os pássaros perdem as penas e até as cigarras deixam de cantar.
Mas dezembro não. Dezembro é verão, cânticos, luzes, festejos, confraternização. Dezembro borbulha como espumante sendo despejado numa taça.
Dezembro é o momento de enfeitar a casa, abrir o coração e celebrar a vida.
Porque enquanto houver no mundo uma mulher decorando uma árvore de Natal, uma criança esperando a vinda do Papai Noel, o milagre da vida triunfará sobre a escuridão da morte.
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terça-feira, 9 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher - por Escrevinhadora

Também não “engulo” o dia internacional das mulheres. Pra mim é a prova cabal de que as mulheres ainda são tidas como seres de segunda categoria. Necessitam de 1 dia no ano pra serem lembradas. Nos outros dias, em tantas partes do mundo, a todo momento, mulheres são violadas, espancadas, assassinadas sem que isso cause uma reação firme. Em algumas culturas, infelizmente, a agressão contra mulheres não só é aceita, como estimulada, a despeito de toda a evolução da qual nos orgulhamos. No Brasil, apesar da Lei Maria da Penha, o número de agressões contra mulheres é impressionante e algumas vezes a punição ainda fica na entrega de cestas básicas. Não precisamos de um dia pra comemorar nosso sexo. Precisamos de respeito, igualdade de oportunidades e reconhecimento das diferenças que nos separam dos homens mas que nem por isso nos tornam inferiores a eles.
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.Comentário em Servidão, de Camila Oliveira.
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Escrevinhadora

.A todos os amigos, frequentadores e passantes dos Duelos, votos de um Feliz Natal.
E que 2010 venha realmente novo e seja inspirador.
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.Visitem Escrevinhadora
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Camping do Fim do Mundo - por Escrevinhadora

Eu tinha perto de 16 anos e quase não saía de casa. Meu pai, um homem antiquado e severo acreditava que lugar de mulher é em casa, que uma moça deve casar-se virgem e me trazia sob rédeas curtas (a década de 60, a pílula, a revolução sexual não tinham entrado na cabeça dele). Meu sonho de consumo era acampar. Algumas amigas de colégio já tinham acampado e vivam contando maravilhas sobre isso. Então eu me mordia de vontade.
Num fim de semana prolongado minha prima, mais velha que eu uns dois anos (ela já era maior de idade) ia acampar com duas amigas, acompanhadas pela mãe de uma delas. Eu não sei que milagre aconteceu, mas meu pai concordou que eu também fosse (acho que foi influência do meu tio, que prometeu que a prima tomaria conta de mim).
Então na sexta-feira, logo após o almoço, não sem antes ouvir um sermão do meu pai me garantindo que me moeria de pancada se por acaso eu bebesse ou fumasse (coisas piores que isso ele nem ousava supor que eu pudesse fazer), lá fui eu, cheia de expectativa e fantasias.
Chegamos ao acampamento no começo da tarde. O camping, na verdade, nada mais era do que um velho sítio que o proprietário resolvera transformar num negócio alternativo. Cobrava uma taxa de quem armasse barracas em seu terreno. Em troca, oferecia banho (água fria, de um pedaço de cano pendente da parede do lado de fora da casa), um único banheiro dentro da casa e um lugar pra lavar louça (dois tanques velhos nos fundos da casa).
Armamos nossa barraca e saímos pra um passeio de reconhecimento. Tinha chovido durante toda a semana e o terreno era um lamaçal só. O rio prometido na propaganda nada mais era do que um fiozinho de água, correndo sobre umas pedras cobertas de limo. O sítio tinha muito mais mato do que plantas. Mas eu, tão excitada com minha aventura, não notei nada de errado.
Até que me deu vontade de fazer xixi...
Para ir ao banheiro, era preciso passar pela sala da casa, que também servia como uma espécie de escritório do proprietário. O sujeito, por si, já era um tipo assustador. Moreno, pele muito queimada de sol, barba e cabelos compridos que ele trazia presos num rabo de cavalo, braços musculosos e cobertos de tatuagens (estrelas, dragões, espadas) e um vozeirão de trombeta.
A sala, escura e recendendo a incenso, era um museu anárquico. Havia caveiras na estante, teias de aranha pelos cantos, numa parede um quadro enorme que deveria ser a representação do inferno (homens e mulheres nus, se retorcendo sobre labaredas), uma coruja empalhada e mais uma infinidade de objetos estranhos e assustadores. (Depois vim a saber que o homem pertencia a uma seita que esperava o apocalipse, o fim do mundo que deveria ocorrer na virada do milênio. Misturava Jesus com John Lennon. Acreditava que no dia do Juízo o demônio despertaria de seu sono nas profundas do inferno e voltaria para um duelo final com Deus. Era vegetariano. Consumia e oferecia aos hóspedes que comungassem de suas crenças, um chá produzido lá mesmo no sítio, que possuía a miraculosa propriedade de purificar o corpo e preparar o espírito para o grande momento da transição.)
Mas voltemos ao desenrolar da história: atravessei a sala com as pernas meio trêmulas. Entrei no banheiro, fechei a porta e já ia me sentando no vaso quando levei um choque: na parede à minha frente, em tamanho natural, uma imagem de Jesus. Tentei abaixar a cabeça, olhar para um lado, para outro, não adiantou. Meu olhar era atraído pelo olhar hipnótico daquela figura. Impossível fazer xixi com Jesus me olhando daquele jeito. Apertadíssima, saí às pressas do banheiro e fui procurar lá fora uma moita que pudesse me servir. Encontrei uma, me abaixei e já estava me aliviando quando vi, bem pertinho de mim, imenso, verde, olhos esbugalhados, um sapo. Saí correndo, escorregando na lama, a calcinha que eu tentava erguer enquanto corria, se enroscando em minhas coxas.
A partir daí meu final de semana dos sonhos se transformou em pesadelo.
Vasculhei o sítio atentamente e descobri que havia sapos em todos os cantos, de todos os tipos, pequenos, grandes, verdes, marrons, cinzentos.
Dormi mal ou mal dormi todas as noites que passei lá. Depois de verificar se a barraca estava hermeticamente fechada eu me enrolava toda no cobertor, sem deixar nenhuma fresta. Mesmo assim, passava horas de olhos abertos no escuro, esperando que a qualquer momento um sapo fosse entrar debaixo das cobertas, subir pelas minhas pernas, pular em cima do meu peito. Xixi eu só fazia nas moitas, depois de examinar cada metro do terreno pra ver se não tinha nenhum sapo por perto. O resto eu nem fazia. Passei o fim de semana com a barriga inchada, cheia de gases, dura feito um tambor.
Minha prima, surpreendentemente, parecia muito relaxada, totalmente integrada ao ambiente (algum tempo depois descobri que era efeito do chá servido aos iniciados; na verdade, cogumelo alucinógeno, nada mais que isso). Não contei pra ninguém, porque não sou dedo-duro e também porque não queria ficar mal com minha prima.
Desde então, mais de 20 anos são passados. O mundo, felizmente, não acabou.
Mas eu nunca mais quis saber de acampar em toda minha vida.
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fininho e seu Amor Impossível - por Escrevinhadora

Fininho era um maconheiro meio amalucado, porém inofensivo. Típico hippie de meados dos anos 70, sabe cumé? Muito cabelo, muitos ideais, pouco dinheiro e pouco banho. Não era vagabundo (só muito dorminhoco, sabe-se se lá se por sua natureza ou por efeito do fumo). Trabalhava num lava-rápido. Emprego ruim, salário pior ainda, mas dava pra viver e garantia carteira assinada. Não tinha muitos gastos. O pai morrera quando ele era criança e desde então vivia com a mãe numa casa simples, num bairro afastado. Dava parte do que ganhava pra mãe, pra ajudar nas despesas. O que sobrava era mais do que suficiente pra ele. Sua vida inteira era um marasmo. Sua vida financeira um marasmo, sua vida amorosa um marasmo, sua vida intelectual um marasmo. Não tinha dívidas, também não tinha economias. Não tinha namorada (magrelo, como indicava o apelido, branquelo, de inteligência curta e duro, onde ia arrumar namorada?). No geral detestava ler, só se interessava por leitura se o assunto fosse extraterrestres ou disco-voadores. Sua única diversão era a erva e com ela gastava quase todo o dinheiro que lhe sobrava. Só não fumava no horário de trabalho. Tinha medo de perder o emprego e ficar sem dinheiro para o seu sagrado bagulho. Quando ouviu falar no tal do festival de rock Fininho ficou alucinado. Pensou logo em alguma coisa tipo Woodstock, todo mundo peladão num clima de paz e amor. Correu comprar os ingressos (caros pra diabo, mas fazer o quê? Era um festival de rock, ele tinha que ir). Não pediu licença ao patrão pra faltar ao trabalho. Simplesmente resolveu ir e depois veria o que fazer. Enfiou-se num ônibus noturno e viajou horas a fio com a mochila nas costas. Durante a viagem, comeu biscoitos murchos que comprou numa parada. Numa outra parada, tomou água da torneira do banheiro. No meio da madrugada o ônibus o despejou na rodoviária de uma cidadezinha perdida no interior (aquilo não era bem uma rodoviária, apenas uma guia rebaixada onde o ônibus encostava e um cubículo escuro que servia de guichê). E o festival não era bem no centro da cidade. Era longe, muito longe e àquela hora não havia ninguém pra indicar o caminho. Fininho resolveu esperar o dia amanhecer e enquanto isso, aproveitou pra dormir mais um pouco, a mochila servindo de travesseiro. Ao amanhecer acordou e viu à sua volta mais uma meia dúzia de cabeludos que também dormiram por ali.
Pelas roupas e pelos cabelos, era evidente que também iam ao festival. Seguiram juntos. Pedindo carona, que só conseguiram de um sitiante com uma camionete velha, que exigiu que eles fossem na parte de trás, amontoados entre sacos de milho e engradados de galinha. A partir de um trecho da estrada o homem (um caipira muito desconfiado) os mandou descer dizendo que seu caminho não passava pela porta da fazenda onde acontecia o festival. Tiveram que seguir a pé, por uma estradinha barrenta e estreita. Durante a caminhada Fininho estava doido pra acender um baseado, mas se aguentou. Um pouco porque era muito tímido pra fumar na frente de estranhos e outro tanto por avareza mesmo. Tinha medo de mostrar quanto fumo estava levando e ter que dividir com seus acompanhantes. Chegaram à fazenda já no meio do dia, mortos de fome e cansaço.
Fininho logo foi fazer o reconhecimento da área. A fazenda era enorme, com muitas árvores, muito mato, muitos recantos onde alguém podia se esconder pra fumar sossegado. Não havia os peladões que ele esperava encontrar (a chuva da semana inteira tinha feito a temperatura despencar e quase todos usavam o mesmo uniforme: calças e jaquetas jeans). Os banheiros eram um completo desastre (um mistura fétida de urina e vômito emporcalhavam o chão). Mas o palco era uma beleza, grande, bem montado, equipado com uma aparelhagem de som da pesada. Fininho concluiu que os shows seriam muito bons e achou melhor descansar um pouco, pra aguentar o agito da noite.
Procurou um local afastado e deserto, curtiu seu fuminho, depois dirigiu-se para o espaço onde a moçada tinha montado acampamento. Recostou-se na sombra de uma barraca e dormiu por algumas horas. Quando acordou, viu pela primeira vez as três, paradas à porta da barraca. Duas morenas, uma delas com cara de brava e a terceira, bem loirinha. Cabelos longos e lisos, rosto fino, traços delicados, cara de santa. Fininho encantou-se pela moça assim que a viu. Ficou parado, olhando pra ela embasbacado, desejando se aproximar, falar com ela, ouvir-lhe a voz. Só desviou os olhos quando a morena de cara de brava deu-lhe uma encarada. Mas mesmo assim, continuou por ali, disfarçadamente admirando a moça. E quase não se afastou mais. Sumia de vez em quando pra fumar seu baseado, tomava um banho na cachoeira, ia assistir ao show, mas sempre voltava pra dormir. Começou dormindo na sombra da barraca mas depois, vendo que as moças estavam sozinhas, passou a dormir na porta mesmo, como que montando guarda. Não entendia muito bem o que aquelas três faziam ali. Estava na cara que não tinham nada a ver com aquele ambiente. E se arvorou meio que em anjo da guarda das moças (em especial da carinha de santa, por quem estava obviamente apaixonado).
Tanto zanzou por ali que acabou atraindo a atenção da moça. Trocaram algumas palavras. Ela lhe deu uma fruta, que Fininho aceitou prontamente (não estava em condições de recusar comida). Sentiu-se muito pobre e um pouco envergonhado por não ter nada para oferecer a ela. E foi ficando por perto, feliz apenas por conversar um pouco com a moça. Ficou sabendo que as três eram amigas de colégio e tinham ido atraídas unicamente pela música. As duas morenas eram irmãs. A de cara de brava era a mais velha e dona do fusquinha que as levou ao festival. A outra, mais nova, andava meio enrabichada com um sujeito fortão, de barba escura (com quem desaparecia no meio da tarde). A santinha era doida por rock e especialmente apaixonada por um astro pop americano que, obviamente, não ia aparecer pra tocar naquele fim de mundo.
E assim o tempo passou e chegou o último dia de festival. Perdido entre sentimentos contraditórios, alegria por ter curtido aqueles dias, a tristeza de saber que era o fim, Fininho fumou feito louco, até de madrugada. Depois, deitou-se na porta da barraca e dormiu. Dormiu e dormiu. Sonhou que alguém o chamava aos berros, que o sacudiam. Sonhou que acordava, entrava na barraca e ia dormir junto da moça. E acordou de susto, com a barraca despencando-lhe em cima, uma haste do ferro da armação acertando-o bem no meio da testa (na verdade, no meio de seu sono profundo, tinha mesmo entrado na barraca, as moças tinham feito de tudo pra acordá-lo e não conseguindo, resolveram desmontar a barraca mesmo com ele dentro).
Ao ver que aquele era o momento da separação, Fininho entrou em desespero. Queria dizer algo para a moça, não sabia exatamente o quê. De repente, lembrou-se de um poema que arrancara certa vez de um livro e que andava sempre dentro de sua mochila. Um pedaço de papel amassado com um poema de amor que dizia mais ou menos isso: “quando você não estiver mais perto de mim, nenhum fiapo de vida me restará para viver”.
Desajeitado, sem saber falar sobre a tristeza que estava sentindo, Fininho enfiou o pedaço de papel na mão da moça e se afastou rapidamente, sem coragem de ficar para vê-la partir.
Mas depois que as moças foram embora, Fininho arrependeu-se de sua covardia. Então, procurou pela fazenda inteira o fortão com que a morena mais nova saía. Encontrou-o e conseguiu arrancar dele (em troca de uma boa porção de erva), o endereço das moças.
Fininho voltou pra cidade. Retornou ao trabalho onde o patrão furioso nem quis ouvir explicações. Simplesmente o despediu (pelo menos foi generoso, pagou-lhe uma boa indenização).
Desempregado, mas com dinheiro no bolso, Fininho fez a barba, cortou os cabelos, arrumou-se todo e foi à procura da moça (o endereço não era difícil e Fininho conhecia bem a cidade inteira).
A rua ficava num bairro de classe média. A casa era muito ajeitada, um portão largo e guia rebaixada indicando a existência de um carro. Fininho ficou circulando na rua, sem saber o que fazer. O que diria para a moça? Falaria de seu amor repentino? E o que poderia oferecer a ela? Nem mesmo seu emprego no lava-rápido possuía mais...O tempo foi passando e Fininho desanimando.
Já fazia horas que Fininho dava voltas pela rua, quando a moça passou por ele, mas nem sequer o viu. Era o fim de suas esperanças.
Fininho deixou-se ficar perambulando pela rua e quando anoiteceu, aproveitando-se da escuridão, deixou pichado no muro em frente à casa o que julgava ser um recado.
Depois, foi a uma boca de fumo que conhecia, onde gastou quase toda a indenização em maconha. Daquela vez, só daquela vez, pra dar um realce (como se diz no jargão dos usuários) comprou também uma trouxinha de pó.
Tomou um trem e rumou para o subúrbio, onde enfiou-se no banheiro imundo de uma estação ferroviária para curtir sua desilusão.
Na manhã seguinte, quando a moça abriu a porta de casa, teve um susto de quase desmaiar. No muro em frente, em letras garrafais, a pichação dizia FININHO TE AMA.
Naquele mesmo instante, do outro lado da cidade, o corpo de Fininho dava entrada no IML, morto por overdose, numa parada sinistra na periferia.
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Um Churrasco e um Atoleiro - por Escrevinhadora

Formavámos um grupo na ginástica. Eu, uma amiga, dois sobrinhos dessa amiga (um rapaz e uma garota) e o professor de ginástica. Um dia fomos convidados por um colega da aula de aeróbica (que não era da nossa turma) pra ir a um churrasco. O churrasco seria num domingo, num sítio nos arredores de São Paulo e o convite era pra que nós fizéssemos uma apresentação de aeróbica (lembram-se daquela época? As fitas de videocassete da Jane Fonda, workout, alto impacto?). Pois bem, a ideia era essa. De imediato, pensamos numa coreografia e resolvemos ensaiar pra fazer bonito no dia do tal churrasco. Logo na primeira tarde de ensaio eu caí de mau jeito sobre o tornozelo e tive uma entorse. Voamos para o hospital mais próximo. Bota de gesso no pé direito e assisti ao restante dos ensaios desolada, sentada no chão, num canto da sala de ginástica. (Mas os outros ensaiaram e a coreografia ficou até bem bacana.)
No dia marcado, nos aboletamos em dois carros (eu, minha amiga e o sobrinho no meu carro; o professor e a sobrinha no carro dela) e lá fomos nós. Tínhamos encontro marcado com a turma do churrasco numa praça no centro da cidade. Só não sabíamos que a polícia e a cia. de trânsito tinham fechado algumas vias do centro pra um evento qualquer. Demos voltas e mais voltas. Chegamos atrasados ao local do encontro. Todo mundo já tinha ido. Alguém, mais diligente, tinha deixado pra nós um mapa. Tosco, mas era um mapa e lá fomos nós tentar segui-lo. Pegamos a Marginal do Tietê, depois a Fernão Dias (a estrada que liga São Paulo a Belo Horizonte). Naquele tempo, uma péssima estrada, pista simples, mal sinalizada, muitas curvas, tráfego pesado. Rodamos por uns 40 minutos e alguém chegou à conclusão que tínhamos passado do ponto marcado no mapa, que não era muito distante da cidade. Era preciso voltar. Eu, com o pé engessado não podia dirigir, então ao volante do meu carro ia o sobrinho da minha amiga, garotão ainda, mas habilitado. Pois bem, o meu motorista fez uma conversão proibida e perigosa bem no meio de uma curva de uma rodovia federal. Gelei no banco do passageiro (era a hora de perceber que algo não ia bem?).
Retornamos ao ponto marcado no mapa, que deveria nos levar ao sítio. Atravessamos o centro de uma cidadezinha, passamos pela periferia, chegamos a uma estrada de terra (detalhe, tinha chovido a semana toda, a estradinha de terra era lama só). Rodamos, rodamos e nada. Nem sítio, nem ninguém a quem perguntar, nem sinal de qualquer dos pontos assinalados no mapa. Estávamos perdidos no meio do nada e só havia uma chance de chegar ao churrasco: seguir em frente. É claro que também já estávamos mortos de fome.
De repente, bem no meio de uma subida enlameada, meu carro dá uma derrapada, desliza para o lado e para, perigosamente equilibrado num barranco, definitivamente atolado: pra frente não podíamos ir, sob pena de cair do barranco; pra trás o carro não obedecia. Desceram todos pela porta do motorista. Eu, com o pé engessado, fui a última a ser resgatada.
Por perto não havia nada, nenhum bar, nem telefone público (o celular ainda não tinha invadido nossa vida), nenhuma casa onde pedir socorro. E a chuva, como que adivinhando nosso sufoco, tinha voltado a cair.
Decidiu-se que eu, inútil com o gesso no pé, deveria voltar no carro com a outra motorista em busca de ajuda. Nós voltamos. Voltamos muito. Mas nada de encontrar alguém, ou o asfalto ou a cidade. Na verdade, acho que também nos perdemos. Nem sabíamos mais onde era o atoleiro onde ficaram nossos amigos. Já estávamos naquele estado em que uma mulher começa a querer chorar. E eis que surge na nossa frente um sujeito conduzindo uma carroça, puxada por um burro. Era o único ser vivo num raio de quilômetros e então foi pra ele mesmo que pedimos ajuda. O homem tinha caído do céu. Conhecia a subida do atoleiro. Disse que era comum os carros atolarem ali. E foi na frente nos guiando.
Um burro tirando um carro do atoleiro é uma ideia muito estranha, mas o fato é que ele conseguiu. Manobrou a carroça de jeito que a traseira dela ficasse alinhada com a traseira do carro, amarrou uma corda, gritou umas ordens para o burro e ufa!!! o carro saiu direitinho do lamaçal, dançando um pouco para os lados, mas intacto.
Sujos de barro, famintos, furiosos e frustrados, resolvemos voltar pra casa. Principalmente porque, assim que escapamos do atoleiro, passaram por nós dois carros com gente que já estava voltando do churrasco. Tinham chegado lá, comido e quando a chuva recomeçou, decidiram voltar com medo de que a estrada ficasse completamente intransitável.
Chegamos em São Paulo já passava de 5 e meia da tarde. Felizmente, em respeito ao sagrado costume paulistano de comer pizza no domingo à noite, a pizzaria do bairro já estava aberta. Compramos três pizzas gigantes e três litros de refrigerante.
Depois de saciados, todos quiseram assinar no meu gesso, pra deixar registrada a data.
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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ana Carolina, Você Nem Liga Pra Mim - por Escrevinhadora

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Para minha comadre M.
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Você não sabe como eu vim!
Atravessei a marginal, errei a ponte Transamérica
fui parar quase em Socorro
seu eu não corro, perco o show
cheguei meio passando mal, sentei no lugar errado
e você nem me viu na plateia.

Você não sabe que pra mim
o preço do ingresso é salgado
paguei estacionamento, só bebi água – muito cara –
usei batom, pus salto alto e meu vestido mais bonito
mas fiquei muito longe do palco
só vi tua cara no telão
e você nem ouviu os meus gritos.

Você não sabe que no fim
a volta pra casa é uma viagem
uma hora e tanto de estrada
com fome, com sono, frustrada
você ganhou os aplausos, eu nem foto autografada
e você nem sabe que eu existo.

Você não sabe, mas é assim.
Ignorada, não desisto
na tua próxima temporada de novo escondida no escuro
gritando, aplaudindo, encantada
vou esquecer completamente
que você nem liga pra mim.
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Eu Amo Livros... - por Escrevinhadora

Eu amo livros e leio assim: primeiro a contracapa (que já deve começar me conquistando) depois as orelhas, depois o prefácio (assim, devagarinho como quem vai desembrulhando um doce e experimentando um pedacinho) e só depois entro no livro mesmo. Às vezes, pra demorar um pouco mais, ainda leio os agradecimentos antes de começar a leitura de verdade.



Comentário em Meus Eternos Amores, de Ana.
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Vale Tudo, de Nelson Motta - por Escrevinhadora


“Acabo de ler ‘Vale Tudo’, a biografia do Tim Maia escrita pelo Nelson Motta. O texto é bom, claro, de fácil leitura e bastante fiel no relato da vida do Tim. Terminei a leitura meio perplexa, com a complexa personalidade do biografado: genioso e genial. Criativo, divertido, temperamental, explosivo, generoso, autodestrutivo, Tim Maia definitivamente era uma figura ímpar.”
 

E você? Que livro gostaria de resenhar aqui?
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terça-feira, 13 de outubro de 2009

12 de Outubro: Dia da Leitura - por Escrevinhadora

Domingos Pellegrini - Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século


“Hoje, além de dia de Nossa Senhora Aparecida e dia das crianças, é também o dia da leitura. Fiz questão de ler ao menos um texto novo: li o conto ‘A maior ponte do mundo’, de Domingos Pellegrini (está na coletânea ‘Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século’).
Me abstenho de fazer qualquer observação a respeito do dia santo e da criançada, uma vez que em relação a estes outros já deixaram registros.”



E você? Que livro leu ou está lendo?
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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Duelando Manchetes VIII: Educação de Adolescentes - por Escrevinhadora

Pois é, Chinelate. Também vi a matéria e fiquei perplexa. Penso que a professora deveria receber cumprimentos por sua ação pronta e didática. Mas como você mesmo diz, vivemos num mundo de inversão de valores. Os pais não cumprem a tarefa de educar seus filhos. E quando seus rebentos mal-educados recebem na rua o corretivo que deveriam receber em casa, sentem-se melindrados. A que ponto chegaremos?


de Paulo Chinelate.
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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Resposta - por Escrevinhadora

Já me senti assim, uma parte de mim deslizando pelo quarto, tentando abrir a porta, enquanto a alma sonolenta observava sem compreender o que o corpo queria fazer. Houve um conflito entre as duas partes que durou alguns minutos (éramos eu e o fantasma de mim mesma em luta). Quando as duas se juntaram, restou ao longo do dia uma sensação ruim, de que tudo estava desconectado, um sentimento de vazio inexplicável.



Resposta a Espera, de Ana.
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