Sozinho caminho à noite com meus cabelos enrolados. Ao longe, uma fogueira sutil. O mais é escuridão. Sigo à luz ou passeio nas trevas? Mãos nos bolsos, passos tranquilos e pensativos, observo as vidas que perambulam como eu. Mas a claridade mínima chama a atenção. Nunca vi luz por aqui. Vou até ela? Não sei... Mudar meu caminho por mera curiosidade? Mudar voluntariamente o rumo por causa do inesperado? Caminhar até o desconhecido, certamente pertencente a outro? Então paro. Nos meus olhos o reflexo estático daquela pequena luminosidade. Percebo que não continuarei minha rota usual. Meus pés estão fixos na direção do inusitado. Tento me persuadir a ignorar. Sem sucesso. “Então, vontade que vem de não-sei-onde, vamos lá.” Devagar, observando curioso, olhar prisioneiro, me aproximo. Ao lado das chamas, percebo que não são de outro: me pertencem. São coisas minhas que alimentam o fogo: desilusões, erros, decepções, tristezas, frustrações, dores, omissões, defeitos... Todas coisas nas quais tenho pensado ultimamente, resolvido comigo mesmo e com os que me cercam. Vejo queimar até as cinzas. Com a sola do sapato, devagar, disperso-as até serem pó que se mistura ao ar e some. Onde estou é fracamente iluminado e não há como voltar à escuridão anterior. Vou em outra direção, que me leva a novas situações e oportunidades: atravessei o portal que separa a noite do dia. Percebo, claramente, que os passos que dei do negror à fraca luz me mostraram que a curiosidade pode ser instrumento do destino, o inesperado pode esclarecer, o desconhecido pode trazer satisfação e, principalmente, que é possível ir consertando a própria imperfeição.
Texto cujos título e início foram utilizados para Perfeição - As Nossas Histórias I.
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