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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pollyana - por Fatinha

Querido Brógui:

Há décadas atrás, quando eu ainda era uma criança, li um livro chamado “Pollyanna”. Você já leu? Então vou fazer uma síntese: Pollyana é uma menina pobrinha, órfã, que foi morar com o avô rabugento numa montanha sei lá onde (detalhes assim eu não lembro). O fato é que a menina tinha tudo para que pudéssemos chamá-la de coitadinha, tinha tudo para ser rebelde, menor infratora, mas ela OPTOU POR SER FELIZ.

Pollyana inventou um jogo, o “jogo do contente”. Um Natal, quando ela ainda morava no orfanato, as crianças receberam presentes que vinham num barril. A ela coube uma muleta. Ela não precisava de muletas, então ficou feliz pelo presente exatamente por isso: porque ela podia andar sem usar as tais. Sempre achei isso muito bacana. Ser feliz mesmo quando a vida insiste em nos dar motivos para reclamar da sorte.

Não tenho uma vida como a da Pollyana, tô muitíssimo longe disso, mas há momentos em que me pego reclamando da vida e, cá pra nós, isso não tem sentido algum. De uns tempos pra cá, venho exercitando (com adaptações) o jeito Pollyana de ser. Continuo com minhas ironias (que é uma maneira toda especial de fazer graça com o que não tem a menor graça). Tenho ainda meus momentos de fúria, chuto perna de mesa e coisa e tal. Mas tento sempre encontrar o melhor ângulo de visão para o que me aborrece.

Ontem mesmo eu estava no Fórum, andando pra lá e pra cá, quilômetros e quilômetros naquele labirinto de Creta, pronta para encontrar o Minotauro a qualquer momento. Quando ensaiei um putaquepariu, rapidamente Pollyana incorporou e agradeci por estar ali, andando que nem uma cachorra. Agradeci por ter um trabalho que me garante uma graninha. Agradeci por ter pernas para andar. Isso me deu forças para voltar ao cartório e esperar para obter a informação que queria.
Nada na vida vem só com bônus. Isso é só para as ONG’s. Não sou uma ONG, infelizmente. Não posso ter o melhor de todos os regimes jurídicos (pronto: baixou agora a advogada). Traduzindo: não posso querer ter as benesses sem arcar com os ônus delas decorrentes.

Precisa acordar para ir trabalhar? Agradeça, você tem um emprego. Mas o dinheiro é pouquinho? Agradeça, você tem um emprego.
Seu ex-marido é um merda? Agradeça, graças a ele você teve seus filhos. Seus filhos lhe enlouquecem? Agradeça por eles terem saúde para isso.
Você queria ir à praia e choveu? Agradeça por poder ficar em casa arrumando seu armário. Agradeça por ter coisas para arrumar.

Então é assim. Agradeça sempre. Agradeça por tudo. Jogue o jogo do contente. Pollyana está certa.
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Eleanor H. Porter

terça-feira, 23 de julho de 2013

Trânsito no Rio - por Fatinha


Querido Brógui,

A segunda coisinha mais inútil (e previsível) do mundo é notícia acerca de como vai o trânsito na cidade. Só perde para aquelas previsões de final de ano feita por videntes.
Todo o santo dia, no horário de ida e de volta para o trabalho, em todas as rádios, ouço o repórter aéreo informar que a Radial Oeste está com o trânsito lento, por conta das obras no entorno do Maracanã. Há retenções na chegada à Praça da Bandeira e na altura dos Correios. O motorista também terá que ter paciência na Presidente Vargas na altura da Central do Brasil, na entrada para a Rio Branco e na Candelária. As obras de revitalização do Praça Mauá causam transtornos no viaduto da Perimetral e no Mergulhão da Praça XV, que está completamente engarrafado. Quem não é do Rio deve ter seus similares locais. Aliás e a propósito, desconfio mesmo da existência de um repórter aéreo diário. Deve ser tudo playback.
Não sei muito bem como funciona a cabeça de um engenheiro de tráfego (existe essa profissão?). Às vezes eles mandam uma bola dentro, como no caso das seletivas para ônibus. Cada macaco no seu galho, protegendo os pobres motoristas de carro particular das investidas dos motoristas de ônibus psicopatas. Outro dia fui perseguida por um deles, que conseguiu me dar três fechadas no curto espaço de um quarteirão. Estava o homicida em potencial em alta velocidade num horário que não dá pra passar de 20km/h, passando de uma faixa para a outra, espremendo todos os carros que se atrevessem a dividir a rua com ele. Um louco assassino. Queria eu ser tão louca como ele pra não desviar um milímetro e deixar bater. Mas como meu dinheiro não é capim e além disso eu iria causar mais um engarrafamento…
Se você pensa que com o carro parado minoram as chances de ser abalroado por um coletivo, engana-se. Redondamente. Quase tive um treco quando vi o retrovisor do meu veículo todo ralado. Provavelmente o motorista do ônibus resolveu verificar na prática se dois corpos conseguem ou não ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Não conseguiram.
Percebo também que, no mais das vezes, o que causa os malditos engarrafamentos não são as obras, nem acidentes, nem o excesso de veículos nas ruas, mas a mais pura e simples falta de educação e civilidade. Fechar cruzamento é um clássico. Costurar pra lá e pra cá como se isso fizesse alguma diferença, é outro. Todas as vezes lembro daquele desenho animado do Pateta motorista. Lembram? Quando ele entrava no carro, se transfigurava, virava um monstro? É a pura realidade. Quem não lembra, ou nunca viu, coloquei o link no “Fatinha viu e gostou” (Mr Walker e Mr Wheeler).
Beijocas, fique em paz.

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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Amigos - por Fatinha

Querido Brógui:

Recebi essa frase hoje:
“Meu pai costuma dizer sempre: quando você morrer, se tiver (feito) cinco amigos verdadeiros, então você teve uma vida notável” – Lee Iacocca

Fiz uma rápida associação ao que minha doce amiga Valerinha me disse outro dia. Ela disse que agora, ao conhecer uma pessoa, a primeira investigação que faz é quantos amigos ela tem. Concluiu ela, com a sapiência de sempre, que se a pessoa não tem nenhum amigo, tem algo de errado. Não ter marido, mulher, namorado, caso, ficante, não é tão desabonador quanto não ter sequer um amigo. Há algo de muito errado em uma pessoa que passa a vida toda sem construir laços com quem quer que seja, ainda que pensemos que há amizades pontuais, amizades com as quais perdemos o contato pelas contingências da vida, ainda que pensemos que nem todos os amigos se prestam a todos os papéis e a todas as ciladas que a verdadeira amizade impõe.
É isso. Sou uma pessoa agraciada por não poder contar nos dedos das mãos quantas pessoas eu considero como amigas, cada qual do seu jeitinho peculiar, cada qual ocupando um lugar bem distinto na minha vida, cada qual me fazendo feliz de uma maneira diferente.



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domingo, 20 de março de 2011

Pra Que Serve? - por Fatinha

Querido Brógui:
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Para que serve uma porta se ninguém bate antes de entrar? Essa é uma dúvida vivenciada por um monte de gente que conheço e que compartilha o mesmo teto com outras pessoas (por opção ou falta dela). Essa gente tolinha tenta, no mais das vezes sem sucesso, garantir um pouquinho de privacidade utilizando-se do singelo expediente de fechar a porta do cômodo no qual se encontra. Gente tolinha, sedenta por um minuto pra chamar de seu, que após a décima segunda invasão, começa a pensar seriamente que melhor seria retirar todas as portas da casa. Melhor ainda seria morar num loft, já que o espaço seria comum a todo mundo mesmo, evitando a ilusão de que a privacidade e a intimidade existem quando se trata de “família-a família-ê”. Eu sou mais heavy metal. Meto logo a chave na porta, mesmo correndo o risco de o invasor se sentir ofendido porque eu deixo claro que sua presença não é bem-vinda. Essa é a máxima expressão da máxima: “se tiver que haver opressor e oprimido em uma relação, eu serei a opressora.”
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Pra Que Serve? - por Fatinha

Querido Brógui:
Para que serve uma porta se ninguém bate antes de entrar? Essa é uma dúvida vivenciada por um monte de gente que conheço e que compartilha o mesmo teto com outras pessoas (por opção ou falta dela). Essa gente tolinha tenta, no mais das vezes sem sucesso, garantir um pouquinho de privacidade utilizando-se do singelo expediente de fechar a porta do cômodo no qual se encontra. Gente tolinha, sedenta por um minuto pra chamar de seu, que após a décima segunda invasão, começa a pensar seriamente que melhor seria retirar todas as portas da casa. Melhor ainda seria morar num loft, já que o espaço seria comum a todo mundo mesmo, evitando a ilusão de que a privacidade e a intimidade existem quando se trata de “família-a família-ê”. Eu sou mais heavy metal. Meto logo a chave na porta, mesmo correndo o risco de o invasor se sentir ofendido porque eu deixo claro que sua presença não é bem-vinda. Essa é a máxima expressão da máxima: “se tiver que haver opressor e oprimido em uma relação, eu serei a opressora.”
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Postado, originalmente, em 15/12/08.
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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Irmão Gêmeo - por Fatinha

Querido Brógui:

Há alguns meses eu havia feito o propósito de levar você para outro lugar. Hã? Levar você, Querido Brógui, para morar no WordPress. Bem, mudei parcialmente de ideia e, ao invés de levá-lo embora, criei um irmão gêmeo seu. Gêmeo bivitelino, não idêntico. Confesso que fiquei meio com preguiça de aprender a usar todos os recursos que o WordPress oferece, então, não dei muita atenção ao seu irmão (pobrezinho, tão novinho e já largadinho à própria sorte). Você era mais fácil de lidar. Percebeu a sutileza do “era”? Pois bem. Acabo de travar uma batalha para conseguir abrir o Terra Blog, agora cheio de novidades, cheio de guerigueri, cheio de coisa e tal. Uma hora depois, consegui acessar você, coitadinho, perdido, sozinho, nesse cibermundo tão cruel. Suei frio, só de pensar que nunca mais ia lhe ver. Tudo resolvido, dou de cara com o que? Um genérico do WordPress. A opção pelo básico já era. Sendo assim, já que estou sendo obrigada aprender a usar os recursos que são mais ou menos os mesmos, passarei a publicar você e o seu irmão gêmeo. Você fica magoado? Com ciúmes? Fique não. Você continua a ser o primogênito, e isso é uma grande coisa.
A propósito, estou tentando migrar para o blogspot, mas tá difícil. É muito complexa essa coisa de fazer mudança, acho que é por isso que moro na mesma casa desde que nasci...
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Postado, originalmente, em 10/12/08.
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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Dá Pra Rir no Inferno - por Fatinha

Querido Brógui:

Fui hoje fazer uma visita a uma amiga que trabalha na Saara. Para quem não mora no Rio, é um conjunto de ruas comerciais no Centro da Cidade. Não é O Saara é A Saara, uma sigla que não lembro o que significa. Se em condições normais de temperatura e pressão aquilo lá é a ante-sala do inferno, na véspera de Natal é o próprio inferno.
Sou metida mesmo. Bater perna pra mim tem que ser em shopping ou, no máximo, uma feirinha muderna, desde que em horários em que não seja obrigada ficar batendo chifre. Pago mais caro pelo produto, mas desfruto do ar-condicionado, do estacionamento, do quase que silencioso ambiente, coisa impossível no comércio popular. É, na Saara, em cada porta de cada loja tem um cabra com um microfone na mão fazendo a divulgação dos seus produtos. Tem noção? Some-se a isso a oitiva ininterrupta da rádio Saara, que consiste em alto-falantes que igualmente fazem propaganda do comércio local. As propagandas veiculadas pela rádio só não são risíveis porque não dá pra rir sendo pisoteado a cada três minutos e empurrado a cada dois. Não dá pra rir no inferno.
Na Saara você também tem o desprazer de se sentir monitorado como um meliante qualquer. Tudo bem, acho que o fato de existir uma criatura que fica de pé em cima de um banquinho no meio da loja ou na porta dela olhando o movimento denota que a quantidade de furtos praticados deve ser algo beirando a obscenidade. Mas, cá pra nós, é muito desagradável saber-se alvo de tão severa vigilância.
Temos ainda no cardápio Saara o esgoto correndo a céu aberto em algumas ruas e lojinhas vendendo lanches suspeitíssimos ao povinho porco que colabora com a imundície lançando guardanapos e copinhos descartáveis pelo chão.
Minha passagem pela Saara só não foi mais traumatizante porque consegui arrancar minha amiga do escritório para almoçar comigo e de quebra comprar os presentinhos de Natal das crianças. Retiro o que disse: dá pra rir no inferno.
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Postado, originalmente, em 08/12/08.
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domingo, 30 de janeiro de 2011

Fazendo a Energia do Guarda-roupa Circular - por Fatinha

Querido Brógui:

Todo final de ano é a mesma rotina: faxinão no guarda-roupa, separar roupas que não uso mais, roupas quentes para guardar pro ano que vem, abrir espaço e circular a energia. Minha filosofia nesse aspecto é bem clara: aquilo que não usei durante um ano inteiro é porque realmente não preciso, então, que vá para quem faça uso.
Comecei a fazer isso há centenas de anos, quando li no jornal uma entrevista na qual um ator dizia que, ao se queixar com um amigo de que não conseguia alcançar as coisas materiais que almejava, este lhe disse que deveria dar mais e acumular menos. É a tal da circulação de energia a que me referi. Segui o conselho e comecei a me desfazer de tudo aquilo que guardava apenas por guardar, com pena de dar. Um apego bobo. Com o passar do tempo, o prazer de fazer as doações foi aumentando e agora, quando faço a faxina de final de ano, o volume de coisas acumuladas é sensivelmente menor, já que o hábito ficou meio que automático. Sempre que compro uma peça nova, dou uma antiga.
Passo o conselho adiante: desapegue-se. É um exercício muito bom para sua espiritualidade. Se não quiser fazer isso em prol de seu espírito, que o faça pensando no lado material: quanto mais você doa, mais você ganha. O Universo tem essa regra, que não dá pra discutir.
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Postado, originalmente, em 07/12/08.
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sábado, 15 de janeiro de 2011

Pilotando Cadeira de Rodas - por Fatinha

Querido Brógui:

De volta aos teclados depois de algumas semanas às voltas com uma fratura de fêmur. Não o meu, o do papai. Encontramo-nos agora em fase de adaptação, mas tudo vai andando bem. Andando bem em sentido figurado, já que papai ficará de molho, sem pôr o pé no chão, até meados de janeiro. Com isso, estou agora desenvolvendo uma nova habilidade, qual seja, a de pilotar cadeira de rodas.
Não sei se você já parou pra pensar o quão trambolho é uma cadeira de rodas. A que eu aluguei é monstruosa, e olha que eu escolhi uma sem aqueles rodões traseiros que me obrigariam a arrancar todos os portais da casa, além de remover todo o mobiliário que a guarnece. Como papai não pode dobrar a perna, a miserenta da cadeira ainda tem a tal da extensão, aquele negocinho pra manter a perna esticada. Conseguiu imaginar as dimensões da coisa? E o peso?
Pois é. Nada mais me restou além de ter que aprender a pilotar o trambolho. Da primeira canelada até hoje, a coisa melhorou bastante. Já descobri as melhores rotas entre os diversos cômodos da casa, se o melhor é passar pelas portas de ré ou de frente, estou usando as luvas da academia pra não destruir minhas mãozinhas. Como apenas as rodinhas da frente têm jogo, não raro tenho que apelar para minha herança lusitana e levantar a traseira da cadeira pra poder fazer as manobras. Com isso, estou trabalhando os meus bíceps, que, dentro de dois meses, estarão tão poderosos quanto os da Madonna.
No mais, toda essa situação nos leva a rever nossos paradigmas. Ouvir meu pai expressar o desejo de voltar a andar como antes, considerando que o fazia (com muito sacrifício) com a ajuda de uma bengala, dá o que pensar, não?
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Postado, originalmente, em 05/12/08.
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domingo, 9 de janeiro de 2011

Telefone na Geladeira - por Fatinha

Querido Brógui:

Adoro uma frase feita, fazer citações. Dizem por aí que quem gosta disso é porque não tem capacidade de criar suas próprias falas, então repete o que os outros dizem. Sei não. Acho desnecessário tentar criar o que já foi criado e, com perfeição. Imagina ter que inventar a roda todos os dias? Sendo assim, se alguém já disse exatamente o que eu penso, porque me dar ao trabalho de ser original?
Mas, vez por outra eu tenho meus rompantes de criatividade e solto umas pérolas realmente interessantes para expressar o que sinto. Ontem, conversando com uma amiga pelo telefone, falei pra ela: “Eu já estou guardando telefone na geladeira.”
Pois é. Depois de sair do hospital, perder a chave do carro dentro do carro, morder a bochecha comendo uma bala, o ápice do desconcatenamento mental foi guardar o telefone na geladeira.
Meu pai está internado há doze dias (tá tudo bem, dentro do possível). Estou há doze dias sem comer e sem dormir decentemente. Comprei uma Coca Light no caminho de casa pra acompanhar um resto de pizza comprada no domingo. No trajeto vim ruminando toda a minha raiva contra uma pessoa irritante cuja única missão na vida é encher o saco dos outros. Vim decidida a ligar pra minha amiga a fim de pormos um ponto final na crise. O que fiz quando cheguei em casa? Peguei o telefone sem fio, abri a geladeira, tirei a pizza velha lá de dentro, guardei nela a latinha de refrigerante com o telefone e depois disso, fiquei uns quinze minutos procurando-o.
Bem, podia ter sido pior. Eu poderia ter colocado o telefone dentro do forno, junto com a pizza passada.
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Postado, originalmente, em 20/11/08.
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Depois da Queda, o Tombo - por Fatinha

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Querido Brógui:

Estou fora do ar por esses dias por conta da queda que meu pai sofreu com a conseqüente fratura do fêmur. Não estou muito no clima de fazer gracinhas. Você entende, não? Tá muito difícil vê-lo daquele jeito, deitado em um leito de hospital, morrendo de vergonha por não conseguir dar conta dele mesmo, pedindo desculpas a todo o momento por estar dando trabalho, sentindo-se tão impotente. A coisa mais marcante que ele me disse nesses últimos dias foi: “Minha filha, a velhice é uma merda!” Eu lhe respondi: “Só há uma alternativa para a velhice. E essa, ninguém quer.”
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Postado, originalmente, em 10/11/08.
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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

E Por Falar em Natal - por Fatinha

Querido Brógui:

E por falar em Natal, quem aqui nunca recebeu um presente nada a ver?
Começando pelo nefasto amigo oculto, uma solução boa pra economizar uma grana, mas sempre causa de profundas decepções. Há muito tempo que eu não participo de um, mas sempre acontecia a mesma coisa: eu me esmerava em comprar uma coisa maneira e recebia um treco que eu jamais em sã consciência teria coragem de dar de presente nem se fosse para meu inimigo oculto.
As situações mais embaraçosas são aquelas em que a pessoa toda sorridente diz pra você que o presente é a sua cara. Quando ouço isso tremo nas bases, porque lá vem bomba (eu tenho cara de bomba?). Como minha santa mãezinha me domesticou muito bem, eu agradeço, disfarço a decepção e penso: “Que que eu faço com isso?”
Eu mesma já devo ter dado presentes assim. Munida da mais singela intenção de fazer o outro feliz e acabando por dar um tiro na água.
Já sei. Você deve estar procurando no seu disco rígido quais foram os presentes dados a mim e tentando adivinhar se eu gostei ou não. Pode parar de se torturar porque você nunca vai saber mesmo. E também nem pense em parar de me dar presentes por causa disso, porque aí eu vou ser obrigada a escrever um diário-denúncia dedurando você.
Em retribuição ao carinho, mesmo não gostando da coisa, procuro usá-la, em homenagem à pessoa que me presenteou. Sim, Querido Diário, minha crueldade tem limites. Não é assim que funciona? O outro me faz feliz dando e eu tento fazê-lo feliz usando. Quando não dá mesmo pra salvar o presente – há casos irremediáveis como roupa pequena, ou uma bijouteria que vai deixar minha pele em carne viva – há solução. Vou trocar, passo adiante – nem adianta fazer cara feia porque duvido que você nunca tenha feito isso – ou simplesmente meto no fundo do armário e pronto.
Temos aqui em casa a nossa secretária do lar – nome politicamente correto para empregada doméstica – que todo Natal traz um presentinho para nós. Ficamos sempre comovidos porque sabemos o quanto o dinheirinho dela é curto, inversamente proporcional ao prazer que ela sente em nos presentear. Quando ela vem toda contente com o embrulhinho na mão, entramos em pânico porque a cada ano ela se supera trazendo objetos de decoração pavorosos.
Um ano ganhamos um porta-papel higiênico. Sabe aquele que a gente pendura os rolinhos na parede? Tem coisa mais cafoninha? Na minha escala de valores, está no mesmo nível da roupinha para bujão de gás ou o pano de prato calendário – aqui em casa não usamos gás de bujão, graças a Deus.
No ano seguinte foi um vasinho de flores artificiais cor de rosa com areia colorida também cor de rosa. De chorar. O problema das flores artificiais é que além de serem horrorosas não morrem nunca. Não secam, não apodrecem. Só ficam ali se enchendo de poeira e desafiando meu senso estético. E tem mais: tudo quebra, menos o tal do vasinho.
Esse ano, veio a pérola. Umas flores amarelas – artificiais também – submersas em um aquário, com os dizeres: “Jesus o segredo da paz”. Tem noção?

PAUSA PRA EU RIR, TÔ ME CONTORCENDO, O TROÇO É MUITO FEIO…

O pior é que não dá pra defenestrar as coisas. Ela vai dar falta e ficar magoada. Solução: deixar os enfeites enfeiando o ambiente e ela sorrindo. Muito justo.
Mas, vou confessar a você que eu e minha santa mãezinha já arquitetamos o plano maligno de deixar esses objetos ao alcance do João Pedro. Se ele quebrou o galo do Presépio que armamos aqui em casa desde que eu me entendo por gente, tenho certeza de que não vai falhar nessa nobre missão que vamos a ele confiar.
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Postado, originalmente, em 26/12/07.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Sofazinho - por Fatinha

Querido Brógui:

Não adianta mesmo. Eu não tenho jeito, graças a Deus, e consigo rir de situações nada risíveis. Tenho tido muito tempo para pensar, trancafiada num quarto de hospital fazendo o turno do dia. Como para fazer humor é necessária uma boa dose de mau humor, nada como uma situação desagradável para servir de inspiração. Eu sei, eu sei que eu disse ontem que não estava a fim de fazer gracinha, mas isso foi ontem.
Sentadinha no maldito sofazinho que fica no quarto do hospital, tentando me acomodar naquele objeto produtor de desvio de coluna, fiquei matutando acerca do porquê de, em todos os hospitais haver sempre o mesmo tipo de sofá. Quer dizer, em todos os que conheço (não muitos, por sorte). O treco é duro, pequeno, baixo, sem braço, um horror. Por que? Além disso, o sofá fica estrategicamente situado na frente da porta, ou seja, nem pense em se deitar, a menos que queira levar uma “portada” na cabeça.
Depois de muito meditar acerca de tão importante questão, concluí que o desconforto é proposital. Afinal, o acompanhante não está ali de férias, está para acompanhar o paciente. De acordo com essa lógica maligna, se o acompanhante ficar muito confortável, vai dormir a noite toda, o paciente vai querer alguma coisa, vai chamar, não vai ser ouvido e terá que apertar a tal da campainha para chamar a enfermagem. Consequência: o plantonista terá que se deslocar até o quarto para fazer o serviço para o qual é pago ao invés de esse serviço ser prestado gratuitamente pelo familiar. Faz sentido.
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Postado, originalmente, em 11/11/08.
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domingo, 12 de dezembro de 2010

Errata - por Fatinha

Demonstrando que “prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, resolvi fazer um comentário de mim para mim mesma, reformulando uma coisinha ou outra.
A primeira reformulação é quanto à incapacidade dos alunos. As limitações deles são mais uma questão formativa do que informativa. What? Os alunos, salvo raríssimas exceções, não são educados para aprender a aprender, daí a falta de interesse, as dificuldades na articulação dos conhecimentos e, o pior, o se conformar com o que é apresentado pelo professor em sala de aula, como se ele fosse o dono da verdade. Na verdade, repetimos um modelo pra lá de ultrapassado de “transmissão de saber” ao invés de “construção de saber”, milhões de vezes mais eficaz, mas que depende de vontade pessoal (do professor) e da tal da vontade política - os tais dos investimentos na educação que neguinho só lembra de falar nas vésperas das eleições. Aí a gente já poderia começar a discutir a valorização do professor, os investimentos nos recursos materiais que podem alavancar progressos rápidos - como o uso das novas tecnologias da informação - e por aí a conversa iria varar a noite. Não vim aqui escrever uma tese sobre o assunto, só vim dizer para mim mesma que não achei legal dizer que o aluno é incapaz. Foi deselegante e preconceituoso. Peço desculpas aos meus leitores por terem sido obrigados a ler isso. Perdão, de joelhos. Bem, talvez tivesse sido mais fácil pedir ao Shin que deletasse o post, mas quem disse que gosto de atalhos? Achei melhor escrever um “sobrepost”.
A segunda reformulação é quanto ao meu processo de emburrecimento. Se eu emburreci, não é culpa do magistério na escola pública, é porque em algum momento eu parei de estudar História - por motivos que não vêm ao caso. Nunca paro de estudar, minha cabeça é um liquidificador, leio três livros ao mesmo tempo, sou um brainstorm personificado, mas se o aprofundamento e a atualização na disciplina que leciono anda negligenciada, isso é responsabilidade minha, e não “do sistema”. Isso também não quer dizer que minha aula seja pobrinha, o que me leva ao próximo parágrafo.
A terceira reformulação é quanto ao volume de informações por mim selecionada para trabalhar em sala de aula. Nada de minimalismo. Eu falo tudo o que me vem à cabeça com referência ao tema a ser trabalhado, mando todos os links pra fora, tudo do que me recordo, faço trilhões de referências, cito livros, filmes, canto, conto piadas, faço perguntas, mando ouvir e escrever ao mesmo tempo. Os alunos ficam doidinhos, mas tentam acompanhar e ficam mandando eu parar de tomar Coca-Cola, pra ver se eu desacelero.
Então é isso. O resto permanece como antes: Ainda não li o livro da Jacqueline, continuo reconhecendo que quanto mais aprendo menos sei e continuo tentando conviver com a angústia de carregar dentro de mim tamanha ignorância.
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Errata ao post Nas Trevas da Ignorância, de Fatinha.
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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Nas Trevas da Ignorância (E Sem Lanterna) - por Fatinha

Querido Brógui:

Ontem fiz um programa super-ultra-mega cabeça: fui ao lançamento do livro de uma grande amiga, conquistada nos idos tempos da faculdade de História, isso há aproximadamente dois milênios atrás. Diferentemente de mim, ela dedicou-se à sua carreira de pesquisadora, enquanto eu enveredei pelos caminhos da sala de aula, depois faculdade de Direito, depois concursanda eterna, depois blogueira… Um dia eu descubro o que eu quero ser quando crescer.
Voltando à vaca fria, há muito tempo não fica tão clara a minha ignorância na matéria. É, eu sei que sou professora de História e isso deveria significar um certo domínio da matéria. No entanto, o fato é que, apesar de isso ser mais ou menos implícito, está a léguas de distância da realidade. O que eu sei é o basiquinho, pílulas de conhecimento, o suficiente pra encarar meu alunado, que, cá pra nós, é bem pouco exigente e bem pouco capaz (infelizmente).
Uma vez, um amigo disse que dar aulas em escola pública era um processo de emburrecimento. Não concordei na época, porque ainda dava aulas “cuspe só”, não passava matéria no quadro, me recusava a dar exercícios de decoreba, só aplicava prova discursiva, deixava metade dos alunos de recuperação e a outra metade eu reprovava. Eu acreditava que eles tinham que se virar pra estudar e aprender, como eu sempre fiz. Com o passar do tempo, caí na real. Não é assim que funciona. Comecei a selecionar criteriosamente o mínimo necessário a ser ensinado, mínimo esse que diminui a cada ano e ainda assim é muita coisa. Com isso, parei de estudar, parei de me aprofundar e parei de saber História. É isso.
Voltando à vaca quase congelada, em determinado momento, a conversa estava acontecendo e eu ali, entendendo nada, fazendo cara de inteligente, evitando falar besteira ou perguntar quem diabos era fulano de tal. Fui dar uma voltinha na livraria, li umas revistas em quadrinho, folheei um livro com fotografias de todos os cartazes de filmes da década de trinta, um pedaço do livro do Ariano Suassuna, outro de Fernando Pessoa, voltei para a rodinha e, corajosamente, encarei minha ignorância. Foi duro.
A propósito: o nome do livro dela é “Tempo negro, temperatura sufocante. Estado e sociedade no Brasil do AI-5”. Não li ainda, nem comprei, porque fui desprevenida (só eu mesmo pra ir ao lançamento de um livro sem dinheiro pra comprar o tal…), mas pretendo me livrar das trevas da ignorância assim que possível.
E pra deixar claro: eu sei o que foi o AI-5, tá legal? Ignorância tem limites.
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Postado, originalmente, em 05/11/2008.
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domingo, 14 de novembro de 2010

Ô, Preguiça! - por Fatinha

Querido Brógui:

Tenho andado com preguiça de escrever. Estava meio que me sentindo culpada por isso, afinal de contas, assim como a maioria das pessoas, fui educada para pensar que preguiça é uma coisa feia. Isso ficou tão arraigado em mim que até nos domingos, o dia universal da preguiça, eu levanto cedo para não fazer nada porque tenho a sensação de que não fazer nada de pé é menos ruim do que não fazer nada deitadinha embaixo dos lençóis.
Então, hoje estou assumindo publicamente meu lado preguiçoso, aquele que quer que o mundo acabe em barranco para poder morrer encostado. Não sem culpa, é claro. Anos de terapia ainda não conseguiram me livrar desse sentimento cada vez que sucumbo ao doce far niente.
Muito a contragosto, liguei o computador pra dar uma olhadinha na minha caixa de entrada. Vixe! Coisa que não acaba mais, deu até vontade de chorar. Deixei isso pra amanhã, no melhor estilo Scarlet O’Hara e fui cair na página do Mário Quintana, de quem eu sou fã. Sabe o que eu achei? A seguinte frase: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.”
Fiquei aliviada. Se Mário Quintana que é Mário Quintana vê algum valor na preguiça, não sou tão má pessoa assim.
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Postado, originalmente, em 03/11/2008.
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domingo, 7 de novembro de 2010

A Menina-octopus - por Fatinha

Querido Brógui:
Resolvi requentar essa edição depois que vi uma apresentação em slides (Como é o nome muderno? Ah! Power Point.) com uma parada muuuuuito parecida com esse meu texto. Fiquei cabreira… Será que nego já tá me pirateando? Não deixa de ser um chiquérrimo ser vítima de um crime tão na moda…


“Querido Diário:
Há coisas que só nós meninas somos capazes de fazer. Há determinadas habilidades desenvolvidas ao longo dos anos por força das circunstâncias que são inimagináveis para os meninos.
Uma delas é fazer xixi em banheiro público, meio acocorada, mas não totalmente, meio em pé, mas não totalmente, meio sentada, mas não totalmente.
Isso é totalmente contrário às leis da física, mas como não somos dotadas de mangueirinha e muitas não conseguem acertar o alvo, o resultado são os respingos na tampa e ninguém tá aqui pra sentar no xixi alheio. (Não consigo entender porque as ruins de mira não limpam os respingos ao sair do reservado. Custa passar o papel higiênico rapidinho para dar uma meia sola na tampa? Vai cair a mão?)
Agora, fazer xixi em pé é uma coisa muito simples se o banheiro vier dotado de um simples acessório que é o cabide para pendurar a bolsa. Quase nenhum banheiro público tem o tal do ganchinho. Podia ser um simples prego mesmo que enferrujado só pra quebrar o galho, mas não. Pra que simplificar nossa vida?
Também desenvolvi uma teoria (eu sempre desenvolvo teorias) para explicar a ausência do cabide: os banheiros são feitos por homens. Já viram uma mulher trabalhando de peão de obra? Não. Só homens. Inclusive nem há feminino para pedreiro. Seria pedreira? Pedreiro-fêmea?
Enfim, os homens não pensam como mulheres ou nas mulheres e assim nos vemos na complicadíssima tarefa de fazer xixi segurando a bolsa, quando não é a bolsa e a pasta ou a bolsa e a sacola, ou os três juntos. Conheço gente que conseguiu fazer xixi em pé segurando seu bebê no colo. Incrível! Não podia haver um cabide pra pendurar a criança?
Então fica assim: com uma das mãos você segura a bolsa, com a outra segura a porta porque o trinco está quebrado (já perceberam que as portas estão sempre com o trinco quebrado?), com a terceira mão segura a saia pra cima ou se estiver de calça comprida segura a beira dela pra não esfregar no chão todo molhado (lembrar da coisa da falta de mira), com a outra pega o papel higiênico e com a última dá descarga. Simples assim. Nós só precisamos ser um octopus pra ir ao banheiro. Isso tudo tentando manter o equilíbrio pra não encostar no fétido vaso sanitário.
Além da sessão de contorcionismo para poder atender ao chamado da natureza tem mais outra coisa que me deixa tensa ao ter que usar o banheiro coletivo: aquela rápida olhada pra ver se tem papel. Essa fração de segundo é o limiar entre a total felicidade e o desespero total. Com menina precavida que sou, sempre carrego meus lencinhos descartáveis que saco da bolsa com a outra mão. Então, inclui na lista que fiz antes, a sexta mão para abrir a bolsa e sacar o lencinho que, para facilitar, está sempre nas profundezas do buraco negro que é a bolsa das meninas.
A terceira coisa que me deixa trêmula ao entrar no WC (repararam que nunca mais colocaram WC escrito na porta dos banheiros?) é dar de cara com a tampa do vaso abaixada. Respeito profundamente esse sinal dos deuses. Nunca levanto a tampa porque inevitavelmente alguém guardou a sua obra-prima para a posteridade e eu não estou aqui pra fazer descobertas arqueológicas.
Não sei porque o povo se nega a apertar o maldito botãozinho da descarga. Não nego que o tal botão é uma das coisas mais asquerosas que possam existir para eu por meu lindo dedinho, é só parar um minutinho pra pensar onde os dedinhos alheios foram antes de tocar aquele mesmo botãozinho antes de mim. Mas eu abstraio isso e depois lavo as mãos abstraindo também que outras mãos infectas tocaram a torneira antes de mim. Em resumo, é tudo uma nojeira do começo ao fim, a partir do momento que você adentra ao banheiro.
Tenho certeza de que estão se perguntando acerca da utilidade da sétima e da oitava mão da menina-octopus. Já explico: com a sétima você atende o celular e com a oitava tira meleca pra colar na porta do banheiro.”
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Postado, originalmente, em 25/10/2008.
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domingo, 24 de outubro de 2010

Virose - por Fatinha

Querido Brógui:

Depois de mais de um ano dando olé nas “viroses”, baixei no estaleiro. Por que viroses entre aspas? Porque agora, quando os médicos não sabem o que você tem, classificam a pereba de virose. Essa denominação serve para de um tudo, desde piriri até unha encravada, passando pela dor de cabeça e acabando na sensação de ter sido atropelada por um caminhão desgovernado.
Minha pediatra (pode parar de rir, eu tenho uma pediatra, tá?) diz que os médicos que estão saindo agora das faculdades não sabem nada. Ela diz que escolhe pela idade. Só serve médico velho. Já tem a listinha dela preparada, daqueles conhecidos, mas quando surge uma necessidade de algum profissional diferente, ela liga pro consultório e pergunta quantos anos tem o médico. Menos de cinquenta anos, nem pensar. Com cinquenta anos de idade, ao menos o cara tem uns vinte de profissão. Já é alguma coisa. Eu concordo com ela, trocando apenas o adjetivo “velho” por “antigo na praça” ou “experiente”.
Há alguns milênios atrás, a moda era stress. Eu ia para o médico, com uma baita infecção na garganta e ele perguntava: “Você está estressada?”. Ia mostrar uma irritação na pele e vinha a mesma pergunta. Ia tratar de uma anemia, a mesma coisa. Naquele período, eu já entrava no consultório dizendo que minha vida estava muito bem, obrigada, e que não estava sofrendo de nenhum distúrbio psicossomático.
Depois da moda do stress, veio a moda da alergia. Tudo tinha fundo alérgico. Fiquei preocupadíssima, a ponto de pensar que tinha alergia a mim mesma. Fiz testes alérgicos aos montes e, no último deles, quando peguei o resultado, uma amiga me disse, ainda no elevador, que eu tinha que viver numa bolha de plástico, que nem aquele personagem do John Travolta naquele filme. Lembra? “O rapaz na bolha de plástico”? Um dos micos que esse grande ator pagou antes de ser resgatado das profundezas do ostracismo pelo Tarantino e ir fazer “Pulp Fiction”. Não lembra? Não viu? Nem era nascido? Tudo bem, não perdeu nada mesmo.
Ano passado, depois de duas semanas bombardeada, de cama, achando que não iria sobreviver, fui à emergência de um hospital. Fiquei ho-ras esperando. Acho que eles deixam o cabra esperando na emergência para ter certeza de que é emergência mesmo, porque se não for, ele se levanta e vai pra casa (ou pro cemitério). Menos um pra atender.
Nesse dia, a médica me atendeu, disse que eu tinha tido não apenas uma virose, mas três. Isso mesmo. Emendei uma na outra, apresentando sintomas diferentes. Disse também que eu aparentemente estava com uma crise alérgica. Perguntou ainda se eu estava passando por um momento de muito stress.
Saí de lá com a certeza de que a moça estava atirando pra tudo o que era lado. Não tinha como errar. Ou era virose, ou alergia, ou “pobrema de neuvos”.
De lá pra cá, nunca mais fiquei doente daquele jeito e atribuo isso às doses diárias de Targifor C. Quem receitou? Minha pediatra, lógico.
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Postado, originalmente, em 23/10/2008.
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domingo, 17 de outubro de 2010

Cretinices - por Fatinha

Querido Brógui:

Essa edição é em homenagem a nós, professores, e à nossa árdua batalha no dia-a-dia. Não é inédita, aliás, pra falar a verdade, nem requentada mesmo é. Digamos que ela é “trequentada”. Ela é datada de 2002, não havia nem ainda o “Querido Diário” e, quando ele nasceu, eu requentei. Sendo assim, é a terceira vez que empurro o mesmo texto pela sua goela abaixo e ele ainda é, seis anos depois, a fiel, pura e cruel realidade de meu alunado.
Lá vai:

“Querido Diário:

Neguinho fica por aí espalhando que essa humilde e simpática professora de História é grossa, que é malcriada, que tem tolerância zero. Já me disseram que eu rosno e que meu olhar irado congela qualquer criatura num raio de cem metros.
Após o meu relato, diga sinceramente se a cretinice do alunado tem limites. Se você não é professor ou nunca teve contato com crianças, atire a primeira pedra.

Cretinice 1
Sete horas da manhã, cara inchada, ainda com cheiro de travesseiro, chegando ao meu local de trabalho, sabendo que vou ter que encarar dúzias de adolescentes e pré-adolescentes e crianças e colegas etc., etc., etc.
“A senhora vai dar aula?”
“Não, eu não vou dar aula, só vim aqui porque acordei às cinco e meia da manhã e como não tinha nada melhor pra fazer eu vim aqui passear e ver se você estava bem de saúde.”

Cretinice 2
Mesmo contexto.
"A senhora veio?”
“Não, eu não vim. O que você está vendo é um holograma, está tendo uma visão do inferno, você está sonhando e tendo um pesadelo.”

Cretinice 3
Mesmo contexto.
“Por que a senhora veio?”
“Por que você veio?”

Cretinice 4
Dia de prova.
“Professora, eu não assisti a nenhuma aula da senhora. O que eu escrevo na prova?”
“Seu nome. E vê se põe letra maiúscula.”

Cretinice 5
O trabalho é para ser feito em folha separada para que eles me entreguem no final da aula.
“Precisa colocar o nome e a turma?”
“Não. Ontem comprei pilhas novas pra minha bola de cristal.”

Cretinice 6
Seis meses depois de iniciado o ano letivo, o aluno pergunta:
“Qual é mesmo a matéria que a senhora ensina?”
“Grego arcaico.”

Cretinice 7
Acabo de passar um exercício no quadro.
“É pra copiar?”
“Não. É que eu estava com vontade de me sujar toda de giz, cheirar um pouquinho de pó e ficar com câimbra no braço.”

Cretinice 8
Continuando a cretinice nº 7, o aluno copia tudinho.
“É pra fazer?”
“Não. Leva pra casa que sua mãe responde pra você.”

Cretinice 9
Já em desespero, com a bexiga quase explodindo, pego a bolsa e aviso que vou descer.
“A senhora vai pra casa?”
“Não. Vou usar o banheiro aqui da escola mesmo.”

Cretinice 10
Dando continuidade, provando minha tese que cretinice não tem limites, o aluno retruca:
“Vai fazer o quê?”
“Brincar de amarelinha.”

Está com pena dos alunos? Tá achando que sou demasiadamente cruel, irônica, debochada e deseducadora? Pois você não entende nada de educação.
Passados alguns meses nessa salutar convivência, ao ouvir perguntas cretinas, apenas digo em voz baixa e com um sorriso sarcástico nos lábios: “É pra eu responder ou se trata de uma pergunta meramente retórica?” E o aluno, que é cretino, mas não é burro, rapidamente responde: “É meramente retórica.”
Viu? Eles sabem o que é retórica. Sou ou não sou uma professora de mão cheia?

Esse texto é dedicado à Michelle, minha ex-aluna, futura professora, provando que ainda há almas a serem salvas nesse mar de cretinice e que, por essa almas, vale o sacrifício.
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Postado, originalmente, em 17/10/2008.
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terça-feira, 16 de março de 2010

A Máquina de Lavar - por Fatinha

Querido Brógui:
.Segunda-feira, dia de corno. Nada como uma edição do Querido Diário requentada para começar bem o dia. Essa é do início de 2007.
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.“Querido Diário:

Cássia está com tendinite. Não veio trabalhar essa semana toda. Aqui em casa a roupa é lavada semana sim, semana não. Como essa era a semana sim que virou semana não, na sexta-feira percebi aterrorizada que não me restava limpo um pé de meia, uma blusinha, uma roupinha de ginástica, nadinha. Minhas gavetas estavam completamente vazias e o cesto de roupa suja completamente cheio. O meu terror veio da dupla constatação: 1) eu teria que encarar uma lavação de roupa; 2) tenho bem menos roupas do que gostaria de ter. Das duas, a última foi a que mais me doeu, é claro.
Então, cheguei ontem do curso já preparada psicologicamente para dar uma de peniqueira. Enquanto almoçava, lembrei-me vagamente de que não dominava a complexa técnica de operar a nova máquina de lavar. Pode parar de rir, essa é uma tarefa difícil, sim, nem vem. Poucas pessoas a sabem executar com maestria.
Bem, como penica que é penica não foge à luta, peguei o cesto de roupas sujas, fui lá pra trás, dei uma olhadinha nos botõezinhos daquela coisa (é botão que não acaba mais, a outra máquina só tinha o de ligar e o de desligar), tentei adivinhar como aquilo funcionava, não consegui e acabei por me render à leitura do Manuel.
Na máquina antiga, a gente primeiro enchia de água e depois botava a roupa. Foi o que fiz, coloquei a máquina pra encher enquanto lia as instruções. Aí, dez páginas depois, chegou numa parte que dizia: “nunca encha a máquina de água antes de colocar as roupas”. Danou-se. Já comecei errando. Desliguei rapidinho e pensei em esvaziá-la pra botar a roupa e depois encher de novo. Só que no Manuel não ensinava como tirar a água da máquina. Não sucumbi à tentação de tirar a água de dentro dela com um balde, achei que seria burrice demais, até para mim. Decidi colocar a roupa com ela cheia mesmo, qual o problema? Na medida em que fui colocando a roupa, o nível de água foi subindo, subindo. Simples lei da física aplicada à atividade peniqueira. Enquanto isso, continuei lendo as dicas do Manuel e cheguei na parte que ele dizia: “o nível da água não pode passar do quarto furo da bacia.” Que bacia? A bacia aqui de casa não está furada… É até relativamente nova… Não, sua Anta, a bacia da máquina, disse-me o Manuel. Parei de colocar roupa antes que transbordasse, liguei novamente a máquina e ela começou a bater.
Daí o Manuel me disse: “coloque o sabão em pó e o amaciante nos recipientes devidos.” Danou-se de novo! Esqueci que tinha que colocar sabão em pó e amaciante. Abri a máquina pra colocar o tal do sabão em pó e o amaciante e ela parou de bater. Pronto! Quebrou. Não, sua Anta, toda vez que você abre a tampa, ela para. Ah, tá. E cadê os tais dos recipientes devidos? Achei. Comecei a puxar e o treco não abria a tampinha. Lógico, sua Anta, não é de puxar, é uma gavetinha dividida em duas metades. Qual será a metade pra botar o sabão? E cadê o sabão? Onde será que a Cássia esconde o sabão em pó e o amaciante?
Vitória! Imagina se eu, com dois cursos superiores completos, mais de mil livros lidos, curso de inglês na Cultura, vinte anos de magistério e dez anos de academia de ginástica, iria ser derrotada por uma simples máquina de lavar! Fiquei contemplando minha façanha, embevecida, toda orgulhosa, quando de repente a bicha parou de bater de novo. Agora danou-se mesmo. Dessa vez eu consegui quebrar a máquina. Minha mãe vai me matar e o pior é que depois de morta ainda vou ter que lavar essa montanha de roupa no tanque!
Fiquei alguns minutos olhando para a máquina, em estado de choque, tentando inventar uma boa mentira pra contar pra minha mãe e ao mesmo tempo pensando como iria fazer pra tirar a roupa e a água de dentro daquela meleca. Repentinamente, ela começou a bater de novo. ???? É que o ciclo de lavagem completa tem uma batidinha e um intervalo pro molho, outra batidinha, outro intervalo, sua Anta! Legal, entendi.
Dei conta de toda a roupa da casa após três ciclos de lavagem completa. Pendurei tudo na corda, subindo e descendo as escadas para o terraço com as bacias cheias. Pura aeróbica.
Finalizei a missão com a alma lavada e enxaguada, como dizia Odorico Paraguaçú. Nada como um servicinho de corno pra deixar a pessoa livre de quaisquer problemas existenciais, emocionais, sexuais ou financeiros.”
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.Repostado, originalmente, em 13/10/2008.
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