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domingo, 28 de abril de 2013

As Sutilezas da Vida - por Ana

Há momentos em que somos tão sutis quanto uma manada de elefantes em fuga; mas o pior é quando isto acontece sem intenção. São as metáforas hilariantemente inspiradas e repentinas, aqueles insights originais que te fazem rolar por dentro e você fica doido pra dividir com o outro, aquela crítica cáustica que intrigou até a você mesmo pela perspicácia... Aí você abre a boca e, consequentemente, surge aquele abismo enorme entre você e o interlocutor. Onde eram esperados risos e opiniões, há apenas silêncio deprimido ou acusatório (quando não a própria acusação), e você percebe que deveria saber de algo que não lhe ocorre de forma alguma, você sente que falta alguma informação fundamental. Você acessa todos os arquivos mentais possíveis, desesperadamente, mas o seu mentel não te socore. Então só resta encarar a dura constatação: você deu um fora daqueles! Já era. Foi-se tudo por ralo abaixo: a conversa, a alegria, a empatia e, se duvidar, até mesmo a relação. Aquela se torna uma pessoa do outro lado de um fosso infinitamente profundo, que não permite pontes e ignora seus amigáveis sinais de fumaça. A vaca foi, definitivamente, pro brejo. Na carreira, com os tais elefantes...
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sábado, 14 de julho de 2012

A Visita e o Retorno - por Adir Vieira

Ontem passei uns apertos, mesmo envolta na satisfação de rever amigos e passar uma tarde por demais agradável.
A visita estava marcada para as 16h e eu, com minha pontualidade britânica e com a ajuda dos deuses, entrei no prédio exatamente nesse horário. Eu e o marido soubemos, quando lá chegamos, que um outro casal estava sendo aguardado, haja vista que também tinham sido convidados para a reunião.
Conversa vai, conversa vem, e já passavam das cinco e meia quando o outro casal chegou. Até aí, o dono da casa já havia ligado para o celular que estava fora de área e para sua casa, quando soube pela filha que já haviam saído há um bom tempo. Tempo suficiente para que houvessem chegado ao destino.
Enfim, após aquietar a família de que já estavam no local, o casal contribuiu para que a tarde fosse muito feliz. Aliás, estávamos todos nos conhecendo mais intimamente naquela tarde, posto que só os maridos eram amigos, cabendo a nós, as mulheres, nos aproximarmos então.
Conhecemos a belíssima casa, lanchamos maravilhosamente bem, conversamos até sobre religião, enquanto os homens, no seu canto, reviviam momentos doces da juventude.
O tempo transcorreu sem que déssemos conta e um telefonema de uma das minhas irmãs para o meu celular lembrou-me que já passavam das dez da noite.
Apressamo-nos a organizar nossa saída, quando o outro casal nos ofereceu carona para casa. Sempre utilizamos táxi quando não conhecemos o local aonde vamos. É mais prático e mais prudente e não ficamos neuróticos com o horário da volta. Por mais que minhas desculpas para não aceitar o oferecimento fossem convincentes, meu marido se opunha a elas, achando por demais natural aceitar a carona. Não tive mais como retrucar e assim, exatamente às 22:35h, saímos de lá com a garantia de que meu marido ia conduzir o motorista pela melhor via.
Ele não contava com a dificuldade que teria, no escuro, de ler as placas, o que fez com que entrássemos em locais errados e retornássemos várias vezes. Com isso, nosso percurso que, de táxi, levaria uns vinte minutos, custou quase uma hora. Além de atrasar o gentil casal em sua chegada à casa.
Nessa altura, com tanta demora, o dono da casa onde fomos e a filha do casal que nos deu carona já estavam sobressaltados com alguma ocorrência infeliz, principalmente pelo fato de que o carro que nos conduziu era sofisticado e zero quilômetro, alvo certo para os bandidos de plantão.
Enfim, quando abri a porta do meu apartamento, meu coração parou de bater e pude viver a alegria de um reencontro com pessoas de bem, cultas e felizes.
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Visitem Adir Vieira
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sábado, 19 de dezembro de 2009

Festival de Águas Claras (Dias 3, 4 e 6) - por Ana

No terceiro dia, mais barracas, nada de quiosques, uma fome de cão, pois não tínhamos levado muita comida, pensando em comprar lá. Vendedores ambulantes? Neca. Água? Neca, só a do filete-cachoeira que era extremamente duvidosa, porque o pessoal ficava lá em cima, ao lado da pedra, brincando de fazer xixi em quem tomava banho embaixo.
As pessoas estavam esquisitas, meio zumbizadas, meio agressivas, andando meio torto e muito tortas, falando sozinhas... Esquisitíssimo!
De repente ouvimos uns berros que pareciam ser de um vendedor ambulante. Nosso amigo disse:
- “Acho que ele tá gritando: ‘Olha a Coca!’”. E saiu correndo desabalado atrás da voz. Voltou com um cara que tinha uma bolsa grande e um tabuleiro. Diálogo:
- “Cara, tu tem Coca?”
- “Tenho, bródi!”
- “Mas só Coca?”
- “Não! Tem mais coisa aqui! Da boa!”
E a gente:
- “Ai, até que enfim! Pelo menos um refrigerante!”
Quando o cara se aproximou, olhamos o tabuleiro repleto de trouxinhas e papelotes.
Não era Coca, era coca! Távamos ferrados!
Fizemos reunião-relâmpago. Pauta: Vamos embora já! Mas eu e minha irmã queríamos ficar. Afinal, tínhamos ido assitir ao Egberto e ÍAMOS ASSISTIR ao Egberto! 2 a 2. Ficamos. Nossos amigos apavorados e irados.
Esperamos a noite e acho que todo o tempo eles ficaram rezando para nada de grave acontecer. À noite nos dirigimos ao palquinho. Mais sei-lá-quem em cima do tablado urrando e resmungando coisas ininteligíveis. O som paulêra o tempo todo. De repente parou. Pensamos: é o Egberto, é o Raul. Acho que, nesse momento, nossos amigos esqueceram suas rezas. Não sei quem era, porque o palquinho tava longe pra burro, mas a figura tocava violão. O som era tão baixo e ruim, tão cheio de microfonia que ninguém ouvia nada. Depois de uma meia hora, o cara saiu tão mole quanto entrou, o palco se apagou e a paulêra recomeçou. Voltamos para a barraca decididos a ir embora na manhã seguinte.
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.Quando acordamos, havia um magricela branquelo dormindo na varanda. Nós já o tínhamos visto antes. Era o Fininho. Hiperativo, taquilálico, tocava o maior horror. Minha amiga, que já tinha medo dele de longe, ficou apavorada. Ele dormia barrando a entrada da barraca. A gente empurrava, empurrava e nada dele acordar ou se mover. E nós lá dentro, presos. De repente ele acordou e se pôs dentro da barraca para continuar dormindo. Ninguém conseguia tirá-lo de lá e tínhamos que desmontar a barraca. Foi uma guerra dificílima, mas conseguimos despejá-lo depois da barraca desmontada.

Então nos dirigimos à entrada da “fazenda”, a fim de pegar o cacarecobus de volta. No caminho, o povo doidaço nos cercou pedindo dinheiro, tentando arrancar as mochilas da gente, mexendo nos nossos bolsos... Sabem aquela cena dos vampiros no teatro atacando a mulher, no filme “Entrevista com o Vampiro”? Pois é, assim. Havia um cara alto, forte, com voz de Tim Maia, que ficava gritando pro povo: “Tem dinheiro aqui! Tem dinheiro aqui! Aqui! Aqui!” E cada vez mais enlouquecidos em volta de nós e a gente tentando chegar à porteira. Minha amiga dizia:
- “Não tenho dinheiro. Não tenho dinheiro.”
E eles:
- “Não? O que é isso na sua mão?”
- “Nada. Tira a mão! Larga!”
- “Ih! É passagem de ônibus! Isso serve! E se tem passagem, tem dinheiro! Dá! Dá!”
Aí o do vozeirão partiu pra cima e minha amiga lutou feroz e heroicamente pelas passagens. Saiu vencedora, apesar de magrinha e apavorada. Chegamos à porteira quase correndo com aquela turba enfurecida atacando pelos flancos e retaguarda.
Do lado de fora, o ônibus já estava cheio. Outras pessoas ingênuas, revoltadas e enganadas, como nós, também estavam indo embora. Os doidões invadiram o ônibus tentando tirar alguma coisa de quem estava lá dentro; outros ficaram do lado de fora, na porta, tentando coletar alguma coisa de quem tentava entrar; e outros, ainda, pendurados nas janelas, atacavam os que estavam lá dentro, esticando os tentáculos famintos para mochilas, bolsas ou qualquer coisa que pudessem agarrar. Era o caos. Apesar dos obstáculos, conseguimos entrar. O ônibus partiu com gente sentada nas janelas, hipersupermegalotado. Apesar de tudo, sobrevivemos e chegamos ao Rio de Janeiro. Eu, indignada e frustrada, minha irmã apaixonada por um caminhoneiro careta que tinha conhecido lá (e que, posteriormente, iria pedi-la em casamento por telefone e propor que passassem a vida viajando romanticamente pelas estradas do Brasil e, quem sabe, do mundo) e minha amiga totalmente em choque por tudo o que tinha acontecido, principalmente por causa do Fininho, que a deixou em pânico total.
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.Dois dias depois de voltarmos, fui à casa de minha amiga e a encontrei com portas e janelas fechadas e portão trancado, o que nunca havia visto antes. Chamei. Depois de muito tempo, alguém olhou pela fresta da janela e jogou as chaves pra mim lá fora. Entrei. Ela estava sozinha em casa, deitada na cama, toda encolhida, coberta até a cabeça, tremendo que nem vara verde. Eu perguntei:
- “O que foi, você tá doente?”
Ela descobriu os olhos esbugalhados e perguntou, em pânico:
- “Trancou tudo? Trancou tudo?”
- “Tranquei. Mas... o que foi?”
- “Você viu? Você viu?”
- “Viu o quê?”
- “Ele me seguiu! Ele me seguiu! Nunca mais vou me livrar dele! Ele me seguiu, sabe onde eu moro, me seguiu até aqui. Ele está aqui. Está aqui me vigiando...”
- “Quem? Quem te seguiu? Quem está te vigiando?”
- “Ele! Ele! ELE!
E fazia aquele olhar de você-sabe-quem, mas eu não sabia. Então ela disse:
- “Olha lá fora! Olha só! Olha! Foi ele! É ele!”
Eu fui até a porta da frente, abri a portinhola e li, no enorme muro da casa em frente, em letras garrafais:
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FININHO ESTÁ AQUI
.Raul Seixas
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Festival de Águas Claras (Dias 1 e 2) - por Ana

Lá pelas bandas dos anos 70/80. Eu, cheia de rebeldia, amor pela música e idealismos, via, na TV, o comercial do Festival de Águas Claras: palco iluminado, todo bonito, multidão embalada por vários nomes do cenário musical brasileiro, especialmente o meu “idolatrado” Egberto Gismonti. Eu assistindo e doida pra estar lá, vivendo um momento histórico...
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Comecei a trabalhar. Um dos primeiros pensamentos: “Poderei ir a Águas Claras”. Na época da edição seguinte do Festival, lá fui eu ao centro da cidade para comprar os ingressos. Me deparei com um prédio meio pé-sujo, mas tudo bem. Devia ter desconfiado que alguma coisa estava errada quando me vi no “escritório” da firma organizadora do evento: uma mesa fulêra, um telefone velho, um talão de ingressos, infiltrações brabas nas paredes e reboco caindo nas nossas cabeças. O cara que estava lá para atender agia meio assim como um bicheiro que aguarda, nervoso, a chegada da polícia. Mesmo assim, eu, adolescente, otimista e sonhadora, comprei os ingressos.
Daí até o dia da viagem fiquei envolta naquilo que, acreditava eu, me esperava em Sampa: uma fazenda linda, com riachos e cachoeiras de águas claras (já dizia o nome), perfeita infraestrutura do Festival, gente muito alto astral reunida, por três dias, por amor à música de boa qualidade.
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Sonhei, sonhei muito até estar no ônibus que nos levaria de São Paulo a Águas Claras: um cacareco horroroso, repleto de gente esquisita que se embrenhava por estradas cada vez mais esburacadas e lugares inóspitos, elameados, feios, barro por todos os lados, nem um verdinho ao longe pra contar a história... De repente o ônibus parou e o motorista berrou: “Águas Claaaaras!!!!”.
O cenário era desolador: uma cerca toda torta, de mourões e arame farpado; o chão era pura lama, até o horizonte uma terra careca, só umas duas ou três árvores magricelas perdidas em meio àquela tristeza. Palco? Não havia. Riacho? Só nos sonhos. Cachoeira? Um filete mínimo de água que saía de uma pedra e onde uma multidão tentava se banhar. No chão, perto dela, absorventes, camisinhas, plásticos, papéis, restos de comida, uma lixarada fedida e porca.
Montamos a barraca num lugar mais sequinho, perto de duas construções malfeitas, ao lado de umas árvores ralas: quatro paredes caiadas sem telhado. Resolvemos ficar por ali porque imaginamos que fossem os banheiros. Não vimos sinal dos quiosques de comida e pensamos que fossem montá-los no dia seguinte. Fomos dormir tarde sonhando com o que de bom poderia nos esperar depois que montassem tudo. E com a certeza de que havíamos chegado cedo demais.

No dia seguinte, mais barracas montadas à nossa volta, mas de infraestrutura, neca de pitibiriba. Fomos ao que pensamos ser, além de local de banhos, banheiro. Mas só havia canos saindo das paredes, dos quais escorriam filetes d’água. Uma entrada aberta e nenhuma porta. Era só para banhos, mesmo. As árvores serviam de arquibancadas para os caras ficarem olhando as garotas lá dentro. E elas tomando banho nuas, na maior! Batemos em retirada: eu, minha irmã e minha amiga.
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No final do dia, nada de quiosques, nada de shows. De repente, lá pelas 23 horas, alguém disse que o palco estava montado “lá atrás”. Fomos ver o lá atrás. Andamos que nem uns condenados e nada de palco. Música? Só um rock brabo paulêra berrando o tempo todo e nós com baita dor de cabeça. De repente achamos um palquinho, com umas lâmpadas de “brilho” amarelado muito das sem-vergonhas, um breu desgraçado e um sei-lá-quem no “palco”, mais doido que o Jimmy Hendrix em seus melhores dias, tocando violão e cantando algo que não se conseguia compreender.
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O som baixíssimo, um troço surrreal. Começaram os comentários de que o Egberto e o Raul viriam no dia seguinte. Ficamos lá por umas duas horas. O cenário não mudava. Resolvemos ir dormir.
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Fotos: Festival de Águas Claras
Raul Seixas.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Roubada - por Ana

Me meto em roubada
quando falo sem ser chamada,
entro sem ser convidada,
revido sem ser provocada,
grito sem ser insultada,
ajudo sem ser convocada,
bato sem ser atacada,
julgo sem ser empossada,
xingo sem ser ultrajada,

Eu caio em cilada
quando falo ao ser convocada,
entro se sou chamada,
revido se sou insultada,
grito se sou ultrajada,
ajudo se sou empossada,
bato se sou provocada,
julgo se sou convidada,
xingo se sou atacada.

Mas...
Se eu falo com a alma,
se entro com calma,
revido com amor,
só grito de dor,
ajudo com senso,
não bato (eu penso),
só julgo meus atos,
não xingo de fato...

É do outro a roubada,
quando monta cilada,
fala o que não devia,
entra numa baita fria,
revida (maior asneira!),
grita de bobeira,
ajuda na zoação,
bate no próprio irmão,
julga sem opinião,
xinga sem ter razão.


Poesia cujos título e primeiro verso foram utilizados para a versão coletiva Roubada - As Nossas Poesias IX.
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sábado, 28 de março de 2009

Roubada - As Nossas Poesias IX

Me meto em roubada,
Vivo entrando pelo cano,
Acabo só dando furo
E quase sempre me ferrando.
Fazer o quê para mudar?
Se com as melhores intenções,
Só faço me encalacrar...

Sou mesmo uma besta quadrada,
Preciso achar a razão
De estar sempre enrolada,
Só criando confusão.
Acho que sou desligada...
Será que pertenço a este mundo
Ou nasci com esta missão?

Será que é porque falo na hora de calar?
Saio na hora de entrar?
Bato na hora de apanhar?
E tudo vice-versa?
Socorro! Alguém pode ajudar?
Ou ao menos me explicar?
Eu tô aberta a conversa...

Assim é que não posso ficar!
Outro dia o padre me disse:
“Só Deus para te ajudar...”
E me veio a intuição:
As respostas que tanto busco
Está nas perguntas que fiz
Do fundo do coração.

Falar na hora de falar,
Calar na hora de calar,
Sair na hora de sair,
Entrar na hora de entrar,
Bater na hora de bater,
Apanhar na hora de apanhar,
Pensar na hora de pensar.

Se faço tudo ao contrário,
Como é que vou acertar?
É só acertar esta ordem
que não há como errar.
Então começo agora.
O importante é tentar
E na vida me aprumar.

Vou partir para a ação.
Sei que ninguém é perfeito,
Mas seguirei com dedicação.
E se nem assim der certo,
Só na próxima encarnação.
Porque se nem Deus deu jeito,
É porque não tem jeito, não.


Poesia criada por Ana, Clarice A., Alba Vieira e Rita.
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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Roubada

Crie um texto sobre este tema e deixe aqui, em “comentários”, que nós postaremos.
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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Roubada - por Adir Vieira

Todas as vezes que observo no meu pulso a marca das unhas cravadas por dois bandidos em um assalto, revivo a desagradável indignação de ser efetivamente roubada no que há de mais sublime em mim: a permissão do toque em minha pele. Ser arrebatada por estranhos, sentir suas mãos imundas de ladrão mostrando-me minha impotência de reação, foi mais difícil do que vê-los sumir com meus bens materiais. A perda do que talvez você possa repor dá uma sensação momentânea de vazio, mas aquela marca ali, me dizendo que o fato aconteceu e eu não impedi, ainda causa arrepios em meu corpo e acende cada vez mais o medo, o pavor de que a coisa possa se repetir.
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Roubada - por Alba Vieira

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Roubada. Assim me sinto hoje e tenho estado desta forma na maior parte das vezes. Roubada de mim mesma, saqueada na minha energia, na minha paciência, na minha capacidade de amar. Eu preciso de mim: tenho que ouvir meus gritos abafados, meu choro contido que parece que vai explodir meu peito. Não consigo me dedicar a mim, eu que conheço agora tanto mais sobre minhas necessidades. Por que é que tenho que ignorar meus pedidos, já quase súplicas, adiar meu desejo, me tratar como se dura eu fosse quando extravaso em sensibilidade? Eu que não sou seca, que broto umidade de todos os poros, eu que anseio me expressar com sentimentos, eu que estou frágil e de tão vulnerável me derreto e perco os limites de mim, tonteio e morro. Morro, sim, a cada dia, morro de asfixia crônica, por não poder respirar o que sou. E eu sou tanto e gosto tanto do que sou, que só a morte poderá me impedir. Eu, ainda lagarta, presa, gosmenta por estar ligada a um casulo que me aprisiona, já sinto em mim a leveza, a beleza, a possibilidade, a transmutação em borboleta que sou.
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