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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Você Me Faz Tão Doce - por Theresa Russo

Não, não chore. Há dias em que eu somente queria ver e sentir o sol. Como se eu fosse uma árvore sábia e tranquila. Há dias que eu queria ser apenas uma folha brincando de cair na poça d’água da chuva mansa, da chuva brava. Não, não chore. Essa noite ainda vai acontecer. Deixa chover a chuva de dentro, espera ser gerado o novo entardecer. Ainda é muito cedo pra sofrer! Não, não chore agora. Espera esse sol brincar de ator principal nesse palco entre as montanhas dessa cidade tão pequenina e simples. Espera o barulho do sol apagando seu fogo dentro do rio doce que corre ao teu lado. Vamos, vem logo! Os pardais estão como enxame de loucas libélulas buscando sentir a mudança do planeta virando pro outro lado. Ainda está tão lindo esse nascer de mais uma noite! Vê as estrelas coladas num brilhoso papel azul marinho lá em cima? Elas caem e adentram o mar para serem estrelas-do-mar. Eu mesma já observei daqui algumas subindo por uma corda provinda dos braços da lua. E cada uma delas subia sem medo de cair novamente. Estrelas do céu, estrelas-do-mar, estrelas do céu, estrelas-do-mar. Olha - eu pertenço a você e você pertence a mim. Agora, nesse entardecer, você me faz tão doce...



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domingo, 19 de julho de 2009

Ode Contra os Demônios - por Theresa Russo

Não posso aceitar a natureza das coisas mundanas se creio nos sonhos e na poesia. Não são essas portas em madeira ou ferro ou de outra matéria artefato humano que vão me impedir de dizer o que sinto. É que posso olhar através delas todo o rancor dos olhos e bocas a difamar a nossa poesia. Afinal, os sonhos não podem ser decompostos e eu insisto em não aceitar a natureza das coisas – eu me declaro antinatural. Na noite em que escutei os passos de demônios a subirem os degraus que morrem na porta do meu quarto, invoquei um enorme anjo alado com túnica azul clara para me defender dos que afligem a minha mente sã. Se a loucura é a fuga da natureza do homem eu me declaro antinatural. Não vou enlouquecer porque sempre acreditarei num Deus que olha de baixo para cima, de cima para baixo, para os lados e para o infinito por detrás das portas máscaras que construímos para sobreviver. E cada mentira é como um repolho límpido recheado de fungos e bactérias invisíveis que pregam as verdades cometidas do outro lado do mundo. Não me peçam para ser livre, pois, quanto mais se pensa e projeta um modo de ser e viver, mais distantes estaremos da liberdade. Eu ando vivendo um dia por dia e tenho o passado, o presente e o futuro agora bem próximos de mim. E sou tantos e tantas nesse espaço-tempo que nem me importo mais se um dia irei me encontrar ou encontrar esse você. Os demônios estão a caminho e eu não mais tenho medo. Além do anjo branco eu também tenho um escudo negro sagrado e simples que se faz a sombra de cada um dos meus eus a me vigiar e proteger. Não posso aceitar a natureza das coisas e nem permitir que alguém venha desdenhar da minha doce poesia e dos meus tenros e açucarados sonhos. Sonhos e poesias não podem ser decompostos e eu me reafirmo antinatural no estado atual das coisas. Se eu não tivesse um lar e se a comida não me bastasse eu teria que roubar para comer. Talvez eu tenha muita sorte de estar abrigada em minha coragem de acordar amanhã e seguir reto no prumo do navio nesse mar chamado vida. E eu não me aquieto enquanto uma poesia vadia não chegar até as minhas mãos para que eu vomite tudo que me cerca como um papel amassado e jogado na coxia. Eles dominaram as ruas, as telas e as cidades agora estão como desertos de sonhos. Eu preciso e quero estar aqui quando as crianças acordarem e seus olhos enxergarem toda a antibeleza que há.



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