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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Chuva, Chalé, Xixi e Outros Bichos - por Ana

Chovia fino. Um dia deprê. Então lembrei das Fatinhas. Elas encaravam qualquer parada, então fui pro msn. Estavam lá. Fui direta:
- Vamos sair?
- Com esta chuva?
- Pra onde?
Fatinha (a escrevinhadora não Escrevinhadora) definiu:
- Um amigo meu, das caronas dos bebum, tem um chalé em Petrópolis. É pertinho, a gente pode ir lá. Eu pego vocês.
Fatinha-Escrevinha, apesar de estar com a perna engessada, prontamente concordou.
Pelo caminho elas foram planejando encontrar uma boate, clube, inferninho, o que fosse, para me levar pra dançar, já que eu nunca tinha feito isso. Eu ia rezando pra elas esquecerem, pois detesto estas coisas, mas não tava com cara de que eu ia me livrar da noitada.
De repente, o pneu furou. Derrapa pra cá, derrapa pra lá, entre tontas e assustadas, salvaram-se todas, graças à habilidade de Fatinha Barrichello.
Carro no acostamento, trocamos o pneu. Frio, chuva, nós ensopadas, bateu aquela vontade doida de fazer xixi. Vimos uma casinha a alguns metros da estrada. A única.
- Vamos lá?
- Vamos.
- Moça, dá pra gente usar o banheiro? É emergência total!
A senhora apiedou-se. Confiou. Pareciam sérias aquelas moças tão educadas.
Entramos. Ela apontou a porta ao final do corredor e foi pra cozinha terminar o almoço. Tinha hora.
Fomos as três em direção ao banheiro. Eu entrei. Tava mais desesperada. Inspecionei: era limpinho, dava pra usar. De repente, algo verde me chamou a atenção, ao lado do vaso, de olhos esbugalhados em mim, pronto pro salto. Gritei:
- Gente! tem um SAPO aqui!
Fatinha, prontamente:
- Sapo ou perereco?
E a gente dana a rir.
- Para, Fatinha! Assim não dá pra segurar!
- Ué, mas cê tá do lado de dentro! Pior a gente, aqui fora!
- E eu vou ao banheiro com um sapo doido me olhando? Pronto pro bote?
- Qué que tem? É só um sapo! - Escrevinha.
- Ou perereco! Manda coachar pra ver se tem sotaque gaúcho! - Fatinha.
- Para, gente!
Ao dizer isso, me virei e dei de cara com um Jesus tamanho natural na porta do banheiro, de frente pro vaso, naquela posição de bênção, olhos nos olhos.
- Jesus!
- O quê? - Escrevinha.
- O perereco grudou na perna dela, só solta com raio! - Fatinha.
E tome gargalhada do lado de fora.
Abri a porta. Falei pra entrarem. Fechei a porta.
- Olhem... e olhem. - disse, apontando.
As cabeças iam do sapo pra Jesus e de Jesus pro sapo.
- Tem condição?
Não tinha.
Saímos agradecendo à senhora a gentileza, tentando controlar o riso. Escrevinha, na porta, alertou:
- Há um sapo no seu banheiro.
- Ih... Esqueci de avisar... é de estimação. É o Perereco.
Caímos na gargalhada. Fomos embora sem parar de rir, nos contorcendo em agonia.
A mulher não entendeu nada. Na hora do almoço narrou o acontecido ao marido.
- Então foi isso, Amadeu... esse povo é doido... pareciam pessoas sérias e saíram rindo, do nada, se torcendo todas que nem lagarta em chão quente.
- Devem ter ido ao banheiro se drogar, Filomena, vai ver iam pro sítio daquele maconheiro, o Fininho.
- Não se pode confiar em mais ninguém neste mundo...
E Filó foi verificar se seu amado bicho de estimação tinha sido afetado pelas drogas e pedir perdão a Jesus por ter permitido que pessoas tão desqualificadas maculassem seu sacrossanto banheiro.
Enquanto isso, as três, em meio a “ais Jesus” e todas as gargalhadas do mundo, procuravam, desesperadas, uma moita pelas redondezas.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A Saga de Ana e Escrevinhadora no Reino das Águas Claras - por Fatinha

Ana e Escrevinhadora durante muito tempo acalentaram um sonho: ir ao festival de música do Reino da Águas Claras. Ouviram dizer que rolava música de primeira qualidade, muita paz e amor, banho de cachoeira, um verdadeiro encontro espiritual com os gnomos e as fadas, além da oportunidade de conhecer o Príncipe Escamoso.
O pai delas disse que não liberava grana pra essas bobagens, então elas resolveram se virar. Ana arrumou um emprego de recepcionista numa academia de ginástica. Escrevinhadora dava aulas de aeróbica – tinha aprendido todas as coreografias assistindo ao vídeo de Jane Fonda. Nos finais de semana faziam pequenos bicos. Davam banho no cachorro do vizinho, limpavam telhados, consertavam encanamentos, calibravam pneus no posto de gasolina. Nada era penoso demais para elas.
Finalmente conseguiram juntar o dinheiro necessário. O pai deu a autorização com a promessa de que não bebessem, não fumassem, não se drogassem e não fizessem sexo. Foram comprar os ingressos numa salinha suspeitíssima do Centro da Cidade, descolaram uma barraca de camping de segunda mão, mas ainda inteirinha. Compraram alguns pacotes de miojo, biscoito cream cracker, água, latas de salsicha. Pediram emprestado, de joelhos, ao amigo Shintoni, o seu fusquinha 69. Ele concordou, ameaçando-as de morte caso dessem um arranhãozinho que fosse na lataria do veículo. Tudo estava perfeito. Até demais.
Murphy, de plantão, decidiu que não ia facilitar as coisas para as duas. Um dia antes da viagem, Escrevinhadora torceu o pé num arrojado salto mortal de costas. Teve que engessar. Ana, preocupadíssima, andava de lá pra cá como um leão enjaulado, pensando que ia acabar perdendo o festival por causa daquela irresponsável que não tinha nada que ficar se exibindo.
Escrevinhadora, guerreira que não chora, com medo de ser espancada pela Ana, logo que saiu pulando que nem um saci da sala de curativos, já foi dizendo que elas iriam de qualquer jeito. Ana abriu um sorriso de orelha a orelha e deu o braço para a outra se apoiar.
No dia seguinte, com o gesso ainda mole, colocaram tudo dentro do fusquinha e lá se foram cantando músicas de Beto Guedes estrada afora. Escrevinhadora, de navegadora, ia dando as coordenadas de acordo com o mapa que Shintoni havia desenhado.
Vira aqui, nessa estradinha de barro. Tinha chovido na véspera, a estradinha era uma verdadeira pista de rali. Será que o fusquinha tem tração nas quatro rodas? Não tinha. O carro derrapou, guinchou, soltou fumaça e atolou.
Ana, é contigo mesmo. Eu não posso sair desse carro, pulando num pé só, no meio da lama. Ana, bufando, arregaçou a calça, meteu o tênis novinho no atoleiro e embrenhou-se no mato para procurar socorro. Quarenta minutos depois, chegou com um velho, um menino e um burro. Escrevinhadora pensou que já tinha visto aquela cena antes, mas não lembrava onde.
Ana sentou-se ao volante, espumando de ódio, enquanto o velho amarrava o burro no pára-choque e o menino empurrava. Duas horas depois, o fusquinha desatolou e saiu corcoveando pela estrada.
Rodaram, rodaram, começou a chover de novo, e nada da tal da cachoeira que Shintoni tinha desenhado no mapa aparecer. Será que pegamos o caminho errado? Vamos pedir informação. Só se for para os bichos peçonhentos que habitam esse lugar.
Mato de um lado, mato de outro. Odeio a natureza! Escrevinhadora pediu pra ir ao banheiro. Putz! Você e essa sua bexiguinha! Vai no matinho mesmo. De forma alguma, tô com o pé quebrado.
De repente, vislumbraram uma fumacinha saindo do meio do mato. Olha lá! Onde tem fumaça, tem gente. Ana embicou o fusquinha numa trilha e deram de cara com uma tapera. De dentro dela emergiu uma figura estranha. Pronto! Deve ser uma psicopata assassina canibal. Vamos desaparecer sem deixar rastro.
Boa tarde. Será que a senhora deixa a gente usar o banheiro?
Fatinha apontou com a cabeça uma portinha do lado da tapera.
Escrevinhadora, pulando num pé só, enfiou a cabeça no vão da porta. Estava tudo escuro. Ela procurou o interruptor de luz. Não achou. Desculpe, mas, onde acende a luz?
Fatinha apontou para um candeeiro pendurado na parede.
Escrevinhadora iluminou o lugar. Era um cubículo com um cano saindo da parede – provavelmente um chuveiro - e um buraco no chão. Buraco no chão? Nem morta! Mas ou era o buraco ou o matinho. Escrevinhadora se resignou. Pelo menos o cubículo tinha porta. Começou a se preparar, quando olhou para baixo. Dentro do buraco, um sapo gigante a encarava. Virou-se desesperada para porta e levou outro susto. Nela havia uma pintura. Ela aproximou o candeeiro e viu que era a imagem de Jesus, tamanho natural, que a olhava fixamente.
E aí? Fez o seu xixizinho? Não deu, com um sapo me olhando de um lado e Jesus de outro, perdi a vontade.
Obrigada, moça!
Fatinha apontou para a trilha, virou as costas e sumiu dentro da tapera.
Será que a gente não vai chegar nunca nesse lugar? Chegamos. Olha quanta gente esquisita! Pára de reclamar e arma logo essa barraca. Já tá escurecendo e eu estou morrendo de cansada! Vamos comer biscoito com água e ir dormir!
No dia seguinte, as meninas se dispuseram a fazer o reconhecimento do terreno. Não conseguiram nem sair da barraca. Tinha um rapaz deitado na entrada.
Dá licença? Nada. Dá licença? Nada. Ana cutucou o cara. Nada. Será que ele está morto? Só me faltava essa: um defunto logo de manhã... Escrevinhadora deu mais uma cutucada nas costelas do cara com a ponta da bota de gesso. Perdeu a paciência. Meteu-lhe um chute.
Fininho acordou. Hei, não precisa chutar, não. Já acordei. Fininho, ainda deitado, olhou para as duas ninfetas. Seus olhos brilharam. Estava apaixonado.
Fininho era um ex-estudante de Direito que tinha largado tudo para levar uma vida natural. Vivia de artesanato, tinha renunciado aos hábitos burgueses como tomar banho e escovar os dentes, mas, em contrapartida, tinha adquirido outro, que lhe rendeu o apelido. Morava no Reino da Águas Claras há nem sei mais quanto tempo.
As duas, já irritadas, deram um empurrão no pobre do Fininho e foram procurar o lugar do festival.
Voltaram apavoradas com o que viram. Um bando de gente com aparência de drogada pedindo dinheiro, comida, água. Parecia o purgatório. A duras penas conseguiram voltar para a barraca. Ana ia à frente, distribuindo sopapos e puxando Escrevinhadora pelo braço. A última, coitada, ia pulando atrás.
Vamos comer alguma coisa e voltar pra casa imediatamente. Papai vai matar a gente se souber que viemos parar num lugar desses.
Quando chegaram à barraca, mais uma surpresa desagradável: ela tinha sido saqueada. Não sobrou nem um pacotinho de miojo pra contar a história. Pra completar, Fininho estava lá dentro. Tinha decidido que ia morar alí, com elas. Iriam formar uma comunidade, ter muitos filhos e viver em contato íntimo com a natureza.
Comunidade? Natureza? Filhos? Com você?
A viagem de volta foi num silêncio sepulcral. Não havia palavras que pudessem expressar a frustração, a raiva, a fome e a sede que sentiam.
Quando chegaram a casa, Ana se virou pra pegar as coisas no banco de trás. Quase teve um ataque cardíaco quando viu que tinham trazido do Reino das Águas Claras muito mais do que péssimas recordações: Fininho. Dormindo.
Como esse cara veio parar aqui? Sei lá. E o que a gente vai fazer com ele? Sei lá. Deixa ele aí mesmo. O Shintoni resolve. O carro é dele, o que estiver dentro também.
E assim foi feito. Fininho mora até hoje no fusquinha do Shintoni. Ele até já se acostumou com aquela companhia inusitada. Fininho mantém o carro limpinho, e de vez em quando vai visitar as meninas para renovar suas juras de amor eterno. Elas não se comoveram. Ainda.
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Camping do Fim do Mundo - por Escrevinhadora

Eu tinha perto de 16 anos e quase não saía de casa. Meu pai, um homem antiquado e severo acreditava que lugar de mulher é em casa, que uma moça deve casar-se virgem e me trazia sob rédeas curtas (a década de 60, a pílula, a revolução sexual não tinham entrado na cabeça dele). Meu sonho de consumo era acampar. Algumas amigas de colégio já tinham acampado e vivam contando maravilhas sobre isso. Então eu me mordia de vontade.
Num fim de semana prolongado minha prima, mais velha que eu uns dois anos (ela já era maior de idade) ia acampar com duas amigas, acompanhadas pela mãe de uma delas. Eu não sei que milagre aconteceu, mas meu pai concordou que eu também fosse (acho que foi influência do meu tio, que prometeu que a prima tomaria conta de mim).
Então na sexta-feira, logo após o almoço, não sem antes ouvir um sermão do meu pai me garantindo que me moeria de pancada se por acaso eu bebesse ou fumasse (coisas piores que isso ele nem ousava supor que eu pudesse fazer), lá fui eu, cheia de expectativa e fantasias.
Chegamos ao acampamento no começo da tarde. O camping, na verdade, nada mais era do que um velho sítio que o proprietário resolvera transformar num negócio alternativo. Cobrava uma taxa de quem armasse barracas em seu terreno. Em troca, oferecia banho (água fria, de um pedaço de cano pendente da parede do lado de fora da casa), um único banheiro dentro da casa e um lugar pra lavar louça (dois tanques velhos nos fundos da casa).
Armamos nossa barraca e saímos pra um passeio de reconhecimento. Tinha chovido durante toda a semana e o terreno era um lamaçal só. O rio prometido na propaganda nada mais era do que um fiozinho de água, correndo sobre umas pedras cobertas de limo. O sítio tinha muito mais mato do que plantas. Mas eu, tão excitada com minha aventura, não notei nada de errado.
Até que me deu vontade de fazer xixi...
Para ir ao banheiro, era preciso passar pela sala da casa, que também servia como uma espécie de escritório do proprietário. O sujeito, por si, já era um tipo assustador. Moreno, pele muito queimada de sol, barba e cabelos compridos que ele trazia presos num rabo de cavalo, braços musculosos e cobertos de tatuagens (estrelas, dragões, espadas) e um vozeirão de trombeta.
A sala, escura e recendendo a incenso, era um museu anárquico. Havia caveiras na estante, teias de aranha pelos cantos, numa parede um quadro enorme que deveria ser a representação do inferno (homens e mulheres nus, se retorcendo sobre labaredas), uma coruja empalhada e mais uma infinidade de objetos estranhos e assustadores. (Depois vim a saber que o homem pertencia a uma seita que esperava o apocalipse, o fim do mundo que deveria ocorrer na virada do milênio. Misturava Jesus com John Lennon. Acreditava que no dia do Juízo o demônio despertaria de seu sono nas profundas do inferno e voltaria para um duelo final com Deus. Era vegetariano. Consumia e oferecia aos hóspedes que comungassem de suas crenças, um chá produzido lá mesmo no sítio, que possuía a miraculosa propriedade de purificar o corpo e preparar o espírito para o grande momento da transição.)
Mas voltemos ao desenrolar da história: atravessei a sala com as pernas meio trêmulas. Entrei no banheiro, fechei a porta e já ia me sentando no vaso quando levei um choque: na parede à minha frente, em tamanho natural, uma imagem de Jesus. Tentei abaixar a cabeça, olhar para um lado, para outro, não adiantou. Meu olhar era atraído pelo olhar hipnótico daquela figura. Impossível fazer xixi com Jesus me olhando daquele jeito. Apertadíssima, saí às pressas do banheiro e fui procurar lá fora uma moita que pudesse me servir. Encontrei uma, me abaixei e já estava me aliviando quando vi, bem pertinho de mim, imenso, verde, olhos esbugalhados, um sapo. Saí correndo, escorregando na lama, a calcinha que eu tentava erguer enquanto corria, se enroscando em minhas coxas.
A partir daí meu final de semana dos sonhos se transformou em pesadelo.
Vasculhei o sítio atentamente e descobri que havia sapos em todos os cantos, de todos os tipos, pequenos, grandes, verdes, marrons, cinzentos.
Dormi mal ou mal dormi todas as noites que passei lá. Depois de verificar se a barraca estava hermeticamente fechada eu me enrolava toda no cobertor, sem deixar nenhuma fresta. Mesmo assim, passava horas de olhos abertos no escuro, esperando que a qualquer momento um sapo fosse entrar debaixo das cobertas, subir pelas minhas pernas, pular em cima do meu peito. Xixi eu só fazia nas moitas, depois de examinar cada metro do terreno pra ver se não tinha nenhum sapo por perto. O resto eu nem fazia. Passei o fim de semana com a barriga inchada, cheia de gases, dura feito um tambor.
Minha prima, surpreendentemente, parecia muito relaxada, totalmente integrada ao ambiente (algum tempo depois descobri que era efeito do chá servido aos iniciados; na verdade, cogumelo alucinógeno, nada mais que isso). Não contei pra ninguém, porque não sou dedo-duro e também porque não queria ficar mal com minha prima.
Desde então, mais de 20 anos são passados. O mundo, felizmente, não acabou.
Mas eu nunca mais quis saber de acampar em toda minha vida.
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fininho e seu Amor Impossível - por Escrevinhadora

Fininho era um maconheiro meio amalucado, porém inofensivo. Típico hippie de meados dos anos 70, sabe cumé? Muito cabelo, muitos ideais, pouco dinheiro e pouco banho. Não era vagabundo (só muito dorminhoco, sabe-se se lá se por sua natureza ou por efeito do fumo). Trabalhava num lava-rápido. Emprego ruim, salário pior ainda, mas dava pra viver e garantia carteira assinada. Não tinha muitos gastos. O pai morrera quando ele era criança e desde então vivia com a mãe numa casa simples, num bairro afastado. Dava parte do que ganhava pra mãe, pra ajudar nas despesas. O que sobrava era mais do que suficiente pra ele. Sua vida inteira era um marasmo. Sua vida financeira um marasmo, sua vida amorosa um marasmo, sua vida intelectual um marasmo. Não tinha dívidas, também não tinha economias. Não tinha namorada (magrelo, como indicava o apelido, branquelo, de inteligência curta e duro, onde ia arrumar namorada?). No geral detestava ler, só se interessava por leitura se o assunto fosse extraterrestres ou disco-voadores. Sua única diversão era a erva e com ela gastava quase todo o dinheiro que lhe sobrava. Só não fumava no horário de trabalho. Tinha medo de perder o emprego e ficar sem dinheiro para o seu sagrado bagulho. Quando ouviu falar no tal do festival de rock Fininho ficou alucinado. Pensou logo em alguma coisa tipo Woodstock, todo mundo peladão num clima de paz e amor. Correu comprar os ingressos (caros pra diabo, mas fazer o quê? Era um festival de rock, ele tinha que ir). Não pediu licença ao patrão pra faltar ao trabalho. Simplesmente resolveu ir e depois veria o que fazer. Enfiou-se num ônibus noturno e viajou horas a fio com a mochila nas costas. Durante a viagem, comeu biscoitos murchos que comprou numa parada. Numa outra parada, tomou água da torneira do banheiro. No meio da madrugada o ônibus o despejou na rodoviária de uma cidadezinha perdida no interior (aquilo não era bem uma rodoviária, apenas uma guia rebaixada onde o ônibus encostava e um cubículo escuro que servia de guichê). E o festival não era bem no centro da cidade. Era longe, muito longe e àquela hora não havia ninguém pra indicar o caminho. Fininho resolveu esperar o dia amanhecer e enquanto isso, aproveitou pra dormir mais um pouco, a mochila servindo de travesseiro. Ao amanhecer acordou e viu à sua volta mais uma meia dúzia de cabeludos que também dormiram por ali.
Pelas roupas e pelos cabelos, era evidente que também iam ao festival. Seguiram juntos. Pedindo carona, que só conseguiram de um sitiante com uma camionete velha, que exigiu que eles fossem na parte de trás, amontoados entre sacos de milho e engradados de galinha. A partir de um trecho da estrada o homem (um caipira muito desconfiado) os mandou descer dizendo que seu caminho não passava pela porta da fazenda onde acontecia o festival. Tiveram que seguir a pé, por uma estradinha barrenta e estreita. Durante a caminhada Fininho estava doido pra acender um baseado, mas se aguentou. Um pouco porque era muito tímido pra fumar na frente de estranhos e outro tanto por avareza mesmo. Tinha medo de mostrar quanto fumo estava levando e ter que dividir com seus acompanhantes. Chegaram à fazenda já no meio do dia, mortos de fome e cansaço.
Fininho logo foi fazer o reconhecimento da área. A fazenda era enorme, com muitas árvores, muito mato, muitos recantos onde alguém podia se esconder pra fumar sossegado. Não havia os peladões que ele esperava encontrar (a chuva da semana inteira tinha feito a temperatura despencar e quase todos usavam o mesmo uniforme: calças e jaquetas jeans). Os banheiros eram um completo desastre (um mistura fétida de urina e vômito emporcalhavam o chão). Mas o palco era uma beleza, grande, bem montado, equipado com uma aparelhagem de som da pesada. Fininho concluiu que os shows seriam muito bons e achou melhor descansar um pouco, pra aguentar o agito da noite.
Procurou um local afastado e deserto, curtiu seu fuminho, depois dirigiu-se para o espaço onde a moçada tinha montado acampamento. Recostou-se na sombra de uma barraca e dormiu por algumas horas. Quando acordou, viu pela primeira vez as três, paradas à porta da barraca. Duas morenas, uma delas com cara de brava e a terceira, bem loirinha. Cabelos longos e lisos, rosto fino, traços delicados, cara de santa. Fininho encantou-se pela moça assim que a viu. Ficou parado, olhando pra ela embasbacado, desejando se aproximar, falar com ela, ouvir-lhe a voz. Só desviou os olhos quando a morena de cara de brava deu-lhe uma encarada. Mas mesmo assim, continuou por ali, disfarçadamente admirando a moça. E quase não se afastou mais. Sumia de vez em quando pra fumar seu baseado, tomava um banho na cachoeira, ia assistir ao show, mas sempre voltava pra dormir. Começou dormindo na sombra da barraca mas depois, vendo que as moças estavam sozinhas, passou a dormir na porta mesmo, como que montando guarda. Não entendia muito bem o que aquelas três faziam ali. Estava na cara que não tinham nada a ver com aquele ambiente. E se arvorou meio que em anjo da guarda das moças (em especial da carinha de santa, por quem estava obviamente apaixonado).
Tanto zanzou por ali que acabou atraindo a atenção da moça. Trocaram algumas palavras. Ela lhe deu uma fruta, que Fininho aceitou prontamente (não estava em condições de recusar comida). Sentiu-se muito pobre e um pouco envergonhado por não ter nada para oferecer a ela. E foi ficando por perto, feliz apenas por conversar um pouco com a moça. Ficou sabendo que as três eram amigas de colégio e tinham ido atraídas unicamente pela música. As duas morenas eram irmãs. A de cara de brava era a mais velha e dona do fusquinha que as levou ao festival. A outra, mais nova, andava meio enrabichada com um sujeito fortão, de barba escura (com quem desaparecia no meio da tarde). A santinha era doida por rock e especialmente apaixonada por um astro pop americano que, obviamente, não ia aparecer pra tocar naquele fim de mundo.
E assim o tempo passou e chegou o último dia de festival. Perdido entre sentimentos contraditórios, alegria por ter curtido aqueles dias, a tristeza de saber que era o fim, Fininho fumou feito louco, até de madrugada. Depois, deitou-se na porta da barraca e dormiu. Dormiu e dormiu. Sonhou que alguém o chamava aos berros, que o sacudiam. Sonhou que acordava, entrava na barraca e ia dormir junto da moça. E acordou de susto, com a barraca despencando-lhe em cima, uma haste do ferro da armação acertando-o bem no meio da testa (na verdade, no meio de seu sono profundo, tinha mesmo entrado na barraca, as moças tinham feito de tudo pra acordá-lo e não conseguindo, resolveram desmontar a barraca mesmo com ele dentro).
Ao ver que aquele era o momento da separação, Fininho entrou em desespero. Queria dizer algo para a moça, não sabia exatamente o quê. De repente, lembrou-se de um poema que arrancara certa vez de um livro e que andava sempre dentro de sua mochila. Um pedaço de papel amassado com um poema de amor que dizia mais ou menos isso: “quando você não estiver mais perto de mim, nenhum fiapo de vida me restará para viver”.
Desajeitado, sem saber falar sobre a tristeza que estava sentindo, Fininho enfiou o pedaço de papel na mão da moça e se afastou rapidamente, sem coragem de ficar para vê-la partir.
Mas depois que as moças foram embora, Fininho arrependeu-se de sua covardia. Então, procurou pela fazenda inteira o fortão com que a morena mais nova saía. Encontrou-o e conseguiu arrancar dele (em troca de uma boa porção de erva), o endereço das moças.
Fininho voltou pra cidade. Retornou ao trabalho onde o patrão furioso nem quis ouvir explicações. Simplesmente o despediu (pelo menos foi generoso, pagou-lhe uma boa indenização).
Desempregado, mas com dinheiro no bolso, Fininho fez a barba, cortou os cabelos, arrumou-se todo e foi à procura da moça (o endereço não era difícil e Fininho conhecia bem a cidade inteira).
A rua ficava num bairro de classe média. A casa era muito ajeitada, um portão largo e guia rebaixada indicando a existência de um carro. Fininho ficou circulando na rua, sem saber o que fazer. O que diria para a moça? Falaria de seu amor repentino? E o que poderia oferecer a ela? Nem mesmo seu emprego no lava-rápido possuía mais...O tempo foi passando e Fininho desanimando.
Já fazia horas que Fininho dava voltas pela rua, quando a moça passou por ele, mas nem sequer o viu. Era o fim de suas esperanças.
Fininho deixou-se ficar perambulando pela rua e quando anoiteceu, aproveitando-se da escuridão, deixou pichado no muro em frente à casa o que julgava ser um recado.
Depois, foi a uma boca de fumo que conhecia, onde gastou quase toda a indenização em maconha. Daquela vez, só daquela vez, pra dar um realce (como se diz no jargão dos usuários) comprou também uma trouxinha de pó.
Tomou um trem e rumou para o subúrbio, onde enfiou-se no banheiro imundo de uma estação ferroviária para curtir sua desilusão.
Na manhã seguinte, quando a moça abriu a porta de casa, teve um susto de quase desmaiar. No muro em frente, em letras garrafais, a pichação dizia FININHO TE AMA.
Naquele mesmo instante, do outro lado da cidade, o corpo de Fininho dava entrada no IML, morto por overdose, numa parada sinistra na periferia.
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domingo, 20 de dezembro de 2009

História Conta História

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Queridos amigos:

Inauguramos a categoria “História Conta História”,
que é consequência de uma ideia que surgiu durante o bate-papo no chat do Duelos
entre Fatinha, Escrevinhadora e Ana.


A proposta foi a seguinte:
cada uma delas escreveria uma história que tivesse vivido;
a seguir, cada uma criaria uma história contendo os principais detalhes das três histórias iniciais.


Dia 17 demos início à categoria com a história pessoal de Escrevinhadora.
Dias 18 e 19 foram postadas as Partes 1 e 2 da história pessoal de Ana.
Hoje foi postada a história pessoal de Fatinha.

Na sequência, serão postadas as histórias derivadas das três autoras.


Portanto, a categoria funciona da seguinte forma:
com base em qualquer (ou quaisquer) das histórias apresentadas podem ser criadas histórias derivadas.
Leiam as histórias publicadas, criem suas histórias e enviem para postagem!
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“Era uma Casa Muito Engraçada...” - por Fatinha

Tinha eu acabado de entrar para a faculdade. Estudante de História, meus colegas de curso ou eram bichos-grilo ou comunistas. Eu, nem uma coisa nem outra, sempre fui careta e pequeno-burguesa, mas isso nunca foi um problema. O problema era que meus pais nunca me deixavam fazer as viagens que a galera planejava. Depois de muitas recusas, parei de ser convidada. Aí decidi que na próxima eu iria. Tomei coragem e anunciei em casa que viajaria com o pessoal para São Pedro da Serra. Fui.

Nos encontramos na rodoviária, pegamos um ônibus pra Friburgo e de lá um cata-corno até a outra cidade. O cata-corno é aquele ônibus comum, que mal presta para andar na cidade, mas que é usado para fazer o trajeto de uma cidade pequena até a outra menor ainda. Ele vai parando para qualquer um que faça sinal, em qualquer lugar da estrada. A estrada, a propósito, era inexistente. Cada cratera homérica, parecia que havia ocorrido um bombardeio. Nós íamos sacolejando agarrados na mochila e no colchonete – sim, viagem de estudante sempre tem que ter um colchonete.

No meio da estrada, no meio do nada, no meio do mato, a menina que tinha alugado a casa pediu para o motorista parar. Descemos. Depois descemos mais um pouco porque a casa era à beira de um despenhadeiro. Quando olhei para o pardieiro, comecei a cantarolar: “Era uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...”

A casa tinha três cômodos: uma sala, um quarto e uma cozinha. O banheiro era do lado de fora. Guarnecendo o imóvel, uma roda de carroça em cima de um toco de árvore. Era a mesa. Na cozinha, um fogareiro a carvão. Sem carvão. No quarto, um lampião. Só. Cama? Cadeira? Televisão? Geladeira? Eletricidade? Confortos burgueses dispensáveis para um bando de garotos a fim de curtir a natureza.

Fomos à cidade comprar comida e carvão. Ao menos ninguém se perdia. A cidade tinha apenas uma rua e nela uma mercearia que vendia desde pilhas até absorvente higiênico, passando por pão, cenouras e banheirinhas de plástico para dar banho em bebês. Não entendi muito bem o critério do comerciante para abastecer o seu estabelecimento, mas, pra quem ia ter que dormir no chão em cima de uma folha de jornal, tudo era festa.

Voltamos pra casa. Almoçamos laranjas, que comemos sentados no batente da porta, jogando as cascas despenhadeiro abaixo.

Quando foi anoitecendo, começou a esfriar e fui comunicada que, ou tomava banho frio, ou tomava banho de cuia. Optei por esquentar um balde com água no fogareiro, o que não dava muito certo. Demorava e éramos muitos para tomar banho. Alguns escolheram o banho frio e ficávamos escutando os urros de dor que vinham de dentro do banheiro. Quando a minha cota de água estava mais ou menos morna, entrei no que chamavam de banheiro. Pia, vaso sanitário com descarga de cordinha, box sem cortina. Luz de velas. Entre o chuveiro e o sanitário, um sapo. Não dava pra sair correndo, já tinha me despido. Olhei para a parede do box. Jesus Cristo, de braços abertos, olhava para mim. Disseram que o dono da casa fez aquela pintura depois de tomar um chá de cogumelo e encontrar Jesus face a face. Mas precisava ser no banheiro? Virei de costas para Jesus, de frente para o sapo, lavei as partes essenciais do corpo e pronto.

Hora de dormir. Primeira tarefa: forrar o chão com jornal. São Pedro da Serra fica na... serra. Frio. Depois do chão forrado, colchonetes. Depois, matar todas as baratas que pudéssemos. Depois, deitar um por um, como um joguinho de dominó. Um ficou encarregado de apagar o lampião e todos ficamos proibidos de levantar de madrugada para fazer xixi. Primeiro porque naquele breu havia o risco de esmagar dedos e cabeças, depois porque ia ter que abrir a porta e o vento frio ia entrar, não bastasse o fato de a casa não ter forro e já ventar pela fresta das telhas.
Eu me diverti de monte. Se faria de novo? Só se voltasse a ter dezoito anos.
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sábado, 19 de dezembro de 2009

Festival de Águas Claras (Dias 3, 4 e 6) - por Ana

No terceiro dia, mais barracas, nada de quiosques, uma fome de cão, pois não tínhamos levado muita comida, pensando em comprar lá. Vendedores ambulantes? Neca. Água? Neca, só a do filete-cachoeira que era extremamente duvidosa, porque o pessoal ficava lá em cima, ao lado da pedra, brincando de fazer xixi em quem tomava banho embaixo.
As pessoas estavam esquisitas, meio zumbizadas, meio agressivas, andando meio torto e muito tortas, falando sozinhas... Esquisitíssimo!
De repente ouvimos uns berros que pareciam ser de um vendedor ambulante. Nosso amigo disse:
- “Acho que ele tá gritando: ‘Olha a Coca!’”. E saiu correndo desabalado atrás da voz. Voltou com um cara que tinha uma bolsa grande e um tabuleiro. Diálogo:
- “Cara, tu tem Coca?”
- “Tenho, bródi!”
- “Mas só Coca?”
- “Não! Tem mais coisa aqui! Da boa!”
E a gente:
- “Ai, até que enfim! Pelo menos um refrigerante!”
Quando o cara se aproximou, olhamos o tabuleiro repleto de trouxinhas e papelotes.
Não era Coca, era coca! Távamos ferrados!
Fizemos reunião-relâmpago. Pauta: Vamos embora já! Mas eu e minha irmã queríamos ficar. Afinal, tínhamos ido assitir ao Egberto e ÍAMOS ASSISTIR ao Egberto! 2 a 2. Ficamos. Nossos amigos apavorados e irados.
Esperamos a noite e acho que todo o tempo eles ficaram rezando para nada de grave acontecer. À noite nos dirigimos ao palquinho. Mais sei-lá-quem em cima do tablado urrando e resmungando coisas ininteligíveis. O som paulêra o tempo todo. De repente parou. Pensamos: é o Egberto, é o Raul. Acho que, nesse momento, nossos amigos esqueceram suas rezas. Não sei quem era, porque o palquinho tava longe pra burro, mas a figura tocava violão. O som era tão baixo e ruim, tão cheio de microfonia que ninguém ouvia nada. Depois de uma meia hora, o cara saiu tão mole quanto entrou, o palco se apagou e a paulêra recomeçou. Voltamos para a barraca decididos a ir embora na manhã seguinte.
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.Quando acordamos, havia um magricela branquelo dormindo na varanda. Nós já o tínhamos visto antes. Era o Fininho. Hiperativo, taquilálico, tocava o maior horror. Minha amiga, que já tinha medo dele de longe, ficou apavorada. Ele dormia barrando a entrada da barraca. A gente empurrava, empurrava e nada dele acordar ou se mover. E nós lá dentro, presos. De repente ele acordou e se pôs dentro da barraca para continuar dormindo. Ninguém conseguia tirá-lo de lá e tínhamos que desmontar a barraca. Foi uma guerra dificílima, mas conseguimos despejá-lo depois da barraca desmontada.

Então nos dirigimos à entrada da “fazenda”, a fim de pegar o cacarecobus de volta. No caminho, o povo doidaço nos cercou pedindo dinheiro, tentando arrancar as mochilas da gente, mexendo nos nossos bolsos... Sabem aquela cena dos vampiros no teatro atacando a mulher, no filme “Entrevista com o Vampiro”? Pois é, assim. Havia um cara alto, forte, com voz de Tim Maia, que ficava gritando pro povo: “Tem dinheiro aqui! Tem dinheiro aqui! Aqui! Aqui!” E cada vez mais enlouquecidos em volta de nós e a gente tentando chegar à porteira. Minha amiga dizia:
- “Não tenho dinheiro. Não tenho dinheiro.”
E eles:
- “Não? O que é isso na sua mão?”
- “Nada. Tira a mão! Larga!”
- “Ih! É passagem de ônibus! Isso serve! E se tem passagem, tem dinheiro! Dá! Dá!”
Aí o do vozeirão partiu pra cima e minha amiga lutou feroz e heroicamente pelas passagens. Saiu vencedora, apesar de magrinha e apavorada. Chegamos à porteira quase correndo com aquela turba enfurecida atacando pelos flancos e retaguarda.
Do lado de fora, o ônibus já estava cheio. Outras pessoas ingênuas, revoltadas e enganadas, como nós, também estavam indo embora. Os doidões invadiram o ônibus tentando tirar alguma coisa de quem estava lá dentro; outros ficaram do lado de fora, na porta, tentando coletar alguma coisa de quem tentava entrar; e outros, ainda, pendurados nas janelas, atacavam os que estavam lá dentro, esticando os tentáculos famintos para mochilas, bolsas ou qualquer coisa que pudessem agarrar. Era o caos. Apesar dos obstáculos, conseguimos entrar. O ônibus partiu com gente sentada nas janelas, hipersupermegalotado. Apesar de tudo, sobrevivemos e chegamos ao Rio de Janeiro. Eu, indignada e frustrada, minha irmã apaixonada por um caminhoneiro careta que tinha conhecido lá (e que, posteriormente, iria pedi-la em casamento por telefone e propor que passassem a vida viajando romanticamente pelas estradas do Brasil e, quem sabe, do mundo) e minha amiga totalmente em choque por tudo o que tinha acontecido, principalmente por causa do Fininho, que a deixou em pânico total.
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.Dois dias depois de voltarmos, fui à casa de minha amiga e a encontrei com portas e janelas fechadas e portão trancado, o que nunca havia visto antes. Chamei. Depois de muito tempo, alguém olhou pela fresta da janela e jogou as chaves pra mim lá fora. Entrei. Ela estava sozinha em casa, deitada na cama, toda encolhida, coberta até a cabeça, tremendo que nem vara verde. Eu perguntei:
- “O que foi, você tá doente?”
Ela descobriu os olhos esbugalhados e perguntou, em pânico:
- “Trancou tudo? Trancou tudo?”
- “Tranquei. Mas... o que foi?”
- “Você viu? Você viu?”
- “Viu o quê?”
- “Ele me seguiu! Ele me seguiu! Nunca mais vou me livrar dele! Ele me seguiu, sabe onde eu moro, me seguiu até aqui. Ele está aqui. Está aqui me vigiando...”
- “Quem? Quem te seguiu? Quem está te vigiando?”
- “Ele! Ele! ELE!”
E fazia aquele olhar de você-sabe-quem, mas eu não sabia. Então ela disse:
- “Olha lá fora! Olha só! Olha! Foi ele! É ele!”
Eu fui até a porta da frente, abri a portinhola e li, no enorme muro da casa em frente, em letras garrafais:
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FININHO ESTÁ AQUI
.Raul Seixas
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Festival de Águas Claras (Dias 1 e 2) - por Ana

Lá pelas bandas dos anos 70/80. Eu, cheia de rebeldia, amor pela música e idealismos, via, na TV, o comercial do Festival de Águas Claras: palco iluminado, todo bonito, multidão embalada por vários nomes do cenário musical brasileiro, especialmente o meu “idolatrado” Egberto Gismonti. Eu assistindo e doida pra estar lá, vivendo um momento histórico...
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Comecei a trabalhar. Um dos primeiros pensamentos: “Poderei ir a Águas Claras”. Na época da edição seguinte do Festival, lá fui eu ao centro da cidade para comprar os ingressos. Me deparei com um prédio meio pé-sujo, mas tudo bem. Devia ter desconfiado que alguma coisa estava errada quando me vi no “escritório” da firma organizadora do evento: uma mesa fulêra, um telefone velho, um talão de ingressos, infiltrações brabas nas paredes e reboco caindo nas nossas cabeças. O cara que estava lá para atender agia meio assim como um bicheiro que aguarda, nervoso, a chegada da polícia. Mesmo assim, eu, adolescente, otimista e sonhadora, comprei os ingressos.
Daí até o dia da viagem fiquei envolta naquilo que, acreditava eu, me esperava em Sampa: uma fazenda linda, com riachos e cachoeiras de águas claras (já dizia o nome), perfeita infraestrutura do Festival, gente muito alto astral reunida, por três dias, por amor à música de boa qualidade.
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Sonhei, sonhei muito até estar no ônibus que nos levaria de São Paulo a Águas Claras: um cacareco horroroso, repleto de gente esquisita que se embrenhava por estradas cada vez mais esburacadas e lugares inóspitos, elameados, feios, barro por todos os lados, nem um verdinho ao longe pra contar a história... De repente o ônibus parou e o motorista berrou: “Águas Claaaaras!!!!”.
O cenário era desolador: uma cerca toda torta, de mourões e arame farpado; o chão era pura lama, até o horizonte uma terra careca, só umas duas ou três árvores magricelas perdidas em meio àquela tristeza. Palco? Não havia. Riacho? Só nos sonhos. Cachoeira? Um filete mínimo de água que saía de uma pedra e onde uma multidão tentava se banhar. No chão, perto dela, absorventes, camisinhas, plásticos, papéis, restos de comida, uma lixarada fedida e porca.
Montamos a barraca num lugar mais sequinho, perto de duas construções malfeitas, ao lado de umas árvores ralas: quatro paredes caiadas sem telhado. Resolvemos ficar por ali porque imaginamos que fossem os banheiros. Não vimos sinal dos quiosques de comida e pensamos que fossem montá-los no dia seguinte. Fomos dormir tarde sonhando com o que de bom poderia nos esperar depois que montassem tudo. E com a certeza de que havíamos chegado cedo demais.

No dia seguinte, mais barracas montadas à nossa volta, mas de infraestrutura, neca de pitibiriba. Fomos ao que pensamos ser, além de local de banhos, banheiro. Mas só havia canos saindo das paredes, dos quais escorriam filetes d’água. Uma entrada aberta e nenhuma porta. Era só para banhos, mesmo. As árvores serviam de arquibancadas para os caras ficarem olhando as garotas lá dentro. E elas tomando banho nuas, na maior! Batemos em retirada: eu, minha irmã e minha amiga.
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No final do dia, nada de quiosques, nada de shows. De repente, lá pelas 23 horas, alguém disse que o palco estava montado “lá atrás”. Fomos ver o lá atrás. Andamos que nem uns condenados e nada de palco. Música? Só um rock brabo paulêra berrando o tempo todo e nós com baita dor de cabeça. De repente achamos um palquinho, com umas lâmpadas de “brilho” amarelado muito das sem-vergonhas, um breu desgraçado e um sei-lá-quem no “palco”, mais doido que o Jimmy Hendrix em seus melhores dias, tocando violão e cantando algo que não se conseguia compreender.
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O som baixíssimo, um troço surrreal. Começaram os comentários de que o Egberto e o Raul viriam no dia seguinte. Ficamos lá por umas duas horas. O cenário não mudava. Resolvemos ir dormir.
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Fotos: Festival de Águas Claras
Raul Seixas.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Um Churrasco e um Atoleiro - por Escrevinhadora

Formavámos um grupo na ginástica. Eu, uma amiga, dois sobrinhos dessa amiga (um rapaz e uma garota) e o professor de ginástica. Um dia fomos convidados por um colega da aula de aeróbica (que não era da nossa turma) pra ir a um churrasco. O churrasco seria num domingo, num sítio nos arredores de São Paulo e o convite era pra que nós fizéssemos uma apresentação de aeróbica (lembram-se daquela época? As fitas de videocassete da Jane Fonda, workout, alto impacto?). Pois bem, a ideia era essa. De imediato, pensamos numa coreografia e resolvemos ensaiar pra fazer bonito no dia do tal churrasco. Logo na primeira tarde de ensaio eu caí de mau jeito sobre o tornozelo e tive uma entorse. Voamos para o hospital mais próximo. Bota de gesso no pé direito e assisti ao restante dos ensaios desolada, sentada no chão, num canto da sala de ginástica. (Mas os outros ensaiaram e a coreografia ficou até bem bacana.)
No dia marcado, nos aboletamos em dois carros (eu, minha amiga e o sobrinho no meu carro; o professor e a sobrinha no carro dela) e lá fomos nós. Tínhamos encontro marcado com a turma do churrasco numa praça no centro da cidade. Só não sabíamos que a polícia e a cia. de trânsito tinham fechado algumas vias do centro pra um evento qualquer. Demos voltas e mais voltas. Chegamos atrasados ao local do encontro. Todo mundo já tinha ido. Alguém, mais diligente, tinha deixado pra nós um mapa. Tosco, mas era um mapa e lá fomos nós tentar segui-lo. Pegamos a Marginal do Tietê, depois a Fernão Dias (a estrada que liga São Paulo a Belo Horizonte). Naquele tempo, uma péssima estrada, pista simples, mal sinalizada, muitas curvas, tráfego pesado. Rodamos por uns 40 minutos e alguém chegou à conclusão que tínhamos passado do ponto marcado no mapa, que não era muito distante da cidade. Era preciso voltar. Eu, com o pé engessado não podia dirigir, então ao volante do meu carro ia o sobrinho da minha amiga, garotão ainda, mas habilitado. Pois bem, o meu motorista fez uma conversão proibida e perigosa bem no meio de uma curva de uma rodovia federal. Gelei no banco do passageiro (era a hora de perceber que algo não ia bem?).
Retornamos ao ponto marcado no mapa, que deveria nos levar ao sítio. Atravessamos o centro de uma cidadezinha, passamos pela periferia, chegamos a uma estrada de terra (detalhe, tinha chovido a semana toda, a estradinha de terra era lama só). Rodamos, rodamos e nada. Nem sítio, nem ninguém a quem perguntar, nem sinal de qualquer dos pontos assinalados no mapa. Estávamos perdidos no meio do nada e só havia uma chance de chegar ao churrasco: seguir em frente. É claro que também já estávamos mortos de fome.
De repente, bem no meio de uma subida enlameada, meu carro dá uma derrapada, desliza para o lado e para, perigosamente equilibrado num barranco, definitivamente atolado: pra frente não podíamos ir, sob pena de cair do barranco; pra trás o carro não obedecia. Desceram todos pela porta do motorista. Eu, com o pé engessado, fui a última a ser resgatada.
Por perto não havia nada, nenhum bar, nem telefone público (o celular ainda não tinha invadido nossa vida), nenhuma casa onde pedir socorro. E a chuva, como que adivinhando nosso sufoco, tinha voltado a cair.
Decidiu-se que eu, inútil com o gesso no pé, deveria voltar no carro com a outra motorista em busca de ajuda. Nós voltamos. Voltamos muito. Mas nada de encontrar alguém, ou o asfalto ou a cidade. Na verdade, acho que também nos perdemos. Nem sabíamos mais onde era o atoleiro onde ficaram nossos amigos. Já estávamos naquele estado em que uma mulher começa a querer chorar. E eis que surge na nossa frente um sujeito conduzindo uma carroça, puxada por um burro. Era o único ser vivo num raio de quilômetros e então foi pra ele mesmo que pedimos ajuda. O homem tinha caído do céu. Conhecia a subida do atoleiro. Disse que era comum os carros atolarem ali. E foi na frente nos guiando.
Um burro tirando um carro do atoleiro é uma ideia muito estranha, mas o fato é que ele conseguiu. Manobrou a carroça de jeito que a traseira dela ficasse alinhada com a traseira do carro, amarrou uma corda, gritou umas ordens para o burro e ufa!!! o carro saiu direitinho do lamaçal, dançando um pouco para os lados, mas intacto.
Sujos de barro, famintos, furiosos e frustrados, resolvemos voltar pra casa. Principalmente porque, assim que escapamos do atoleiro, passaram por nós dois carros com gente que já estava voltando do churrasco. Tinham chegado lá, comido e quando a chuva recomeçou, decidiram voltar com medo de que a estrada ficasse completamente intransitável.
Chegamos em São Paulo já passava de 5 e meia da tarde. Felizmente, em respeito ao sagrado costume paulistano de comer pizza no domingo à noite, a pizzaria do bairro já estava aberta. Compramos três pizzas gigantes e três litros de refrigerante.
Depois de saciados, todos quiseram assinar no meu gesso, pra deixar registrada a data.
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