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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Por Compaixão ao Rio de Janeiro - por Vera Celms

A chuva castigava aquela terra.
Começara no meio da tarde,
E não parou mais,
Começo da madrugada,
Parte da população dormia,
Parte vigiava preocupada,
De tanto que a chuva castigava,
Lá pelas 3 da matina,
Não dormia João nem Cristina,
As janelas altas não deixavam impressão,
De repente um barulhão,
Vinha lá de fora com certeza,
Era som de coisa caindo,
Que não parava de cair,
E quando João abriu a porta,
Não havia mais nada lá fora,
Não havia jardim, não havia portão,
Não havia rua, nem pontilhão,
Não havia vizinho,
Nem comércio
Nem pra onde fugir,
Era só ruína que se avistava,
Tudo em torno submerso,
Carro, telhado, colchão,
Deu tempo de Cristina dar a mão a João,
E tentar, sob a chuva que não parava,
No meio da escuridão,
Seguir a trilha dos desesperados,
Os poucos que ali estavam
Eram todos fugitivos da desolação,
Da água que derrubava a encosta,
Em turbilhão,
Agora era um “Deus nos acuda”
Era um “salve-se quem e se puder”
Era um não ter mais nada,
Era um contínuo deixar pra trás,
Eram seres humanos, todos na mesma situação
E o País assistindo pela televisão,
Atordoado,
Com desejo profundo de ajudar,
De cada um tirar um de lá,
De oferecer distância segura,
Afinal, todos os assistentes
E os sobreviventes,
Todos em pura comoção,
Com um sentimento único, comum,
A fé...
Deus, por todo esse povo,
pedimos compaixão...
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(Chuvas de JANEIRO 2011)
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Visitem Vera Celms
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Violeta em Abrigo - Citada por Leandro de M. Oliveira

Posso sentar-me aqui? Aqui, neste canto desta caixa postal? Quero ficar aqui. Escondida. (Aqui não me vão encontrar de certeza. Aqui nem eu me vou encontrar.) Não digas nada. Nem precisas de olhar para mim. Deixa. Se eu gritar não ligues, se soluçar de choro não olhes. Não te preocupes. Tudo passa. Que raio de dia. Eu sei que já te devia ter escrito. Eu sei exactamente o que tenho para te dizer. Digo depois. Música. Põe qualquer coisa, mas alto. Põe Blur. Song 2. Isso. Mas alto. Muito alto. Não quero ouvir o meu pensamento. Estou farta das minhas ideias. A luz. Apaga. Comecei o dia com uma palmada na “Miss” Popcorn, devias ter visto a birra. Logo a seguir a “Miss” Mermaid perdeu os óculos. Porque perdem as pessoas os óculos? Eu também perco os óculos, mas eu sou eu, sou um despiste sempre pronto a acontecer. Mas isso agora não interessa nada, eu só não quero ouvir as minhas ideias… estão por todo o lado. Abafa-as. Estão espalhadas pela casa toda, na sala, na cozinha, até na lavandaria tenho ideias. A música? O que quiseres. Qualquer coisa. Escolhe. Não sei. Espera! Creep, dos Radiohead. Já tenho saudades. Andávamos a estudar e ouvíamos. Que bom. Lembro-me da Teresa que sofria de um síndrome antiapartamento. Nunca tinha vivido numa coisa daquelas, então resolvia arrumar o quarto, e muitas vezes a disposição dos móveis, às 4 ou 5 da manhã. Enquanto isso, ouvia Radiohead ou Tindersticks. A Teresa era uma querida. Tenho saudades dela. Tenho saudades de todos. Tenho saudades dos cheiros daquela altura. Muito bom. Saudades bonitas. Melhor. Já me sinto melhor, obrigada. É verdade, já ouviste o álbum do Thom Yorke? O Eraser? Está giro. Analyse é um tema que acho particularmente interessante. Deixa ouvir só um pouco, porque tenho de ir. Já estão à minha procura. Estão sempre à minha espera, eu é que penso que não. Ainda tenho de ir buscar a Popcorn e a Mermaid. Preciso daquele mimo que elas têm sempre para me dar. Sim. Podes acender a luz sim. Obrigada pelo abrigo.
Fica bem
Cristina



Visitem Violeta
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Metáfora da Rendição - por Alba Vieira

Estrelas se acendem em sequência,
Iluminando o negror do céu sem lua,
Todas as vezes que minha mente pensa
Que naquele momento minha boca é sua.

E o meu corpo aquecido se umedece
Como pétalas orvalhadas na madrugada
Que enfim se mostram. E rejuvenesce
Nas manhãs se abrindo em flor, sua amada.

Como é difícil conceber a minha vida
Sem a certeza de encontrar o seu olhar,
Farol que me protege das tormentas.
Eu que aprendi a me lançar em alto mar...

E então movida pela saudade que castiga,
Sem que exista ainda uma outra forma de chegar,
Peço perdão e rogo a os deuses com essa missiva:
Volte pra mim, meu coração é seu lugar.



Visitem Alba Vieira
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Apenas Diga Sim - por Lélia

Escrevo esta carta para dizer que depois de tantos anos tentando esquecê-lo, vi você ontem à noite saindo do shopping sozinho e era dia dos namorados. Naquele instante, tudo voltou: nosso esbarrão engraçado no parque de diversões, o primeiro encontro com aquele beijo desajeitado de despedida, os passeios, a primeira briga debaixo da chuva, os carinhos (muitos) e a separação quase sem motivo.
Ontem, ao ver você, percebi o quanto foi bom e que tenho saudade. Eu sinto falta. Havia algo entre nós que não encontrei em mais ninguém; uma coisa boa, um entendimento, uma cumplicidade difícil de explicar.
Gostaria de viver tudo de novo, de tê-lo a meu lado, de dividir com você esta outra parte da minha vida. Quero muito isso, com toda força do meu ser. E quero tanto assim porque descobri o quanto o amei e ainda o amo quando vi você.
Só te peço uma resposta: SIM.
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Carta de Amor - por Luiza

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Imagem: Galeria pública de Niamh

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Não sei o que faço aqui escrevendo-lhe estas linhas. Acho que não tenho mesmo vergonha na cara. Depois de tudo o que você me disse, ainda tenho coragem de lhe procurar!
Mas é que o amor é cego, é surdo, é idiota mesmo.
Na ausência do objeto do amor, fazemos tudo, tudo mesmo para tentar preencher este vazio que se instala e que nenhuma outra pessoa consegue preencher. E aí, escapam pela mesma fenda que se abre no nosso peito, o amor-próprio, a vergonha e a sensatez. E um grito desesperado se faz ouvir pedindo que volte aquele que se fez dono do nosso coração sem ter pedido licença.
Assim, estou aqui implorando para que volte pra mim, não para encontrar a pessoa que você pensou que eu era e que por não ter conseguido concretizar quando vivemos juntos, se decepcionou. Mas para descobrir aquela que sou na realidade, com luz e sombra, de carne e osso, de mãos ternas e unhas afiadas, que sabe calar e que pode gritar para que sua voz seja ouvida.
Eu tenho o direito de me fazer conhecer e de lhe pedir que seja homem e que enfrente o despertar de um sonho bom. Quero que acorde e venha comigo construir um amor verdadeiro, feito de acertos e erros e superação.
Estou aqui porque sei que nos amamos. Eu sei o quanto o amo e, como você talvez ainda não tenha compreendido a dimensão do seu amor por mim, sou eu quem deve pedir: volte, tente me encarar e encontrar no fundo do meu olhar o lugar que é só seu, onde nossas almas se encontram e se reconhecem.
Te amo.
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Carta de Amor - por Saulo Rosa

Resisti a escrever-lhe por este tempo, já que palavras não teriam como expressar completamente o que sentia. Agora, sabendo que é a única forma de estar outra vez em contato com você, envio-lhe esta carta. Você pensa que o que senti por você esvaiu-se? Engana-se. É um fogo que se nutre com o passar das horas de sua ausência. E que ilumina até agora todo o meu ser que só sobreviveu à sua partida para reencontrá-la uma outra vez. E que espera ansioso por este momento, pode ter certeza disso.
Quando você me pediu um tempo, eu fiquei atônito por não entender como isso seria possível, uma vez que toda a minha existência estava voltada unicamente para você e eu supunha que era um sentimento recíproco, de mesma intensidade. Mas não me foi concedido o direito de recusar. Afastei-me de você e busquei sozinho a compreensão do que estava acontecendo. Supus que tivesse feito algo de muito errado, mas logo concluí que não era possível ser esta a causa, que você me amava profundamente e recebia feliz tudo que partisse de mim. Imaginei que seus sentimentos pudessem ter mudado sem que eu percebesse, que talvez estivesse envolvida com outro, mas descartei também esta hipótese porque o tempo passou e fiquei sabendo que você continuava sozinha.
Pensei muito em tudo que vivemos. Refugiei-me no trabalho enquanto, em minha mente, o mesmo filme montado com as passagens felizes de nossa vida se desenrolavam em segundo plano. Perdi o gosto por tudo, lutei muito para suplantar uma depressão que não me largava e que, finalmente, afetou meu desempenho profissional. Sobrevivi.
Nunca me conformei em perdê-la. Alimentei meu coração com as lembranças e vivi da esperança de um dia tudo ficar esclarecido e ser revertida esta ruptura descabida.
Tentei me desligar e até cedi ao assédio de outras mulheres. Acho que quem sofre de amor atrai pessoas em busca de afeto. Tentei, mas nenhum caso passou de algo fortuito que nunca pôde lançar raízes. E depois dos carinhos e de fazer amor com qualquer outra pessoa, o sentimento de perda ficava mais evidente, o rebote trazia ainda mais dor e desalento.
Depois de muito resistir, de tentar endurecer, viver distante da emoção, fui enredado em outra história que começou, hoje eu sei, por conta de muitas semelhanças físicas e de temperamento dessa mulher com você. Foi impossível ignorar um jeito tão semelhante ao seu de sorrir, os mesmos cabelos, o toque suave das mãos. Até uma voz que na expressão muito se assemelhava e quando dei por mim já tinha me envolvido e percebi que algum entusiasmo se insinuava em meus dias. Passei a ter sonhos com ela e em dado momento quem me aparecia era você. Quando percebi, já corria pros braços dela, mas era você que eu desejava encontrar. Fantasiei sem sentir que tínhamos nos reconciliado, estava feliz e um sorriso passou a ficar pregado em meu rosto, insistente. Daí para que ela também passasse a investir em nossa relação foi um pulo. E como eu andava todo enamorado, gentil, emanando uma vibração de puro amor, a moça deixou brotar em seu coração o mesmo sentimento.
Assim, eu chegava, ela sorria. Ficávamos juntos, era imensamente difícil nos afastarmos. Dormíamos juntos, queríamos mais: passar todo o dia juntos. Não demorou muito para percebermos que estávamos tão ligados que não era mais coerente morarmos em casas separadas. Nossas roupas já se misturavam nos armários da minha e da casa dela, nos encontrávamos muitas vezes “por acaso”, falávamos por telefone e e-mail repetidamente e já ousávamos fazer planos futuros juntos.
Posso dizer que voltei a viver novamente neste período, o que não acontecia desde que nos separamos.
Entretanto, em algum nível, eu sabia que não estava tudo bem. Havia em mim uma inquietação, uma ânsia, uma sensação de ferida que parecia ter cicatrizado, mas que voltava a sangrar de repente e ainda doendo muito, dizendo que ainda havia vida.
Levei esta história, este fogo fátuo somente até o dia em que acordei ao lado da moça depois de uma noite de amor e procurei por você na cama com a certeza de que era você e só você que eu queria, era você que eu amava nela sem que ela ou eu percebêssemos de pronto. Nesta manhã em que tive a certeza do que estava acontecendo comigo contei tudo a ela, me expus completamente e rompemos em definitivo, com marcas para ela bem menores do que o estrago que um casamento depois poderia trazer-lhe.
E, a partir daí, com este insight que me situou em relação a nós, decidi deixar de lado possíveis elocubrações que eu já tenha feito ou volte a fazer sobre o que motivou nossa separação e procurar você para me esclarecer.
Esta carta tem por objetivo mostrar a você o que aconteceu, como estou agora e lhe pedir que me diga o que de fato aconteceu com a gente, porque se separou de mim.Afinal, não é possível conceder um tempo pura e simplesmente, sem buscar a explicação, a alguém que despertou um amor que é tão imenso, que resistiu a um tempo grande demais e só aumentou. Te amo e te quero. Volte para mim ou então me liberte deste amor definitivamente.
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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Mão Pedinte - por Ana

Um pão, por misericórdia,
Um pãozinho até mofado
Para matar minha fome...
Eu estou desempregado...

Não me negue, é tão barato!
Pra você não custa nada,
Mas para mim, esfomeado,
É iguaria danada!

Não vai atender meu pedido?
Ignora assim, na lata?
Meu caro, não sou mendigo:
A marolinha tá braba!

Vai embora? Vira as costas?
Não me dá nem um centavo?
Tá legal, pega teu rumo,
Minha cova eu mesmo cavo...

Eu só te digo uma coisa,
Preste bastante atenção:
Imagine que um dia
Se inverta a situação,

Você venha me pedir
Na rua, um mísero pão,
Terá, de mim, pelo menos,
Um centavo na tua mão.




Inspirado em Pão Pedinte, de Marcelo Ferla.
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quinta-feira, 2 de abril de 2009

A Reserva do Cachorro da Lua - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Finalmente encontro meus ancestrais: meu avô - Dente de Leão - um cara-pálida que ganhou este nome porque tratava dos dentes de seus irmãos brancos.
Meu tio Lata Lata - outro cara-pálida que ganhava a vida catando, nas matas e nas florestas, latinhas, ajudando assim a mãe natureza e auxiliando a despoluição do planeta Terra.
Meu pai - Grande Chefe Maruá - chefe por longos anos e a quem devo os ensinamentos que me fizeram acreditar que o homem branco, ou o cara-pálida, como ficamos sendo conhecidos, teríamos nossos direitos reservados e preservados e por isso lutou toda a sua vida.
Nossos direitos se estendiam do nosso quintal ao quintal do vizinho.
Tínhamos plantações produtivas de macaxeira, abóbora, chuchu, tomates, alface, manjericão e muitas outras.
Tínhamos ervas que curavam, ervas que nos ajudavam a respirar, que temperavam a carne de caça que comíamos à beira do fogão de lenha.
Nossas terras foram conquistadas em lugares distantes onde ninguém queria morar.
Afastadas das grandes moradas e onde um pequeno igarapé cortava e servia de divisória entre nossas terras.
Nossos terrenos eram pequenos, mas cabíamos nele. Nossos descendentes cresciam e faziam as suas casas dentro de nossas terras e éramos felizes. Éramos o clã da Grande Família.
E o local passou a ser conhecido como a Reserva do Cachorro da Lua.

Não tínhamos invasores. Nem arrozeiros, nem posseiros, nem fofoqueiros, nem maconheiros... todos ficavam longe da reserva, longe das nossas divisas.
Nossas terras não produziam petróleo, não tínhamos madeiras para cortar ou vender, não tínhamos minérios no chão. Tínhamos apenas a paz, a lua para ver e o cão para cuidar da reserva.
Assim vivemos felizes por muito tempo e numa grande nação.
Mas o tempo correu e os brancos foram se mesclando e surgiram novas tribos, novas etnias: os índios, os negros, os pobres, os sem-terra e muitas outras raças e nações.
Se aglomeravam, viviam em bandos, destruíam as plantações sob a égide de querer terras para plantar. A cada ano sentíamos que o ar se tornava mais e mais rarefeito.
Nossas crianças tossiam muito e cuspiam fumaça; não as do cachimbo da paz, mas outras...
Vieram outros cachimbos que destruíam as nações...
Nosso igarapé foi seco e nosso espaço foi sendo espremido e em seu lugar surgiu o grande destruidor - o aranha-céu - aquele que destruía a vista dos céus... e surgiam mais e mais, até que surgiu o grande aranha-céu: o shopping.
Nossa terra foi ficando pequena demais e fomos sendo empurrados, empurrados cada vez mais para longe da terra dos nossos ancestrais... Acabamos sob a ponte onde se aglomeravam vários clãs.... Não mais víamos a lua e os cães pararam de latir.
E nós, caras-pálidas da Reserva do Cão da Lua, viramos caras sem eira nem beira, sem lugar para ficar ou para morar... sem teto, sem morada.
Sem proteção...
Hoje não temos direito a mais nada. Nem latinhas para catar (existem as cooperativas), sem dentes para curar (existem os convênios); nada mais nos restou.Nossos direitos foram sendo tomados e hoje ficamos enjaulados em casas com grades e de lá ficamos vendo o mundo onde marginais caras-pálidas e de outras etnias dominam a nossa reserva, a nossa vida, inclusive a nós.
Nossa reserva não passa de um metro quadrado onde nos acotovelamos. Não temos mais a Lua que deu nome à reserva e nem os cães, pois a fome nos fez fazer deles o nosso alimento.
Assim, Grande Chefe Branco, escrevemos esta carta para que nos dê um local onde nós, caras-pálidas, que cultivamos, trabalhamos, pagamos impostos, possamos recomeçar a plantar, a acreditar e a viver de acordo com todas as tribos que foram privilegiadas e para que possamos ter os mesmos direitos que nossos ancestrais tiveram: de viverem em sociedade, de serem livres, de terem segurança, saúde, alimento e paz!



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sexta-feira, 27 de março de 2009

Súplica - por Clarice A.

A chuva cai silenciosa. Anoiteceu e com a chegada do outono já começa a esfriar. As pessoas em seus lugares sob a marquise, em que passam todas as noites. Sempre o primeiro a chegar é um rapaz com seu cão, um vira-lata chamado Pretinho. São doze no grupo e Vó e a neta foram as últimas a se juntar a eles, há três semanas atrás.
Para elas tudo começou quando os pais da menina (ele, filho de Vó) foram julgados e condenados à morte pelos traficantes da favela sob a acusação de serem X9, ou seja, informantes da polícia. Eram viciados em drogas, não puderam provar inocência e, sendo assim, corta-se o mal pela raiz. Decisão do dono do local. A ordem era passar o rodo em quem estivesse no barraco, largar o aço em todos para dar o exemplo do que acontece com quem os desafia. Vó e a menina foram salvas pelo encarregado de cumprir a sentença, braço direito do chefão, que interferiu por elas e pediu que fossem poupadas. Ele ainda guarda na memória as vezes que ela lhe deu um prato de comida ou tratou de seus machucados de criança, tão pequenino e já entregue à própria sorte. Conhecido pela sua crueldade, ainda há nele um resquício de ternura, sente gratidão e admira o amor e o cuidado que ela dedica à menina. Não havia o que temer da parte delas e, por ser de confiança, a quem o chefe confia a própria vida, teve o pedido atendido, mas com a condição de que as duas deixassem imediatamente a favela, não pedissem ajuda a ninguém e nunca mais voltassem.
Sem saber o que fazer, sem poder pedir ajuda aos vizinhos ou conhecidos por carregar com elas uma sentença de morte para quem ousasse fazê-lo, perambularam sem rumo até quase a exaustão e quando, vencidas pelo cansaço, viram aquelas pessoas sob a marquise, aproximaram-se, e Vó perguntou ao dono do Pretinho se poderiam ficar ali, tendo o rapaz respondido que sim. Elas precisavam descansar e depois Vó pensaria o que fazer de suas vidas, vidas que ganhara como um prêmio pelas suas boas ações, embora nunca as praticasse com o intuito de ganhar alguma coisa por elas.
Esta noite o desânimo começara a tomar conta dela. Está ali há mais tempo do que esperava. Não conseguiu um lugar para ficarem, não consegue emprego, não pode procurar a família que mora na favela, as pessoas mal olham para elas, mesmo quando as ajudam. É como se não fossem gente. Já constatou com tristeza que tratam melhor o Pretinho do que a elas. Não é que ela não goste dele, gosta muito, é bom vigia e dá sinal quando desconhecidos se aproximam, é esperto e dá a patinha quando a menina pede, a criança o adora e é com ele que ainda brinca. Mas tratarem o cão melhor do que a neta está além de sua compreensão.
Hoje o peso de viver na rua se fez presente. Era pobre mas não era pedinte, tinha o seu canto para morar. Também a comida faz falta. Como preparar uma refeição naquelas condições? O dia foi difícil, quase não comeram e a menina sentia fome. Ali todos estavam na mesma situação. Às vezes até dividem algo, mas hoje não houve o que dividir. Vó teme o desespero, sabe que a menina só tem a ela, não pode desistir. A menina chorava baixinho e, sem ter a quem recorrer, Vó pediu aos céus. Reuniu suas forças e suplicou à Virgem Maria que olhasse por elas, que ajudasse aquela criança inocente que só faz sofrer.
Passaram-se alguns minutos e um carro parou em frente à marquise. Pretinho não latiu, o que significava que conhecia o carro. Desceram dois casais e duas jovens, certamente filhas do casal mais velho. Os homens abriram o porta-malas e entregaram às moças uma garrafa térmica bojuda e copos descartáveis e às suas mulheres, as quentinhas. As senhoras, uma ainda jovem, movimentaram-se entre eles com passos calmos e com vozes suaves ofereceram a comida olhando-os de um modo fraterno, que Vó não via há tempos. As jovens serviram a bebida e quando abriram a garrafa, o cheiro do café coado há pouco entrou pelas narinas de Vó trazendo à tona lembranças de uma vida que ficou para trás e que ela desejava ter de volta. Por uns instantes, o cheiro da comida fresca, macarrão com salsichas e do café transformaram o lugar num refeitório onde todos comeram num respeitoso silêncio.
Ao se retirarem, o homem mais velho perguntou à mulher se todos foram servidos. Ele a chamou pelo nome e Vó ouviu. Maria é o nome dela. Uma grande emoção tomou conta de Vó. O rapaz ao lado comentou que eles estavam sumidos, mas que costumavam vir pelo menos uma vez por semana. Vó não tomou conhecimento. Para ela, não foi coincidência, e sim sua súplica, que fora atendida. Precisava acreditar nisso para seguir em frente. Nesta noite, apesar do mau tempo, aquelas famílias que poderiam estar no aconchego de seus lares, vendo tevê ou simplesmente descansando, foram para a cozinha preparar aquela comida fresquinha, gostosa, feita no capricho. Vó sabia disso muito bem, entende do riscado, pois é daquelas pessoas que fazem de um feijão com arroz e ensopadinho, uma iguaria.
A menina, saciada, adormeceu com a cabeça no seu colo.
Vó está entregue aos seus pensamentos e conclui que se foi atendida hoje, quem sabe não será novamente? Enche-se de esperança, quer suas vidas de volta. Pedirá uma casinha que pode ser bem pequena: telhado, quatro paredes, uma porta e uma janela, um banheirinho onde possam fazer a higiene e as necessidades. Um lar para as duas. E ela manterá a casa bem limpa e arrumada, pedirá retalhos e fará uma colcha bem colorida e alegre. A menina irá para a escola e brincará com as crianças de sua idade enquanto ela as observará sentada na soleira da porta. E quando entrarem para dormir, a menina tomará banho e vestirá roupa fresca no calor e roupa quente no frio. Ela servirá um copo de leite e cantará ou contará histórias até que a menina adormeça.
Vó sabe que está pedindo uma graça muito grande, mas está decidida. Suplicará, suplicará e suplicará, todos os dias, com todas as suas forças, o quanto for necessário. Como o pedido é de monta, ela o fará para todos os que lembrar, e um dia a ouvirão, e um destes há de chegar: José, Pedro, Aparecida, Antônio, Francisco, Expedito, Bárbara, Conceição, Sebastião, Jorge, Benedito, Geraldo, Luzia, João, Cosme, Damião...
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domingo, 15 de março de 2009

Súplica - por Ana

A chuva cai silenciosa,
Eu vou à sala e ao banheiro,
Quando entro no seu quarto
Parece um imenso cinzeiro.

Para de fumar, desgrama!
Não faça mal ao seu pulmão!
Em silêncio, como a chuva,
O fumo te põe no caixão.



Poesia cujos título e primeiro verso foram utilizados para a versão coletiva Súplica - As Nossas Poesias V.
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Pedido

Crie um texto sobre este tema e deixe aqui, em “comentários”, que nós postaremos.
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sábado, 31 de janeiro de 2009

Cuida de Mim - por Maria Carolina Nogueira Cobra Vitali

Um segredo guardado…
Um desejo calado;
Um anseio disfarçado!

Cuida! Cuida de mim…
Que minha alma está cansada.

Cuida! Cuida de mim…
Que não encontro forças para cuidar.

A pele arde,
Os músculos estão retraídos…
Os olhos arregalados…
Pés colados ao chão.

Uma tremenda dificuldade de gritar.
Berrar esse grito guardado, segredado.

Dói.
Uma dor antiga, latente.
Sempre emudecida
Por não achar-se no direito
De doer.

Cuida! Cuida de mim…
Que cansei de lutar.

Cuida! Cuida de mim…
Que cansei de cuidar.

Perdi meu lugar… antigo, velho.
Mas não sei qual é meu lugar agora.

Cuida! Cuida de mim…
Que estou perdida.

Cuida! Cuida de mim…
Que preciso retornar.
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Mundo de Alice - por Kbçapoeta

Ande como se estivesse pisando em ovos;
a umidade deixa a terra sensível,
principalmente após a chuva pacificadora.
Olhe para mim!
Estou trajando branco, gravata roxa
e chapéu hippie vietnamita.
Venha colher-me!
Estou aguardando sua boca.
Sujará seus pés na bosta da Zebu.
Fazer o quê?
Eu nasci aqui.
Colha-me, colha-me…

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Pedido ao Papai do Céu - por João Luis Amaral

Querido Papai do Céu,

Hoje eu quero fazer um pedido especial: quando eu crescer, eu gostaria muito, muito mesmo, de continuar sendo criança. É o meu sonho. Por que ser grande é muito chato.
A gente aprende um montão de coisas legais quando é pequeno – ensinado pelos grandes, veja só – mas tem que esquecer tudo quando cresce.
Dá para entender? Eu não consigo.
Perguntei para a minha mãe, entre uma dobradura e outra no meu super barco de papel, se tem alguma razão para isso acontecer.
Ela tentou explicar, mas confesso que não entendi nada.
Falou que era por causa do trabalho, das obrigações do trânsito infernal, das intermináveis contas para pagar, da obrigação em acompanhar o noticiário diariamente (além de ter lido o jornal), saber como fechou a Bolsa daqui, como abriu a Bolsa de lá; onde está o dólar, quem está em guerra com quem, em quem votar na próxima eleição, o time do coração que não está nada bem, a sogra que virá no fim de semana, o presente do cunhado… essas coisas.
Ouvi tudo com atenção, mas voltei para o meu barco de papel sem responder coisa alguma.
Eu, hein? Prefiro ficar aqui, enquanto posso, fazendo tudo o que gosto:

Andando descalço pela gramaJogando água na terra até virar lamaFazendo castelo com pedrinhasTentando bater meu recorde de sete embaixadinhasJogando uma partida de vídeo-gameAcampando na sala com lençol, travesseiro e as cadeiras da sala de jantarPlantando feijão no algodão e esperando brotarMisturando banana com mel e aveiaPintando papel com tinta a dedoRecortando figuras das revistas e colando num outro papel, só para ver no que vai darMontando outro castelo, agora de cartas de baralhoEscrevendo escondido na parede atrás do sofáJogando a bolinha para meu cachorro trezentas vezesTomando picolé de frutasMisturando sucrilhos com leite e nescau, à tarde, em frente à TVImaginando figuras engraçadas nas nuvensAcompanhando o caminho das formigas pela paredeJogando bola, queimada, vôlei ou qualquer outra coisaBrincando de péga-pégaMontando uma casa de madeira na árvoreTocando a campainha da casa do vizinho e fugirPaquerando a filha do vizinhoIndo ao cinema no meio da tardeChupando manga tirada direto do péAndando de bicicleta sem capaceteAprendendo a subir em árvoreTomando água da torneiraRindo à beça das trapalhadas que eu mesmo façoLendo um livro deitado no sofáAprendendo a fazer pão-de-queijo (e ficar olhando dentro do forno até crescer)Tomando banho de esguicho num dia de sol quenteDescascando laranja tudo erradoMisturando coca-cola com sorveteQueimando papel com uma lupaFugindo de abelhaComendo doce de leite sem culpaTomando refrigeranteJogando sonrisal na beira do mar e escorregando nelePegando jacaréPassando requeijão no panetoneJogando rouba-monteCompletando o álbum de figurinhasJogando bafo com as repetidasAssistindo desenhosDormindo no meio dos filmesCorrendo atrás de borboletasSujando a calça no muro brancoDançando alucinadamente no meio da salaCavocando a areia até achar águaJogando pedrinhas no fundo da piscina e mergulhar para buscá-lasTomando leite bem cedinho, tirado na hora da vaca, num copo com açúcarAssistindo filme de terror no cinema e ficar com medoRalar o joelho e passar mertiolate

Está vendo? É tudo muito mais divertido. A gente cansa no final do dia, fica quebrado mesmo. Tão cansado que dorme antes da novela das oito, que hoje em dia começa às nove. Mas vale muito a pena.

Agora, Papai do Céu, vou tomar banho para jantar. Preciso tirar o terno e a gravata, colocar meu pijama e fazer lição de casa, senão meu chefe vai brigar comigo amanhã.

Amém.

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