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terça-feira, 10 de julho de 2012

O Novo Caderno de Receitas - por Adir Vieira

Tenho um caderno de receitas há mais de vinte e dois anos. Por mais que tenha em mente as receitas de cor e salteado, a cada prato levo-o para a cozinha e, por mais cuidado que tenha, nesse acompanhamento ele conseguiu reter manchas que, embora não o prejudiquem ou enfeiem, clamam para que seja substituído.
Hoje, numa grande papelaria do shopping, meus olhos encontraram o seu substituto, por pura sorte. Naquela prateleira, acho que alguém o esqueceu, pois nem mesmo um vitrinista estreante iria dispô-lo em meio a miniaturas de carrinhos. Parece que algo me levou até ele e, nos meus devaneios, já o via entre meus guardados, completamente preenchido com as anotações do outro.
Sua capa dura era, na totalidade, uma figura multicolorida de um prato de salada - daquelas que só fazemos nas festas de fim de ano, haja vista a enorme quantidade de ingredientes. Suas trezentas folhas pautadas tinham em volta uma moldura de legumes e frutas, bastante discreta, na cor cinza que o fazia muito especial. Nas bordas da capa, como a protegê-lo, cantoneiras douradas finalizavam a obra.
Ali, me olhando, ele era irresistível. Esqueci o que ia comprar e me detive unicamente naquele exemplar que já se fazia meu, mesmo antes do pagamento ao caixa.
Feliz, fui para casa. Abri o armário onde se encontrava o “velhinho” e olhei-o comparando ao belo espécime. Tão diferentes... Um, tão imponente, o outro, tão simples....
Folheei meu antigo amigo e me surpreendi com colagens das receitas recebidas de amigos e parentes em todos os tipos de papel, pois às vezes essas receitas, ao longo dos anos, eram-me passadas nos momentos mais inusitados - num guardanapo de bar, num saquinho de sanduíche, em bordas de envelopes de carta. Ali estavam impressas as letras dos meus amigos, um pouco de sua personalidade e, inegavelmente, o momento da transferência da receita.
Olhei, olhei, olhei e decidi permanecer com meu antigo livro de receitas, tão impregnado de momentos importantes de minha vida.
Naquele insight, percebi o porquê do livro novo ter sido deixado ali, naquela prateleira, esquecido no meio de objetos nada similares. Entendi que a possível compradora entendeu, antes de mim, que não devia substituir seu antigo livro de receitas.


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terça-feira, 6 de março de 2012

Do Mal em Nós, fala A. Soljenítsin - Enviado por Ana

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“Ah, se as coisas fossem assim tão simples! Se num dado lugar houvesse pessoas de alma negra, tramando maldosamente negros desígnios, e se se tratasse somente de diferenciá-las das restantes e de aniquilá-las! Mas a linha que separa o bem do mal atravessa o coração de cada pessoa. E quem destrói um pedaço do seu próprio coração?...
No decurso da vida de um coração esta linha desloca-se dentro dele, ora oprimida por uma alegria maligna, ora libertando espaço para o despontar da bondade. Uma mesma pessoa nas suas diferentes idades e em diferentes situações da vida constitui um ser completamente distinto. Ora próxima do diabo, ora próxima de um santo. Mas o nome não muda, e é a ela que tudo é atribuído.
[...]
Sim, o homem oscila, debate-se toda a vida entre o bem e o mal, escorrega, cai, levanta-se, volta a cair de novo. Todavia, enquanto não transpõe o limiar da maldade guarda sempre a possibilidade de retorno, e mantém-se nos limites das nossas esperanças. Mas quando, pela densidade dos atos de maldade, ou pelo seu grau, ou pelo poder absoluto que detém, ele transpõe subitamente o limiar, ei-lo que abandonou a humanidade. E talvez sem regresso.”


In “Arquipélago Gulag”, p. 171, 177.
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Enquanto Você Me Olhava - por Duanny

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Enquanto você me olhava, o vento soprava, minhas pupilas se dilatavam e você me constrangia.

Enquanto você me olhava, minhas pernas tremiam, meu coração palpitava e minha mente gritava, gritava seu nome, gritava pelo seu olhar, gritava por um ato.

Enquanto você me olhava, eu perdia as estribeiras, faria qualquer coisa por mais um pouco desse olhar penetrante, matador, massacrante, que mesmo no silêncio tedioso daquela tarde me fazia ouvir coisas absurdas.

Enquanto você me olhava me corroía, me destruía, tirava minha ferradura e fazia questão de mostrar a todos como você me deixa frágil.

Enquanto você me olhava, eu desejava não estar ali, desejava ser observada e, ao invés de ser despida pelo seu olhar, na verdade eu queria mesmo era ser capturada por ele.

Enquanto você me olhava, eu vomitava imagens incontidas, colocava descarga abaixo todos aqueles momentos, todas aquelas palavras, todas aquelas ações que você pateticamente ignorava.

Isso, quando você me olhava.

Me sentia mulher, me sentia assistida, acreditava em tudo que você ainda não havia me prometido; não sabia o que falar, não sabia te olhar, não sabia te assistir.

Enquanto você me olhava, você simplesmente me olhava.

Viu como você é Ridículo?!



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sábado, 1 de agosto de 2009

Pense, Pondere, Antes de Anunciar! - por Esther Rogessi

Baseada na interrogação contextual do poeta João Batista Drummond: CONCURSOS LITERÁRIOS. VALE A PENA PARTICIPAR? Chego à conclusão de que, em verdade, por muitas das vezes, textos vencedores nos decepcionam...
E ficamos a perguntar: como pode? Outras tantas, a inspiração foi, por que não dizer, quase que momentânea – o premiado não tinha um potencial criativo em evolução, parando logo após. Ressalto também outro fato de suma importância, tanto para nós iniciantes, quanto para os consagrados e premiados: os organizadores de tal obra, antes de tudo, devem estar de fato ilesos de qualquer outra visão que não premiar a quem de fato o mereça, ter a honestidade de não se envolver emocionalmente ou de qualquer outra forma com quem quer que seja. Sou da opinião de que acadêmicos, tanto quanto os aspirantes a bela arte, são feitos da mesma massa e fazem OBRAS FISIOLÓGICAS, ou não? Portanto, devem-se esquecer os premiados, afilhados e observar-se a obra em si.
Aquele que se inscreve tem sonhos, esperança...
Apadrinhamentos existem – roubadores de ilusões –, de outra feita já participei de um concurso que logo entendi ter sido este organizado com o único intuito: promoção do site...
Minha decepção foi tanta que não mais depositei nenhum crédito no tal concurso e menos ainda nos organizadores do site. Não enviei meus dados para a dita etapa final, não li os e-mails a mim enviados, deletei todos e só não me desliguei do site em respeito aos leitores. O que é prometido em um concurso deve ser levado avante!
Pensar e ponderar, antes de anunciar, é preciso!



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domingo, 5 de julho de 2009

Caindo em Si - por Alba Vieira

Sol a pino, meio-dia
Os miolos cozinhando, tonteio
Caio no meio-fio, sozinha
Roda tudo, enjoo e desnorteio.

No chão me sinto melhor,
Era tudo o que eu queria:
Parar por um só instante,
Ficar quieta, em minha companhia.

Mas logo vem o alvoroço,
Chegam curiosos de todo lugar,
Melhor eu estaria num calabouço
Que cercada pela multidão a tagarelar.

Minha cabeça outra vez volta a doer,
Só queria um momento de descanso.
Mas, caindo sob o peso do mundo a me corroer
Constato que ceder não deixa de causar espanto.



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quarta-feira, 6 de maio de 2009

sexta-feira, 6 de março de 2009

Constatação - por Alba Vieira

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A saudade é o bagaço do amor.
Depois de sorver o néctar é o que nos sobra e ainda distrai, trazendo de volta o passado.
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domingo, 1 de março de 2009

Cara de Um, Focinho de Outro - por Alba Vieira

Tenho o hábito de olhar para as pessoas enquanto caminho pelas ruas. E é um olhar quase sempre enxerido e audacioso, uma vez que penetra intimidades, faz analogias insuspeitadas e surpreende com as imagens captadas que geralmente passam despercebidas para os outros.
Assim é que fiz uma constatação que foi oriunda de observação acurada, testada e repetida muitas vezes para ganhar certificado de científica.
Observei pessoas que levam seus cachorros a passear durante anos a fio, seja quando ia para o trabalho, às compras, saindo para o lazer, olhando das janelas dos ônibus... enfim, sempre que saía de casa. Já tinha ouvido falar que os cachorros têm características de personalidade de seus donos. Concordo com isto e acrescento que se parecem mais, muitas vezes, não com o seu dono oficial, mas com a pessoa da família que cuida dele e é seu dono de coração. Tomo como exemplo minha relação com meu amado cachorro.
Mas minha observação se refere à aparência física entre o cachorro e o dono. Reparem só: há algo marcante que fica bastante evidente tanto no cachorro quanto no dono. Às vezes é o tipo do rosto, outras vezes o andar, outras vezes os trejeitos, a expressão e... pasmem, até a voz! Na minha vizinhança tenho inúmeros exemplos pitorecos.
É perfeitamente comprovável esta minha teoria, é um estudo que pode ser reproduzido e testado por qualquer um que amplie o olhar e se dê ao trabalho, se tiver interesse.
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Constatação

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