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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Alberto Moravia e o Desespero do Homem de Ação - Citado por Penélope Charmosa

Há uma ligação muito estreita entre a adoração da ação e o uso do homem como meio de atingir fins que não são o homem. Como há uma ligação aproximada entre este desespero e a ação, entre a razão e a ação. A proeminência dos valores da ação sobre os da contemplação indica, sobretudo, que o homem abandonou totalmente a busca duma ideia aprazível do homem e o desejo de o colocar como fim. E que na impossibilidade de agir segundo um fim, ou de agir para ser homem, ele decide agir de qualquer maneira, apenas para agir.
O homem de ação é um desesperado que procura preencher o vazio do seu próprio desespero com atos ligados mecanicamente uns aos outros e compreendidos entre um ponto de início e um ponto de conclusão, ambos gratuitos e convencionais. Por exemplo, entre o ponto de início da fabricação dum automóvel e o ponto de conclusão dessa fabricação. O homem de ação suspenderá o seu desespero enquanto durar a fabricação do veículo; suspendê-lo-á precisamente porque no seu espírito fica suspensa qualquer finalidade verdadeiramente humana: sente-se meio entre os outros homens, meios como ele. Concluída a máquina ele encontrar-se-á, é verdade, mais inerte e exânime que a própria máquina, mas arrolhará subitamente com uma promoção, com uma medalha, um pagamento a dobrar, ou simplesmente com a construção de um novo automóvel. Efetivamente apresentar-se-á a envolver-se no fluxo alienatório da ação.



In “O Homem Como Fim”.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Alba Vieira

Gostaria de destacar este maravilhoso texto da Ana, carregado de emoção e força na narrativa da desolação em que vivem tantas crianças tão perto de nós, despercebidas na sua miséria num cotidiano de dor pungente.
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ESTUPROS INCESTUOSOS
(ANA)


Estou caminhando por entre paredes de casas infernais, onde encontro crianças ingênuas e envergonhadas que desejam cobrir sua nudez com possibilidades inexistentes. Convivo com demônios vorazes, gargalhantes e locupletados que avançam cruéis ante a discordância e a ação protetora. Estou só. Passos isolados, de um cômodo a outro, buscando tecidos que escondam a carne que provoca fome nos olhos injetados de desejo. Sou a que não nega o que existe, a que enfrenta, com medo e asco, todos os detalhes cotidianos de uma vivência homicida. Há palavras e atitudes que matam aos poucos, um horror interminável que se refina com o desenrolar dos prazeres experienciados. Há desespero mudo, contido, suicida, imerso numa eterna noite de flagelos e gritos lancinantes das almas para o céu dos desenganados. Há revolta que se engole inteira, enorme, rasgando por dentro e que se alastra pelo corpo, tornando-o, torneando-o, transformando-o, transpassando-o e transfigurando-o. Há satisfação e alegria que saem de bocas gozantes, de peles gordurosas, de cheiros detestáveis, de salivação excessiva que escorre sobre os limpos. Há crianças tocadas, roçadas e soterradas. Há crianças enterradas vivas torturadas nos quintais e sob os alicerces destas casas. Há crianças mal formadas, mal queridas, mal tratadas. Crianças e demônios e nenhum olhar. Crianças e demônios isolados do mundo, participando de uma festa particular. Crianças que nasceram para o prazer, para a luxúria e a tortura. Crianças que vieram para as delícias da carne, para a secreta volúpia do sexo e da dor. Crianças com sangue e corpos tenros que fazem brilhar os caninos sedentos. Demônios... compreendem-se os demônios. Existem. Mas... crianças? tantas? Que permissão admitiria este cárcere dantesco, esta orgia fúnebre? Que força no universo senão a do acaso e da ausência de lógica? Imolam-se os cordeiros sem tirar-lhes a vida apenas pela perpetração do prazer selvagem. Sem altar, sem ritos, apenas profanação e carnificina. Eu cuido das inocências ensanguentadas, chorando vergonha e pavor. Que lugar é este, me pergunto, que lugar é este?
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quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Agonia de um Assalariado - por Flavio Braga

Dia 5 - Dia de uma fugaz felicidade e de uma eterna agonia. Dia do pagamento. Se dinheiro na mão do Paulinho da Viola é vendaval, na minha é uma prova de 100 metros rasos com Usain Bolt. O salário dura exatamente 9’69”.
Dia 7 - Alguns cheques já foram descontados e outros ainda vão dar o ar da sua graça. Dia de mercado com a patroa. Detalhe: já repararam que, por mais que o salário mínimo aumente, o dinheiro nunca rende? Isso se chama Arrocho salarial. Aprendi com um dos meus filhos. Ele tem 7 anos. Não sabe amarrar os cadarços do sapato, mas é bom de matemática, o garoto.
Dia 10 - Dia de pagar o aluguel, a mensalidade da escola das crianças, entre outras coisas. Acho que até o dia 18 terei só R$10 para passar o resto do mês.
Dia 12 - Dia D dos cheques, parte dois. Inteligente é o cara que diz que continuações não são nada boas, nem no cinema, nem no bolso.
Dia 15 - Dia de pagar o crediário. Isso que dá mobiliar a casa comprando as coisas em 597 vezes! Acho que meus filhos ainda pagarão algumas parcelas do sofá, que já está todo rasgado. Patroa de TPM, risco Defcon nível 4, numa escala entre 1 e 3. Perigo!
Dia 18 - Ser pai de família é como controlar as finanças de um país falido. A gente escolhe o que paga e o que fica devendo, não porque queremos, mas é porque o orçamento é deficitário. Quero saber quando vão aparecer os argentinos batendo panela em frente a minha casa, pedindo minha cabeça por essa situação calamitosa. Mas desta vez fiz algo diferente, uma espécie de loteria. Coloquei todas as contas restantes num saco plástico e sorteei. Este mês eu pago a conta de luz, mas a companhia telefônica não teve a mesma sorte. Fica para próxima! P.S.: Eu estava certo. Tenho só mais R$ 10 na carteira.
Dia 22 - Se esses R$ 10 que eu tinha estivessem na mão da minha mãe, já teriam virado R$ 100, ou uma outra compra do mês, sei lá. Mas como a patroa insiste em fazer um programa diferente com as crianças no domingo, os R$ 10 não me pertencem mais. Sorte que ainda consigo dar uns calotes no ônibus. Não perdi minha malandragem suburbana, mas dinheiro que é bom, deixa pro dia 5.
Dia 27 - Já pensei em assaltar um banco. Já pensei em assaltar uma padaria. Já pensei em vender um rim, ou até mesmo a jararaca da minha sogra. Mas como sou muito medroso e meu rim – e principalmente minha sogra! – não é lá essas coisas todas, fui pedir um dinheiro emprestado a quem eu nunca vou pagar e que eu sei que nunca vai me cobrar: mamãe.
Dia 31 - Mês longo. Todos os meses poderiam ter dez dias. Malditos astrônomos, sejam eles cristãos, muçulmanos, maias, astecas, bistecas, discotecas ou bibliotecas, sempre atrasando nosso lado.
Dia 4 - Expectativa! Amanhã é o dia. Ontem a noite foi boa com a patroa, mas que não me venha mais um filho! Vasectomia, lá vou eu!
Dia 5 - Começa tudo de novo. Tudo que eu queria nessa vida era engravidar do Romário, mas acho que não faço muito o tipo dele.



Visitem Flavio Braga
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domingo, 10 de maio de 2009

Duelando Manchetes VI: Incesto - por Ana

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ESTUPROS INCESTUOSOS


Estou caminhando por entre paredes de casas infernais, onde encontro crianças ingênuas e envergonhadas que desejam cobrir sua nudez com possibilidades inexistentes. Convivo com demônios vorazes, gargalhantes e locupletados que avançam cruéis ante a discordância e a ação protetora. Estou só. Passos isolados, de um cômodo a outro, buscando tecidos que escondam a carne que provoca fome nos olhos injetados de desejo. Sou a que não nega o que existe, a que enfrenta, com medo e asco, todos os detalhes cotidianos de uma vivência homicida. Há palavras e atitudes que matam aos poucos, um horror interminável que se refina com o desenrolar dos prazeres experienciados. Há desespero mudo, contido, suicida, imerso numa eterna noite de flagelos e gritos lancinantes das almas para o céu dos desenganados. Há revolta que se engole inteira, enorme, rasgando por dentro e que se alastra pelo corpo, tornando-o, torneando-o, transformando-o, transpassando-o e transfigurando-o. Há satisfação e alegria que saem de bocas gozantes, de peles gordurosas, de cheiros detestáveis, de salivação excessiva que escorre sobre os limpos. Há crianças tocadas, roçadas e soterradas. Há crianças enterradas vivas torturadas nos quintais e sob os alicerces destas casas. Há crianças mal formadas, mal queridas, mal tratadas. Crianças e demônios e nenhum olhar. Crianças e demônios isolados do mundo, participando de uma festa particular. Crianças que nasceram para o prazer, para a luxúria e a tortura. Crianças que vieram para as delícias da carne, para a secreta volúpia do sexo e da dor. Crianças com sangue e corpos tenros que fazem brilhar os caninos sedentos. Demônios... compreendem-se os demônios. Existem. Mas... crianças? tantas? Que permissão admitiria este cárcere dantesco, esta orgia fúnebre? Que força no universo senão a do acaso e da ausência de lógica? Imolam-se os cordeiros sem tirar-lhes a vida apenas pela perpetração do prazer selvagem. Sem altar, sem ritos, apenas profanação e carnificina. Eu cuido das inocências ensanguentadas, chorando vergonha e pavor. Que lugar é este, me pergunto, que lugar é este?
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sábado, 18 de abril de 2009

Desespero - por Ana

(O que eu escrevi aqui
tem base em histórias reais.
Peço desculpas aos leitores
se eu me excedi demais.)


Em profundo desespero
eu envio este bilhete.
Aconteceu coisa terrível
que eu passo a descrever-lhe.

Como sabe, a minha avó,
tão pancada, coitadinha,
conversando com fantasmas
foi dar uma saidinha.

Estes fantasmas eram
amigos de longa data
com os quais se divertia
nos seus passeios à cascata.

Iam ao campo de nudismo,
faziam ménage à trois,
fumavam, cheiravam, bebiam,
viviam uivando ao luar.

Pois hoje ela resolveu
reviver estes momentos
foi à praia, caduquinha,
“celebrar seu casamento”.

Na época ela se casou
com um hippie meio amarelo
numa festa muito doida
com bolo de cogumelo.

Então pensando que estava
na praia de anos atrás
tirou toda sua roupa
e, ensinando como faz

foi cantando os garotões,
piscando pras garotinhas,
convidando pra transar,
agarrando os flanelinhas.

Daí a polícia chegou
já dando voz de prisão,
mas a levaram pro hospício
vendo a sua condição.

No hospício a liberaram
após minha explicação:
ela tinha responsável,
e deram a medicação.

O motivo do bilhete
é que eu peço, por favor,
venha salvar minha avó,
mais uma vez, seu doutor.

Mas não demore a chegar,
Desculpe o inconveniente...
É que ela, já medicada,
conseguiu fugir da gente

e foi para a casa ao lado
- aí é que peço socorro -
de tão assanhada que estava
foi transar com o cachorro.

Eu não sei como se deu,
não foi coisa do destino:
a minha avó está presa
no seu amante canino.
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quarta-feira, 25 de março de 2009

Hoje é Dia de Pânico - por Adir Vieira

Pelo menos, para mim, é assim, todos os meses, quando eu tenho que ir a um Banco movimentar o famigerado provento da aposentadoria.
Às vezes penso se tal pânico vem lá de dentro, do âmago, por não saber como esticar a pequena quantia e cobrir as necessidades básicas ou se vem mesmo da violência atual.
No momento em que saio de casa, não me importo com a razão real, prefiro atentar para o que aparece em minha mente, de forma superficial: a violência que assola o país.
Chego a apostar que em outra época de minha existência já fui assaltada e espancada, tamanho é o meu pavor nessa situação.
Prefiro ir a pé para relaxar enquanto caminho e observo-me no percurso: músculos da face tensos e rígidos, sem se permitirem ao menos um sorriso disfarçado, se encontro um conhecido, as pernas pesam, negando-se a ir em frente e chego a despender o dobro do tempo até o local, mesmo indo apressadamente.
O medo me persegue e ao abrir a porta e adentrar o Banco, meus olhos e toda a minha fisionomia demonstram esse medo. Chego a perceber que as pessoas, ao me olharem, mostram surpresa e algumas assimilam meu pavor ficando também assustadas.
Vou em busca da senha rezando por obter um número próximo e também para que o sistema não saia do ar até chegar minha vez. Como sempre, observo, da ala em que estou, gente de toda a espécie, de idade avançada. Na minha faixa de idade posso perceber não mais de três pessoas.
Inquieto-me porque visualizo aquele velhinho que habitualmente esquece a senha e depois da quinta tentativa entrega seu segredo ao caixa que, encabulado, prossegue no atendimento sob a reclamação dos demais. Vejo também a mesma senhora de lábios agressivamente pintados de vermelho que, na vez anterior, preencheu os trinta minutos de espera contando-me todas as cirurgias que já fez em minúcias e fujo dela, porque no seu único interesse de falar, nem percebeu o meu desagrado no assunto e, por certo, se eu ficar perto, vai repetir a dose.
Um pouco mais na frente, uma mãe com olhar sofrido tenta doutrinar a filha, deficiente mental, para que se acalme, enquanto um dos clientes que recebeu um forte chute da menina nas pernas foi se queixar ao gerente.
Tudo é tumulto nesse pequeno espaço.
No físico e na minha mente.
As figuras, enquanto aguardam a vez, se atropelam e se cuidam entre si para não perderem o número no painel. Falam demais, para minha agonia.
Meus olhos percorrem tudo com desvairada atenção.
Para mim, a qualquer momento, um bando de assaltantes, com fuzis e pistolas em punho, vai manter todo mundo no chão, enquanto esvaziam os caixas.
Sempre é a mesma coisa. Tento me acalmar, me convencendo de que tudo é fruto de minha imaginação e não percebo que chegou a minha vez, até um velhinho de rosto redondo e vermelho gritar: olha o 316, morreu ou está aí?
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segunda-feira, 9 de março de 2009

Ressurreição - por Alba Vieira

Frio vento cortante, naquela praia deserta, onde o barulho das ondas violentas trazia o cheiro de maresia. Ele andava esquivando-se de pensamentos horrendos que o perseguiam desde o amanhecer e que haviam empurrado aquela alma atormentada até ali, naquela noite.
Sentia-se alquebrado, não que lhe doesse o corpo, mas o que quase ruía era a alma culpada pelo que tinha causado a quem tanto amava. A dúvida corroía seu coração. Seria mesmo verdade que ela tivera coragem de fazer o que lhe escrevera naquele bilhete que tinha recebido pela manhã? E será que de fato a amava, se não tivera a coragem de assumir um filho, fruto desta relação?
Só havia uma certeza: aquela frase curta que dizia “Pode sossegar, tirei o nosso filho.”, era como uma sentença para ele - morra!
Não desejava isto quando a notícia dada por ela na semana anterior desencadeara nele reações de revolta, egoísmo, desamor e covardia.
Só agora se dava conta do alcance de suas palavras insensatas e seu desaparecimento irresponsável, deixando confusa, desamparada e, sobretudo, tomada pela rejeição, aquela mulher que acreditava no seu amor.
Fizera isto por imaturidade e fugira até que se acostumasse com a ideia de que o futuro seria diferente dos seus planos individualistas.
Mas, de que importavam agora seus motivos, se tudo estava consumado? Era um assassino. Matara seu próprio filho. Não se achava digno de continuar. Ou de ao menos duvidar da veracidade da notícia escrita no bilhete, última gota de esperança capaz de evitar sua intenção momentânea.
Seus pés pisavam a areia, às vezes resolutos, outras vezes arrastando-se, e raramente seguiam em linha reta. Ia em direção às pedras.
O vento mais forte agora agitava seus cabelos sem ser capaz, entretanto, de colocar-lhe as ideias no lugar. Subiu ao ponto mais alto e olhou o mar. Aquela imensidão revolta, o cheiro de maresia, o barulho do vento...
Entendeu que das alturas era advertido agora. Não teve medo, porém. Queria misturar-se às águas, absorver, se possível, a força do mar ou perder-se de vez na sua grandiosidade.
Ia saltar quando, de repente, uma ponta de lucidez iluminou sua mente: não era verdade, seu filho estava vivo, sabia. O bilhete era só ameaça, ela não teria coragem, não era da sua natureza arrancar a vida de alguém. Ela amava a vida tanto quanto ele e era mais segura. Era mentira o que escreveu, estava certo disto.
Agora seu coração se agitava, esboçava no rosto um sorriso, ganhara nova vida, o vento frio não mais fustigava sua pele, o calor da alegria protegia seu corpo e lhe dava todas as forças necessárias para correr de volta pela praia.
Correu uma longa distância, a mesma que separava o ainda menino do quase homem feito. Estava diferente.
Voltou para a cidade e procurou sua amada naquela mesma noite. Estava certo. Quando ela lhe abriu a porta, seu olhar era de saudade e desejo, aplacados num abraço de encontro entre beijos molhados por lágrimas frias de ressurreição.



Texto cujos título e início foram utilizados para Ressurreição - As Nossas Histórias III.
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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Desespero

Crie um texto sobre este tema e deixe aqui, em "comentários", que nós postaremos.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Deixa Eu Reclamar Pra Não Pirar! - por Alba Vieira

Para o mundo! Para! Para que eu quero descer! Sei que isto já foi dito milhões de vezes antes, mas agora eu tô falando: para! Não aguento mais! Não quero continuar. Estou saturada! É muita doideira, muita confusão, tanta insensatez… É horror demais, que não acaba, que está em todo canto! É só incoerência! É abuso, é descaso! É gente comendo gente, pisando gente, matando gente! É cegueira demais, é muito fingimento, é cinismo! É terror! É terror do teu lado! E fome? Cada vez tá mais perto. E feiúra e sujeira? Também. É arrastão. Estão me arrastando pra desgraça e pra imundície. Para! Já falei: para! Não tô brincando não. Desisto. Não quero lutar mais. Não vou mais tentar fazer mudar isto não. Nada desse papo que o mundo é expressão de todos nós. Não acredito mais. Ou melhor: admito. Admito que perdi. Tô me retirando, na paz… Tô saindo de cena. Cansei. Tô quase surtando. Tá por pouco. Sinto que esta onda já tá me pegando e agora ou fujo ou fico de vez. Tô indo, entregando os pontos, saindo de fininho pra ninguém tentar me convencer a ficar. De verdade. Tô sabendo o que estou fazendo. Me deixa ir. Eu quero. Eu sei. Pulei.
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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Manuel Bandeira vê “O Bicho” - Citado por Penélope Charmosa

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando encontrava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

As Únicas Águas - por Casé Uchôa

Hostil o solo, a terra, a mãe da vida
Vida não nasce neste solo mãe
Só aridez aonde vai a vista
A vida seca de esperança

Osso de boi morto de sede
Vira brinquedo nas mãos do menino
Pobre menino, morto de fome e sede
Tanta tristeza e dor em seu destino

A reza, e a chuva não vem
A reza, e a chuva cai não
A reza, e a chuva não cai
A reza é a dor do sertão

Pobres mulheres, as suas lágrimas
São as únicas águas com que podem contar
Pobres mulheres, as suas lágrimas
São as únicas águas que não vão ver secar

O padre fala na missa de domingo
De esperança e fé em Deus
Mas Deus não fala, não dá notícias
Terá abandonado os filhos seus?


Inspirado em Haikai, de Alba Vieira.
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domingo, 25 de janeiro de 2009

Crime Dominical - por Dalberto Gomes

Tarde de domingo
A morte se avizinha
Gosto de sal do almoço.
Sol resvala no crepúsculo
Ansiedade…
Arrotos tépidos
Estocada no peito
Cervejas vazias
Corpo na cama
Esqueleto na poltrona
Silêncio quebrado
Gargalhada do Silvio Santos
Besteirada do Faustão.
Valha-me Deus!
Ao longe o assovio da rádio Globo
Anuncia que é tarde de futebol.
Domingo
Saco…
Respingando angústia
e tédio.
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domingo, 18 de janeiro de 2009

Tenho Sede, Tenho Fome - por Poty

Tenho sede,
Tenho fome…
Sofro com um Lobisomem
Tenho sede,
Tenho fome…
Sofro sendo um Homem.
Tenho sede,
Tenho fome…
Sou olhado por gente banal
Tenho sede,
Tenho fome…
Rasgam-me feito Canibal
Tenho sede,
Tenho fome…
Recebo apenas restos mortais!
Tenho sede,
Tenho fome…
Espero por pessoas legais!
Tenho sede,
Tenho fome…
Aqui nesta terra de desumanos!
Tenho sede,
Tenho fome…
Eles me dão retalhos de pano
Tenho sede,
Tenho fome…
Vêem-me como um desengano!
Tenho sede,
Tenho fome…
Sou para eles um engano
Tenho sede,
Tenho fome…
Não querem que eu seja humano.
Tenho sede,
Tenho fome…
Olham-me como um indigente
Tenho sede,
Tenho fome…
Apenas peço como gente.
Tenho sede,
Tenho fome…
Ofereceram-me os dejetos
Tenho sede,
Tenho fome…
Deram-me os restos
Tenho sede,
Tenho fome…
Não quero rejeitos.
Tenho sede,
Tenho fome…
Tomo água do esgoto feito um porco.
Tenho sede,
Tenho fome…
Como feito um bicho da lata do lixo.
Tenho sede,
Tenho fome…
Tomo água do riacho
Poluída feita o diacho.
Tenho sede,
Tenho fome…
Que alegria! Vieram alguns e me deram água bem servida e comida.

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O Ataque - por Ana Maria Guimarães Ferreira

O calor estava insuportável naquele dia de outubro.
Da minha sala, sem janelas e sem ventilação, eu via as gotas de suor caírem pelas minhas costas e molharem minha blusa.
O sono queria, a todo custo, tomar minhas pálpebras e eu lutava bravamente para manter os olhos abertos, sem conseguir, e foi assim, no meio de um olhar sonolento, que eu o vi e me assustei, pois não esperava ninguém ali àquela hora e muito menos mudo, me olhando assim furtivamente e ao mesmo tempo insistentemente.
Observei de relance seus bigodes que apesar de não correr vento por ali, pareciam se mexer.
Mas ele permanecia assim, imóvel, estático a me olhar como um busto de bronze que você conhece, mas que a simples aparição no meio do nada te leva a mil conjecturas.
Assustei-me ao olhar de novo para ele, constatar que ele estava realmente ali e que me olhava com bastante interesse.
Na verdade, quando nossos olhares se cruzaram, nós dois nos assustamos.
Dei um grito misto de medo e de pavor. Aquele grito agudo, mas que sai da garganta com dificuldade, quando olhei de novo ele havia sumido do meu ângulo de visão.
Mas eu sabia que ele estava ali me espreitando, sentia no ar e quase que inconscientemente, numa tentativa de sobrevivência, quando vi estava em cima da cadeira com um monte de processos na mão.
Eu subi no primeiro lugar que encontrei e que achei que poderia me servir para ver tudo, para ter uma visão de todos os cantos onde ele poderia ter se escondido.
Minha respiração ofegante, o suor aumentando e eu rezando para alguém aparecer e me salvar…
Mas nada... parecia que todos tinham se evaporado.
E eu me vi assim, em cima da cadeira, tremendo de medo que ele pudesse me atacar, mas não criava coragem de largar tudo e fugir.
Por isso dizem que o medo paralisa. É verdade.
Ali estava eu paralisada com toda aquela papelada nas mãos sem conseguir assim me segurar em algum lugar e descer.
Olhei de novo e não mais o vi, o que aumentou meu medo. Imaginei que ele poderia estar escondido em algum canto sem muita luz, à espreita e quando eu descesse, ele me atacasse.
Queria gritar por socorro, mas as palavras não saiam de minha boca seca. Eu estava muda!
O tempo parecia não correr, como eu, estava parado.
Ninguém chegava…
Ninguém aparecia para me salvar.
Os minutos pareciam horas e eu ali sentindo o corpo todo tremer e suando como uma bica.
As pernas doíam de estarem na mesma posição.
Os olhos vasculhando tudo e não vendo nada!
O que ele faria? Onde eu estava que eu não conseguia vê-lo, mas eu sabia, tinha a certeza que ele ainda estava ali, à espreita, pronto para dar o bote.
Cinco minutos se passaram, mas parecia que toda a eternidade estava passando por mim.
Ninguém.
Apenas o silêncio incrível.
Até que finalmente apareceu meu herói.
Não veio montado no cavalo branco, mas com certeza vinha para me salvar.
A sensação de alívio me trouxe de volta à realidade.
- Ana, o que você esta fazendo aí parada em cima dessa cadeira cheia de processos na mão? Você pode cair daí. Venha, desça.
Segurei naquelas mãos salvadoras, me joguei nos braços do meu herói e aí vi o marginalzinho…
Parece que viu que eu não estava mais só e passou correndo por nós.
O rato correu e foi se esconder num buraco que eu imagino devia ser a sua casa.

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domingo, 14 de dezembro de 2008

Desespero - por Alba Vieira

Tudo está errado, tudo torto, tudo fora do lugar, fora de esquadro. Sinto-me submersa num mar de lama muito preta que me cobre o corpo deixando só a cabeça de fora, enquanto me esforço para mantê-la na superfície, tendo uma opressão no peito, um cansaço por evitar ficar totalmente submersa. Às vezes quase perco as forças, me entrego e deixo soterrar por esta lama negra tão mais densa e pesada que se mar fosse.
Tudo se movimenta no sentido inverso do que gostaria e preciso, tudo oprime. Cerro a mandíbula, mordo o nada, trinco os dentes, berro minha indignação num grito inaudível ao mundo. Estou triste, fechada, sem saída, presa, refém de uma realidade dura, incompreensível, cheia de incoerências, insanidades e dores desnecessárias. Convivo com a loucura, refém do objeto do meu amor e de todo o seu lastro, crias e erros.
Ainda trago vivas na memória as lembranças de um passado feliz, harmonioso, dominado pela ordem, regido por alguém equilibrado, organizado, lógico, coerente, racional. Sinto saudade de um tempo em que havia respeito por horários, sono, trabalho, estudo. Hoje, esbarro em semiloucos perdidos vagando desvairados em busca de um sentido para a própria existência infeliz.
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sábado, 13 de dezembro de 2008

Desespero - por Adir Vieira

Misturo-me às pessoas, na ânsia de descobrir o porquê do tumulto. Vejo-me adentrando porteiras desconhecidas, sem temer. Sinto-me forte e capaz, por ir em frente.
Vozes irreconhecíveis gritam ao mesmo tempo em que outras vozes choram e pedem socorro.
Nada me detém na compulsão da descoberta. Meu medo habitual, como que tomado de uma força superior, transforma-se na coragem maior e me surpreende.
Vejo-me ali, entre sangue e desespero, e tenho a plena consciência de que não sou eu.
Como outras mãos caridosas, trabalho e ajudo outras pessoas a se desvencilharem de outros corpos e destroços para assim ganhar de novo a própria vida.
Sinto-me, em meio a tanta desgraça, como um animal abatido pelo caçador, no exato momento de sua morte.
Sinto-me nada, enquanto ali, nesse lapso de tempo, sou tudo.
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