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domingo, 28 de junho de 2009

As Nossas Histórias XIII

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AFLIÇÃO


Hoje o dia é de aflição... acordei assim.
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Separação - por Alba Vieira

Eu não quero nossa separação. Não quero, porque ainda o amo da mesma forma. Eu não observo nenhum desgaste na nossa relação, os meus objetivos em relação à nossa vida em comum são os mesmos, eu me sinto realizada, apaixonada, plena do seu amor. O nosso sexo é tão gostoso ou mais do que antes, há o mesmo interesse, a mesma sedução, as mesmas sensações de completude e transcendência. Quero criar nossa filha junto com você. Você continua sendo tão bom pai como sempre foi. Sua companhia para nós é especial como sempre e seu papel em nossas vidas é tão imprescindível ainda... Nesses mais de sete anos de convivência, evoluímos juntos, construímos algo para nós, tivemos uma filha, queremos, de maneira geral, um futuro semelhante. O que mudou? Você diz que me ama da mesma forma, com o mesmo ardor, que a separação não diz respeito ao sentimento que temos um pelo outro. Não entendo. Não aceito. Estou sofrendo porque não fiz esta escolha que você me trouxe de forma tão repentina. O que você quer? Que eu aceite o que me justifica: que o destino o está levando para um outro lugar que é longe de mim? Que é um novo momento em sua vida do qual eu não devo participar como sua companheira? Que é imposição da vida? Que não é pessoal? A minha mente pode entender, mas meu coração se despedaça e detona meu corpo em agonia por esta separação imposta a quem ainda ama tão profundamente.



Texto cujos título e início foram utilizados para Separação - As Nossas Histórias XII.
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Visitem Alba Vieira
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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Separação - As Nossas Histórias XII

Eu não quero a nossa separação apesar das nossas diferenças, do emaranhado de desentendimentos em que nossa vida se transformou. Eu amo o som da tua voz, a cor dos teus olhos, o calor da tua pele, o teu cheiro.
Não quero a nossa separação porque sei, desde já, a falta que vou sentir da tua mão firme segurando meu braço, me conduzindo na hora de atravessar a rua, do peso de tua perna descansando sobre a minha coxa toda noite antes de dormir.
Não quero a nossa separação porque sinto reciprocidade nos carinhos, sei o efeito do meu cheiro e da minha pele em você.
Eu não quero me afastar de você porque quando não formos mais nós, estaremos sós e todas as horas se precipitarão no vazio de tua ausência, e todos os nossos sonhos se precipitarão no vazio de uma vida sem amor.
Eu não quero a separação porque não há formas de fazermos isso, não há maneira de rompermos o indivisível: habitamo-nos mutuamente e não há saída, não há chaves que nos libertem, que desfaçam esta escolha antiga e, se é verdade o que dizem que vivemos muitas vidas, eu entenderia o porquê deste sentimento tão forte que resiste às diferenças e nos faz assim ligados um ao outro, isto explicaria a sensação que tivemos quando nos vimos pela primeira vez: que nos conhecíamos tão intimamente desde sempre.
Eu não quero me afastar de você porque quando descobrir que te perdi descobrirei que também perdi uma parte de mim e então só me restará vagar por aí, procurando em vão essa porção de mim que já não me pertencerá.
Definitivamente, eu não quero a nossa separação. Mesmo você se dizendo decepcionado, frustrado e infeliz com a nossa relação. Isso não importa. Você está enganado. Não consegue ver o quanto somos necessários em nossas vidas que, se for ver bem, é uma só vida. E por sermos um só te digo estas coisas com toda certeza. Você não sabe, mas eu sei. Definitivamente, você não quer a nossa separação. E fim.



Texto criado por Alba Vieira, Escrevinhadora, Clarice A. e Ana.
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Abandono - por Ana

Ele vivia sozinho. Agora. Mas não havia sido sempre assim. Ele tinha tido um companheiro inseparável. Uma relação íntima, profunda. Iam à escola, ao futebol, ao cinema, ficavam sozinhos no quarto de Maurício ouvindo músicas, vendo clips, às vezes por horas a fio... Quantas vezes, nestes momentos de alcova, Maurício, apaixonado, deslizava seus dedos sobre ele, pensativo, com aquelas mãos adolescentes inquietas e desejosas... E ele ali, sempre disponível, oferecendo tudo que estivesse ao seu alcance...
Ele não tinha sido o primeiro, houvera outros antes, muitos, pois Maurício exigia demais... Tinham sido relações pouco duradouras, mas igualmente profundas. Ele sabia que um dia iriam se separar também, mas não imaginou que duraria tão pouco. Sim, para ele tinha sido tão breve porque tão bom... Maurício encheu sua vida de conversas, de sons, de cores, de emoção... E agora nada mais, apenas o silêncio insistente, o isolamento. E aquela situação deprimente: para onde quer que olhasse só via feiura, tristeza, abandono, tudo cheirava mal... “Tudo é descartável - pensava, com seus botões - tudo tem um fim, sempre. É tolice imaginar a eternidade neste mundo, a imortalidade das relações.” Aprendera... diante de seu triste fim, aprendera. Outro ocuparia seu lugar em breve. Deveria ficar apenas com as lembranças até que nada existisse mais. Resignou-se, imerso em infinita saudade e esmagadora sensação de inutilidade.


- Meu filho, joguei fora. E não adianta remexer o lixo, Maurício! O seu mp4 escangalhou mesmo...



Texto cujos título e início foram utilizados para Abandono - As Nossas Histórias XI.
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Abandono - As Nossas Histórias XI

Ele vivia sozinho. Mas isso não era um sofrimento. Antes ao contrário, curtia o prazer da estar a sós consigo mesmo. Era um dos poucos sozinhos não-solitários: para ele, a sua própria companhia era mais do que suficiente.Mas não havia sido sempre assim, vinha de numerosa família. Pais, irmãos, tios, primos... mas, com o tempo, todos se dispersaram como as cinzas de seu avô ao vento e, assim como elas, era impossível reunir tudo de novo: as manhãs concorridas no sítio, as festas intermináveis, os casamentos superlotados, as refeições regadas àquela bagunça inacreditável e aconchegante.
Seu avô era o agregador da família, o conselheiro, provedor sempre que necessário, o amigo com o qual todos podiam contar. E ele se fora, assim, de repente... dormiu aqui e acordou em algum outro lugar, longe de todos... e foi assim que a corrente se rompeu definitivamente. A partir de então se instalou uma nova fase na vida daquela família, quando teriam que manter viva a corrente do amor com seus elos indestrutíveis ligando a todos com a teia invisível e protetora que deveria continuar a se manifestar sempre que algum ente necessitasse de ajuda.
Mas elos, mesmo indestrutíveis, enferrujam, e foi que aconteceu...
Afastaram-se e praticamente só se encontravam quando morria um parente ou alguém casava e dava uma festa. Como foram envelhecendo e os mais jovens passaram a morar juntos, sem pompas de casamentos, os encontros aconteciam mais nos enterros.
Daí veio se instalando, silenciosamente, o abandono. No início foi muito difícil a solidão, cada um tocando sua vida, a nostalgia era sua companheira. Com o tempo, a nostalgia transformou-se naquela sensação de ser totalmente esquecido, ser órfão.
Passou a visitar os conhecidos com frequência e algumas vezes sentiu que suas visitas importunavam, percebeu que as pessoas fecharam-se em pequenas células familiares ou em suas preferências: tevê, internet e outras atividades. Concluiu que também para ele era chegada a hora de mudar. Dizer não ao abandono, ser ele mesmo seu melhor companheiro, redescobrir o que gostava e havia ficado para trás. Enfim aceitou o que não podia modificar: o afastamento que tanto o chateava, a solidão e o abandono. Estar só, antes asfixiante, passou a ser aceitável e hoje vê como um ganho em sua vida: aprendeu a cuidar de si, viver seus prazeres sem precisar prestar contas a ninguém, já que tem independência financeira.
Então, após lutar contra si mesmo, porque não se conformava com o abandono, e sair vencedor, leva sua vida. Mentiria se não dissesse que, mais vezes do que gostaria, tem suas recaídas, mas aprendeu que não adianta viver de lamentações, e quando olha à sua volta vê que tem sorte. A morte virá um dia - como para todos- e viver bem o tempo que tem é a sua meta, ajudar quando puder, seguindo o exemplo de seu avô, e aceitar as mudanças. Esta é a sua vida, sua história.



Texto criado por Ana, Escrevinhadora, Gio, Clarice A. e Alba Vieira.
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Atitude - por Alba Vieira

A vida é o que fazemos dela. A cada dia descobrir a inteireza do que vivemos deveria nos fazer pensar no que poderíamos ser, se nos permitíssimos, se nos déssemos a chance de sermos quem realmente somos.
A beleza está dentro de todos nós. Não importa em que condições vivemos, não importa o que já sofremos, o que nos fez chorar e endurecer. A possibilidade do bom está em cada um. A harmonia, o sossego, o belo estão bem aqui dentro de nós. É só contactar, é só abrir os canais.
Como acordamos? Será que olhamos por um só instante a pessoa que está ao nosso lado? Será que a tocamos, encostamos nosso corpo no dela? Pense que essa pessoa dormiu com você, dividiu talvez o mesmo sonho. Quem sabe? E ela está ali. Ainda dorme. Está relaxada, a pele quente e gostosa. Você já percebeu isto?
Sim, eu sei que é preciso iniciar o dia, sei dos compromissos, do que teima em puxá-lo para fora da cama. Mas fique mais um pouco, por mais um tempinho só. Viva esse momento que é seu, por direito. Comece o dia com a aproximação do outro. Puxe para você a pessoa com quem divide a vida. Dirija a ela uma vibração de amor, uma doçura, uma carícia. Mesmo se vocês não estiverem muito bem nessa fase. Você quer estar bem, é isso que seu coração pede, os problemas podem ser resolvidos pelo carinho, pelo amor; se abra para o outro, escute o seu coração, deixe a cabeça de lado, o orgulho, jogue fora as mágoas, derrube as cercas que ainda o aprisionam.
E se voce não divide a cama com ninguém, aproveite a delícia que é o contato consigo mesmo. Não pule logo para fora da cama. Você já espreguiçou? Já se espichou como um gato? Já tentou se expandir pra vida? Esse movimento pode fazer uma grande diferença pro seu dia. Os tempos de agora pedem expansão. Vá para os outros, procure as pessoas num relacionamento de verdade, inteiro, espontâneo, o movimento das crianças. No outro está sua cura, está você. Descubra no outro toda a beleza que também existe em você. Tenha paciência com você, desculpe suas imperfeições, seus exageros, suas omissões. Mas se dê oportunidade de ser melhor, de elevar seus padrões, de construir para sua vida a única coisa que você vai poder levar quando se despedir dela: construa extensões do amor que existe em você. Deixe o amor se expandir para fora de você.
Esse amor vai tocar o amor do outro, de todos que estiverem perto de você e longe também, porque o amor é poderoso, é a única proteção real que você pode ter. O amor vai dissolver seus medos, vai trazer para você belos acontecimentos hoje. Suas oportunidades serão outras se você se soltar para a vida, se permitir emanar de você mesmo esta coisa divina que é o amor.
É você que faz sua vida, seu novo dia, seu futuro. O que faz e o que deixa de fazer neste momento vai plasmar seu futuro. Não tire de você a responsabilidade por tudo que lhe acontece. Porque é assim mesmo. Isso não é ruim, não é injusto, isto é só uma possibilidade. Você tem escolhas, você pode. Pode tudo, ainda que pareça absurdo, você tem esse poder. E esse poder é, muitas vezes, não ter poder. É deixar-se levar. Mas cultive em você esse hábito de perceber a cada momento que você pode mudar a sua vida e a dos que estão ao seu redor, que você é essa sociedade que lhe parece tão diferenciada de você. Você é essa realidade que você vive. E o que você deixa sair de você cria a atmosfera que você respira, atrai o que você permite, o envolve em vibrações que você mesmo envia. Então resgate o contato com o divino que está em você. Assuma todo o seu poder. Melhore seus dias e seus relacionamentos. Fique mais inteiro, se expanda, melhore essa vida, esse planeta, atraia para você tudo que você puder deixar sair de bom de você mesmo. É assim que funciona. Experimente.




Texto cujos título e início foram utilizados para Atitude - As Nossas Histórias X.
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Visitem Alba Vieira
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sábado, 2 de maio de 2009

Atitude - As Nossas Histórias X

A vida é o que fazemos dela. O resultado de nossa equação: do que adicionamos, subtraímos, multiplicamos e dividimos.
Nós somos o que a vida faz de nós. Nós somos sua equação: ela adiciona, subtrai, multiplica e divide, quando não tomamos as atitudes que deveríamos para sermos fiéis a nós mesmos.
Aprender a dizer sim ou não, que é tarefa difícil e requer determinação, é o que faz a diferença.
A vida é o que fazemos dela ou somos o que ela faz de nós? Acho que é faca de dois gumes, é estrada de duas mãos, por vezes somos levados, às vezes temos opção...
Mas, em ambos os casos, temos responsabilidade sobre nossas escolhas e atitudes. E as nossas escolhas ou atitudes interferem na vida dos outros, e o que a vida faz de nós não é nada mais do que o que os outros fazem, que em nós interfere. A vida nos conecta uns aos outros, visto que não vivemos sozinhos (com maior ou menor número de conexões), e é em função de nossas relações, escolhidas ou não por nós (porque é assim que a vida é), que vivenciaremos tudo que a nós pertence, a raça humana.
E se é estrada de dois sentidos, só nos resta, a cada momento, escolher se iremos pra cá ou pra lá, visto que isto é o que menos importa. Se constatamos que a direção foi errada, é só mudar. A mudança é a única certeza que teremos sempre, já que não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe. E acabamos chegando ao mesmo ponto: a vida é o que fazemos dela.
Enfim, tudo é questão de atitude.



Texto criado por Alba Vieira, Clarice A., Ana, Lélia, Aaron Caronte Badiz e Gio.
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Sensações (Misturas e Cores) - por Alba Vieira

Misturar. Esta ideia me veio de súbito. Parte de um com parte do outro: coisa nova que surge. Comunhão. Talvez. Tão clara em mim esta sensação hoje.
Fazemos parte de um todo que depende de cada um de nós. A vibração do mundo que é formada pelas emanações de cada um de nós. A responsabilidade que há nisto, em cada ato nosso, em cada pensamento. Olhar para os outros com o amor e a consideração que devemos dispensar a nós mesmos. Gosto de misturas, do resultado das combinações em tudo. Mas mistura de partes que têm algo em comum, que podem compartilhar, que são abertas para permitir entrar no outro e serem invadidas, diferente de água e óleo.
Óleo me lembra tela que me traz tintas. Vejo a tela branca e as tintas coloridas que vão sendo colocadas no branco, que dançam levadas pelo pincel e se juntam às cores de outras e explodem em tons novos, multicoloridos. É vida nova despontando.
Os cheiros que se combinam, das peles que se tocam e se modificam pela delícia do contato, exalando perfumes que se misturam e impressionam olfatos de novas formas tão particulares, com mudanças às vezes tão sutis, mas que marcam e tocam uma profundidade tão imensa e especial.
Meus sentidos se assanham com as cores e penso que assim é com todo mundo: primeiro os olhos, mas as coisas têm cheiro e gosto e textura também. Um prato cheio de cores é recebido pela língua de forma totalmente diversa da comida monocromática. Gosto de ter todas as cores que puder no mesmo prato e ir provando cada uma delas, sentindo a temperatura da cor, o gosto da comida, me sentindo arrepiar toda pelas cores ácidas ou picantes e me deixando amansar pelas cores doces. E sentir, ao mesmo tempo, mais de uma cor na mesma parte da língua é especial. É certeza de novo sabor, nova vida que se percebe, é mais uma parte de mim que se aguça.



Texto cujos título e início foram utilizados para Sensações - As Nossas Histórias IX.
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sensações - As Nossas Histórias IX

Misturar. Esta ideia me veio de súbito. Misturar cores, sons e sabores os mais variados na festa que vou dar aqui em casa domingo. Uma festa onde só quero felicidade... chega de tristeza!!!
Então comecei a planejar o cardápio, a trilha sonora e a decoração. E, principalmente, comecei a pensar nos convidados. Queria misturar pessoas de gostos e interesses diferentes. Tinha que ter tudo de tudo para que todos os tipos de pessoas podessem se divertir na festa. Com esse objetivo me joguei no trabalho. Não seria fácil... é complicado agradar gregos e troianos.
Comecei pelo espaço, que tinha que ser enorme para abrigar as multidões que esperava que viessem. (Eu e esta minha mania de grandeza!) Mas, na verdade, eu teria mesmo era que acomodar todo mundo aqui em casa.
Aí me dei conta da limitação do espaço. Não era pequeno, mas nem de longe tão grande quanto gostaria. Uma certa frustração se acercou, mas mandei-a embora. Adequaria minha pretensão inicial ao que de fato dispunha.
Tendo decidido isto, convidei todas as pessoas que conhecia, que eram de uma diversidade escandalosa: evangélicos, darks, umbandistas, emos, kardecistas, vegetarianos, hare krishnas, flamenguistas, DJ's, patricinhas, faxineiros, reikianos, economistas, botafoguenses, nadistas, bancários, prostitutas, atletas, aposentados, esquizofrênicos, corintianos, militares, hinduístas, churrasqueiros, palmeirenses, muçulmanos, sindicalistas, mauricinhos, estivadores, beatas, empresários...
Festa para ficar na memória por muito tempo! Ops! Olha a mania de grandeza aí de novo. Que fazer se a minha expectativa era esta? Festa bombando e no melhor estilo “Torre de Babel”.
Que sensação! De estar no mundo: misturada a tantas formas de pessoas, ondas sonoras, vibrações coloridas, a tantas línguas incompreensíveis entre si e olhos curiosos, a tantos territórios distintos entre cercas vivas, a tantos alimentos exóticos e um buffet clichê, a tantos hábitos excludentes em brindes coletivos, a tantos conceitos opostos e assuntos supostos, a tantos valores complementares e adnominais, a tantos cotidianos contraditórios em um domingo de festa... Tantas sensações numa só noite, registradas para sempre nas paredes de minha memória, como um psicodélico holograma emoldurado.



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Brincadeira de Roda - por Ana

À tarde, em lugares calmos e familiares, muitas coisas podem acontecer: as brincadeiras das crianças nas calçadas, os sonos dos cachorros nos portões, as fofocas gerais dos vizinhos nas cadeiras enfileiradas diante das casas, as corridas dos grupos enlouquecidos dos meninos atrás das pipas avoadas, as notícias chegando nas mãos de carteiros cansados arrastando os sapatos gastos, os ônibus escolares despejando bagunças nos braços de mães zelosas, chuvas repentinas que esvaziam as ruas de toda esta vida cotidiana...
Podem acontecer coisas vãs e inexpressivas, além de fúteis ou profundos terrores humanos. As mesmas paredes que protegem dos olhares e ataques externos podem ser prisões quase invioláveis que abrigam o sadismo e suas invisíveis vítimas. Aquelas infantis, idosas, indefesas... que são, repentinamente, imprensadas na roda do destino.
Porque o evidente não reflete o todo, porque a dor se esconde sob várias formas, porque viver é sério, não é brincadeira de roda.



Texto cujos título e início foram utilizados para Brincadeira de Roda - As Nossas Histórias VIII.
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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Brincadeira de Roda - As Nossas Histórias VIII

À tarde, em lugares calmos e familiares, muitas coisas podem acontecer: as brincadeiras das crianças nas calçadas, os sonos dos cachorros nos portões, as fofocas gerais dos vizinhos nas cadeiras enfileiradas diante das casas, as corridas dos grupos enlouquecidos dos meninos atrás das pipas avoadas, as notícias chegando nas mãos de carteiros cansados arrastando os sapatos gastos, os ônibus escolares despejando bagunças nos braços de mães zelosas, chuvas repentinas que esvaziam as ruas de toda esta vida cotidiana... E depois das chuvas, de novo as crianças brincando, chapinhando na água que escorre no meio-fio...
Agora há um mar que quase me afoga, qualquer rima, qualquer droga e nenhuma solução... Somente uma doce e feliz recordação onde tudo era bom, hoje nem existem mais brincadeiras de crianças nem gritos de mães zelosas, somente uma luz muito fraca que clareia um quarto ou mesmo uma saleta e uma pequena escrivaninha... onde há tudo: alegria, tristeza, recordações, encontros de pessoas que sem ao menos se conhecer mandam abraços e beijos no fim de cada conversa mesmo sendo virtual, que coisa boa... mas que somente um pessoa no real está ali solitária, às vezes triste, outras alegre, outras curiosa... O mundo virtual é maravilhoso quando estamos em frente a uma telinha... sós, completamente sós...
E no meio desta solidão me domina uma lembrança antiga: as brincadeiras de roda da minha meninice.
“Terezinha de Jesus numa queda foi ao chão acudiram três cavalheiros todos três chapéu na mão”
“A Alba não é capaz de botar o pião no chão, a Alba não é capaz de botar o pião no chão, lá vai, lá vai, lá vai, lá vai o pião no chão”
“Atirei o pau no gato to to mas o gato to to não morreu rreu rreu, dona Chica ca ca admirou-se se do berro, do berro que o gato deu, miau”
Vestidos rodados, laços de fita nos cabelos, mãozinhas dadas na mais pura alegria infantil. Que saudade boa!
Quanta emoção extravasando nos nossos corações! Tantas vivências da infância que estruturaram as vidas de quem hoje conta com esta telinha abençoada para organizar tantos conteúdos até agora represados e que ainda continuam imprimindo as cores dos nossos dias, evidenciando o quanto é terapêutico escrever e se relacionar com as pessoas, mesmo que virtualmente.



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Banho - por Ana

Era um dia nublado, pesado, destes que doem na alma. Inquieta, com nuvens ainda mais escuras dentro de mim, procurava resolver aquela aflição de forma racional. Impossível... Minha alma estava cinzenta, dolorida, o coração batia com dificuldade, como se quisesse parar diante de tanto esforço. Resolvi não pensar, sentar e me acalmar aos poucos. Fiquei quieta, olhos no nada, mente vazia, enquanto os olhos se inundavam de uma dor que eu jamais conhecera. As lágrimas escorriam pesadas, abundantes, mostrando-me um sentimento que havia em mim num lugar intocável, numa tristeza anônima. Sem soluços, sem desespero, sem compreensão, banhei-me naquela fonte repentina e, lavando-me em dor, clareei minha alma, libertei meu coração e perfumei meu dia. Ao levantar, era um outro alguém que se despedia de uma realidade interior absolutamente desconhecida e enigmática.



Texto cujos título e início foram utilizados para Banho - As Nossas Histórias VII.
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terça-feira, 14 de abril de 2009

Banho - As Nossas Histórias VII

Era um dia nublado, pesado, destes que doem na alma. Um dia para ficar na cama deixando vir esta inquietude, sentindo-a e pensando para onde ela o queria levar. Na cama e coberto com um edredon bem quentinho.
Pegou um livro que estava sobre o criado mudo, e reiniciou pela enésima vez a leitura daquele livro, tão sem graça como esse dia acinzentado, mas ler ou fazer qualquer outra coisa estava fora de cogitação.
Seu pai falecera na noite anterior e agora ele se dirigia ao enterro. A face sombria. Nem sabia se o dia estava mesmo nublado, ou se era o seu estado de espírito que fazia parecer que estava. Talvez o dia estivesse ensolarado, todos os que conhecia estivessem saindo de casa para ir à praia e quem sabe seu pai nem tenha morrido. E se tudo for apenas um sonho ruim, um pesadelo desses que todo mundo tem de vez em quando e quase sempre não lembra ao acordar?
Quem dera. O pai já era velho. Já era a hora dele. E ele não ia querer me ver choramingando pelos cantos. É isso. Ele morreu e vou ter que aprender a conviver com isso. Tenho que guardar esse dia para passar aos meus filhos para que quando o mesmo acontecer comigo tomem a minha atitude como experiência. Mas de uma coisa eu tenho certeza: eu serei tão bom pai quanto o meu foi. Isso é certo.
Neste momento, caiu do céu uma chuva repentina, gelada, renovadora. Era como uma resposta, como uma mensagem, como um banho bom de chuva como aqueles que tomávamos, meu pai e eu, quando, às vezes, voltávamos das pescarias. Recebi aquelas gotas como beijos de despedida.
Adeus pai. Você definiu quem eu sou.



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Mágica no Cotidiano - por Alba Vieira

Saí de casa hoje decidida a enxergar além daquilo que definimos como realidade. Seria um desafio, eu bem sabia, tanto que nos acostumamos a acreditar em tudo que conseguimos perceber com nossos parcos cinco sentidos, já que a maioria de nós não desenvolveu outros. Só que eu tenho sido informada, repetidamente, nos últimos anos, por fontes variadas, de que a realidade é pura ilusão e o que é de fato real está além disso e até podemos participar de sua criação, já que não existe realidade sem um observador. Apesar de parecer complicado, resolvi experimentar como funcionava.
Como ainda era aprendiz, seria prudente ir aos poucos, considerando uma coisa de cada vez, o que, em si, já seria um paradoxo, uma vez que a realidade é sentir-se integrado ao Todo, mas como nosso condicionamento foi apreender a realidade em partes separadas, o que é pura ilusão, achei melhor desta forma, pelo menos no início.
Hoje eu me ocuparia de olhar para as pessoas que passassem por mim. Quantas coisas enxerguei quando me permiti não limitar o sentido da visão. Ele se expandiu, captando além da imagem que os olhos, do ponto de vista anátomo-funcional (rsrs).
Assim foi que logo no elevador dei de cara com o vizinho do décimo andar e percebi que por trás da expressão de homem bem acordado, cheio de disposição e afabilidade no trato, havia alguém deprimido que desejava ter permanecido na cama e extremamente raivoso, tinha cara de poucos amigos.
Na rua, esbarrei com um menino deitado no chão frio, sob neblina, encolhido e sem coberta. Mas era pura ilusão a impressão de sofrimento que ele me passou: olhando bem, ele dormia sossegado, sua alma tranquilamente aguardava que abrisse os olhos para um novo dia sem expectativas e, naquele momento, as ações externas eram incapazes de fustigar seu corpo físico, já que ele (o menino) não se identificava com ele (o corpo).
Logo adiante parei para esperar meu ônibus e qual não foi minha surpresa quando, ao mirar outros coletivos que passavam, o que vislumbrei foram enormes carros de circo com suas gaiolas apinhadas de animais presos que desfilavam diante dos transeuntes em cada cidade onde chegavam para fazer espetáculos.
Desta forma concluí que a realidade de fato é plástica, bastando sermos co-criadores para nos divertirmos à vontade.



Texto cujos título e início foram utilizados para Mágica no Cotidiano - As Nossas Histórias VI.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Mágica no Cotidiano - As Nossas Histórias VI

Saí de casa hoje decidida a enxergar além daquilo que definimos como realidade. Desprogramar sentidos e percepção. Desligar o piloto automático. Não foi fácil...
Na verdade, saí de casa com vontade de dar um pontapé no marasmo, mas isso nunca foi fácil...
A realidade logo se faz presente na dor que se sente (no dedão).
Pois enquanto algo em nós busca o alto, sentindo todo o tédio da vida cotidiana, uma outra porção de nosso ser precisa ser ancorada através da limitação deste corpo. Corpo realmente tão limitado se comparado à grandeza da alma!
E não tem alma ou decisão elevada que resista a uma unha encravada, toda inflamada, esmagada num sapato de salto agulha!
O anseio de expansão da alma bloqueado pela dor, pelos limites que o corpo impõe. Primeiro curar o corpo, eliminar a dor que me impede de seguir com a decisão de enxergar além.
Com certeza curar o dedão é a parte mais fácil. Curar ou ignorar aquele incômodo, para que eu não fique à mercê destes pequenos detalhes humanos e possa apenas estar conectada com algo maior do que as coisas mundanas.
Então, ignorando aquela chatice de unha encravada, voltei-me para minha decisão inicial do dia e fui em frente, tocando o dia decidida a ver todas as coisas através de um novo olhar: mais amigo, mais tolerante, mais feliz, mais otimista, mais cantarolante. Do pensamento à ação. Meus atos sendo guiados desta nova forma decidida por mim.
E então, ignorando as mazelas do mundo, vivi um dia diferente, feliz... e, ao chegar em casa, percebi que mais nada me incomodava, que a forma com que decidi ver a vida me modificou por dentro, para sempre.



Texto criado por Alba Vieira, Clarice A.,
Ana, Escrevinhadora, Aaron Caronte Badiz e Anônimo.
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Labirinto - por Vicenzo Raphaello

Era o que esperavam os aflitos para saírem daquele marasmo.
A ideia de construir uma passagem que alcançasse Rio das Pedras Polidas era, enfim, a solução de escape daquele labirinto, no qual havia se metido aquele grupo sob comando de Raquel, experiente pesquisadora de batráquios chifrudos.
Estavam há treze semanas enfiados naquela gruta. Estava esgotada a paciência de todos, a comida escasseava, assim como as baterias e um início de rebelião começava a se instalar.
A expectativa inicial fora frustrada: ao invés de batráquios, só morcegos albinos de asas lilás foram encontrados. Não que estas espécies importância científica não tivessem, mas rato voador já era demais para o estômago de todos, ainda por cima em meio ao mau cheiro dos excrementos daqueles animais repulsivos
Iniciaram, pois, a escavação em direção ao ruído de água corrente que vinha de uma estreita abertura.
Alcançaram um grande salão. Estalactites e estalagmites com geometria desconhecida, assemelhando-se a grossas cordas brilhantes e faiscantes, pela enorme quantidade de pequenos diamantes que, incrustados naquelas formações, as tornavam únicas aos olhos dos experientes pesquisadores.
Nesta expedição, sempre uma surpresa.
Surpresa maior era o rio que por ali passava: corria para cima!!!!
Sujos, cansados, ficaram ali deliberando o que fazer. Parecia a todos que mergulhar naquela água e se deixarem levar correnteza acima era uma ideia tentadora apesar da incerteza...
Aí, para terminar esta história sem pé nem cabeça, um pequeno abalo sísmico acabou com esta narrativa.
Quem quiser que conte outra.

(PS - O outro desfecho é bem mais interessante.)
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Texto cujos título e início foram utilizados para Labirinto - As Nossas Histórias V.
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sábado, 28 de março de 2009

Labirinto - As Nossas Histórias V

Era o que esperavam os aflitos para saírem daquele marasmo... Do marasmo vem o conflito. E assim fica ainda maior a aflição. Aflição que não cessa por nada, suga a energia da gente.
O que fazer para vencer a inércia, mudar o rumo das coisas? Era tudo o que queriam saber.
Dentro daquele labirinto se olhavam, quando em vez, tentando, cada um, encontrar no outro a solução, a saída... mas nada faziam de concreto para, efetivamente, chegarem à liberdade. O medo do erro e da crítica impede o primeiro passo... Ideias definhando dentro de si mesmos.
Viviam enredados na armadilha da objeto-referência (quando buscamos aprovação dos outros, não tendo a consciência do valor próprio).
Até que de repente, não mais que de repente...
Alguém olha para os outros com olhos esbugalhados como se procurasse, entre eles, o que havia lhe dirigido palavras ofensivas. E como ninguém parecesse entendê-lo, saiu correndo daquele lugar sufocante.
Por incrível que pareça, bastou esse gesto tresloucado para mudar completamente o clima reinante no local. Afinal de contas, o cara tinha pirado!
Mas apesar de pirado, não é que achou a saída e escafedeu-se dali?
Então, todos os outros, que o estavam seguindo para ver do que se tratava, conseguiram encontrar a saída daquele labirinto, guiados pela loucura.



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Um Sonho Bom - por Alba Vieira

Caía a noite apagando aos poucos toda a luminosidade natural daquele lugar já tão populoso, cheio de prédios e construções mais baixas. E aquele dia a luz elétrica não acendia, não se sabia porquê. Tudo foi, devagar, virando breu e as pessoas já começavam a se inquietar. Mas tudo foi deixando de funcionar aos poucos e assim não havia ninguém preso nos elevadores ou em outros lugares. Os sistemas foram inativados progressivamente, dando tempo às pessoas de perceberem sua incapacidade de funcionarem. E não era mais possível acender qualquer luz artificial: elétrica, de geradores, baterias, pilhas. Nada funcionava. Também era impossível obter luz de vela, ninguém conseguia riscar fósforos ou acender isqueiros ou fazer fogo por qualquer meio. Era estranho demais! Entretanto, no resto, tudo estava como sempre esteve. Exceto pelas trevas que se impuseram sobre aquela cidade. Não houve tumulto. As pessoas estavam calmas. Estavam anestesiadas pelas impossibilidades e hipnotizadas pela estranheza dos fatos. Aos poucos foram se acostumando à escuridão e foram agrupando-se nos espaços abertos. Desceram dos prédios, saíram de suas casas, locais de trabalho e lazer e, em silêncio, começaram a andar pela cidade toda apagada e sem se esbarrarem. Caminharam muitos quilômetros em silêncio e aos poucos o ar ficou mais leve, respiravam melhor, aprofundaram a respiração. Andavam com mais facilidade agora e se dirigiram, juntos, depois de horas, para um lugar mais claro onde puderam enxergar a primeira estrela. Foi um êxtase, a salvação.
Finalmente haviam descoberto a luz da intuição que os fez se reunirem e caminharem juntos para um lugar melhor.



Texto cujos título e início foram utilizados para Um Sonho Bom - As Nossas Histórias IV.
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segunda-feira, 9 de março de 2009

Um Sonho Bom - As Nossas Histórias IV

Caía a noite apagando aos poucos toda a luminosidade natural daquele lugar já tão populoso, cheio de prédios e construções mais baixas. Um larápio assanhado, tipo ladrão de galinha, saía de casa pensando: “Hoje eu vou me dar bem!”
Não come uma refeição decente há mais de 24 horas e então decide que a melhor maneira de começar aquela noite é entrando num restaurante e jantando como se fosse pagar (o que não faria, por questão de princípio, ainda que tivesse dinheiro pra isso). Escolheu o lugar mais retirado do recinto e pediu inúmeros pratos que saboreou avidamente, deixando-os limpos, lambendo os beiços numa expressão de locupletação e felicidade indescritíveis.
De repente, lembrando da morte de seu avô há alguns anos atrás, simulou um baita infarto e ficou estatelado no chão, com a boca aberta em falso desespero e o corpo contraído pela fingida dor, aguardando a ambulância chegar; mas por dentro sorria de sua bela atuação, ria de todos que estavam surpresos e penalizados, mas, principalmente, extasiava-se ainda com a lauta refeição que havia conseguido naquele lugar tão chique sem desembolsar um tostão.
Quando, de repente, um dos clientes do restaurante se levanta para ver o alvoroço e descobre que a vítima de infarto é um ex-colega de trabalho de uma empresa renomada que foi demitido por roubar canetas do escritório.
Chega a ambulância e entram trazendo a maca para transportar o doente, que abre um olho e reconhece o ex-colega; levanta-se pálido e os atendentes, estupefatos, são empurrados quando ele foge de carreira do restaurante, deixando a plateia em rebuliço. O dono do restaurante, furioso, manda um garçom em seu encalço.
Como estava com a barriga cheia e já não era nenhum rapazola, toda aquela comida atrapalhou sua fuga, sendo logo interceptado pelo ágil garçom novinho que o segurou, imobilizando-o com uma gravata; em seguida, quando chegaram o dono do restaurante e alguns clientes interessados na punição do vagabundo, encontraram-no ofegante, pálido, suando muito e com o rosto arroxeado.
O fato é que depois de toda a tensão causada pela chegada da ambulância, o medo de ser desmascarado pelo ex-colega, o esforço físico da fuga e a consequência da pesada refeição, seu coração realmente ficou danificado e, naquele momento, o infarto era verdadeiro.
O dono do restaurante, que já havia presenciado o infarto anterior, colocava para fora toda a sua raiva gritando: “Finge mais, desgraçado! Vai fingindo até a polícia chegar...” O garçom, recém-admitido no restaurante, não olhava sequer para o imobilizado e só pensava nos frutos que o seu ato heróico iria lhe proporcionar. Notou até no olhar do dono do restaurante uma certa admiração. De repente, o corpo do imobilizado pendeu para frente, verdadeiramente desfalecido, e quase o derrubou. Mesmo agarrado ao corpo já no chão, o garçom não sabia o que fazer.
Agora as pessoas se amontoavam em torno do quase cadáver que estava com o rosto ainda mais roxo. O corpo foi então abandonado pelo garçom, que o deixou estendido na calçada enquanto olhava atônito para o dono do restaurante, igualmente estupefato.
Toda multidão presenciou a morte do ladrão de galinhas.
Entrementes, ele próprio encontrou-se no meio da multidão vendo o corpo estrebuchado que sabia ser o seu e, ao mesmo tempo, sentia-se muito bem e tinha agora consciência de todos os seus atos naquela noite.
De repente, apareceu uma mulher diáfana, iluminada, que o pegou pela mão e mostrou-lhe lugares lindos, pessoas felizes... Uma realidade que ele não havia ainda conhecido aqui na Terra.
Ele viu que estava voando, leve por cima de tudo. Sentiu imensa felicidade! Agora tudo era diferente! Não sentia mais aquela raiva que sempre sentira na vida. Ele sentia amor dentro de si, um amor bom que mudava tudo, tudo!
De repente, ele acordou num leito de hospital e pensou que tinha tido um sonho bom. Entretanto, sentia-se diferente, era um outro homem. Teve plena consciência dos acontecimentos daquele dia e percebeu que tinha visitado o Além enquanto seu corpo estava desfalecido. Na verdade, não tinha sido um sonho, foi pura realidade o que vivenciou. Seu coração transbordava amor.
Agora, no mesmo quarto de hospital, totalmente recuperado, sentia-se uma outra pessoa, expandido, cheio de amor pra dar. Neste instante, pensou:
- “Nunca mais serei ladrão! De agora em diante, com tanto amor no coração, percebo que meu destino é ser AMANTE PROFISSIONAL!”



Texto criado por Alba Vieira, Ana, Escrevinhadora, Carol Conrado,
Luiza, Adir Vieira e Anônimo.
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Ressurreição - por Alba Vieira

Frio vento cortante, naquela praia deserta, onde o barulho das ondas violentas trazia o cheiro de maresia. Ele andava esquivando-se de pensamentos horrendos que o perseguiam desde o amanhecer e que haviam empurrado aquela alma atormentada até ali, naquela noite.
Sentia-se alquebrado, não que lhe doesse o corpo, mas o que quase ruía era a alma culpada pelo que tinha causado a quem tanto amava. A dúvida corroía seu coração. Seria mesmo verdade que ela tivera coragem de fazer o que lhe escrevera naquele bilhete que tinha recebido pela manhã? E será que de fato a amava, se não tivera a coragem de assumir um filho, fruto desta relação?
Só havia uma certeza: aquela frase curta que dizia “Pode sossegar, tirei o nosso filho.”, era como uma sentença para ele - morra!
Não desejava isto quando a notícia dada por ela na semana anterior desencadeara nele reações de revolta, egoísmo, desamor e covardia.
Só agora se dava conta do alcance de suas palavras insensatas e seu desaparecimento irresponsável, deixando confusa, desamparada e, sobretudo, tomada pela rejeição, aquela mulher que acreditava no seu amor.
Fizera isto por imaturidade e fugira até que se acostumasse com a ideia de que o futuro seria diferente dos seus planos individualistas.
Mas, de que importavam agora seus motivos, se tudo estava consumado? Era um assassino. Matara seu próprio filho. Não se achava digno de continuar. Ou de ao menos duvidar da veracidade da notícia escrita no bilhete, última gota de esperança capaz de evitar sua intenção momentânea.
Seus pés pisavam a areia, às vezes resolutos, outras vezes arrastando-se, e raramente seguiam em linha reta. Ia em direção às pedras.
O vento mais forte agora agitava seus cabelos sem ser capaz, entretanto, de colocar-lhe as ideias no lugar. Subiu ao ponto mais alto e olhou o mar. Aquela imensidão revolta, o cheiro de maresia, o barulho do vento...
Entendeu que das alturas era advertido agora. Não teve medo, porém. Queria misturar-se às águas, absorver, se possível, a força do mar ou perder-se de vez na sua grandiosidade.
Ia saltar quando, de repente, uma ponta de lucidez iluminou sua mente: não era verdade, seu filho estava vivo, sabia. O bilhete era só ameaça, ela não teria coragem, não era da sua natureza arrancar a vida de alguém. Ela amava a vida tanto quanto ele e era mais segura. Era mentira o que escreveu, estava certo disto.
Agora seu coração se agitava, esboçava no rosto um sorriso, ganhara nova vida, o vento frio não mais fustigava sua pele, o calor da alegria protegia seu corpo e lhe dava todas as forças necessárias para correr de volta pela praia.
Correu uma longa distância, a mesma que separava o ainda menino do quase homem feito. Estava diferente.
Voltou para a cidade e procurou sua amada naquela mesma noite. Estava certo. Quando ela lhe abriu a porta, seu olhar era de saudade e desejo, aplacados num abraço de encontro entre beijos molhados por lágrimas frias de ressurreição.



Texto cujos título e início foram utilizados para Ressurreição - As Nossas Histórias III.
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