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domingo, 20 de julho de 2014

Lembranças e Saudades de uma Mulher Madura - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Eu estava na internet cansada e pensando que nunca mais tinha tido uma pequena inspiração para escrever o que eu chamava de crônicas do dia a dia.
Na verdade, pedaços de mim, que amigos mais queridos chamavam de crônicas e eu acreditava...
Encontrei por acaso... será que por acaso? Como diria Jung, “coincidências não existem”... uma crônica que adorei, o jeito dela estar ali, dizendo coisas tão simples de forma tão poética - numa casa feita de poesias - A CASA DE RUBEM ALVES - esse era o site do cronista.
Será que podemos dizer sem ofender a família, a esposa, filhos e netos, mas como uma adolescente impetuosa, "Amei-o"?
Amei suas crônicas, sorvi cada uma delicadamente e, como um doce pequeno porém precioso, fui colocando pedaços pequenos dentro de minha alma.
Me apaixonei perdidamente por cada uma delas e sem querer parecer vulgar sentia vontade de tê-las e lê-las.
Numa delas, em especial, me perdi e me achei. Quando ele fala do “Velho que acordou menino”.
Me senti assim renascendo, acordando num sonho e como ele fui me lembrando das pessoas especiais e interessantes que apareceram em minha vida e como num passe de mágica acordei menina.
Uma simples lembrança me levou de volta ao passado, à infância, à adolescência e à maturidade. Tudo em instantes, como um furacão que me rodopiava e me levava a lugares distantes da minha mente, das minhas recordações.
Foi assim que no meio de uma nuvem branca eu a vi:


A Professora Emília

Era uma mulher pequenina, talvez com quarenta e oito ou cinqüenta anos, bem morena, quase negra, um pouco curvada ou pelo tempo ou pela fragilidade do corpo magro, de cabelos crespos e mesclados com brancos e de uma doçura angelical.
Nunca soube seu sobrenome.
Naquele tempo professora era professora, não tia. Mantinha uma relação de afeto com respeito, mas com consciência de que estávamos num patamar abaixo dela, sem relações de parentesco mas com relações de amor e carinho.
Com ela aprendi as primeiras letras e a subir cada escada das palavras. Observadora atenta, ela era a grande mestra que, hoje, não existe mais. Cuidava de cada um de nós com o amor e o carinho de uma mãe. Sabia quando estávamos famintos, quando estávamos com problemas em casa. Nada lhe passava despercebido.
Foi assim que minha mãe foi chamada à escola pública pela minha querida mestra para me levar ao oculista, pois ela descobrira que eu era míope. Óculos feitos, eu estava ali radiante de alegria a galgar degraus e degraus do conhecimento.
Foi ali que descobri pela primeira vez a fome devassadora da paixão - foram suas mãos que me guiaram pelos caminhos do amor aos livros. Eu tomava café, almoçava e jantava livros.
Fiquei gulosa e depois de alguns anos, quando me mudei e passei a estudar perto de uma Biblioteca Municipal (hoje nem sei mais se as crianças freqüentam bibliotecas), li todos os livros da Biblioteca Municipal Carlos Alberto, no Méier, e foi assim que me tornei a “devoradora de livros”.
E a professora Emília ainda hoje continua povoando minhas memórias e é revivida por mim através de uma velha foto desbotada (daquelas de antigamente, nos grupos escolares onde as crianças sentavam-se e a professora permanecia perfilada ao lado dos seus pupilos).
Com certeza ela já içou vôo para Colégios no Alto e de lá me viu crescer...
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Poema ao Meu Filho Daniel - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Penso em você,
pequenino, indefeso, macio e lindo…
Penso em que cor
terão os teus olhos, teus cabelos
Como será teu sorriso?
E te imagino assim…
menino ou menina? que diferença faz?
Te imagino bebê moreno
com cabelos negros e olhos grandes
e vivos e de olhar sereno…
Gordinho, rosado e feliz
Forte, saudável e com um arrebitadinho
nariz…

Te imagino: - amor
e me esqueço do enjôo
do vômito, das mexidas que dás
(e que me dão agonia)
Me esqueço que já troco por ti
a noite pelo dia
Me esqueço de tudo
para pensar em ti…
E te vejo afinal
nos sonhos meus
Gordinho, rosado,
cabeludo e lindo
como um pequenino Deus.
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terça-feira, 23 de julho de 2013

Sobre Pessoas Econômicas - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Antigamente eu acreditava que pessoas econômicas só fossem aquelas que economizam dinheiro, nada mais.
Contudo com o tempo aprendi, convivendo com tanta gente que passou pela minha vida, que as pessoas podem ser econômicas de carinho, de palavras, de sorrisos, de tudo, até de luto.
Tem aquelas pessoas que escrevem em uma linha e querem que a gente consiga entender toda uma vida às vezes numa única frase.
Não quero dizer que gosto de pessoas prolixas.
Não! não é isso.
Falo daqueles que parecem ter preguiça de usar os dedos no teclado, a cabeça para pensar, a mente para usar…
Outras, são tão econômicas que beijam de leve rapidinho como se fosse uma borboleta que roçou no seu rosto e quando você percebeu ela já tinha ido…
Existem pessoas que mandam e-mails tão curtos que você acha que no teclado do computador delas estão faltando letras e por isso elas economizam tanto…
E os economizadores de sorriso? Já conheceu algum? ele ri pela metade. É como se fosse rir e de repente parasse. O sorriso fica assim no meio do nada, desconcertado, inquieto, incerto.
O econômico de afetividade é assim, um meio sorriso, um abraço pela metade, um carinho pairando no ar mas que nunca chega em você, uma ligação onde só se ouve o alô e ela cai, o abraço que vinha e desistiu no caminho…
Porque será que as pessoas estão assim? Será que é reflexo da bolsa americana? da quebra dos bancos? do medo? da insegurança? do amanhã?
E pensar que quanto mais você dá, mais você recebe. Talvez seja isso… As pessoas econômicas dão menos porque não querem receber muito.
No skype elas aparecem sempre como ocupadas, no msn off line e na vida ocupadas demais para se dar aos outros.
Existem até os econômicos do luto: choram por segundos e param em minutos…
Sofrem por minutos e esquecem num segundo…
Ah…. que coisa sou tão perdulária nos meus abraços, nos meus carinhos, nos meus afagos, na minha saudade, na minha dor e no meu luto….
Sou perdulária na minha forma de ser, de me dar, de receber.
Efetivamente não nasci para ser miserável no amor…
Descobri que nas letras e no afeto eu sou gastadora, perdulária, incontida, irreverente sou assim gente como a gente.

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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Onde Anda Você? - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Não te procuro mais,
Não telefono mais para ti
Não mando mais e-mails
Para quê? Você não atende
Não responde
Não manda notícias

Prefiro imaginar que estás
Morto
E assim sofrer como viúva
Que sou deste nosso amor
Difícil acreditar
Que não queres mais me ver
Me ouvir
Nem no skype
Sem câmera
Ou no MSN
Digitando

Não quero crer
Que aquele amor imenso
Aquele amor tão louco
Que nos fazia perder noites de sono
Na internet da vida
Tenha desmoronado
Que você tenha dado
Um delete na minha imagem
Que tenha me colocado
No arquivo morto
Da tua vida

Assim prefiro crer
Que estás morto
Pois se vivo estivesses
Com certeza... Virias correndo
Para meus braços



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sábado, 31 de outubro de 2009

Sorte - por Ana Maria Guimarães Ferreira

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Ao falar da sorte, vem-me a mente todas as vezes que tive a sorte batendo a minha porta.
Assim quando meus filhos nasceram: sadios, lindos e amigos.
Depois quando o tempo foi passando em alguns momentos achei que ela me abandonara. Meu casamento se desfez, não ganhei na loteria...
Refletindo sobre isso vi que mais uma vez eu tive sorte. Se não tivesse me separado teria me mantido num casamento onde as ondas já tinham alcançado o tamanho de um tsunami e só eu não via... não queria acreditar e ao sair dele sai também do tsunami que eu ia entrar e com certeza a estas horas nem aqui estaria escrevendo sobre isso. Foi uma sorte eu ter avistado a onda e acreditado que ela ia crescer e que eu tinha que me afastar dela.
Se eu tivesse ganhado na loteria talvez não tivesse os amigos que tenho hoje: desinteressados, leais e sempre prontos a fornecer o ombro, a mão e o lenço...
Depois, mas depois mesmo, quando meus filhos casaram, eu queria tanto um neto para dar todo o amor que estava dentro do meu peito me sufocando e nada. Ninguém me dava um neto.
Meu filho estava casado há 7 anos e nada... Se tivesse tido um neto hoje ele teria pais separados e eu teria um neto longe e com certeza a nora nem ia deixar ele me visitar com tanta frequência...
Minha sorte veio depois: os dois filhos quase que ao mesmo tempo estavam esperando seus filhos... e um deles nasceu prematuro... Sorte? Sim, porque se ele nascesse no tempo certo eu teria que me desdobrar em duas: uma em Brasília e outra em Porto Alegre.
Assim tive Pedro, o afobadinho, que não quis esperar o tempo e terei Vinicius que esperará Pedro sair da UTI, esperará a avó ir lá e voltar para vê-lo nascer.
Quanta sorte eu tenho dois filhos maravilhosos, dois netos que certamente me darão muita alegria, uma mãe com 88 anos lúcida, amorosa e ativa, irmãos e irmãs que dão apoio e amigos que sempre têm braços me esperando quando preciso.
Realmente isso é ter sorte! Isso é ganhar na loteria...

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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Abandono - por Ana Maria Guimarães Ferreira

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Abandono do lar
Abandono do incapaz
E do que é capaz
Abandono material
E do espiritual
Abandono intelectual
E do que não é normal
Abandono afetivo
Desapego emotivo

Quando você abandonou
Nosso lar,
Nossas coisas materiais
E espirituais
Nossos livros
Nosso encontro intelectual
Até mesmo nosso amor
Tudo o que era normal
De repente
Virou anormal

Senti o abandono afetivo
Do desapego
Do apego perdido
Do amor escondido
E reprimido
Sofrido
Sentimento invisível
Que me consumiu
Uma sensação
Estranha
Indecifrável
Esquisita
De que tudo
Tem um fim
Até os sonhos se acabaram
Se transformaram em nada
Em impossível
De ser
De ter
Sem você
Esse olhar inexistente
Que não sinto mais em mim
De tua voz agora muda
Que não fala
Aos meus ouvidos

Só sei
Que eu fui morrendo aos poucos
Em todos esses anos
Que fiquei esperando por você!



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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Porque Ontem Foi Sexta - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Sexta-feira, dia do CHOPP, da cervejinha, da esfiha, do churrasquinho.


Não sei porque todo mundo gosta da sexta-feira.
No trabalho as pessoas já começam a imaginar que depois do meio-dia a sexta vira sábado.
Na Capital da República, nas repartições públicas onde o controle de frequência de pessoal não existe (e quando ocorre é baixíssimo), basta olhar as garagens vazias, cheias de espaço que demonstram que seus ocupantes já terminaram a sua sexta-feira às 11 horas da manhã....
Nas ruas, o burburinho das pessoas que se animam para o happy hour me fazem lembrar o Rio de Janeiro, onde, nas sextas, a animação é grande, os bares e as pessoas nas calçadas refletem e muito bem o espírito e o jeito carioca de ser.
Sexta-feira é dia de feira.
Pena que não em todos os Estados.
Alguns não têm essa característica. Falta a emoção do esbarrão na feira, dos carrinhos que as mulheres empurram cheios de verduras, frutas e, é claro, o camarão, até porque é sexta.
Sexta-feira é o dia em que os salões de beleza ficam lotados, as mulheres estão se embelezando para o final de semana.
Os homens, quando a noite baixa, vão pensar no futebol com um copo de chopp na mão.
Sexta-feira... sexta-feira.
Me traz saudades das baladas noturnas, da moleza, do sentir o cansaço da semana, da praia que não tenho mais tão perto, do joguinho de buraco com meu pai, à noitinha...
Sexta-feira, dia abençoado por Deus!



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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Uma Carta de Amor - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Andava pelo parque e me sentara à sombra de uma árvore, curtindo a manhã de sol e a suave brisa que fazia com que aqueles atletas de fim de semana não suassem tanto, não cansassem tanto.
As folhas das árvores haviam caído e eu remexia com um pauzinho, galho partido de uma delas, quando toquei em algo.
Senti-me como um arqueólogo que acha uma tumba. Cuidadosamente, vasculhei as folhas e vi onde meu pequeno bastão arqueológico tinha emperrado.
E assim ela surgiu: um envelope não colado, com folhas dentro como se fosse uma carta. O envelope amarelado, não se sabe se pelo tempo ou por estar exposto ao tempo e às folhas, me dava a intuição de estar ali por muito tempo. Mas ele estava ali. Ávido para ser descoberto.
Fiquei em dúvida se devia ler o que estava ali ou se eu estaria adentrando na intimidade de alguém. Mas minha curiosidade de arqueólogo fez com que eu a pegasse delicadamente. Como se fosse um pincel, meus dedos espanaram a poeira e vi no envelope apenas uma frase: “A você com amor”.
E assim, fui me colocando numa história de vida, vivida por uma carta de amor datada de 2004.


Meu sempre querido,

.....Não sei se você chegará a ler esta carta ou se terei a coragem de te enviar, mas sei que preciso colocar aqui o que me vai à alma e o que me atormenta a ponto de me tirar o sono.
.....Não sei se você conseguirá entender o meu ato, mas espero que realmente você entenda.
.....Meu amor por você vai além do consciente, do racional. Amanheço com você no meu pensamento, passo o dia convivendo com sua imagem que circula pelos meus olhos e à noite, quando me deito, é você que vem povoar meus sonhos.
.....Não tenho tempo para mais nada a não ser ver você, pensar em você e amar você.
.....Por você abandonei meus sonhos, meus ideais, minha vida construída ao longo de dez anos. Abandonei uma família, marido e filhos.
.....Por você me transformei, mudei, melhorei, pois queria lhe dar sempre o que de melhor existisse em mim.
.....Não exigi nada, não pedi nada, não ousei nada.
.....Limitei-me a esperar, a ser paciente, a ter você sempre que desse.
.....Mas o tempo passou e o seu amor, apesar de não ter diminuído, mostrava-se acomodado e percebi que eu já não queria somente momentos perdidos, queria mais, muito mais. Queria você, queria viver, queria amar, mas queria você completo não pela metade.
.....Mas você não podia. Tinha sua filha doente que precisava de você. Eu sabia que ela não sobreviveria sem você ao seu lado.
.....E assim fui ficando e você continuava a sua vida mesmo me amando ao lado de outra que sequer sabia de minha existência.
.....Quando você me disse que não podia mais ficar sem mim, quando imaginei que você poderia também largar tudo e depois se arrepender, senti medo. Medo de você me culpar, medo de você se frustrar, de você se violentar e aos poucos se deixar morrer.
.....Não poderia conviver com isso, não suportaria te ver triste e culpado atormentado e acabado ao meu lado sem poder viver o grande amor que temos.
.....Por isso tomei essa decisão. Amo você demais para sentir sua dor e não poder curá-la.
.....Se a coragem não me faltar estarei hoje, depois de estarmos aqui no parque, te entregando essa carta e me despedindo de você. Não sei para onde irei, mas levarei comigo o amor a você.
.....Se não tiver coragem rasgarei essa carta e me abandonarei aos seus braços e viverei esse amor do jeito que der.
.....Seja qual for minha decisão ou minha coragem, saiba que sempre te amei e sempre te amarei.
.....Se acreditasse em almas gêmeas diria que você é a minha e eu a sua.
.....Mas não sei se posso ou se devo acreditar nisso, por isso prefiro crer que a razão do nosso encontro é divina, mas que mais divina é a sua tarefa e por isso saio do seu caminho como entrei: devagar, sozinha.
..........Perdoe,
..........Sou, como disse um poeta,
..........“Quem muito te quis bem”.

Tua amada amiga


Vinha um nome que prefiro não lembrar para não colocar a intimidade desse amor assim na poeira do vento.
Mas uma coisa me fez pensar: se ela tinha dado a ele a carta e ele a deixou perdida no parque, se chorou, desesperou-se e abandonou a carta com a raiva dos que foram abandonados. Ou se ela não teve coragem, abandonou a carta e a perdeu no meio das folhas e se foi com ele caminhando de braços e mãos juntas vivendo um grande amor...
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domingo, 30 de agosto de 2009

A Mulher Invisível - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Era uma mulher de estatura média, porém passava despercebida por onde quer que fosse. Ninguém a enxergava, ninguém a via.
Entrava nos gabinetes, nos palácios, nas mansões e nenhuma câmara a fotografava.
Dizem que era de outro planeta, de outra dimensão...
Há quem jurasse que ela era descendente do Drácula: nos espelhos e nas máquinas fotográficas, nos filmes que gravavam as pessoas, ela não aparecia...
Outros menos crédulos achavam que ela não era nada disso, mas sim que os equipamentos de segurança não funcionavam, como tudo falhava na República das Bananas e como tinham defeitos sérios, só registravam por um segundo e depois apagavam.
Tudo isso não seria motivo de escândalo, se não fosse a visita secreta que ela fez a Tia Mariquinhas. Foi escondido comer bolo durante a noite ou foi ouvir o pedido da tia para abandonar o vício de ficar verificando a vida dos outros.
Ninguém sabe, mas o que se sabe é que ela, atendendo ao pedido da tia, acelerou o processo. A tia disse que ela estava surda e que não ouviu direito. A prima jura que ela não esteve lá, que foi um sonho e que tia Mariquinha não pediu nada.
O tio, que era o dono da casa, considerou que ela estava mentindo ou que devia estar com Alzheimer e assim se lembrava de coisas muito antigas e confundia com o presente...
Como ninguém sabe quem estava com a razão, o caso foi levado ao Conselho de Astracam e contratado o maior de todos os detetives para tentar descobrir onde estava a verdade, com quem estava a verdade... E um moço de boné de xadrez e um cachimbo na boca, diante de tanta confusão, disse, do alto de sua sabedoria inglesa:
- O que acontece é que ela realmente é a mulher invisível, por isso não foi vista pelos sensores da casa. E no dia da visita ela se esqueceu de colocar a máscara nas mãos e na face e assim, diante de sua invisibilidade, ninguém conseguiu ter a chance de ver que ela estava realmente ali. Assim, ninguém a viu, mas as conversas foram ouvidas por ela que, acostumada a ajudar a tia, levou o pedido adiante.
E ele terminou dizendo:
- ELEMENTAR, MEU CARO WATSON... Elementar...



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sábado, 8 de agosto de 2009

O Que Vejo da Janela Neste Meu Pequeno Mundo - por Ana Maria Guimarães Ferreira

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(Mulher à Janela, Salvador Dalí)
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Da mesa do computador avalio meu espaço.
Fotos dos filhos, minhas pedras mais preciosas e queridas. Amadas por mim, meus verdadeiros amigos.
Revejo meu pai comigo, abraçado, e me dá uma saudade danada, numa foto em preto e branco com ar de passado.
Vejo quadros que pintei e que traduzem momentos da minha vida.
Poesias que fiz sem saber nem pra quem.
Vejo os discos e me lembro que cada música me lembra alguém ou algum lugar, alguma situação especial alegre ou triste.
Na estante algumas coisas que me dizem muito: uma máscara que meu filho me trouxe de uma viagem que fez à Itália.
Um anjo estilizado dado por um amigo querido.
Vejo um Buda que faz companhia a Santo Antônio e a Nossa Senhora da Aparecida.
E que hoje, com certeza, tomam conta de mim, da minha alma.
Canetas que escreveram muito, lápis que desenharam e pintaram as cores do arco-íris alegrando meu coração.
Tem ainda um pensador de pedra-sabão que veio de Ouro Preto e agora repousa pensativo numa prateleira da minha vida.
Caixas pintadas que guardam imagens de quem fui, de quem sou e de quem comigo passeou nesta vida. Fotos coloridas, fotos em branco e preto...
Uma máquina que não fala, mas traduz os momentos alegres e inesquecíveis. Que viaja comigo onde eu for. Que retrata as flores do caminho, as águas das cachoeiras, os bebês nas barrigas e depois delas.
Um cofre para guardar moedas da Hello Kity que mais parece surgido da minha infância e penso no cofre que guardará todos os meus segredos.
A TV que me conta sobre o dia-a-dia no mundo. Que me entristece ao constatar que a vida muda pouco – os desonestos continuam existindo, os marginais continuam soltos, os inocentes continuam presos em suas casas.
E meu computador que me liga ao exterior de mim mesma e que me deixa perto de quem amo e que está distante.
Da janela do meu quarto vejo o mundo e sonho com o que virá; com meus netos Pedro e Vinicius, meus anjos, meus guardiães, meus protetores e me preparo para recebê-los com amor e carinho.
Vejo o sol, as estrelas, a lua.
Vejo o pôr do sol e o amanhecer.
Vejo ainda o anoitecer.
E me deito numa cama macia com lençóis brancos, travesseiros que me circundam e me aprofundo num sono gostoso de quem, como eu, adora sonhar.
Da janela do meu pequeno mundo vejo Deus e me entrego a Ele como uma filha e no seu colo coloco minha cabeça e me deixo relaxar.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Lembranças de Minha Avó - por Ana Maria Guimarães Ferreira

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Em tempos de globalização ficamos muito parecidos uns com os outros e percebo, cada vez mais, como é importante resgatar e manter a memória de nossa história de vida, pois é através dela que conseguiremos fazer com que nossos descendentes possam vir a conhecer de verdade a pessoa única e diferente que fomos e que existe dentro de cada um de nós...

Gostaria de deixar aos meus netos as lembranças maravilhosas das coisas que vivi, que sonhei, que criei... para que um dia, se um deles quiser saber mais de suas raízes, possa encontrá-las através das minhas histórias de vida...

Quem sabe assim poderá sobreviver ao tempo e à globalização a imagem da mulher que fui, com todos os fatos de uma vida mesclados com todos os sentimentos que tive de amor, paixão, vontade de viver, adocicados pela imaginação de alguém que viveu na época da bossa nova, que viu a revolução sexual, que conseguiu fotografar na memória as mudanças do mundo nesses anos 60, 70, 80, 90. Anos em que vivi e que foram cenários de muitos fatos e de muitas recordações.

Como, por exemplo, as minhas lembranças da infância.
Sempre esteve presente em minhas lembranças a imagem de minha avó como alguém muito querido, alguém cujo colo me confortava nas férias escolares. Que fazia doces de jaca, de banana, bolinhos de chuva, alguém com quem eu ouvia as novelas no rádio e que me fazia vestidos de grandes laços. Seus doces e seus lanches eram muito, muito melhores que os da Tia Anastácia do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

As histórias dela eram um adentrar no mundo da fantasia. Com ela conheci As Mil e Uma Noites, conheci príncipes e princesas, reis heroicos, rainhas más e sempre com um final feliz.
Conheci, pelas novelas do rádio, o Jerônimo, o Herói do Sertão e Aninha, os heróis de minha avó.

Com ela aprendi a repassar essas histórias a meus filhos, que também ouviram de minha mãe os relatos que iam sendo repassados de geração em geração, que vinham com um valor afetivo enorme e, é claro, um valor histórico maior ainda.

Lembro de seus grandes cabelos negros com entrelaçados brancos que viviam presos num coque e que a minha maior glória era quando ela soltava, à noite, aqueles longos cabelos e os penteava. Não sei o que eu pensava ou sonhava quando isso acontecia, mas eu esperava sempre ansiosa o momento de tocar naqueles longos cabelos e afagá-los como se eu enfiasse a mão numa nuvem.
Meus pequeninos dedos pareciam mergulhar naquela imensa cabeleira e pareciam afundar num mar calmo de onde não queriam sair...

Sentia-me amparada e sem medo naquele colo macio e grande em que cabiam tantos netos.
Dividia com meus irmãos e primos aquela imensidão de colo, aquela imensidão de amor, sem ciúmes.
Não me lembro, quando ela morreu, o que meus pais me disseram.
Não sei sequer se sabia avaliar a morte como separação para sempre, mas me lembro que as idas à Gávea nas férias deixaram de acontecer e que meu coração criança começou a sentir aquilo que mais tarde eu iria saber o nome – aquele sentimento de dor, de vazio, de nunca mais, da ausência do colo, do afago, dos cabelos longos soltos e presos – saudade!
Foi isso que conheci como dor primeira e que senti sem saber porque doía tanto... .

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Monteiro Lobato

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A Morte Não Manda Recados - por Ana Maria Guimarães Ferreira

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Invisível, sorrateira,
ela chega sem pedir licença e leva quem ela quer...
Recém-casados cheios de amor e de esperança.
Crianças, puras e inocentes flores desabrochando...
Homens e mulheres produtivos e operantes trabalhadores e visitantes.
Gente de férias e gente que queria ter férias...
Um monte de sonhos, de desejos ainda não realizados.
Sonhos e mais sonhos se esvaíram no ar...
e sumiram, desapareceram,
como todos os que estavam no voo 447 para Paris...
Cidade Luz, cidade do amor...
Rio, Senegal, França...
Onde ficaram esses seres?
Onde ficaram nossas crianças?
Onde ficaram seus sonhos,
suas esperanças?
Onde ficaram seus corpos,
sua nudez interior,
sua alma,
sua vida,
sua força?

No mar?
No ar?
No céu?
Ao léu?

Para eles a nossa homenagem.
Um mar de flores,
Um oceano de amor.
As nossas flores,
as nossas dores,
a nossa imensa saudade,
o nosso amor.




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quarta-feira, 3 de junho de 2009

Oitenta e Oito Anos - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Será que alguém viveu tão intensamente como minha mãe?
Dia 27 de junho de 2009 comemoraremos oitenta e oito anos de vida de minha mãe.
Quando falo assim, sem que as pessoas que leem a conheçam com certeza, pensam e imaginam uma velhinha caquética, sentada numa cadeira de balanço, com um xale de crochê sobre os ombros e o rosto enrugado onde apenas um par de olhinhos sem brilho apareceria.
Imaginamos uma senhorinha meio surda, levemente esclerosada que diante de uma mesa de aniversário sequer sabe que estão comemorando o seu aniversário de oitenta e oito anos.
Mas não conhecem minha mãe; aqueles que a conhecem sabem bem do que estou falando. Alguém que ainda hoje cozinha, lava e passa, que viaja sozinha de encontro aos netos, que não falta a um casamento dos netos, aos nascimentos dos bisnetos e, com esforço, às formaturas.
Que faz suas palavras cruzadas, que dá respostas ao Silvio Santos, no seu programa na TV, que faz bolsas de crochê para as filhas, que inventa, acrescenta e constrói.
Que criou netos e até hoje supervisiona tudo.
Que toma conta dos filhos que não tiveram a sorte de se darem bem na vida, que ajuda a todos os vizinhos, parentes e aderentes.
Que cede suas horas para ouvir as tristezas alheias e tem sempre um sorriso franco e uma resposta para tudo.
Que abençoa e nunca amaldiçoa.
Que se dá por inteira e nunca aos pedaços.
Que suplanta as dores físicas sem alarde.
As dores da alma em silêncio.
Uma mulher guerreira que ensinou-nos a difícil arte de amar.
Que amou intensamente a única pessoa com a qual se casou – meu pai.
Que nos amou aos cinco filhos, que teve doçura e paciência conosco e com nossos filhos.
Que, aonde quer que vá, constrói amigos, pessoas que a amam e que querem curtir momentos com ela.
Essa é minha mãe, mas, na verdade, é mais do que isso – é a grande amiga de todos
Sua pele é doce e suave e suas rugas são imaginárias, ninguém as vê.
Seus cabelos teimosos nunca ficam brancos.
Seu corpo ereto nunca se curva nem para a idade nem para os problemas da vida.
Suas mãos nunca se cansam de oferecer apoio, amor e carinho.
Sua paciência foi a de Jó, que Deus deixou de herança para ela.
Até seu nome parece ser feito para ela – DIVA. Nunca conheci outra mulher com esse nome, acho que ninguém merecia esse nome a não ser ela.
E agora, dia 27, todos estaremos presentes nesse reviver, nesse aniversário de Diva, a Guerreira, a Mulher mãe, a Irmã, a Amiga, a Avó ardorosa, a Bisa.
Com certeza nossos desejos serão unânimes – que Deus nos perdoe o egoísmo, mas queremos que ela comemore conosco muitos outros aniversários e que possamos sempre estar perto para aprender um pouco mais de como viver a vida dessa forma doce e forte, corajosa e honesta, leal e amiga.
PARABÉNS MAMÃE – NÓS TE AMAMOS



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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Leilão Judicial - por Ana Maria Guimarães Ferreira

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Hoje estava vendo um site com leilões onde eram descritos os lotes seu conteúdo e sua avaliação.
Fiquei perplexa: até caixões com alças de metal e crucifixo e outros detalhes menos mórbidos estavam incluídos naquela listagem.
Imaginei se a vida das pessoas estivesse em um leilão.
Lote 01 - Um casal gasto com 70 anos de idade, mas em bom estado de conservação
Lote 02 - Uma vida inteira de brigas sem que possamos avaliar se vai continuar ou não assim.
Lote 03 - Um saco de esperança furado, um pneu de barriga que fez lipo.
Lote 04 - Um homem sem marca aparente e número de série, em estado de sucata, faltando dentes na boca, todo enferrujado, cor bege, em péssimo estado de conservação.
Lote 05 - 1 kg de afeto numa caixa de plástico, nunca usado, porém sem que se possa determinar sua origem...
Lote 06 - Uma mochila com notas falsas de dólares, um resto de honestidade detectado no fundo, porém o fundo é falso também.
Lote 07 - Abraços amassados sem timbre em péssimo estado e mãos danificadas de usurfruir do dinheiro alheio.

E por aí a coisa iria.... Mas o pior de tudo é que li hoje num site oficial de verdade um lote que trazia toda a história de uma vida, desde uma geladeira usada e velha, passando pelo fogão que deve ter cozinhado muito, ao carro que deve ter levado a família para infinitos passeios, a bicicleta com que, provavelmente, as crianças se divertiram e a caixa de ferramentas que só os homens podem avaliar a importância e o amor que têm por ela. MAS O QUE MAIS ME ESPANTOU É QUE DENTRO DO LOTE, PASMEM!, ESTAVA LISTADA UMA CARTEIRA DE IDENTIDADE SEGUNDO A DESCRIÇÃO - ORIGINAL E O NOME DA PESSOA ESTAVA ESCRITO COM TODAS AS LETRAS... MINHA PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR: PODEM LEILOAR TAMBÉM O DOCUMENTO DE IDENTIDADE? ISSO É POSSÍVEL?! NEM PRECISO DIZER QUE ERA DE UM ÓRGÃO DO JUDICIÁRIO...

FIQUEI COM MEDO DE UM DIA ALGUÉM QUERER ME COLOCAR NUM LOTE!!!!!!!!!!!
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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Envelhecendo Apenas - por Ana Maria Guimarães Ferreira

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De repente, olhando no espelho da sala,
Me assustei com o que vi.
Vi uma mulher diferente,
com um sorriso mais largo, com algumas rugas
e um olhar sábio, porém sem muito brilho...
Vi um rosto aparentemente mais calmo,
porém sem a alegria de antigamente.
Vi uns cabelos brancos nos cantos da testa,
no meio da cabeça e nas sobrancelhas...
Descobri mãos que pareciam não ser minhas,
com veias verdes, verdes, saltando,
braços com alguns pontinhos marrons,
e o pescoço altivo que havia
não mais estava ali...
Esse mesmo pescoço mostrava
a idade que tinha em mim.
Minhas mãos, antes lisas, já não eram mais;
e eu não tinha esse pescoço,
ele era esticado e empurrava o rosto para frente;
e eu não tinha no olhar esse medo,
essa angústia,
esse coração que bate descompassado
e que antes eu nem notava.

Eu não percebi essa mudança,
essa alteração.
Eu não me dei conta de tantas mudanças,
eu nem percebi que aquela ali,
na frente do espelho da vida,
era eu.
Apenas um pouco mais vivida,
levemente envelhecida.

Mas com certeza era mesmo eu!




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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Mudanças Já! - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Hoje, vendo a TV, como sempre me estressei ao ver a nossa política para adolescentes infratores.
Matam, violentam, deixam famílias de luto e no fim... são presos e soltos.
Vejo a polícia querendo prender bandidos e, pela lei mal feita, tendo que soltar.
Vejo filhos matando pais, pais matando filhos e tendo como justificativa imbecil que não os queriam deixar ficarem aqui sofrendo.
As pessoas estão perdendo muita coisa: emoções, afetos, valores.
A TV e a Internet, às vezes, são, entre outras coisas, escolas boas e escolas ruins.
A cadeia muitas vezes serve como uma grande escola de formação de marginais. - Aprenda a ser ruim ou morra!E me lembrei de um caso, em Brasília, de um homem que foi ao Parque da Cidade e, vendo patos nadando, achou mais que lógico que levasse para sua casa, com certeza para servir de jantar.
Evidentemente que foi preso e pela Lei - Que lei é essa, senhor? - preso por roubar um pato -, inafiançável, segundo o IBAMA.
Ele, com os patos debaixo do braço, o olhar faminto e a desculpa de que ia criar os patinhos...
Mas cadê uma lei como essa que fosse inafiançável quando o cara rouba, mata, estupra e violenta os patos que somos nós?
A esses uma lei branda - réu primário, endereço conhecido... Acho que devíamos inserir o ser humano na lista de animais em extinção e aplicar a pena inafiançável para quem rouba ou mata outro ser humano.
Acho que devíamos rever nossas leis. Afinal temos tantos deputados, senadores, ganhando MUITO BEM e que podiam fazer seus deveres com mais frequência e frequentar mais as sessões “escolares” e apressar os resultados.
QUEM ROUBA UMA GALINHA É PUNIDO.
QUEM ROUBA UMA VIDA é premiado, principalmente se for menor infrator.

VAMOS FORÇAR ESSES NOSSOS PARLAMENTARES ELEITOS POR NÓS A TRABALHAREM EM PROL DOS CIDADÃOS DECENTES E NÃO EM PROL DOS DELINQUENTES.
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sábado, 18 de abril de 2009

Foto Amarelada - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Mexendo nas gavetas para jogar fora as coisas que não mais eram úteis, ela caiu aos seus pés: uma velha foto amarelada, sépia.
Olhou de relance e ia deixar ficar ao chão, mas algo a fez retroceder, abaixar-se e pegar a velha foto e olhar novamente, com calma, devagar.
Lembranças são para serem saboreadas vagarosamente. Olhou e o que viu trouxe um sorriso espontâneo em sua face franzida.
Era ela mesmo aquela menina magricela, de pernas longas, quase sem busto, vestida num maiô de corpo inteiro, com um cabelo a la Joãozinho (moda da época), com aquele chapéu engraçado e aquela cara de mistério?
E para quem ia aquele sorriso misto de amor e de carinho? Olhou para o outro canto da foto e ali estava ele: a razão do sorriso. Seus olhos viajaram na fotografia e ela viu aquele rapaz franzino, de cabelos claros e grandes olhos fixos e notou que ele também sorria de outro ponto da foto.
Voltou ao tempo da foto e sem querer, viu-se em Paquetá. Sim era ali que a foto havia sido tirada. Ilha de Paquetá - Rio de Janeiro...
Praia mansa, sem ondas, sol não tão escaldante como agora (seria por causa das árvores ou por causa da camada de ozônio de hoje?).
Conseguia captar no olhar dos dois o amor adolescente. Um jeito maravilhoso de falar pelo olhar, de expressar ternura sem tocar, de querer sem se dar.
Ouvia os risos, sentia as ondas pequeninas roçando-lhe os pés. Água morna, areia clara...
Sorriu ao ver o maiô “engana mamãe”: na frente corpo inteiro, de costas duas peças.
Nada de biquinis provocantes ou insinuantes com bundas à mostra.
Não: tudo era para que a imaginação funcionasse: acho que por isso éramos mais criativos no amor. Um simples pegar uma mão na outra trazia a sensação de êxtase. Um beijo roubado nossa era a glória!
Não tínhamos o “ficar”, o “ficante”; tínhamos o namorar, o amante, o apaixonado, o enamorado.
Curtíamos piquenique em Paquetá, na Praia da Urca, na Praia Vermelha, na Quinta da Boa Vista.
Adorávamos a sessão da tarde no Cinema Carioca onde tínhamos nossas pequenas paqueras que muitas vezes nos seguiam de ônibus ate a parada de nossas casas.
Nada de shoppings, nossos passeios eram ir à Praça Saens Pena.
Tínhamos os bilhetes trocados nas salas de aula escondido dos professores, dos inspetores.
Era perigoso ter namoradinho na sala e trocar bilhetes. Sempre tinha o inspetor que fiscalizava. Era perigoso e ao mesmo tempo excitante.
Se o inspetor pegasse, éramos levados à diretoria e nossos pais eram convocados via caderneta escolar...
E as cartas de amor? Era maravilhoso escrever para namorados distantes. Existia até o casamento por procuração e os namoros via fotonovelas. Jovens da AMAN e da EPCAr se correspondiam com as moças e às vezes um amor nascia pelas letras das cartas.
Assim, cada vez que o moço do correio chegava era um Deus nos acuda. Todos queriam saber se a carta esperada tinha chegado. Sempre era uma emoção ou do amor correspondido ou do caso terminado.
Tínhamos os bailes de formatura onde orquestras tocavam musicas lentas e nos obrigavam a sentir o parceiro tocando em nossas cinturas, seu cheiro, às vezes um beijo roubado, escondido, camuflado nas barbas que começavam a nascer.
Eram pura emoção os preparativos para o baile, os cabelos, a roupa, os vestidos rodados a rodopiar pelo salão e assim chamar a atenção para aqueles que sabiam dançar bem o bolero. Para quem tinha graça nos pés, ritmo no corpo e frescor nos rostos.
Tínhamos olhares trocados, sorrisos disfarçados e um amor tão puro como as letras das músicas que embalavam nossos sonhos.

Tudo isso foi revivido em instantes, por causa de uma fotografia amarelada, que por pouco, muito pouco não ia para o lixo.



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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Amor em Dose Dupla - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Queria te contar que estou muito feliz com sua vinda. Não sei se saberei te fazer entender o quanto já és importante em minha vida.
E eu que não tinha nada, apenas a esperança de que um dia você viria, de repente recebo a notícia, em um bar movimentado, que você ia chegar.
Sua mãe trouxe-me os seus sapatos - pés sempre foram sinônimos de segurança... sapatos então que protegem os pés me dizem que são a proteção, a segurança da segurança.
Junto com os sapatos havia um bilhete de três frases curtas, mas que soaram a meu ouvido como um coro de um canto gregoriano: Música, Imagem, magia, iluminação.
Poesia, amor, emoção.
Tudo isso passou por mim em instantes e me fez tão feliz que se eu não estivesse ali, no meio de um bar, teria gritado:
- Eu sou feliz!
Sua mãe estava radiante e seu pai com um ar de rei, como se me dissesse:
- Não te falei que ele viria?
E eu ali, no meio das mesas do bar, me senti rainha única e poderosa diante das minhas amigas...
Eu ali é que reinava, pois você estava vindo.
Sorri o sorriso dos vencedores.
Eu teria você em meus braços, poderia curtir o tempo que eu quisesse.
Iria cobrir você de beijos, e à noite falaria para você, só para você, no seu ouvido, sussurrando como foi o meu dia, até sobre a saudade que eu viesse a sentir de você.
Lembrei dos meus planos para quando você chegasse, assim como seu primo.
Iríamos passear, acampar, escalar sonhos, curtir locais novos, ver cores e o arco-íris e ir atrás do pote de ouro que existe no final de cada um deles.
Com certeza alguém terá ciúme do nosso amor, mas o que importa isso?
Não sou egoísta, posso até aceitar que me rotulem de ciumenta e carente, mas egoísta nunca!
Lógico que se você deixar de me ver, de me procurar, de me telefonar, de me visitar, morrerei aos poucos de ciúme, mas mesmo assim nunca deixarei de te amar.
Fico sonhando com a cor dos seus cabelos, com a cor dos seus olhos, com o seu jeito de ser.
Fico imaginando o seu sorriso como aquele riso cristalino que sem querer coloquei no meu celular. Acho mesmo que foi ele que te chamou para mim.
Acho que Deus ficou com pena da minha solidão, dos meus desejos e dos meus sonhos e os transformou em realidade.
Acho mesmo que Ele ficou com tanta dó que resolveu me dar em dose dupla o que eu tanto queria e assim eu não podia reclamar nem questionar e só teria que ter tempo para amar e não poderia dizer que estava me sentindo sozinha.
Você estava ali pronto para me receber, para me amar.
E eu ali, ansiosa, esperarei o tempo previsto para ouvir o seu primeiro choro. Acho mesmo que o primeiro choro será assim:
- Cadê a vovó Ana?
E depois o primeiro riso, a primeira gargalhada, aquela que trará de volta a alegria de um passado distante onde eu ouvi a gargalhada primeira de sua mãe.
Também poderei estar presente quando você for para a escola e na porta, se chorar, tentarei convencer sua mãe a deixá-lo voltar. Se não der certo, fico ali esperando por você para que você saiba que não está sozinho.
Estarei por perto quando as gengivas coçarem e incomodarem e te fizerem chorar - talvez um dos seus primeiros contatos com a dor.
E pelo método antigo, coçarei com a chupeta ou com brinquedos de borracha ou outro brinquedo macio.
Estarei também por perto quando o dentinho romper as gengivas e sair aquele pontinho branco que será a alegria de todos.
Estarei por perto quando você estiver crescendo, amando e sofrendo.
Terás meu colo para as dores das palmadas que porventura vieres a receber.
Terás meus braços para te ampararem quando iniciares os primeiros passos e tiveres medo de cair.
Terás meu colo para as febres infantis que quiserem te incomodar e te abater.
Terás meus braços para te receberem sempre que quiseres ir para a casa da VOVÓ - onde tudo pode.
Terás meus sonhos, meus olhos atentos ao menor sinal de tristeza tua e se preciso me transformarei em palhaço, mágico, ator ou dançarina e o que preciso for para trazer de volta ao teu rosto o teu sorriso maroto.
Terás meus ouvidos atentos a todas as tuas causas e que podem te fazer crer que sempre terás alguém disposto a te ouvir.
E terás, acima de tudo, essa avó coruja e que pretende ser, se possível, a avó que todos os netos sonham ter: aquela de colo macio e olhar terno, aquela que tem de sobra paciência e um colo acolchoado.
E, mais do que tudo isso, terás sempre em mim muito mais do que uma simples avó - terás uma eterna amiga!

Sua avó ANA.



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sábado, 11 de abril de 2009

Carta de uma Mulher Madura Apaixonada - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Meu querido,

Quero que saibas mais sobre mim, por isso te conto um pouco mais da minha história.
De repente você deixa de ser aquela pessoa que teve uma vida como todos: amor, casamento, família, filhos e, repentinamente, você está sozinha.
Casamento que se desfez, família que está cada um num lugar do mundo, filhos que se casaram e você sozinha, pensando em como era bom quando você tinha alguém para dividir os sonhos, filhos pequenos que faziam você sonhar em como seria o futuro deles...
Vem a tristeza, um sentimento de vazio preenchido com os amigos que ligam e convidam para sair, viajar. Mas falta algo, falta o amor profundo, o amor maduro e ao mesmo tempo irresponsável, aquele que dá sem cobrar, aquele que preenche sem faltar.
De repente, você recebe a notícia que há muito esperava - a chegada de um novo amor. Alguém que vai mexer com o seu coração, com seus sentimentos. Alguém que você vai amar sem limites. Um amor que não corrige erros como o amor dos pais. Um amor sem cobranças que não é como o dos amantes - um amor que não sufoca, um amor que alivia, um amor que é ternura pura.
A expectativa de conhecê-lo é grande demais. As esperanças são enormes. O desejo quase explode dentro do peito.
Antes mesmo de conhecê-lo você se preocupa com ele. Vê fotos não tão nítidas e se percebe amando-o mesmo sem conseguir vê-lo ainda, sem saber como ele é.
Mas não é um amor cego - é um amor incondicional.
Quer comprar para ele o mundo. Quer comprar para ele as roupas mais lindas que existirem, os presentes mais caros. Quer cobri-lo de beijos, de abraços, de ternura, mas teme sufocá-lo.
Tem medo de perdê-lo para as outras, antes mesmo de tê-lo.
Teme que ele não te ame tanto, que se esqueça de ti, que não te queira tanto quando você a ele. Que ele não queira te ver com a frequência que você quer vê-lo.
Sabe que ele tem outra, mas não desiste. Sua rival apenas vai dividir esse amor infinito. Aliás, você descobre que ele tem outras mulheres em sua vida, outros amores, mas você nem liga, você não desiste.
Desta vez você não se preocupa em dividir. Você o quer de qualquer jeito, mesmo que ele só possa te dar um pouco desse imenso amor que ele tem. Que ele só possa passar contigo alguns dias, que só possa te ver uma ou duas vezes ao ano. Que importa?
Terão telefonemas, terão e-mails, terão fotos trocadas, terá o skype para ouvir sua voz e imaginar como ele está.
Os sorrisos, os risos ouvidos guardados.
Terá a cumplicidade do aceite das coisas que ele fizer ou disser mesmo que erradas.
Ele saberá que é amado pelo simples olhar da cumplicidade. E terá a compreensão do mundo pelas faltas que cometer.
Terão muitas boas noites ditas com um sussurro apaixonado.
Terá uma pessoa apaixonada que o cobrirá de beijos de abraços apertados e de muito, muito amor.
Quero que saibas que te espero assim. Transparente ou como na música de alma transparente, de coração aberto.
Para finalizar apenas uma coisa: Te amo!

Assinado:
Sua avó Ana.



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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Solidão - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Até a solidão precisa de aconchego e carinho. Falar com pessoas, conhecer pessoas, mesmo que pela net, é importante sim, faz um bem à alma e é um alívio para o coração.
E quem sabe se o sonho não vira verdadeiro? Mas às vezes devemos ter cuidado para que o sonho alimentado pela net não se transforme em pesadelo. Mas enquanto vivemos, enquanto estamos vivos estamos tentando.
“TUDO VALE A PENA SE A VIDA NÃO É PEQUENA.”
UM ABRAÇÃO




Resposta a “Carências e Solidão (Divagações Sentimentais)”, de José Ivo.
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Fernando Pessoa