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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Zizi Possi - por João Luis Amaral

Zizi Possi já era.

Culpa minha. Dia ruim, cheguei sem avisar e vi o que ninguém aguentaria ver. Ela com outro.Perdi a cabeça, disse coisas que não devia, chorei até. Ela, frágil, não suportou o destempero. Acabou por dar cabo à própria vida.

Uma diva, não tenho dúvidas. Uma estrela que brilhou intensamente, iluminou com sua luz a minha vida. Entre todas com as quais me relacionei - e foram muitas, ouso dizer - Zizi foi como uma brisa leve, pousando delicadamente sobre mim a alegria de viver em seus atos, seus gestos. Enamorado que estava, fazia promessas tolas, achando que teria todo o tempo do mundo para cumpri-las. Só que o tempo, Ah! O tempo não me deu tempo.

Zizi Possi virou história.

Uma relação complicada desde os primeiros momentos. Deliciosamente complicada.Nossa história começou como um conto de fadas. Eu andava pela rua, sem destino ou futuro certo pela frente, chutando pedras à mercê. Chutava o vazio da minha vida. Ela, numa loja qualquer, parecia aguardar o inesperado. Nossos olhares cruzaram-se e, apenas num segundo, sentimos a emoção por um amor iminente brotar maroto.

Paixão avassaladora. Daquelas que nos fazem perder o fôlego, a noção de tempo, espaço, que nos leva simplesmente a esquecer nomes, rostos, cheiros. Que nos faz criança. Os sentidos nos deixaram, tudo o que fazíamos era pelo outro. Éramos cúmplices em sua mais pura tradução - se é que existe pureza em cumplicidade.

Zizi Possi passou dessa para melhor.

Da paixão, rapidamente fomos levados ao amor. O desejo nos tomava inteiros, sem pedir licença. Como numa invasão.A distância parecia nos asfixiar lenta e perigosamente. Sua presença trazia-me de volta à realidade, era como oxigênio. Perdíamos longas horas apenas nos olhando. Tímida, não apreciava conversar. Preferia curtir o momento em toda sua intensidade, sua extensão. E quanto mais durasse, melhor. Foi o grande amor da minha vida. O único amor.

Zizi Possi bateu com as botas.

Ah, Zizi! Que falta você me fará. Não vejo meus dias sem sua doce presença, seu afeto, seu silêncio acalentador. Não quero mais acordar, porque sei que você não estará mais ao meu lado. Para quem direi “bom dia” cheio de malícia, de segundas intenções? Onde errei? Quando te perdi? Por favor, preciso saber.Não me deixe aqui com essa dúvida. Conte-me ao menos esse segredo.

Zizi Possi está morta.

Agora, de volta ao vazio da minha vida. Tudo o que me resta é voltar àquela loja e comprar um outro peixinho.
Mas, dessa vez, darei o nome de Jane Duboc.
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Pedido ao Papai do Céu - por João Luis Amaral

Querido Papai do Céu,

Hoje eu quero fazer um pedido especial: quando eu crescer, eu gostaria muito, muito mesmo, de continuar sendo criança. É o meu sonho. Por que ser grande é muito chato.
A gente aprende um montão de coisas legais quando é pequeno – ensinado pelos grandes, veja só – mas tem que esquecer tudo quando cresce.
Dá para entender? Eu não consigo.
Perguntei para a minha mãe, entre uma dobradura e outra no meu super barco de papel, se tem alguma razão para isso acontecer.
Ela tentou explicar, mas confesso que não entendi nada.
Falou que era por causa do trabalho, das obrigações do trânsito infernal, das intermináveis contas para pagar, da obrigação em acompanhar o noticiário diariamente (além de ter lido o jornal), saber como fechou a Bolsa daqui, como abriu a Bolsa de lá; onde está o dólar, quem está em guerra com quem, em quem votar na próxima eleição, o time do coração que não está nada bem, a sogra que virá no fim de semana, o presente do cunhado… essas coisas.
Ouvi tudo com atenção, mas voltei para o meu barco de papel sem responder coisa alguma.
Eu, hein? Prefiro ficar aqui, enquanto posso, fazendo tudo o que gosto:

Andando descalço pela gramaJogando água na terra até virar lamaFazendo castelo com pedrinhasTentando bater meu recorde de sete embaixadinhasJogando uma partida de vídeo-gameAcampando na sala com lençol, travesseiro e as cadeiras da sala de jantarPlantando feijão no algodão e esperando brotarMisturando banana com mel e aveiaPintando papel com tinta a dedoRecortando figuras das revistas e colando num outro papel, só para ver no que vai darMontando outro castelo, agora de cartas de baralhoEscrevendo escondido na parede atrás do sofáJogando a bolinha para meu cachorro trezentas vezesTomando picolé de frutasMisturando sucrilhos com leite e nescau, à tarde, em frente à TVImaginando figuras engraçadas nas nuvensAcompanhando o caminho das formigas pela paredeJogando bola, queimada, vôlei ou qualquer outra coisaBrincando de péga-pégaMontando uma casa de madeira na árvoreTocando a campainha da casa do vizinho e fugirPaquerando a filha do vizinhoIndo ao cinema no meio da tardeChupando manga tirada direto do péAndando de bicicleta sem capaceteAprendendo a subir em árvoreTomando água da torneiraRindo à beça das trapalhadas que eu mesmo façoLendo um livro deitado no sofáAprendendo a fazer pão-de-queijo (e ficar olhando dentro do forno até crescer)Tomando banho de esguicho num dia de sol quenteDescascando laranja tudo erradoMisturando coca-cola com sorveteQueimando papel com uma lupaFugindo de abelhaComendo doce de leite sem culpaTomando refrigeranteJogando sonrisal na beira do mar e escorregando nelePegando jacaréPassando requeijão no panetoneJogando rouba-monteCompletando o álbum de figurinhasJogando bafo com as repetidasAssistindo desenhosDormindo no meio dos filmesCorrendo atrás de borboletasSujando a calça no muro brancoDançando alucinadamente no meio da salaCavocando a areia até achar águaJogando pedrinhas no fundo da piscina e mergulhar para buscá-lasTomando leite bem cedinho, tirado na hora da vaca, num copo com açúcarAssistindo filme de terror no cinema e ficar com medoRalar o joelho e passar mertiolate

Está vendo? É tudo muito mais divertido. A gente cansa no final do dia, fica quebrado mesmo. Tão cansado que dorme antes da novela das oito, que hoje em dia começa às nove. Mas vale muito a pena.

Agora, Papai do Céu, vou tomar banho para jantar. Preciso tirar o terno e a gravata, colocar meu pijama e fazer lição de casa, senão meu chefe vai brigar comigo amanhã.

Amém.

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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Pirulitos e a Vida - por João Luis Amaral

Era um dia comum. Apenas mais um, entre tantos outros, tantos iguais.Sol quente, pessoas circulando às pressas, atentas apenas aos seus afazeres, desatentas aos semelhantes.Ninguém se importa com os outros, são somente outros. Que sigam seus caminhos. E não atrapalhem o meu. É o que pensam, é como agem.
Vejo um senhor caminhando pela rua. Rosto simpático, olhos e pele claras, bochechas rosadas. Cabelos brancos como neve, barba rala e também alva. Calças largas, sapatos e cintos pretos, camisa sóbria. Leva um discreto par de óculos pendurados por uma fina corrente ao pescoço. Caminha tranquilamente, cumprimentando a todos. Distribui pirulitos às crianças, sorrisos aos adultos. Sorrisos contagiantes, diga-se.
Figura que se diferencia da multidão. Figura que chama a atenção. Páro por alguns instantes para observar. O mundo que espere. Algo inusitado está acontecendo.
Ele continua sua caminhada. Com a mesma tranquilidade. Sempre.
Chega até mim. Coloca os óculos, cruza os olhos com os meus. Olhos azuis que irradiam paz. Estende-me a mão. Cumprimenta-me.Retribuo, calado. Sem palavras, na verdade. Apenas admiro, sem reação.Busca na sacola um pirulito, volta a olhar-me nos olhos e diz:
- Tome, meu filho. É seu. Você só queria parar por alguns instantes, não era isso? Queria pensar na vida. Agradecer a quem o ajudou. Pedir perdão a quem feriu. Doar-se mesmo que por breves momentos a quem precisa. Acertar alguns rumos. Eis aqui o seu tempo. E, de quebra, tem sabor de framboesa!
Os pensamentos se misturaram. A confusão tomou conta. A única pergunta que consegui fazer:
- Papai Noel?
Seguiu-se um leve sorriso, seus olhos agora mais brilhantes. Sua mão agora em meu rosto, morna, terna. E a resposta:
- Basta acreditar, filho. Basta acreditar….
E seguiu seu caminho.

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