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domingo, 20 de julho de 2014

Lembranças e Saudades de uma Mulher Madura - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Eu estava na internet cansada e pensando que nunca mais tinha tido uma pequena inspiração para escrever o que eu chamava de crônicas do dia a dia.
Na verdade, pedaços de mim, que amigos mais queridos chamavam de crônicas e eu acreditava...
Encontrei por acaso... será que por acaso? Como diria Jung, “coincidências não existem”... uma crônica que adorei, o jeito dela estar ali, dizendo coisas tão simples de forma tão poética - numa casa feita de poesias - A CASA DE RUBEM ALVES - esse era o site do cronista.
Será que podemos dizer sem ofender a família, a esposa, filhos e netos, mas como uma adolescente impetuosa, "Amei-o"?
Amei suas crônicas, sorvi cada uma delicadamente e, como um doce pequeno porém precioso, fui colocando pedaços pequenos dentro de minha alma.
Me apaixonei perdidamente por cada uma delas e sem querer parecer vulgar sentia vontade de tê-las e lê-las.
Numa delas, em especial, me perdi e me achei. Quando ele fala do “Velho que acordou menino”.
Me senti assim renascendo, acordando num sonho e como ele fui me lembrando das pessoas especiais e interessantes que apareceram em minha vida e como num passe de mágica acordei menina.
Uma simples lembrança me levou de volta ao passado, à infância, à adolescência e à maturidade. Tudo em instantes, como um furacão que me rodopiava e me levava a lugares distantes da minha mente, das minhas recordações.
Foi assim que no meio de uma nuvem branca eu a vi:


A Professora Emília

Era uma mulher pequenina, talvez com quarenta e oito ou cinqüenta anos, bem morena, quase negra, um pouco curvada ou pelo tempo ou pela fragilidade do corpo magro, de cabelos crespos e mesclados com brancos e de uma doçura angelical.
Nunca soube seu sobrenome.
Naquele tempo professora era professora, não tia. Mantinha uma relação de afeto com respeito, mas com consciência de que estávamos num patamar abaixo dela, sem relações de parentesco mas com relações de amor e carinho.
Com ela aprendi as primeiras letras e a subir cada escada das palavras. Observadora atenta, ela era a grande mestra que, hoje, não existe mais. Cuidava de cada um de nós com o amor e o carinho de uma mãe. Sabia quando estávamos famintos, quando estávamos com problemas em casa. Nada lhe passava despercebido.
Foi assim que minha mãe foi chamada à escola pública pela minha querida mestra para me levar ao oculista, pois ela descobrira que eu era míope. Óculos feitos, eu estava ali radiante de alegria a galgar degraus e degraus do conhecimento.
Foi ali que descobri pela primeira vez a fome devassadora da paixão - foram suas mãos que me guiaram pelos caminhos do amor aos livros. Eu tomava café, almoçava e jantava livros.
Fiquei gulosa e depois de alguns anos, quando me mudei e passei a estudar perto de uma Biblioteca Municipal (hoje nem sei mais se as crianças freqüentam bibliotecas), li todos os livros da Biblioteca Municipal Carlos Alberto, no Méier, e foi assim que me tornei a “devoradora de livros”.
E a professora Emília ainda hoje continua povoando minhas memórias e é revivida por mim através de uma velha foto desbotada (daquelas de antigamente, nos grupos escolares onde as crianças sentavam-se e a professora permanecia perfilada ao lado dos seus pupilos).
Com certeza ela já içou vôo para Colégios no Alto e de lá me viu crescer...
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domingo, 18 de novembro de 2012

QUANDO EU ERA PEQUENINO, ERA BOM, - por Tércio Sthal

MINHA MÃE SEGURAVA FIRME A MINHA MÃO
E DAVA-ME PROTEÇÃO PARA EU ME SENTIR SEGURO,
MAS, MINHA MÃE NÃO TINHA SEQUER A NOÇÃO
DE COMO SERIA A MINHA VIDA E O MEU FUTURO,
CRESCI, E NÃO DIGO QUE DO MEU FUTURO SEI EU,
MINHA VIDA E MEU FUTURO ESTÃO NAS MÃOS DE DEUS.




 
 
 

CONTO DE FADA

Venha e conte o seu conto de fada,
e faça de conta que nele acredita,
conta tão somente o conto, e mais nada,
sem alijar imagens e palavras ditas.

Conta agora o conto de fada,
que a criancinha quer dormir,
conta historinhas, e mais nada,
historinhas pro boi dormir.

Mas não dá pra fazer de conta
que o mundo do conto de fada
é só o mundo do faz de conta
onde se conta o conto de fada
e se faz de conta que não há mais nada.
 
           Visitem Tércio Sthal
 
 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Duelos nos Tempos da Cólera - por Ana

Para os que não conheceram
O Duelos antes daqui,
Conto que ele habitava o Terra
E foi o maior tititi!

Andava tudo certinho,
O Duelos numa boa,
Quando o Terra resolveu
Infernizar as pessoas:

Alterou a plataforma,
Adotou o wordpress.
Ninguém conseguia postar!
Mininos! Ninguém merece!

Teve blog transferido
Todo torto, à metade,
Blog que se perdeu,
Uma total calamidade!

As pessoas reclamavam
On line, mandavam e-mail,
Nada se resolvia
E só aumentava o receio

Dos posts saírem truncados,
Não se conseguir postar,
Nosso blog ser migrado
E então sumir no ar...

O povo vivia raivoso,
Muito irado e indignado!
Circulavam pelos blogs
Vários posts revoltados!

O shintoni sofreu pacas!
Vivia postando mensagens
Pedindo desculpas, explicando
Os problemas com as postagens.

Até que um dia, surpresa!
Um post do anfitrião
Nos informava, vencido,
Que partia pra emigração.

Viria pro blogspot.
No Terra, sem condição!
O seguissem os dueleiros
Que quisessem, em procissão.

Então, cá estamos, moçada!
Tribo menor, é verdade,
Mas deixamos as linhas da ira,
Abandonamos a enfermidade!
.John Steinbeck, Gabriel García Márquez

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Fumacinha Ridícula - por Paulo Chinelate


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Prometi a uns amigos que escreveria sobre o cigarro. Melhor dizendo: sobre o vício do fumo.
Antes, porém, um convite: se tiver um fumante por perto dê uma olhada, mire, fixe no quadro do levar o cigarro à boca, soprar, bater cinzas, sugar a brasa, reter, expirar… expirar… sugestiva esta palavra, a cada inspirada, o sujeito ou sujeita, em seguida expira, falece, morre, desencarna, estrebucha um pouquinho mais cedo. E paga para isso. Paga pelo maço, paga pelo ridículo e pagamos nós por tomar o mesmo veneno que eles.
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Agora vou dar uma receita de como evitar toda esta tragédia:
Fui fumante por 20 anos. Aprendi a fumar quando era bonito, charmoso e socialmente correto. Aprendi no quartel, na Escola Militar. Nos acampamentos de instrução em campo, na hora do “boião”, recebíamos no bandejão e junto com a sobremesa uma carteira de cigarro. Lembro-me muito bem. Continental sem filtro. Maço branco com o desenho do mapa do continente americano. Engraçado que alguns crentes recebiam, não fumavam e vendiam para nós: “Não peco, mas vocês podem”. Ouvi dizer que o cigarro era doação da companhia de cigarros. Grande negócio: é que durante um ano aplicaram em nós e no resto de nossas vidas colhiam os frutos. Imaginem se existe um negócio mais lucrativo. Um ano de investimento, uma ou duas vezes por semana contra 30, 40 anos contínuos de retorno, se é que o cristão não sucumbe com câncer antes.
Daí em diante foi fácil o vício. Não satisfeito, passei a usar cachimbo (mais charmoso ainda). Cheiroso, aromático. Condizia com minha posição social de então.
Fui morar na Amazônia. Mineiro misturado com rios é igual a pescaria. Muito mosquito. Passei a usar charutos. Não os cubanos. Mata-ratos mesmo. Serviam (sic) para espantar as “muriçocas”, “maruins” e “piuns”. E lá vai bronca para o pulmão.
Ah, sim, desculpas mil. Estou devendo a receita para acabar com este drama vicioso.
Vamos lá então:
Sabemos das diversas “fórmulas”: leituras de auto-ajuda, remédios diversos, injetáveis ou orais, beberagens, simpatias, chicletes, balas de nicotina, receitas de comadres e compadres. Não adianta nada disto. Repito, não adianta nada disto sem “MOTIVAÇÃO” e “VONTADE”. O resto é alimentar a indústria existente.
Vou contar como parei:
Certa tarde, como sempre fazia, fui buscar as crianças na escola. Eram quatro pimpolhos. A mais velha com 8 anos, outra de 6, um de 4 e o último de dois. Eu, no estacionamento, dentro do velho fusquinha; entram as crianças no carro; naturalmetne eu dando uma de caipora, soltando mais fumaça dos que os velhos trens de minha Minas Gerais. A mais velha, sentada no banco da frente (bons tempos, não tinha cinto de segurança e criança ficava em qualquer lugar), vira para mim e diz: “Papai, por que o senhor não para de fumar?”. Olhei para ela espantado. A que viera esta conversa de cerca-lourenço? “É que a polícia federal esteve na escola e deu uma lição sobre ‘drogas’”. “Droga, era só o que faltava, é a única distração do papai”, dei a desculpa mais estapafúrgia que me ocorreu. “É, papai, como o senhor vai agir se me pegar um dia com um cigarro de maconha?” Quem ficou estapafúrdio agora foi eu. Olhei com cara de pastana para ela e para os outros três filhos sentados no banco de trás, certamente todos aguardando a “resposta”. Não contei uma nem duas, peguei o cigarro da boca e joguei fora. A carteira, inteirinha, também (detalhe: neste bom tempo também não tínhamos a educação ecológica de hoje).
E pronto, acabou, se quedó, c’est finit, the end. O que vocês querem mais? Parei de fumar desde aquele instante. E no more cigaretts, pipers and cigars. Tive a motivação e, principalmente, a VONTADE.
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domingo, 9 de janeiro de 2011

Anos Incríveis - por Gio

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Os anos 80. Ah, os anos 80... Incrível como essa época provoca suspiros em cadeia quando é mencionada. Muitos viveram nela, e muitos têm boas lembranças de lá: a explosão musical, os clássicos, a infância, a década do experimentalismo. Da mesma forma, as correntes do tipo DNA (Data de Nascimento Antiga) cultuam coisas de um pouco mais além, onde a TV era em preto-e-branco e o rock and roll dava os seus primeiros passos. Eu, como bom nostálgico, normalmente me comovo com esse tipo de coisa.

Acontece que eu não vivi isso. Eu nem tinha começado a falar quando Cazuza e Freddie Mercury se foram. Os Chili Peppers já estavam com o Frusciante quando eu comecei a ouvir. Nunca vi os Beatles juntos, nem conheci o primeiro guitarrista dos Rolling Stones. Nunca vi Nacional Kid e, quando vi Astro Boy, já estava remasterizado e em cores. Changeman, para mim, é estória, e só vi o primeiro Jaspion em revistas. Conheci a ditadura nos livros de História, assim como o Diretas Já e os caras-pintadas (que, para uma criança, eram apenas índios). Fofão e Topo Gigio são “lendas” que escutei da minha mãe, e Caverna do Dragão já era retrô quando eu assistia.
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Eu vivi os anos 90. Acordava bem cedo para ver os desenhos da Vovó Mafalda, e aprender a experiência do dia no Eliana e Cia (antes de virar “Bom Dia e Cia”, e perder a graça com a saída da Eliana). No Sábado Animado, eu não perdia O Fantástico Mundo de Bobby. Via Ursinhos Carinhosos, Fly, e os mesmos episódios repetidos de Dragon Ball e Cavalo de Fogo. Na Manchete, acordava cedo para ver Samurai Warriors e Maskman, e chegava em casa do colégio correndo para ver Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho. Eu cantava em embromation o tema de fechamento do Capitão Planeta, e o “Keep on shining/Keep on shooting” da abertura de Shurato virava “E com Jaime/E com Judy”. Cresci vendo Thundercats, Silverhawks e Os Seis Biônicos. Alguém se lembra de Os Jovens Guerreiros Tatuados de Beverly Hills?

Quando surgiu a TV a cabo, fiquei curioso. Quando instalaram ela na minha casa, foi amor à primeira vista. Eu solucionava os mistérios do Fantasma Escritor, e aprendia os origamis nos intervalos do Discovery Kids. Assistia O Máskara e Ace Ventura; morria de rir com Freakazoid e Pinky e Cérebro; via O Mago e Oggy e as Baratas sem saber que eram canadenses. Acompanhei gerações e gerações de Power Rangers (e semelhantes, como Beetleborgs). Quando minha aula passou para a manhã, acordava às 6:30 só para ver A Tartaruga Touché. Meu sábado de manhã mudou para Big Bag e As Trigêmeas – e um pouco de Super Mario World no SNES, é claro.
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Passava as férias na praia jogando taco com as vizinhas. Arrebentei algumas Molas Malucas, e vi meus tios ficarem com hematomas por brincarem com o meu bate-bate. Tinha um mini-pescaria com ímã, e achava o Aquaplay o máximo. Tive um tênis que acendia luz nos calcanhares, e construí aviões com os palitinhos de Frutilly. Meu dindo teve um Startac e meu irmão, um Tamagotchi. Lia a Veja Kid+, e a Contigo Kids quando ainda vinha dentro da Contigo. Entrei na febre Pokémon e, logo em seguida, na Digimon também. Perdi a conta de quantas miniaturas eu tive de cada um. Meu trauma de adolescência foi descobrir que a minha mãe doou meus Lego para um orfanato.

Assisti a O Rei Leão e O Corcunda de Notre Dame no cinema. Nas minhas esperas dentro de um carro estacionado, enrolava em bom portunhol “No Te Preocupes”, do El Simbolo, e fiquei marcado por “I Live My Life for You”, do Firehouse. Vi o Skank se tornar a banda favorita da minha infância, e o J. Quest mudar de nome por medo de violação de direitos autorais. Presenciei um festival de novelas mexicanas (na TV, e não no Senado), sendo a metade delas estreladas pela Thalia, e com “Maria” no título. Era apaixonado pela Mili das Chiquititas, e fiquei triste quando ela teve que sair do X-Tudo.
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X-Tudo? Viva a TV Cultura! Acho que ela é um capítulo à parte na minha infância. Dificilmente algo vai me marcar tanto, e em tantas áreas (é, talvez eu seja um nerd). Aprendi com O Professor, ouvia as estorinhas do Babar, e me perguntava como faziam para colocar os rostos nos peixes de Glub Glub. Imaginava como construir uma engenhoca como a da abertura de Rá-Tim-Bum, e cantava as musiquinhas do Castelo Rá-Tim-Bum. ♪ Lava uma mão, lava outra, lava uma...
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Colecionei os jogos de cartas do Nestlé Surpresa e os brinquedos do Kinder Ovo (no tempo que ainda era 50 centavos). Nunca tive um ioiô da Coca-Cola, nem sei dar uma “volta ao mundo”; mas tive algumas garrafinhas, e muitos gelocósmicos. Chupava Push Pops sem a mínima maldade, assim como os pirulitos-chupeta. Bebi Mirinda laranja e uva, 7Up e refrigerantes Diet. Comi pão com Cremucho, e com Iô Iô Crem. Sou do tempo em que o Nesquick ainda era Quick, e que o Stickadinho ainda era Stick.

Vi as boy bands e girl bands surgirem, e irem embora. Vi a Xuxa em sua melhor época apresentar dois programas diferentes. Ah sim, eu morria de medo do Baixo Astral em “Lua de Cristal”. Vi pessoas correndo de “monstros” ao fazerem a escolha errada na Porta dos Desesperados. Lembro do tema de Fera Ferida, e dos mistérios de A Indomada e A Próxima Vítima. Apanhei anos para a internet discada antes de ver a ADSL surgir. Naquele tempo, o YouTube não daria certo...
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Eu vivi os anos 90, e me orgulho disso. Vi muitas coisas surgirem, outras desaparecerem, e outras evoluírem. Aproveitei a minha infância ao máximo, e ainda sou meio criança até hoje. Ao escrever isso, me lembrei de tanta coisa que a nostalgia bateu muito forte; e nem de longe consegui colocar tudo sobre o que me lembrei. E é por isso que eu grito aos quatro ventos: eu amo os anos 90!

*Nota: Eu ainda não me perdoei por ter esquecido de mencionar Cocoricó e O Mundo de Beakman. E acabei de ser lembrado dos Mamonas Assassinas.
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Lembranças da Berenice - por Adir Vieira

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Ontem encontrei, nos meus guardados, um caderno da minha infância. É um caderno simples, de capa dura, de cor amarelo e com o desenho de uma joaninha na parte frontal. A joaninha parece pintada artesanalmente de tão perfeita.
Nos meus tempos de escola, tínhamos o hábito de, ao término das aulas, os amigos passarem um caderno entre si, onde cada um, em cada folha, ia escrevendo uma mensagem de carinho para o dono do caderno.
Já lá se vão mais de cinquenta anos e esse caderno foi do tempo em que eu cursava o terceiro ano ginasial (na minha época a nomenclatura dos cursos era outra).
Resolvi escrever este post para mostrar aos meus amigos blogueiros como é importante assegurar com imagens pela vida afora, as lembranças dos momentos bons.
Hoje sei porque guardei aquele caderno, mas na época em que o revesti com um plástico e o mantive no fundo de uma gaveta, meu ato foi banal.
Relendo-o, voltaram à memória amigos queridos e suas formas de viver a vida, suas maneiras de se dirigir a mim etc.
Como a da Berenice, uma menina magrinha de óculos fundo de garrafa e sempre com um sorriso nos lábios. Todas as vezes que ela por mim passava, sorria e dizia: - Adir, somar ou diminuir?
Guardem suas memórias fisicamente para poderem apalpá-las em momentos tardios da vida.
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domingo, 24 de outubro de 2010

Memórias de um Ex-Seminarista (Parte XX) - por Paulo Chinelate

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FÉRIAS… MAS QUE FÉRIAS!?
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Seis meses me separaram dos familiares desde a última vez que os vi. Muita coisa nova me esperava. Vovô Joanim já não se encontrava mais conosco. Sua morte foi-me participada havia dois meses e só agora o fato teve relevância. Ao visitar vovó Lídia, a viúva, pude observar o vácuo deixado por ele. Homem simples, de fácil se dar, me adotara como seu colega de pescaria. Andávamos longos trechos pelos trilhos da Central do Brasil que margeava o Rio Paraibuna e íamos buscar, em pesqueiros “secretos”, os petiscos do jantar. Agora o vazio.

Meus irmãos cresceram como nunca e exceto por um detalhe interessante, a cada vez que em casa me aportava, tinha a sensação de tudo em casa estar diminuto. A moradia como que se encolhera.

A novidade mais importante foi a inauguração de uma casa bem vizinha à nossa. Era uma construção nova pertencente ao Conjunto JK , no local exato onde antes ficava pequena lagoa, objeto das minhas peraltices infantis.

A saudade do local de velhas lembranças, no entanto, logo se esvaiu. Uma figura está sendo a responsável por isso. O nome dela é Mercedes. Longos cabelos, negros e lisos. Mal pude ainda observar seus olhos. É moda os cabelos estarem caídos pelo rosto, qual burka natural. É linda. Tem a minha idade. Filha de numerosa prole, sendo uma das caçulas. Já frequenta nossa casa, amiga de minha irmã Conceição. Tão logo aqui cheguei veio se apresentar e conhecer o vizinho “padre”. Desde então me vi perdido em sensações e pensamentos nunca dantes experimentados. Algo como fogo ardente queima-me por inteiro. Sinto-me estranho. Muito diferente do que sinto por meus pais, irmãos e amigos.

Nunca foi tão gostoso ir à missa. Voltar junto com o grupo onde ela estava ela era divinamente agradável.

Minha irmã, como soer deve acontecer com algumas mulheres, alcovitando, facilitava os encontros e reencontros. Meus pais, na santa inocência, tinham tudo como muito normal.

O pior é que o tempo dispara justo quando as coisas são boas e favoráveis. Os vinte dias das férias sumiram como por encanto.

Retornando à lide clausural já não tenho mais outros que não pensamentos a Juiz de Fora. Não me seguram mais razões outras que dantes me fixaram tão longe dos meus.

Tudo me parece estranho. As luzes e os verdes deste lugar já não brilham nem colorem mais como dantes .

Iniciou-se o segundo período escolar do ano letivo com as atividades pertinentes. Como “terapia ocupacional” qualquer esforço pareceu-me inútil. Por muitas vezes estou sendo chamado à atenção às aulas. Estou sempre no mundo da Lua. “Lua com cabelos compridos e olhos escondidos”.

Fui chamado a uma reunião particular com o Irmão Reitor. Não imaginava a que se atinha tal encontro. Os resultados escolares do mês em andamento ainda não tinham sido recolhidos. Seria ainda o assunto do cigarro nos bastidores do teatro?

Dia seguinte e após os afazeres matinais, preces e faxinas, sou convocado à tal reunião. Estou mais ansioso que apreensivo. Adentro o gabinete austero do Reitor. Sou convidado a sentar-me e ficar aguardando alguns instantes enquanto o mestre assina uns papéis.

Finalmente, após ler uma ficha que detivera à parte, inicia a conversa perguntando como estou. Respondo-lhe que “bem”. Dá uma espiadela na ficha que, certamente, agora tinha eu convicção, era minha. Diz querer saber o motivo de minhas preocupações atuais, ao que respondo evasivamente, e com sinceridade: “nenhuma”.

Perguntou-me como foram as férias, como encontrara a família, que locais eu visitara e quem eu conhecera.

Sempre fui muito sincero. A lição que papai mais evidenciou foi a de que nunca mentisse, fosse em que oportunidade fosse. Abri-me, pois, ao caro superior como sempre o fiz com papai.

O mestre me olhou com carinho e compreensão. Fez-me ver que o que sentia não era pecaminoso ou errado. Muitos que ao seminário chegavam, depois de algum tempo acordavam para outros sentimentos que não o do celibato e da reclusão. No entanto, convida-me à oração e reflexão. Que permanecesse ainda o restante do ano em observação. Deixasse o tempo passar. Ao final do período em nova conversa decidiríamos, os dois, o melhor caminho a tomar.

Os dias foram rolando, devagar como carroça ladeira acima.

Agosto chegou e não deixei que terminasse. Pedi nova reunião. E expus minha vontade de partir.

Não houve oposição. Foi como se já se esperasse por este resultado. Só foi pedido tempo para uma troca de correspondência entre a Direção e papai.

Os valores necessários para a viagem chegaram com a resposta de papai.

Não obtive, como praxe, oportunidade para despedidas. Não podia ser o motivo ou estímulo a outras deserções. Muito menos pelos motivos supostamente aventados.

Voltei para o “mundo” no dia 5 de setembro de 1964.

Comigo acompanharam valores imensos. Dos Maristas tive a oportunidade de não só ter crescido como cristão, mas como verdadeiro cidadão, esta última virtude inseparável da primeira.

Não imaginava, no entanto, quanta influência teriam estes pouco menos de cinco anos em toda minha existência.
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domingo, 17 de outubro de 2010

Memória x Vida - por Alba Vieira


A memória é mesmo uma faca de dois gumes...
Garante usufruir, depois de já vividos, os momentos bons. Permite que tenhamos outra vez a alegria que experimentamos ao receber um sorriso, um afago, um olhar, uma ação favorável quando é despertada.
Mas, essa mesma capacidade de reter o que nos foi benéfico possibilita que não deixemos para trás as dificuldades. Se podemos nos lembrar dos erros, eles continuarão a nos pedir modificações, reparação e aprendizado. E é certo que isso tem as suas vantagens. Entretanto, nem sempre é possível reverter as falhas do passado e, nesse caso, a memória é um tormento constante, trazendo sofrimento.
Quantas vezes desejaríamos apagar da mente situações vivenciadas com desespero, que foram impostas por outro que, aproveitando a nossa fragilidade, nos atingiu? Tantas vezes experimentamos sensações ruins ligadas à memória de ocorrências que por tão traumáticas não podemos recuperar totalmente, mas cuja dor permanece viva em nós!
Às vezes, é possível pensar que é uma benção a deterioração da mente, apagando o conhecimento do passado tanto remoto quanto recente, criando um vácuo onde parece que a dor é menor. Mas, será que isso realmente ocorre? O que sobra quando a memória se esvai?
É cada vez mais comum a doença de Alzheimer. Mas, será que ela protege o seu portador do que pesa em sua existência ou rouba dele os momentos de glória, os aprendizados, as relações afetivas?
E na velhice que se estabelece naturalmente, quando esquecemos de fatos recentes, talvez sem muita importância no contexto geral, servindo-nos apenas numa atuação competente no presente e lembramos perfeitamente do passado remoto? Será que isso talvez proporcione um convite à reavaliação de nossa vida, com a possibilidade de maior compreensão dos fatos? Quem sabe seja interessante iniciar esse inventário aproveitando a chance que a natureza nos dá, antecipando a análise retrospectiva da vida que, inevitavelmente, seguirá a nossa morte.
Será que perder a memória é possibilidade de poder começar tudo outra vez? Apagar o quadro-negro da vida e reescrevê-la sem tantos erros? Mas, será que começamos realmente a nossa vida como uma tela em branco? Se assim fosse, como poderíamos aceitar a justiça de tantas diferenças entre os homens?
A memória é um bem precioso, mesmo que tantas vezes acabemos deturpando seus conteúdos por pura incapacidade de lidar com a realidade. É uma ferramenta incrível que nos permite acessar a nossa vida e fomentar o auto-conhecimento.
E, se o sentido da vida é experimentar no plano material para aprender e evoluir, é imperativo que ao longo da caminhada possamos fazer um balanço do que já foi vivido. E se evoluir implica em transformação, essa será mais proveitosa quanto maior o conhecimento que tivermos de nós mesmos.
Mas... não basta lembrar. É preciso meditar para entender. E a compreensão dos fatos e das pessoas traz a aceitação da realidade. O conhecimento da realidade nos permite tomar nas nossas mãos as rédeas da nossa vida, uma vez que, no íntimo, cada um de nós sabe exatamente ao que veio nessa existência. Assim, será possível corrigir a rota, caso esta esteja alterada por força das circunstâncias, da nossa incapacidade momentânea ou reincidente de trilhar o caminho pretendido, previamente acordado.
Meditar, ir para dentro de si mesmo é também mergulhar nas profundezas da mente, podendo ter contato com memórias ancestrais. O conhecimento de memórias de vidas passadas muitas vezes nos permite montar o quebra-cabeça que dá sentido a essa vida e corrobora com os aprendizados.
Parece que é preferível lembrar-se, mesmo que isso nos traga dor, porque se ela de fato existe, é melhor ter a consciência a sofrer as consequências da presença do seu fantasma, eternamente a nos espantar. Entretanto, é importante respeitar as possibilidades de cada um, em cada momento. E buscar ajuda para lidar com os conteúdos de memórias perturbadoras é, muitas vezes, imprescindível. Conscientizar permite ressignificar e livrar da dor aquele que o faz.
Memória é vida. E, se a consciência sobrevive, estamos vivos para sempre, mesmo após a morte do corpo físico.
E, mesmo que na vida física a memória se deteriore, ela certamente se recupera na vida do espírito, já que a vida é eterna.
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Imagem: Pintura “Segredo”, de Alba Vieira.
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Visitem Alba Vieira
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quinta-feira, 4 de março de 2010

Minha Doceira Preferida - por Adir Vieira


Tudo nela cheirava a doce, a açúcar.
Por anos a fio, os caramelados, os grandes bolos ornamentados que só ela sabe fazer, povoaram nossas festinhas domésticas e as grandes festas, os casamentos da família, as formaturas, os bailes de quinze anos.
Talvez a proximidade do meu aniversário a trouxe de volta na minha memória.
Conheci essa senhora, quando ainda trabalhava e minha sobrinha, hoje com vinte e oito anos, ia completar um aninho de idade. Ela era famosa no bairro por suas “quentinhas”, fornecidas ao gosto do cliente, aos inúmeros trabalhadores das fábricas ao redor de sua residência. Orgulhava-se em dizer que com aquele trabalho, tinha formado um filho em medicina.
Tudo nela era doce, agradável. Sua “fábrica” era a própria residência. Um pequeno apartamento de dois quartos, sala e cozinha, no terceiro andar de um prédio de classe média, sem elevador. Na sala, as mesas, viviam abarrotadas de caixas com os doces caramelados prontos para entrega, ou então, com um bolo grande, confeitado no desejo do cliente. Fazia como ninguém, bolos infantis ou de casamentos, com o mesmo bom gosto. Tinha prazer em exibir seu “book”, como se ainda precisasse fazer novos clientes. Quem comesse de sua comida, ou provasse um caramelado, jamais deixaria de pensar nela, para encomendas, quando alguma festividade fosse ocorrer.
Seus salgados desmanchavam na boca. Eram delicados, como ela, apesar dos seus noventa quilos.
Lembro que depois do falecimento de minha mãe, quando o nosso “quartel general” foi desfeito, deixei de manter contato. Nossa última encomenda foi há quatro anos atrás, quando uns quatrocentos docinhos caramelados, fizeram a alegria e o encantamento dos nossos convidados no aniversário do meu marido.
Hoje, ela me veio à cabeça, com seu sorriso feliz, próprio daqueles que asseguraram pelo próprio esforço, o maior êxito na vida.
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Visitem Adir Vieira
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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Carnaval - por Aaron Caronte Badiz

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Foi um carnaval quando te encontrei.
Ao te ver pela primeira vez, dentro de mim tocaram cornetas, apitos, marchinhas alegres, foram lançadas serpentinas, confetes, pétalas de rosa... Uma felicidade sem fim que cercava a sua aproximação e sua entrada triunfal em minha vida. Sem que você soubesse, sequer desconfiasse, eu a recebi em êxtase, numa satisfação profunda, cantando “Ô abre-alas” a plenos pulmões e num salão repleto de tudo o mais colorido, festeiro, iluminado, sonoro e simpático que há dentro de mim. Meus olhos te seguiram imantados todos os passos que te traziam para perto e nada mais existia além de você naquele lugar. Até que conheci sua voz: “Oi”. E eu: “Oi”.
Mas havia um carnaval dentro de mim.
Que dura até hoje. Com a mesma alegria, os mesmos festejos de felicidade.
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Carnaval... - por Lélia

Foi vestida de princesa que te encontrei. Num carnaval há tanto tempo... Você, um robô cintilante.
Meus olhos cintilaram e o encontro virou encontros e namoro.
Mas, em pouco tempo, nada mais deu certo. E eu devia ter desconfiado, logo de início...
Se você se faz de princesa, em algum momento vai ter que engolir sapo...
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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Memórias de um Seminarista (Parte XIX) - por Paulo Chinelate

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Concomitante às perturbações políticas da nação brasileira, nossa vida em seminário segue a rotina usual só quebrada pela saída abrupta do nosso convívio de colegas, muitas vezes amigos chegados. A cada separação repentina cabe a quem fica a administração da perda.
Dá-se o nome de “ir para a bica”, o fato das saídas súbitas. O significado do cognome dado a este evento, conforme reza a tradição local, é de um sujeito que vai à bica para saciar a sede, escorrega e cai.
Vê-se que o sentido de queda não é aleatório. Associa-se ao episódio como derrota, ruína, perda e prejuízo. Há um quê de cuidados para não permitir muitos comentários sobre os afastamentos. Censura explicada, talvez, pela maledicência que daí pode advir ou, a meu julgamento, para evitar que companheiros simpáticos ao que “embicara” possam, sem razões maiores, seguirem os seus passos.
O certo é que eu analiso as reações de toda comunidade, já me colocando como um dos próximos candidatos a resvalar no “limo da bica”.
Iniciado o ano escolar, como de costume, é dada a partida aos ensaios de nova peça teatral. Meu papel, coadjuvante e de menor importância, com poucas falas, tem, porém, significado no enredo de “JULIANO, O APÓSTATA”. Peça que traduzia a saga dos primeiros cristãos ao tempo das perseguições.
Os cuidados da trupe na construção dos figurinos eram desde cedo tomados. Cada qual laborava, com base em um projeto, na construção dos capacetes dos soldados romanos, da coroa do rei, dos mantos, arcos e flechas, lanças, panos de bastidores etc.
Duas a três dezenas de companheiros estão investidos na façanha que apresentaremos em meados do ano. O interessante é que o Irmão Constantino, sempre solicito e amável, é severo o bastante para nos exigir que mantenhamos em segredo não só o enredo da peça como até mesmo o seu título. Não me recordo de que em anos anteriores houvesse vazamentos.
Eu farei também parte de uma esquete, geralmente humorística, que entremeia os atos da peça teatral permitindo que os bastidores sejam reformulados às exigências do enredo.
No cenário político os acontecimentos precipitaram-se: os militares, sustentados pela Igreja Católica e outras organizações da sociedade que clamam por ordem na ameaça anárquica, tomam a frente e o General Aragão Filho lidera, com as forças vindas de Minas Gerais, abafando qualquer levante a favor do infeliz João Belchior Marques Goulart, presidente perdido em querer transferir ao solo brasileiro um regime socialista.

De resto, rotina, rotina, rotina.

Junho desponta como sempre com os esperados festejos de São João, as apresentações teatrais tão aguardadas e a novidade: férias do meio de ano em família, dantes nunca ocorridas.
A apresentação teatral foi muito competida pelos convidados, como em todos os anos. Os trabalhos, tanto por parte dos atores como sonoplastia e iluminação, impecáveis. Só um acontecimento arranhou minha participação: enquanto aguardava a apresentação do terceiro ato da peça principal, e após ter concluído a exposição da esquete, estando eu e mais três colegas nos alçapões do palco, acendemos e “apreciamos” um cigarro retirado de um maço adquirido pelo contra-regras e usado pelo ator humorístico. Não contávamos com a ingerência do nosso Reitor Irmão Zeno Ângelo Camata, que certamente já pressentindo alguma peripécia nossa, nos pegou em fragrante. Nada foi dito, nada se escutou. Bastou seu olhar de inquisidor sobre os óculos redondos, grossos de aro fino para sabermos que estava tudo muito, muito censurável.
O tempo passou, saímos de férias e nenhuma consequência da peraltice praticada, aparentemente, teve curso.
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Memórias de um Seminarista (Parte XVIII) - por Paulo Chinelate

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Tão logo terminamos o retiro espiritual neste final de ano de 1963 fomos liberados às férias familiares.
Confesso que nunca estive tão ansioso por espairecer junto aos meus queridos pais e irmãos.
Têm-me ocorrido pensamentos de voltar definitivamente ao convívio dos entes queridos. Não que haja da parte do ambiente de internato algo que cresça repúdio por ele, pelo contrário, tenho vivido dias de maior integração com meus amigos. Mas a sensação de estar em lugar errado não desapega de meus pensamentos. Vou completar dezesseis anos dentro de quatro meses. Apesar dos motivos que me trouxeram ao seminário tenham sido outros que não o vocacional, durante estes últimos anos tinha já aceitado ser do ambiente religioso a dedicação de minha vida. Mas, há alguns meses que venho tendo frequentes inclinações a querer outra coisa que não a vida celibatária e “reclusa”.
Li e reli muitos assuntos da vida militar. Fascinam-me a vida da caserna, a disciplina de soldado, a possibilidade de ter um dia voz de comando e quem sabe galgar a carreira dos grandes heróis da pátria. Sou filho de um ex-combatente da última guerra mundial. Sempre que papai relata os feitos de batalha, como que um frenesi abate sobre mim.

Estou em Juiz de Fora para passar o Natal, fato que desde 1960 não ocorria.
Está sendo maravilhoso poder compartilhar momentos íntimos com meus nove irmãos. Agora somos dez. Mamãe há cinco meses recebeu a visita de mais um irmãozinho. Como praxe em toda família de italianos, fui escolhido, como o mais velho, juntamente com minha irmã Conceição, convidado a ser o padrinho de batismo do bruguelo. O Maurinho dá início a uma lista de afilhados que certamente terei por toda a vida. Se o ambiente pessoal familiar se modificou durante estes últimos quatro anos por conta do desenvolvimento de meus irmãos, o espaço físico também teve suas variações. Por conta de papai estar agora com trabalho fixo, tem aprimorado a casa adaptando-a tanto ao maior conforto quanto ao crescimento da turma.
Por tudo isto, tenho pensado em poder retornar ao ninho que eu abandonara só para ser uma boca a menos.
Os companheiros de rua e bairro, assim como eu, cresceram. Como é gostoso encontrá-los, não mais nas molequices de outrora, tempo que nos parece longínquo, mas agora às saídas da missa das sete da noite, ou nos papos de esquina da pacata Rua Inácio Gama no Bairro de Lourdes.
As visitas aos parentes é uma praxe que mamãe não perdoa. Em alguns momentos, estes passeios são puramente agradáveis. Visitar minhas primas Terezinha, Maristela, Lena e Marice Cal. Meus primos Waltinho, Zé Carlos, João Batista e Juarez. No entanto, a paparicação de meus tios e avós me incomoda. Sou visto como o “santinho”, o “padre” da família. Sentimentos vão de choque contra a minha breve intenção, ainda secreta, de sair do seminário. Permaneço, portanto, em palpos de aranha. Calo-me ainda. Não sei qual seria a reação de papai e mamãe quando e se eu decidir por isto.
Terminados os vinte dias de tão breve descanso retorno às lides, agora se apresentando rotineiras, do seminário.

Passados alguns dias das ainda vívidas férias, o quadro nacional é perturbado por densas e negras nuvens. A política, diariamente acompanhada pela voz do locutor da Rádio Globo, o Repórter Esso, Heron Domingues, avalio o distúrbio que o Presidente João Goulart vem trazendo à nação desde a renúncia de Jânio Quadros.
O jornal Zero Hora, de Porto Alegre, achincalha o sentimento mais profundo, religioso, do Brasil fazendo publicar em primeira página uma estampa grotesca de Nossa Senhora Aparecida. Estão anunciando, em tintas pesadas o que será do Brasil caso opte pelo socialismo de cores soviéticas.
A condecoração do guerrilheiro Che Guevara por Jânio Quadros quando ainda presidente, a visita do presidente Goulart à China Comunista, o envio de caravanas de políticos, professores e estudantes à Cuba e à China, apoio governamental a invasões de terras pelas ligas camponesas lideradas pelo deputado comunista Francisco Julião, apoio de ministros à subversão da ordem, ataques diretos de políticos do Governo aos Estados Unidos, pregação oficial contra a hierarquia militar, e principalmente a presença do Presidente da República discursando frente a uma gigante manifestação de soldados e cabos contra oficiais e ministros, no Rio de Janeiro.
A Igreja, a imprensa, os empresários, as classes profissionais, as donas de casa e os militares protestam perante a conturbada economia brasileira enfrentando inflação com índices mensais superiores a 50%, elevado desemprego e baixo crescimento.
Tudo isto acompanhado com voracidade pelos nossos ouvidos, inda que adolescentes, já educados a discernir o joio do trigo.
Março terminou com notícias de movimentos sociais e militares. João Goulart foi deposto. Queira Deus que tudo serene. Que a paz retorne ao nosso sofrido povo. Dizem que está uma situação de guerra. Temo pelos meus familiares. Aquece o desejo de estar com eles.
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Ernesto Che Guevara.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Escutar ou Não Escutar? - por Daisy

Minha avó paterna era tão vaidosa que nunca deixou nenhum neto chamá-la de vó; era a Dinda.

Dinda ficou viúva muito cedo, aí pelos seus 30 e poucos anos, com 3 filhos e já grávida novamente.

Meu avô, um oficial de marinha, havia já morado na Inglaterra com a família, por uns anos, acompanhando a construção de um navio. Estava trabalhando na base naval do Ladario quando faleceu. Seu melhor amigo, num acesso de loucura - coisa, que só foi esclarecida mais tarde - deu um tiro no meu avô. Saiu do navio correndo. Foi para sua casa. Suicidou-se, incendiando a casa.
No meu imaginário de menina, essa história ganhava matizes de romance, de filme. O orgulho que meu avô despertou em mim, orgulho de herói, sempre me acompanhou.

Meus avós viveram uma curta, mas muito intensa, história de amor. Ele viajava sempre e, naquela época, o único meio de comunicação era a carta. Essa ia e vinha, quase que diariamente, onde quer que ele estivesse. Quando minha avó morreu, já havia pedido para minha prima que a enterrassem com as 2000 cartas que guardava em uma caixa linda que a gente não podia tocar; só olhar!

A caçula, que nasceu alguns meses depois da morte do meu avô, tinha o meu nome. Dizem que era muito inteligente, à frente de seu tempo. Estudava odontologia. E, destino cruel, se apaixonou por um homem casado. Não se concebia isso, então. Sem nenhuma alternativa honrosa, sem conseguirem romper o relacionamento e sem que ninguém soubesse, decidiram fazer o que para eles era a única saída. No dia de sua formatura, após a festa, engoliu um comprimido de cianureto, enquanto ele fazia o mesmo em sua casa. A Dinda nunca soube disso e, muito menos, da carta de despedida pedindo desculpas que a filha havia deixado para a mãe.
Como gostaria de ter conhecido minha tia e xará!!! Durante muitos anos de minha adolescência, cheguei a ter raiva dela ter se matado, sem ter me dado a chance de conhecê-la. Já mulher, consegui entender e até mesmo partilhar seu drama.

Muitos anos depois, meu pai trouxe a Dinda para ficar uns tempos com a gente no Rio. Dinda tinha todo um ritual para se arrumar. Ela mesma fazia um creme, talvez o que se pudesse chamar de base. Era uma receita toda misteriosa que ela só dividiu com a minha mãe. Elas iam para o fogão e ficavam horas mexendo um panelão, onde se via um líquido grosso bem branco. Depois de frio, era hora de encher os vidrinhos. Curiosa, como sempre fui, fiquei sabendo que não podiam ser vidros grandes, pois o creme precisava ser logo usado para não se solidificar rapidamente. Então, antes de usar, tinham que chacoalhar bem o vidro para que o creme branco depositado no fundo se misturasse àquela água turva acima dele.

Dinda ficava um tempão em frente ao espelho da pia do banheiro. De um lado, sua caixa mágica de papelão, onde eu encontrava milhares de novidades. Do outro lado, um cinzeiro com seu inseparável cigarro. Para meu pai parar de aborrecê-la com o cigarro, e as manchas amarelas nos dedos, ela desenvolveu um truque: segurava o cigarro com um grampo de cabelo e assim não manchava mais os dedos. Fumou até morrer sem qualquer problema.

Mas, voltemos ao espelho da pia. Chacoalhava o vidrinho do creme branco e pegava um chumaço de algodão, que embebia no creme. Ia espalhando sobre o rosto enrugado com uma precisão matemática. A pele ficava bem clarinha, toda por igual!
Aí, passava para os cabelos, que eram finos, já escassos e totalmente brancos. Desbastava-os, para dar mais volume, e ia ajeitando e prendendo com uns pentinhos pequenos e curvos também brancos – para não aparecer, é claro! Um baton bem claro finalizava a sessão.

Que saudade de tudo isso! Como era bom ficar lá admirando aquela pessoinha – ela era tipo mignon – tão sofrida e tão meiga ao mesmo tempo. Ela tivera uma vida bem dura depois que meu avô morreu. Criara os quatro filhos comandando uma pensão, por onde passaram ilustres figuras do cenário político do país.

Dinda era surda e usava um aparelho complicado. Não havia esses pequeninos que quase nem se vê. O dela tomava conta da orelha, e dele descia um fio que se ligava a um estojo – parecendo um celular grosso – que ela prendia na frente do vestido.
Era muito engraçado vê-la ao telefone. A parte que ficaria no ouvido, ficava em frente ao estojo, e o bocal ficava para cima, onde ela falava!!
Às vezes não respondia, quando a chamávamos. Consegui descobrir que fazia isso de propósito. Quando estava cansada do barulho - havia muita estática - simplesmente desligava o aparelho, e ficava em paz. Já no fim da vida, motivada por meu pai, tentou uma operação que lhe devolveu a audição. Glória!! Morreu escutando!
Fico a pensar se não teria preferido continuar com o aparelho, para poder desligá-lo de vez em quando...
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Aquele Vestido Vermelho - por ZzipperR

Eu estava caminhando na vida, cansado de ver pessoas passarem apressadas, todos correndo atrás do tempo, tentando modificá-lo, mas não tem jeito, ele é dominador e cruel, vai passando e passando e leva você junto.

Eu pensei que conseguia dominar o tempo, mas não consegui, ele está me levando também. Eu cansei! Vou parar, vou sentar na calçada e olhar as pessoas passarem. Eu vejo crianças passando, vejo velhos caminhando lentamente e também vejo jovens alucinados em seus sonhos, correndo e passando sem realizá-los. Eu continuo aqui sentado e olhando.

O que será que eu estou fazendo aqui sentado? Enquanto eles caminham, correm, sonham e vivem. Eu também quero viver, mas continuo aqui sentado.

Passam tantas pessoas na nossa vida, que um dia cruzaram o nosso caminho e hoje não sabemos onde elas estão. O que será que aconteceu com elas? Eu vou continuar aqui sentado olhando as pessoas passarem.

Senti um choque quando a vi, entre tantas pessoas caminhando leve, seu vestido vermelho voava com o vento, seus longos cabelos negros me encantaram e senti prazer em vê-la passar. Todos passavam sem dar atenção, mas ela não, Ela olhou para mim, deu um sorriso e continuou andando sem parar. Olhei para ela e resolvi segui-la. Ela tinha um caminhar elegante, solto, despreocupado e dominador.

Meus olhos brilhavam e eu não conseguia mais dominar o meu coração, Não sabia o que fazer, mas tinha que chamar a atenção dela. Naquele momento de desespero, peguei uma rosa e corri até ela, olhei nos seus olhos, que eram vermelhos de paixão e tremi de medo, não conseguia falar, mas entreguei a rosa em sua mão. Ela olhou para mim e sorriu, fiquei arrepiado e com medo. Fiquei com medo dela.

Ela continuou andando, com seus passos lindos e a minha rosa na mão, ela é linda, seu sorriso é lindo, seu olhar é lindo. Eu fiquei parado, em transe, sem ação. Quando ela estava quase sumindo, resolvi correr atrás dela e dar a ela um presente. Corri e peguei em seu braço. Naquele momento, ela parou e me olhou novamente, seus olhos eram vermelhos, os meus também estavam vermelhos e ela falou:
- Quem é você?
- Eu sou o amor e quero levar você comigo.
- Para onde?
- Para a felicidade. Vamos?
Ela olhou para mim, sorriu e quis continuar a caminhar, mas eu segurei a sua mão e falei:
- Eu não vou deixar você seguir sozinha! Vou segui-la. Posso?
Ela sorriu, olhou para mim com carinho e falou:
- Vamos!

Ela vai na frente e eu vou atrás, seguindo-a, por todo lugar que ela passar sigo com carinho e com amor, ela caminhando com seus passos mágicos e com aquele lindo vestido vermelho solto voando com o vento.
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ZzzzzzzzzzzzzzzzzzipperRRRRR.......
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Resposta a Meu Casaco Vermelho, de vestivermelho.
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

As Nossas Palavras XVII - por Aaron Caronte Badiz

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Sofá na sala de estar...
O passado para relembrar
Toda vez que o vamos usar.
É um trampolim para o nosso amar
Que deveríamos mais vezes rememorar.
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Recordações - por Alba Vieira

Há momentos em que o passado
Invade de tal forma a vida da gente...
Parece que as lembranças transbordam
Qual a água de cabeça de enchente
Vêm aos borbotões e nem pedem passagem
E então provocam tão vívidas emoções
Porque são perfeitas as imagens
Trazidas pela mente aos nossos corações
Imagens do que foi vivido
Num tempo triste ou feliz
O que importa é que o espírito
É sacudido até a raiz
E quando existe a saudade
Lembrar-se de tudo é outra vez viver
Tanto que dá gosto cismar à tarde
E essa melancolia só nos dá prazer
E então desfilam variadas vivências
Coisas que pensávamos nunca recordar
E quanto mais distante no tempo a ocorrência
Mais detalhes e clareza vamos encontrar
Às vezes é possível ao fechar os olhos
Ter tudo daquilo uma outra vez
Imagens, sons, perfumes, o mesmo abalo
Que quase acreditamos que o mundo se refez
E a recordação alimenta a alma
Refresca o sentimento, tem grande poder
Relembrar ajuda, traz de volta a calma
Quando a saudade é tanta que nos impede de viver
Na verdade pra emoção o tempo não vale
É coisa que escapa de tempo ou lugar
O coração da gente é um mundo à parte
Render-se a este fato é questão de pensar...
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................................Visitem Alba Vieira
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Recordações - por Cacá

“Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.”

(Drummond – Memória)
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A nostalgia eu a considero um libelo contra um futuro que se faz de presente na vida sem pedir licença, sem nos dar tempo de aceitá-lo. Resisto a todo novo que não se justifica em oferta de felicidade. Se estamos em algum lugar diferente do usual, chega um momento em que queremos retornar. Se estamos em uma condição de vida não muito agradável afetivamente, também chega um momento de desejo do retorno. Retornar para onde? Retornar para quê? Normalmente para a segurança por vezes insuportável da nossa rotina.

Isso me faz lembrar algo. Estive em casa de meu pai durante as festividades de natal durante 4 dias e por melhor que estivesse o ambiente, toda a família reunida, bateu uma saudade de casa. Porque ela é a minha rotina. Escrever, cozinhar, ficar em casa, enfim. E afinal cheguei. E as recordações dos dias que lá passei são o registro mais evidente da minha vontade de voltar. Estava ruim? Ao contrário. É por gostar mesmo das recordações e para que elas não se percam em uma outra rotina é que resolvi voltar. Para ter mais assunto ano que vem, quando nos reunirmos todos novamente e contarmos casos do ano que passou e da infância. Esses são infalíveis. Talvez pelas marcas indeléveis que ela deixou. Talvez por querer que a nova geração de filhos e sobrinhos saiba o quanto foi bom e o quanto serve de estímulo para que eles construam a sua história também. Mas história a gente não constrói com intenção historiográfica. A gente constrói com propósito de satisfação pessoal ou de grupos. Só no momento do pensamento na posteridade é que há desejo de registro. E ele se dá em primeiro lugar com recordações.

Agora, aqui pra nós, a recordação não é um assunto que fica melhor encaixado dentro de uma música ou pelo menos embalado por ela? Não consigo embarcar nos momentos de memória afetiva sem um fundo musical. Na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, até que a morte me separe da matéria pensante, não consigo dissociar recordação e música.

Nesse arrebatamento, essa tal recordação é assunto que nos transforma a todos em poetas. O amor que guia os versos, o pensamento que leva para cantos recônditos, a emoção que cutuca o sentido da lembrança. Sempre que o presente se apresenta insosso e o futuro dá ares de pessimismo, as recordações me acalmam o espírito trazendo esperança diluída em saudade.
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Carlos Drummond de Andrade

A Árvore de Natal - por Clarice A.

.....O mês de dezembro talvez seja o que traga mais recordações para eles. E lá estão os quatro de cinco irmãos (um deles já tinha compromisso com a família da mulher) reunidos na casa da irmã. São três irmãs e o mais novo dos homens e há muitos anos reúnem-se no Natal. Colocam a conversa em dia e invariavelmente comentam sobre o passado. Quando crianças, a parcimônia do Papai Noel. Aliás, naquela pequena rua de subúrbio onde moravam, salvo raríssimas exceções, Papai Noel era parcimonioso com todas as crianças, o que não estragava a noite nem a diversão. Eram muitas crianças e as brincadeiras garantidas.
.....A anfitriã mostra a árvore nova, de fibra ótica com led’s, enfeites novos, e o irmão, que sempre as surpreende, pergunta às três: lembram da nossa árvore de goiabeira? Excelente memória, chamado por elas de miolinho de ouro, ele parece ter suas lembranças numa prateleira ao alcance das mãos tal é a rapidez com que as traz de volta. A mais velha e a caçula lembram-se logo, a do meio vai buscar no fundo do baú, escondido em algum canto da memória. E encontra. A lembrança vem nítida e forte. Já eram crescidos, e queriam uma árvore de Natal, mas cadê a verba? Inexistente. O pai fazia questão de caprichar na mesa, gostava de fartura, não dava muita bola para essas coisas. Decidiram improvisar. Foram para o quintal, escolheram um galho bem ramificado da goiabeira, cortaram, pintaram de prateado, colaram algodão, penduraram bolinhas vermelhas, plantaram-no num vaso e lá estava a árvore de Natal pronta enfeitando a sala. Talvez para os que olhassem com olhos de mesmice, aquela árvore naquela casa simples fosse tosca, mas eles estavam satisfeitos com a sua arte e na verdade ela ficou bem jeitosa. Diferente. Para completar a noite de Natal, a ceia no capricho preparada pela incansável mãe. Assados, bolo, ameixas, nozes, avelãs, castanhas e as rabanadas: as fatias de pão molhadas no leite, passadas nos ovos batidos, fritas, secas em papel e envolvidas na mistura de açúcar e canela, inesquecíveis. Alguns vizinhos apareciam para dar um abraço nos seus pais, pessoas queridas. Gratas recordações de um tempo feliz vivido por eles, um tempo em que o apelo ao consumo, as grifes e as inovações tecnológicas não eram presentes como hoje. Mas a vida segue seu curso e daqui a alguns anos a árvore de hoje, assim como a de goiabeira, será mais uma lembrança. Outra modernidade a substituirá. Insubstituível é o amor fraterno que os une e reúne e os faz recordar a vida, neste Natal e em quantos o sucederem.
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